Ainda sobre a superprodução de livros no Brasil

 

Fotos de Wilton Junior

Eu estava fora de São Paulo quando fechei a reportagem sobre superprodução de livros no Brasil, capa do Sabático da semana retrasada. Tinha pautado, com a autorização da Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record, fotos dos livros estocados no armazém que a Record precisa desocupar nos próximos meses – tanto Luciana quanto Sergio Machado, dono do grupo, sabem a dimensão do problema, para o qual ainda não encontraram solução, e falaram sobre ele mais abertamente do que eu poderia pensar e do que outros editores teriam coragem de falar. São as imagens do armazém, na zona norte do Rio, que ilustram este post. Não houve tempo de incluí-las na edição impressa.

Durante a conversa, o Sergio Machado lembrou que, nos EUA, acontecem leilões de obras encalhadas para empresas que as distribuem para venda em saldões. Algo importante a se lembrar nessa questão é a força da cadeia produtiva em decisões como essa – a avaliação de livreiros é a de que saldões pode estrangular o mercado. A tradutora Denise Bottman argumentou ainda que a venda de sobras para reciclagem gera faturamento para as editoras, ao contrário da doação (por engano, escrevi “lucro”, palavra que ela não usou, mas está devidamente corrigido).

Com certeza, a questão de perder menos dinheiro entra nessa conta, mas não se pode negar que não é fácil achar instituição disposta a receber esse tanto de livros das imagens – vale destacar que essa é só uma parcela de uma quantidade muito, muito maior de livros encalhados no País. Lembro que o Toninho, meu colega na cobertura de literatura do Estadão, comentou meses atrás ter ouvido sobre escolas públicas que têm caixas e caixas de livros doados fechados, sem ter o que fazer com eles.

Por último, é sempre bom ressaltar que incinerar, em vez de reciclar, é um método também usado. É a busca pelo menor prejuízo: entre estocar e jogar tudo fora, jogar tudo fora sai mais em conta.

Para quem quer ler mais sobre o assunto, o juiz Marcelo Semer repercutiu a discussão dias atrás em sua coluna no Terra Magazine. Nos comentários do post com a reportagem também há muitas opiniões e argumentos que valem a leitura.

 

O Netflix dos livros

“Venho dizendo isso há anos, meu! Deveria existir um Netflix para livros.”
“Você quer dizer uma biblioteca?”

Essa é do HeyMister e vem a calhar: a empresa americana de 1997, maior serviço mundial de locação virtual de filmes (em DVD ou streaming), chega ao Brasil no próximo dia 5. O raciocínio da charge, da eterna reinvenção da roda no mercado, é tipo esse aqui.

A coluna Babel de 27/8

Peço desculpa pela semana inteira ausente. Foram dias, eu diria, não muito fáceis; mais pra frente conto aqui. Fica aí, por enquanto, a coluna Babel do último sábado, que cobre em parte a Jornada de Passo Fundo, sobre a qual escrevi também alguns textos para o Caderno 2 na semana passada. E depois comento algo mais sobre a Jornada. Ou não, vai, que minhas promessas vocês bem sabem…

Para abrir, segue o ótimo vídeo de Calamity Song, o terceiro single do The King Is Dead, do Decemberists, sobre o qual trato na coluna. Foi idealizado depois que Colin Meloy, vocalista da banda, devorou Infinite Jest, do David Foster Wallace.

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BABEL

Raquel Cozer

INTERCÂMBIO
Guadalajara selecionará brasileiros para feira de 2012

A Feira do Livro de Guadalajara, a segunda maior do gênero no mundo (perde só para a de Frankfurt), pretende levar ao México em 2012 um grupo de 20 a 25 autores brasileiros para que sejam apresentados a editores, tradutores e agentes de vários países – a feira costuma atrair 19 mil profissionais. Será resultado de uma “operação de grande envergadura para romper o isolamento do Brasil em relação aos países de língua espanhola da América Latina”, disse à coluna Laura Niembro, diretora de conteúdo do evento mexicano. Em sua segunda visita ao País este ano, depois da Flip, esteve ontem em debate sobre formação de leitores na 14.ª Jornada de Passo Fundo. As investigações com brasileiros seguirão o modelo de uma seleção hoje feita entre autores de língua espanhola – em 19/9, a feira divulgará os “25 segredos mais bem guardados da América Latina”, escritores promissores que serão levados ao evento este ano. A edição que começa no próximo 26/11 homenageia a Alemanha e terá, na abertura, uma conversa entre os Prêmio Nobel Herta Muller e Mario Vargas Llosa.

