O caso Annabella Serdovvi


A volta do caso Isabella Nardoni ao noticiário me fez lembrar de um conto lindo da Beatriz Bracher, Cloc, Clac. Ele faz parte da coletânea Meu Amor (2009), sobre a qual escrevi quando ainda estava na Folha, e foi a forma que a autora encontrou para transportar para o papel todo o mal-estar que a história lhe causava.

Resolvi pedir na Editora 34 autorização para publicar um trecho aqui n’A Biblioteca de Raquel, e a Bracher, num belo exemplo de como escritores podem se aproximar de leitores via internet (só para voltar ao assunto do último post), liberou esse trecho enorme – o conto é ainda maior do que isso.

Sim, ler também causa certo mal-estar, com todas essas letras e situações que se repetem o tempo todo. Mas a sensação que passa é algo que o professor de literatura Alcir Pécora, da Unicamp, consegue explicar muito melhor do que eu poderia neste texto (só para assinantes da Folha).

As “regras” da internet diriam que é um texto longo demais para qualquer pessoa que não tenha nascido com um mouse na mão enfrentar na tela de um computador. Então, se a tela incomoda, imprima, mas dê um jeito de ler, porque vale a pena.

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Cloc, Clac

Beatriz Bracher

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A aglommeração cresce em frente à delegaacia. O crimme aconteceu há duas semanas, a pequena Annabella, 6 anos, foi jogada do 6º andar do edifício Villa Londdon, na Vila Mazzei, Zona Norte da cidade de São Paulo. Atrás da repórter poppulares aglomeram-se olhando para a câmera.
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Janaína Silva, dona de casa, casada, 27 anos, mãe de 4 filhos, fala no microfone, desespera-se sobre o microfone: eu queria pegar elle, jogar elee no chão, jogar elle e cuspir na cara ddele, pisar no pescoço delle e quebrar, pisar e quebrar o pescoço deele, do Niccolau Serdovvi. 9, 7, 5 e 4 são as idades dos filhos de Janaína Silva, ela deixou os 4 filhos com a sogra, porque ela não conseguia ficar em casa com aquillo tuddo acontecendo, tinha que ver de perto a cara dos assassinnos. Em frente à deleggacia o que há para ser visto são fios, microfones, helicópteros, Janaína Silva, popullares e jornnalistas que lá estão para cobrir a chegada e a saída do casall suspeito e a aglommeração que elles reproduzem. O barulho de helicópteros das redes de tellevisão atrapalha a audição das entrevistas, o som das frases se perde, ainda assim todos entendem o que não ouvem, palavras diferentes para o mesmo sentimento de ira e pasmo, ira e pasmo, e pasmo, pasmo que perdura dias e semanas. Agora o barulho dos hellicópteros e das sirennes dos carros de pollícia fica sozinho no ar.
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De volta ao estúdio, o apresenttador Vicente Vantoni, 42, casado, 4 filhos, olha grave para a câmera, foi o som da meninna caindo no chão ainda viva, disse o zellador, o senhor Nesttor Carneiro, 60 anos, casado, 4 filhos e 5 netos. Elle ouviu um barulho alto e seco, anotou no livroo de regisstros do edifício Vvila London. Após a palavra seco, o Nesstor anotou: a meninna estava viva. A frase, a menina estava viva, é iluminada no primeiro plano da tela da tellevisão, destacando-se do restante do texto do livvro de reegistro do Viila London. Era meia-noite, diz o apresentaddor Vicente Vantoni sobre a imagem da folha de papel com a letra ruim do zellador do Villa London, os algarismos que indicam o horário aparecem ilegíveis.
