Depois da Mafalda


Ao longo dos últimos anos, muitos jornalistas se referiram ao laconismo de Quino durante entrevistas como fruto de enorme timidez. Não sei se acreditaram nisso de fato ou se definiram dessa maneira para justificar a ausência de respostas extensas, daquelas que dá gosto de ler, com histórias e digressões no meio, como costumam ser as entrevistas com grandes cartunistas.

Conversei com ele por telefone duas semanas atrás e a sensação foi diferente. Não é timidez o que o leva a falar pouco. Enquanto forem feitas perguntas, ele responderá, mas de tempos em tempos se perceberá aquela nota de enfado no fundo da voz. Como Quino cria cartuns há quase cinco décadas sobre o mesmo assunto, as mazelas do mundo, também não pode evitar que as perguntas feitas ao longo dessas décadas se repitam com frequência considerável. Deixei de lado aquelas que muitos fazem embora existam respostas à exaustão na internet (por que parou de desenhar Mafalda; se não voltará a desenhá-la; qual é o lance com a sopa; o que Mafalda pensaria do mundo hoje etc.), mas a questão não é essa.

Ele não gosta de dar entrevistas e não se esforça mais do que a educação exige. As respostas não surpreendem porque isso não interessa a ele. Muito menos agora, com o glaucoma que o impede de trabalhar – a quem perguntar, dirá que é pausa criativa. Talvez fosse mais honesto com ele próprio fazer como Bill Watterson, não falar. O que ele faz de melhor independe de palavras. Faladas, pelo menos.

Enfim, meu texto sobre os três lançamentos dele pela Martins Fontes no Brasil, publicado no Caderno 2 da última quinta, está aquiQue Presente Inapresentável, o mais recente deles, de 2004 (de onde saiu a imagem acima), é o meu preferido. A Mafalda funciona melhor em pequenas doses, então o Dez Anos com Mafalda chega a cansar. Mas, por falar em entrevistas, a melhor que já li com ele está na abertura desse volume. Foi feita em 1987 e inclui respostas elaboradas como ele nunca mais deu — tem inclusive a confissão de que chegou a decalcar imagens dos personagens das tiras porque tinha dificuldade em fazê-los sempre parecidos.

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