FEIRA
O destino da Jornada

“Cansei”, diz a professora Tânia Rosing, que há 30 anos coordena a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, cuja 14.ª edição foi encerrada ontem. “Não tenho mais condições físicas e psicológicas de bater de porta em porta pedindo dinheiro, na incerteza. Daqui a dois anos é quase Copa e as verbas vão todas para lá.” O que ela pede é que a Jornada, que recebe verbas do Fundo Nacional de Cultura e incentivos fiscais, passe a figurar no orçamento público.

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Anteontem, o escritor Alcione Araújo, debatedor do evento, reuniu reitoria, prefeitura e Secretarias de Cultura para saber que garantia serão dadas para a continuidade do evento bienal para o caso – remoto, segundo quem conhece a organizadora – de Tânia deixar os trabalhos. Estado e município se comprometeram aumentar o apoio financeiro, e a Universidade de Passo Fundo, a criar equipe de apoio. “A instituição nem tem captador de recursos”, lamenta Tânia.

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José Carlos Carles de Souza, reitor da UPF, diz ter sido pego de surpresa pela reunião. “Nunca ouvi falar que ela se afastaria. E é claro que a universidade continuará com a Jornada se um dia ela resolver sair, é o nosso maior evento.” Sobre a falta de apoio da instituição, ele argumenta que Tânia é “centralizadora”. “Ela teve ao longo dos anos várias pessoas trabalhando com ela, mas as pessoas não duram, porque ela tem um jeito todo próprio de ser.”

HISTÓRIA
A resposta da realeza

O Anti-Maquiavel, de Federico 2.º (1712-1786), ganha no próximo ano a primeira tradução no Brasil, por Ivone Benedetti, para a WMF Martins Fontes. No livro, o rei da Prússia parte de sua condição de nobre para questionar os pensamentos de O Príncipe, de Maquiavel. Quem cuidou da revisão no século 18 foi Voltaire (1694-1778) – como não era francês nato, o rei teve o texto corrigido, prefaciado e comentado pelo pensador.

MÚSICA
Referências literárias

Há poucos dias na rede, o clipe de Calamity Song, do grupo de folk rock The Decemberists, celebra uma das ideias mais emblemáticas de Infinite Jest, romance de 1996 que tornou David Foster Wallace (1962-2008) conhecido. No vídeo, adolescentes jogam o imaginário eschaton, combinação de partida de tênis e simulação de uma guerra nuclear imaginada pelo autor. O vídeo pode ser visto em bit.ly/casong.

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Com os direitos comprados este ano pela Companhia das Letras, o livro, com tradução a cargo de Caetano Waldrigues Galindo, não sai antes de 2013. A obra de mais de mil páginas passou quatro anos sendo traduzida na Alemanha, por exemplo.

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Chega esta terça às livrarias americanas, aliás, o primeiro livro infantil de Colin Meloy, vocalista do The Decemberists. Ilustrado por Carson Ellis, mulher do músico, The Wildwood Chronicles sai no Brasil ano que vem pela Record.

INFANTIL-2
A primeira tradução

A atriz Denise Fraga terá sua estreia como tradutora publicada em outubro pela Cosac Naify. Ficou responsável pela versão de Morango Sardento e o Valentão do Recreio, livro infantil da americana Julianne Moore sobre bullying.

A coluna Babel de 20/8

[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br

HISTÓRIA
Obra fora de catálogo há 200 anos abrirá editora da BN em novembro

Um título há dois séculos fora de catálogo será o primeiro que a Editora Biblioteca Nacional, cujo projeto está sendo finalizado pela FBN, disponibilizará para livrarias de todo o País a partir de novembro. A obra é O Fazendeiro do Brasil, lançada originalmente em Lisboa, em 11 volumes, de 1798 a 1806, sob coordenação do frei José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811). A nova edição, fac-similar, será dividida em cinco tomos, sendo um de imagens. O livro, sobre agricultura e técnicas agroindustriais, era voltado ao desenvolvimento da então colônia e já manifestava preocupação com a exploração sustentável da natureza, como explicita na introdução frei Veloso – cujos 200 anos da morte se completam neste ano. A Fundação Biblioteca Nacional editava poucos livros, vendidos em sua loja e no site, mas agora as publicações serão regulares, sob coordenação de Aníbal Bragança.