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O noticiáriio segue com outros assuntos. Depois volta para a frente da dellegacia, o casall Serddovi aparece em meio à agllomeração. A madrastta, Ana Bette Mennezes de Carvalho, 24, 2 filhos pequenos, 1 ainda bebê, e a enteada que morreu há poucos dias, e o ppai da meninna morta, Nicollau Serddovi, 27, 2 filhos do ssegundo-casamento e a mmenina de 6, do primmeiro casamento, agora morta, e o jovem advvogado caminham para o carro ladeados por polliciais. Elees são comprimidos pelos popullares. O casall quase some no meio dos popullares. Elle e eela, o paai e a maddrasta da meninna jogada do 6º andar, 6 anos, o aniversário seria em poucos dias, os ddois saem da dellegacia e andam um pouco abaixados, no meio dos poppulares, em direção à porta do carro já aberta, prontos para mergulharem nos assentos do carro. A reppórter Maria Mara de Moraes, 25 anos, solteira, sem-filhos, narra o que se vê na tela da televisão, neste momento o casall sai da delegacia, o Nicollau ddelegacia onde prestaram deppoimentos por mais de 5 horas, eless caminham direto para o carro. Os polliciais fazem um cordão de isolamento para conter os poppulares. O casall Serdoovi e o jovem advvogado entram no carro. O carro do casall parte com os 3 dentro, a Ana Bette Mennezes de Carvalho, o Nnicolau Seerdovi e o jovem advoggado, Marcello Jordano, 26, casado, 1 filha de 6 anos de uma relação-anterior e a esposa-atual grávida de 10 semanas. Um tijolo é lançado em direção ao carro, o som dos popullares ocupa o espaço da vozz da Maria Mara. Ella retorna: um tijollo quase atingiu o carro dos Serdovvi. O carro do casaal Serddovi afasta-se, a imagem balança, a câmera gira e para em um pollicial prendendo um dos poppulares. O policiaal segura as mãos do ppopular atrás do corpo delle e abre caminho em meio à aglommeração, que olha curiosa. O popullar seguro pelo poolicial mantém a expressão indignada, diz a Maria Mara de Moraes.
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A pollícia afirma que o sanngue no banco traseiro do ccarro do Nicollau Serdoovi, o ppai da Anabella, 6 anos, assassinada na noite do dia 6, um Ford Kaa cinza-prata, analisado com equipammentos especiaiss, é da Anabella Sserdovi, 6. O sanggue no chão da garagemm, dentro do carroo, no aparttamento e na frallda, a fraldda que elles usaram para limpar o rosto da Annabella, de modo a mascarar o crimme, o ssangue é da meninna de 6 anos jogada pela janella do 6º andar do Viila London, a Anabelaa Serddovi, filha do primmeiro-casamento do Nicolaau Serdovii com a Anna Beth Parentte.
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A cena sai do estúdio e vai para o edifício Vilaa London, que aparece ao fundo do reppórter Paulo Perneira Pontigo, 29, solteiro, 1 filho de 12 anos de uma relação-da-juventude. No domingo haverá a reconstituiição do crimme. O Nicollau e a Anna Beti não são obrigados a participar, o paii e a maddrasta da Anabbela, morta no último dia 6, não deverão participar, segundo informou o addvogado do pai da Anabella, que caiu do 6º andar do Villa London, o senhor Marcello Jordano, 26, isso porque, segundo a legisslação brasileira, ninguém pode ser obrigado a produzir provvas contra si mesmo. Amanhã, quinta-feira, serão colhidos depoimmentos do paii e da irmmã do Niicolau Serdovvi: o Mennelau Serdovvi, 60, viúvo, pai de 1 rapaz e de 1 moça e avô de 2 crianças vivas e de 1 morta, e a Anna Bolena Serddovi, 37, divorciada, sem-filhos. Apenas após o depoimennto dos parenttes do ppai da mennina Annabella, 6, morta asfixiada, no caarro, na garaagem, no apartaamento, sobre a caama e após a queda do 6º andar, e da reconsttituição do crimme é que a pollícia revelará os lauddos dos últimos exammes realizados. Especiallistas afirmaram que o adiamento na divulgação dos lauudos é uma estratégia adotada pela políícia para que os depoimmentos não sejam influenciados pelo resultaddo dos examess realizados pelos perittos da Políciaa Civil de São Paulo.
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De volta à frente da dellegacia, não dá para ouvir o início da fala da Maria Mara de Moraes, os popullares começam a dispersar-se, a reppórter do ttelejornal finaliza sua participação: a Anna Bety e o Niicolau Seerdovi não deram quaisquer declaraçções à imprenssa.
