Adivinhe quem vem para jantar


Pensei em milhares de coisas (ok, talvez dezenas. Ou talvez só unidades) para fazer na minha segunda-feira de folga e, meio que por comodidade, resolvi apenas ler. O dia inteiro, sem pressa, sem ter de ser no metrô ou antes de dormir, e nada sobre o que fosse escrever depois no jornal. Não consegui cumprir esta última meta; acabei passando boa parte da tarde mergulhada num autor que entrevistarei em breve. Ao menos não precisei correr mais do que gostaria com a leitura, o que incluí na minha cota de consolo, junto com o fato de fazê-lo numa mesa de calçada do Valadares, acompanhada pelo sol do fim da tarde e por alguma cerveja.

Sempre que ouço alguém reclamar da obrigação de trabalhar me seguro para não cair no insuportável discurso de que, se é para passar um terço da vida adulta fazendo algo que garantirá o divertimento e o sono tranquilo dos outros dois terços, não é mal passar esse primeiro terço em um trabalho do qual se goste, com o perdão do raciocínio que de tantos terços mais parece um rosário. Me seguro porque já repeti isso tantas vezes que daqui a pouco todos os amigos pararão de me chamar para participar do terço que corresponde ao divertimento deles.

Mas tenho de admitir que, no caso da literatura, a receita não funciona assim tão bem. É claro, é ótimo passar oito horas por dia pesquisando sobre livros, avaliando quais títulos valem ou não resenha e quais resenhistas podem escrever sobre, apurando notas sobre o mercado literário e entrevistando autores e editores. É uma delícia dedicar parte do dia a ler por obrigação sites de literatura de que gosto.

Mas há uma coisa que não há como fazer no horário de trabalho, e essa coisa é parar para ler um livro que renderá texto a ser publicado. Então o dia de trabalho para quem escreve sobre literatura não acaba no jornal. Ele continua no metrô, participa do jantar, vai junto pra cama e fica para tomar café da manhã, como um amante sem noção que não sabe a hora de ir embora. E também elege os títulos que você lerá.

Nenhuma ambição de ler as 800 e tantas páginas de 2666 antes da aposentadoria, por exemplo. Ou de aproveitar um feriado para acabar com aquela clássica lacuna nos conhecimentos de literatura clássica. Nos últimos tempos, o que me deixa satisfeita é descobrir que Roth e afins publicaram como romance a última novela que escreveram, já que só a concisão garante a leitura por prazer nas horas vagas. Só não me venham cobrar dessa gente livros mais extensos, por favor.

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8 Respostas

  1. Sinto a mesma coisa, Raquel. Depois de três anos ralando em outras editorias, quando finalmente fui chamado pra cobrir literatura num jornal daqui de Recife, achei que estava conseguindo resolver um problema de minha vida. Mas após usar muito do meu tempo livre pra destrinchar livros e escrever resenhas que só seriam publicadas no jornal três ou quatro semanas depois, acabei percebendo o presente de grego que foi entrar nessa área.

  2. Não, de jeito nenhum, até porque já vinha fazendo isso de forma espontânea na internet, claro que num ritmo menos acelerado e com maior liberdade de escolha. Mas por enquanto estou dedicando esse esforço extra e não remunerado pra seleção de mestrado.

  3. é a lei do yin e yang. rs… Sorte que vc é uma devoradora de livros, como o Dani. Fosse eu, seria despedida, pq não consigo ter uma leitura produtiva depois de ler frases como “espreitando o parado das coisas, do G.Rosa. Preciso tomar uma água, olhar pro infinito…

    bjs,

  4. […] Para terminar, Tony Bellotto, nosso colunista de sexta-feira, respondeu 10 perguntas e meia, e a jornalista Raquel Cozer desabafa em seu blog sobre o problema de trabalhar rodeada de livros. […]

  5. Sem contar o agravante de embaralhar histórias na cabeça. Dos livros que lemos por hobby, claro.

  6. É um inferno delicioso mesmo trabalhar com aquilo que gostamos de verdade. Tudo vira trabalho, até a diversão. OK, não traduzo tomando cerveja no boteco, mas não é que de vez em quando surge uma solução entre um gole e outro, entre um petisco e um cigarrinho. Daí lá vai o workaholic pegar o caderninho e anotar para chegar em casa e ver se funciona. Plagiando o velho ditado, “fazer o que gosta é padecer no paraíso”.
    Adorei o texto. Identificação imediata.
    Beijo

  7. […] o Sabático e o Caderno 2. Como o tempo de quem trabalha com livros é muito escasso (cheguei a descrever isso no endereço antigo) e a maior parte dos meus dias são dedicados a leituras que faço para o […]

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