ROMANCE
Do início ao fim

Uma única frase, de 127 páginas, compõe o romance Bildnis der Mutter als Junge Frau (Retrato de Uma Mãe Quando Jovem), de Friedrich Christian Delius, que o selo Tordesilhas publica no primeiro semestre de 2012. Alemão nascido em Roma em 1943, o eterno candidato ao Nobel aborda, não por acaso, um dia daquele mesmo ano na vida de uma jovem alemã grávida, na capital italiana, na iminência da invasão dos Aliados.

TRADUÇÃO
Poesia para exportação

Sai ainda este ano na Europa uma antologia de poemas de Augusto de Campos, Poètemoins, organizada por Jacques Donguy. A dupla trabalha na tradução para o francês com a meta de concluí-la até a Bienal de Lyon, que começa em 15/9 com mostra de obras do brasileiro. Se não der, fica para novembro, com lançamento na Europália, festival belga que este ano celebra o Brasil. Campos pretende ir aos eventos.

QUADRINHOS-1
Amor, estranho amor

A história é real: após um namoro frustrado, o canadense Chester Brown decidiu abdicar das paixões e passar a sempre pagar por sexo. Criou a partir da experiência uma HQ que defende a discriminalização da prostituição, Paying for It: A Comic Strip Memoir About Being a John (“john” é gíria para clientes de garotas de programa). Com prefácio de Robert Crumb, a graphic novel liderou a lista do New York Times e sai em 2012 pela WMF Martins Fontes. Vale ressaltar que a obra não tem nada de pornográfica.

QUADRINHOS-1
Minduim para presente

Responsável pela publicação das tiras de Charles Schulz, a L&PM prepara para os próximos meses duas edições especiais, para presente. Em setembro, sai o livro de frases A Vida Segundo Peanuts (imagens). Em novembro, será a vez do primeiro volume temático da editora com personagens da série, sobre o Natal.

INFANTIL
Multiplicação

O interesse crescente no País pela produção de livros infantis levou a Planeta a dividir seus títulos do gênero em três selos. Ao Planeta Infantil, juntam-se o Júnior, para crianças de até 6 anos, e o Jovem, para pré-adolescentes e adolescentes.

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A editora agora contrata autores nacionais e estrangeiros, mas a grande aposta está definida: a série Geronimo Stilton, sucesso na Itália – vencedora do Prêmio Andersen de personagem do ano em 2001 e do eBook Awards 2002 de livro eletrônico infantojuvenil. Stilton, um ratinho jornalista, é o protagonista e o pseudônimo que a autora, Elisabetta Dami, usa para assinar as histórias.

DIGITAL
Para ler e passar adiante

Trezentos livros serão espalhados por Passo Fundo (RS) para que moradores e visitantes da 14.ª Jornada Nacional de Literatura, que começa depois de amanhã, encontrem, leiam e abandonem em outros lugares, onde mais pessoas possam localizá-los. É uma parceria com o projeto bookcrossing.com. Os mais de 20 títulos da ação, patrocinados pela Petrobrás, incluem textos de autores como o poeta Carlito Azevedo e os romancistas Cadão Volpato e Bruno Zeni.

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O evento terá também um estande digital, com oito tablets Samsung oferecidos pela empresa Maser. Além de testar os aparelhos, visitantes da Jornada poderão comprar o seu em linha de financiamento de 24 meses aberta pelo Banrisul para o evento. “É um modo de valorizar a literatura como literatura, independente de suporte”, diz a coordenadora da Jornada, Tania Rösing.