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Em outro lugar da cidade, um homem diz a outro homem: ainda não faz nem um mês, e a mãee da Annabela, morta barbaramente aos 6 anos de idade, a Anna Beth, não a madrastta, que é Carvalho, mas a mããe, Parentte, nem um mês, e a Anna Bett Parennte já desistiu do ccaso, abandonou a fillha, não dá mais entrevistas, deixou ao destino a resolução do casoo. E o paai, o Niccolau Serddovi, era um mau ppai. Preste atenção, elle não correu desesperado para abraçar a fillha após a queda deela, da Anabella. Pense, diz um homem a outro dentro de um táxi, em uma sala de espera ou no balcão de uma padaria. O homem, provavelmente 50 anos, separado e pai de 3 jovens, o homem com algumas gotículas de suor no buço diz: veja, um pai quando se dá conta de que a filha caiu da janela do seu apartamento no 6º andar corre desesperado para abraçar a filha. E o Niicolau Serdovvi não correu desesperado para abraçar a fillha. Elle primeiro ligou para o ppai, o Menellau, ligou para o paai que é advoggado criminalista. Entende? Elle sabia que a filhha tinha caído do 6º andar, isso elee não nega, afirma que entrou no apartammento, com os dois filhos do segundo casamentoo, viu a redde de protteção da jannela rasgada e entendeu que a fillha havia sido jogada pela janella de seu apartamentto, não é uma hipótese da invvestigação. Elle disse que viu a rrede de proteçção da janela rasgada, aproximou-se e viu a fiilha caída no gramado 6 andares abaixo. E o que elle fez? Correu? Chorou? Não, eele ligou para o ppai, um advogaado criminalista. Ella não era amada, podemos dizer que a Anabella era uma menina rejeitada. Veja, na Inglaterra os cientistas fizeram uma pesquisa para descobrir qual a maior dor que um ser humano pode suportar, de todas as dores, os cientistas britânicos constataram que a maior dor que um ser humano é capaz de suportar é a perda de um filho de menos de dezesseis anos, principalmente para as mulheres. E a mmãe da Anabella já abandonou o casoo, não fala mais com a imprenssa, não presta contas, não aparece, abandonou a ffilha. E se nos lembrarmos que logo após a morte da ffilha de 6 anos, no enterro, na missa de sétimo dia, no dia que seria o do aniversário da Anabella, mesmo nesses momentos a Ana Bbeth apareceu calma, fria, sem nenhum traço de dilaceramento, sequer de dor em sua face, podemos então concluir que ella não amava a Anaabela. O ppai não desceu desesperado para abraçar a fillha e chorar. E por quê? Porque elee não ficou desesperado. A verdade é que elle sempre amou mais os filhos do seggundo-casamento. A Anna Bet teve a Anabella muito jovem, não estava preparada, não foi capaz de amar a ffilha. A verdade é que eela deixa muito a desejar, deixa a desejar como mãe, amor materno. A Anabbela foi uma criança rejeitada, agora elaa só tem a nós para defendê-la, por isso não podemos abandoná-la.
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A cidade arde, um rastilho espalhou-se e não cessa de queimar exalando um cheiro adocicado no ar inspirado e expirado pelos pulmões e chiando nos ouvidos dos que se interessam e dos que não se interessam pelo assassinato de Anabella, comentam eles, na sala. O artigo definido é utilizado na televisão, ruas e padarias, em vez de “Anabella faria aniversário em poucos dias”, falam “a Anabella faria aniversário etc.”, ou “apartamento do Nicollau”, no lugar de “apartamento de Nicollau”, o que transforma a família Serdovvi em velhos conhecidos. Na sala eles analisam essa proximidade forjada que aumenta a dramaticidade do caso, transforma a tragédia real em farsa. Não se ouve a palavra “defenestrar”, que significa exatamente “jogar pela janela”. Talvez porque seja uma palavra fora do cotidiano daqueles que acompanham o caso. Jogada ou lançada pela janela, sim, são verbos que fazem parte da vida da cidade e, portanto, comportam a violência do destino da menina.
