Da interatividade


Vi, enfim, Fahrenheit 451, a adaptação do Truffaut pro romance do Ray Badbury em que bombeiros queimam ficções, biografias e afins num governo totalitário para o qual livros são nocivos para a sociedade – e no qual uns so-called “homens-livros” precisam resgatar as histórias do esquecimento por meio de suas memórias, decorando-as palavra por palavra (o que, aliás, me faz pensar o quão perigoso seria depender da memória de uma Raq-livro para eternizar um romance).

Não tenho habilidade crítica para comentar o quanto é lindamente filmado, mas, num primeiro momento, tudo ali no roteiro me lembrou um episódio de Monty Python, tão bizarra e ostensiva a premissa, com a diferença da intenção do filme de passar uma mensagem séria. É nos detalhes que transparece a genialidade.

Por exemplo, a cena em que Linda, mulher do protagonista, Montag, “participa” de um programa de TV – ela na sala de casa, dois atores na tela. A ideia é que ela tenha falas no programa. Dois personagens discutem como organizar uma festa e lançam, olhando para a câmera, perguntas como: “Devemos deixar Madeleine na cabeceira na mesa, não é? O que você acha, Linda?”. Ao que ela responde variações de: “Sim, claro! Absolutamente!” .

É visionário, por vários motivos. Pra começar, o filme é de 1966 (e o livro, de mais de uma década antes, 1953) e, quando ninguém falava disso, o casal Linda e Montag tem em casa uma espécie de home theater. Modesta em proporções, vá lá, mas um home theater em 66! E daí que a cena é toda baseada na interatividade – que nós, brasileiros, viríamos a conhecer em 1992, com o Você Decide, e que só viria a ser entendida mesmo em tempos de internet. Que tal o poder de se sentir parte daquilo?

Mas nada tão bom como o modo como a tal interatividade acontece.

Os diálogos me fizeram lembrar do Eduardo Vicente, o melhor professor de matemática que já passou por Petrópolis. Que, depois de meses conseguindo respostas certas dos alunos para as perguntas mais cabeludas, comentou: “Vocês já notaram que só respondem certo porque termino as perguntas com um ‘não é’? Tipo: ‘O xis do vértice é menos B sobre 2A, NÃO É?’. Agora, se dissesse: ‘Parem para pensar, dois mais dois NÃO É igual a quatro, É??’, aí vocês teriam dúvida”.

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3 Respostas

  1. Taí um filme que marcou minha adolescência. O primeiro Truffaut a gente nunca esquece.
    Fique tranquila, Raq. Pra você, eles criariam a categoria mulher-haicai.
    Bj.

    • Isso me faz lembrar que tem um livro que eu já decorei!

      É assim: “Não sei se gosto mais do dia, não sei se gosto mais da noite. De dia eu posso brincar, mas de noite eu posso sonhar. De dia posso balançar, vou alto, bem alto no meu balanço, mas de noite eu posso sonhar…”.

      E por aí vai.

      (Na verdade, eu lembrava disso diferente, mas colei do Google. Olha que perigo essa mulher-qualquer-coisa-de-se-ler-e-memorizar)

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Raquel Cozer, Dani Borges and guilherme sakai, Marianna T. Soares. Marianna T. Soares said: RT @raqcozer: Fahrenheit 451 e a interatividade em 1966 http://migre.me/w7th // recomendo fortemente #abibliotecaderaquel […]

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