Encalhe, destruição: a superprodução de livros no Brasil

A reportagem de capa de hoje do Sabático começou a se desenhar muitos meses atrás na minha cabeça, ou, hm, talvez fosse melhor dizer que começou a se esparramar na minha mesa de trabalho. A ideia decorreu da percepção de que nunca tantos livros foram enviados para divulgação no jornal, impressão sobre a qual já escrevi aqui e que aproveitei para confirmar na entrevista que Rinaldo, Bira, Toninho e eu fizemos com o Luiz Schwarcz. Como disse na semana passada o Rinaldo, meu editor, se o Sabático tivesse uma carta ao leitor, ela poderia vir com uma foto das nossas baias, nas quais os livros se juntam numa coluna que se pode ver do outro extremo da redação.

Ficavam faltando números, então esperei sair a pesquisa anual de comportamento do mercado editorial, realizada pela Fipe, e trabalhei em cima dos resultados – como escrevi por aqui, a pesquisa tem lá suas limitações, mas é a mais detalhada que se tem desse mercado no Brasil. A apuração começou a ficar interessante mesmo foi depois que o Sergio Machado contou do dilema do armazém que a Record precisa desocupar nos próximos meses – se já não é simples, questões contratuais e de “sobrevivência” da cadeia produtiva, por assim dizer, tornam a coisa quase inviável.

A escrita da reportagem é que foi meio caótica, com direito a voo aqui para o Rio perdido quando eu deveria chegar cedo para terminar o texto e um laptop que me deixou na mão 95% do tempo. Vi entre outras coisas um Harry Potter com um t só na versão impressa e pensei em me matar, mas achei melhor corrigir no online e fingir  que estava tudo bem.

Enfim, taí.

***

Expansão em ritmo acelerado

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Por alto, Sergio Machado calcula que sejam mais de 2 milhões de livros. Isso considerando só o excesso, “algo de que a gente poderia se desfazer sem afetar em nada a editora”. Estão estocados há cinco, seis anos, num armazém alugado próximo à sede da Record, grupo editorial que Machado preside, ali junto ao estádio do Vasco, na zona norte do Rio. Lá seguiriam indefinidamente não fosse o recente pedido de desocupação do lugar. Agora o dono da maior editora de obras de interesse geral do País tem poucos meses para dar destino às pilhas que abarrotam o lugar. “Estamos alugando outro espaço, menor e mais caro, e avaliando alternativas”, diz Machado. “É provável que alguma coisa seja destruída.”

A eliminação de sobras de livros é tema abordado com cautela por empresários, mas a prática de “transformar em aparas”, como eles preferem, é bem menos rara do que se possa pensar, em especial neste momento em que o mercado editorial brasileiro produz muito mais do que consegue vender. A mais recente pesquisa de produção e vendas do setor, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), dá a dimensão. Em 2010, as editoras produziram quase 23% mais exemplares de livros que em 2009, enquanto o crescimento no número de cópias vendidas foi de apenas 13%. Conforme a estimativa, ao longo do ano foram produzidos 55 milhões de livros a mais do que se comercializou para o mercado e o governo, mantendo uma tendência à superprodução já percebida nos últimos anos. Num momento em que o digital domina o debate sobre o futuro do livro, o presente é feito de encalhe de livros em papel.

Os números confirmam a percepção unânime de editores e livreiros desse fenômeno que, mais cedo ou mais tarde, repete-se em vários países. “Há uma superprodução. Trabalho na área desde 1984 e nunca vi coisa igual. De uns dois anos para cá, deu um salto”, diz Ricardo Schil, gestor de negócios da Livraria Cultura. Atuando nos dois lados do segmento, o editor e livreiro Alexandre Martins Fontes diz não ter dúvida de que hoje se produz muito mais do que o mercado pode consumir. “E me pergunto onde isso vai parar. Em algum momento o mercado terá de se autorregular. Porque, se você publica e não vende, uma hora você quebra.”

O inchaço na produção teve como estímulos o aumento das compras pelo governo, o maior poder aquisitivo da classe C e o crescimento de um público leitor mais jovem, decorrência do sucesso de Harry Potter. Mas, mais do que o número de compradores em potencial, o que impulsionou essa superprodução foram as facilidades tecnológicas. “Antigamente, para editar um livro eram necessários equipamentos caros e sofisticados. Aquilo era uma espécie de filtro. Com as novas possibilidades de edição e impressão ficou tudo mais viável”, diz Sérgio Machado.