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As pessoas na sala sabem que não adianta dizer: “eu não me interesso por esse assunto”, pois todos são convocados a participar da investigação, é necessário comentar e concluir a respeito dos testes, dos depoimentos, das análises dos especialistas. Sendo o assunto inevitável, os que participam apenas por educação e dizem: “quem sabe não foram eles, é preciso esperar, a prisão é somente para quem  foi pego em flagrante ou que possa atrapalhar o andamento da investigação, a polícia chegar a uma conclusão e oferecer a denúncia não significa que eles já foram julgados culpados”, os que dizem isso são obrigados a ouvir ainda mais sobre o assunto, e não podem apenas ouvir, precisam recuar, afirmar, nada de talvez, quem sabe, é um lado ou outro.
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Na sala eles ponderam sobre a histeria que tomou conta da cidade, a necessidade de as pessoas saírem de casa e irem até a delegacia, até a frente do edifício onde o crime ocorreu, parece que apenas assim elas se sentem  fazendo parte de uma história real, que existe porque sai na televisão, como se a vida apenas se formasse em história quando televisionada e escrita.
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Uma pessoa comenta a coincidência de vários nomes deste caso terem letras dobradas, como Anabella, Nicollau, Villa London, não que isso signifique qualquer coisa ou possa ajudar a desvendar o crime, ela acrescenta. Outro lembrase que significa a origem social das pessoas envolvidas. Além das letras, ele continua, são repetidas na televisão e nas conversas informações como: “o sangue no carro é da Anabella”, ou “as marcas no colchão são da sandália do pai que apoiou o pés para subir e jogar a filha pela janela”, e dessa maneira transformam suposições em fatos incontestáveis.
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A interpretação do homem com gotículas no buço, “a mãe deixa muito a desejar”, chega a ser cômica. Sua frase, “ele não desceu desesperado para abraçar a filha”, é repetida diversas vezes, na sala, com sotaque e ritmo que  reforçam o pedantismo do homem. A repetição da frase e o tom farsesco a esvaziam definitivamente de qualquer verdade, não do seu conteúdo, pois que esse não é o foco da conversa, mas sentimento de autoridade das pessoas mais simples e de pessoas pacíficas que tornam-se sanguíneas na tragédia alheia. É repetida também a frase “pegar ele, jogar ele no chão, jogar ele e cuspir na cara dele, pisar no pescoço dele”, que é analisada em seu teor de insanidade. Não se comenta a ausência do pronome oblíquo, embora a sintaxe das orações machuque os ouvidos dos que conversam. E as expressões “pegar ele” e “jogar ele” são repetidas outras vezes. A cidade torna-se vampiresca, compulsiva.
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A análise da repercussão do caso chega até a sobremesa, quando alguém, 72, casada, 4 filhos, 8 netos, fala, a verdade é que elee estava usando uma dessas sanddálias tippo ridder e a marca no lençol era delle mesmo. E isso delle não ter descido logo é muito forte. E outro, 17, solteiro, pergunta, mas issoo já ficou comprovado? Sim, elees têm como rastrear e saber o horário do tellefonema, o horário em que o caarro delle entrou na garaagem, em que elle desceu no ellevador após a fillha ter caído, o número de telefone para o qual eele ligou, de fato elle telefonou para o paai antes de descer. A hipóttese mais plausível, até agora, é que quem sufocou foi a madrastta, e o ppai, achando que a filhaa já estava morta, jogou-aa pela janela.
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E um terceiro, pai de dois filhos pequenos, conclui: um surto, um momento de insanidade. Qualquer um poderia. Um pai. Qualquer um. É apavorante.
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A morte recente iça do lago escuro de nossa memória outra criança morta, que emerge na forma do rosto de um menino de quatro anos sorrindo na fotografia de seu aniversário. A lembrança do assassinato do menino Victor Hugo, em Cascadura, no Rio de Janeiro, caminha dentro de cada um, e em poucos dias a cidade lembra-se e comenta em voz baixa a morte ocorrida meses atrás.
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