Entre edições e reedições, publicaram-se em 2010 no Brasil quase 55 mil títulos, numa média de 210 diferentes obras chegando ao mercado por dia útil. Só o Grupo Record, adepto de uma agressiva estratégia de publicar muito para que os sucessos compensem os fracassos, coloca no mercado todo mês 80 novos títulos. Nem uma esfriada nas vendas, como a percebida nos últimos meses pela diretora editorial da casa, Luciana Villas-Boas, prejudica a produção do grupo, que imprime 600 mil exemplares por mês. “Se caem as vendas, acabamos publicando mais títulos, porque as máquinas ficam menos tempo ocupadas com reimpressões.”

Esse tipo de pensamento incomoda editoras menores. “Se por um lado essa variedade de títulos parece boa, ao final, quando o gargalo é a distribuição, o problema fica ainda maior. A disputa por espaço nas livrarias torna-se inviável”, diz Cristina Warth, editora da Pallas.

Com cerca de cem associadas, a Libre, entidade que reúne pequenas e médias editoras, entende que o excesso de oferta prejudica a bibliodiversidade. Foi o que constatou também uma recente pesquisa divulgada na Espanha pela FGEE, a maior entidade editorial local: naquele país, um novo título tem no máximo 30 dias para chamar a atenção do público leitor antes de dar lugar a títulos ainda mais novos nas estantes das livrarias.

O excesso de oferta pode parecer positivo para o leitor, mas não é bem assim. No Brasil, desde 2004 as pesquisas apontam para uma queda no preço do livro, mas mais lenta do que fariam supor as facilidades de impressão e a concorrência acirrada. Como as editoras publicam muito mais do que as livrarias conseguem estocar, os gastos com marketing e estratégias de exposição aumentam os custos o investimento. “Com o exagero na produção de títulos, algumas coisas boas, autores ou títulos, já nascem mortas, pois não conseguirão o mesmo espaço para divulgação na imprensa ou nas livrarias”, diz Warth, da Pallas.

Estocagem. Há algum tempo, o escritor amazonense Márcio Souza recebeu do governo do Pará a sobra de uma HQ baseada em seu romance Galvez, o Imperador do Acre, editada com financiamento público. Era algo em torno de 300 exemplares, que Souza começou a distribuir entre amigos. “Acho que seria mais fácil eu me livrar de um cadáver do que dessa sobra. Ainda tenho aqui uns cem. Ninguém tem tanto amigo.”

Doar é sinônimo de dor de cabeça. Para editoras, preparar kits com poucos exemplares de cada livro e distribuir entre instituições sairia mais caro que estocar e não resolveria a questão da quantidade; tampouco interessa às instituições receber mil exemplares de um livro só. “A doação existe, mas não resolve. Além disso, dependendo do contrato, você não consegue doar sem pagar direitos autorais. Daí precisa de documentação para fins de doação do autor e do governo”, diz Roberto Feith, diretor da Objetiva.

Maria Zenita Monteiro, coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo, responsável por mais de cem pontos na cidade, diz que iniciativas de doações são raríssimas. “Quase 100% dos livros que as bibliotecas têm são comprados. Este ano, recebemos uma única doação de uma editora, a 34, que teve uma sobra de livros que publicaram pelo governo.”

Junta-se a isso o fato de que estocar é muito mais caro que destruir o encalhe, mesmo que a destruição implique perder o dinheiro da edição. No caso dos 2 milhões de livros para os quais a Record precisa achar uma solução, até fazer um saldão seria difícil, já que, segundo Machado, os autores teriam de autorizar os descontos. Logisticamente seria complicado. Só de autores nacionais, ele imagina, são cerca de 1.200, num universo de 3 mil títulos que figuram no armazém.

Feith acredita que a seleção cada vez maior de títulos será imprescindível. “Tudo tem o seu ponto de equilíbrio, o mercado editorial precisa descobrir o seu. Vamos ter de descobrir quando começar a existir prejuízo.” É claro que, no mercado editorial, até o conceito de ponto de equilíbrio é de difícil definição, já que um único best-seller sempre poderá compensar toda a aposta em títulos que encalham.

Pesquisa: produção do mercado editorial em 2010

Está rolando no Rio, agora à tarde, a coletiva de imprensa do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL) sobre a pesquisa do comportamento do mercado editorial em 2010, com dados de produção e vendas.

Pedi para me enviarem os dados por email, já que não tinha como ir à coletiva. Conforme for analisando e esclarecendo dúvidas, posto aqui. A primeira coisa que estranhei foi que os totais de exemplares comercializados e títulos publicados referentes a 2009, por exemplo, não batem com os da pesquisa divulgada no ano passado, mas a CBL informou que as alterações em todos os números decorreram dos resultados do Censo do Livro 2009, também divulgados hoje. Hm.

Ainda vou falar com a pesquisadora responsável pelo censo para entender esses números direito.

Enquanto isso, o que já foi divulgado: há hoje no Brasil cerca de 750 editoras ativas. Destas, 498 enquadram-se no critério Unesco de editora: edição de pelo menos 5 títulos/ano e produção de pelo menos 5.000 exemplares/ano. A maioria das editoras do país (231) é formada por empresas com faturamento de até R$ 1 milhão.

Segundo a pesquisa anual realizada pela Fipe, o setor teve crescimento real de 2,63% (já descontada a inflação pelo IPCA) em 2010.  O que me chamou a atenção foi que, desconsideradas as compras feitas pelo governo (e também a inflação), houve decréscimo de 2,25% no setor.

Mas o número de exemplares vendidos cresceu 8,3%, se considerado só o mercado, e 13,12%, somando a essa conta as compras de governo e entidades sociais.

O preço médio do livro “manteve tendência de queda que apresenta desde 2004″, segundo o relatório. A queda em 2010 foi de 4,42%.

***

Update às 19h:  já faz alguns anos que o meio de venda de livros que mais cresce no país é o porta a porta. De 2009 para 2010, essa venda passou a corresponder de 16,65% para 21,66% do total do mercado em números de exemplares. As livrarias continuam na frente em faturamento, com 62,70% do mercado.

Outros highlights da pesquisa: os segmentos que mais crescem, em número de exemplares produzidos, são, na ordem, religiosos (39,23%), obras gerais (21,99%), CTP (técnicos, jurídicos etc; 21,84%) e didáticos (18,14%). As vendas para o PNLD (Plano Nacional do Livro Didático) cresceram 27%, mas as do PNBE (Plano Nacional das Bibliotecas Escolares) caíram 10,22%. Na média, considerando outros tipos de compra, as compras pelo governo cresceram 13,59%.

O tal Censo do Livro foi realizado entre novembro de 2010 e abril de 2011 e afere o ano de 2009. A ideia é que esse censo seja feito de tempos em tempos – não me responderam ainda quando foi a última, mas o fato é que a diferença nos resultados de 2009 pré e pós-censo faz pensar na maleabilidade desses números.

Por exemplo, no ano passado, foi divulgado que 52,5 mil títulos foram editados ou reeditados em 2009. Com a nova variável, aplicada após o censo, o número total de 2009 cai para 43,8 mil, e o de 2010 fica em 54,7 mil. O crescimento no número de títulos considerando esses dois últimos números seria de 24,97%, mas o fato é que, se antes do censo usava-se a variável errada nas contas, em algum momento lá atrás divulgou-se uma porcentagem de crescimento maior que a real.

Não é segredo para ninguém do mercado que a pesquisa de Produção e Vendas do Setor Editorial elaborada pela Fipe, embora seja a mais exata do setor, está longe de ser exata.

Uma curiosidade: a pesquisa referente a 2010 foi a primeira a incluir dados sobre e-books, mas eles não foram divulgados no material impresso. Imagino que ficam como base de comparação para a pesquisa referente a 2011, a sair ano que vem. Até porque esses números devem ser ainda irrisórios – mas por isso mesmo seria interessante conhecê-los…

Paleontologia pop – um raio-x em personagens de cartuns

O artista coreano Hyungkoo Lee usa resina, aço, alumínio, molas e tinta para montar os esqueletos de personagens célebres dos cartuns.

 

Na ordem: Mickey; Pateta; Huguinho, Zezinho e Luizinho; Piu Piu; Pernalonga; Papa-Léguas; e o Gato Félix.

Vi aqui.

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