Matemática literária


Dias atrás, li um tweet sobre o nome então mais cotado para o Nobel de Literatura deste ano, o poeta sueco Tomas Transtromer. Nunca tinha ouvido falar na peça, então antes de tudo fiz busca básica nos sites da Folha, do Globo e do Estadão para saber o que tiveram os principais cadernos literários a dizer sobre ele. Para constatar que pelo menos desde 1996 o nome dele só saiu na grande imprensa nacional quando apareceu como candidato provável ao Nobel nas casas de apostas.

O fato de ser pouco conhecido por aqui não tira nada do mérito dele, dadas as nossas lacunas editoriais, mas a recorrência do nome no topo da lista há mais de uma década prova que essas cotações com antecedência são quase tão certeiras quanto chutes na Mega Sena. Descontado o meu exagero, é claro.

O que aconteceu, nos últimos anos, foi de informações privilegiadas vazarem. Daí que a vencedora do ano passado, a alemã de origem romena Herta Müller, escalou de forma vertiginosa do pé da lista para o primeiro lugar na véspera de ter o nome anunciado, mais ou menos como aconteceu em 2008 com o francês Jean-Marie Le Clézio. De resto, apesar de toda a matemática especulativa que se faz acerca do Nobel (há quanto tempo um poeta não é agraciado, há quantos anos um asiático ou um latino-americano não é lembrado, qual nome seria politicamente interessante etc), ela nunca bate com os resultados da matemática diplomática feita pela Academia.

A dois dias do anúncio do prêmio de Literatura, Tomas Transtromer já não está em primeiro na Ladbrokes, posição ocupada agora pelo queniano Ngugi wa Thiong’o. Mais uma vez, nenhuma referência a ele na Folha nem no Estadão, e uma única no blog do Carlos Alberto Mattos, no Globo: o autor foi personagem de um documentário exibido no É Tudo Verdade de 2007, Quem Tem Medo de Ngugi, sobre seu retorno ao Quênia após anos de exílio (imagem abaixo).

O segundo e o terceiro lugares entre as apostas ficam com Cormac McCarthy e Haruki Murakami – a última americana a ganhar foi Toni Morrison, em 1993, e o último japonês, Kenzaburo Oe, no ano seguinte, o que teoricamente depõe a favor dos dois. De resto, o que se tem é uma lista com os suspeitos de sempre.

***

Update em 6/10: Cormac McCarthy é o novo líder nas apostas da Ladbrokes para o Nobel. Mais ou menos como foi nos últimos anos, com informações vazadas sobre Herta e Le Clezio fazendo os dois subirem de última hora. A ver.

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11 Respostas

  1. Todo ano fico na torcida pelo Philip Roth. Ele não pode morrer sem o Nobel. Não ser agraciado com o prêmio máximo das letras não vai diminuir em nada a excelência de sua carreira, é verdade. Mas, entendo que ele merece essa homenagem como poucos.
    É de lamentar o episódio, em 2008, em que o secretáro-geral da Academia disse que a literatura americana era “insular”, muito afeita à cultura de massa, a “modismos”.
    Nessa ocasião, sim, surgiu uma “explicação” para essa ausência tão longa de vencedores com nacionalidade americana (enfim, revelaram algum “critério”).
    E você, Raquel, torce pra alguém? Tem alguma “aposta”?

    • Oi, Renato, tudo bem? Sou boa nessas apostas não. Vivo achando que vai sair um latino-americano, que sempre estiveram em baixa no Nobel, mas eles mal são cotados… Não sei se vc viu o update que coloquei agora, do McCarthy passando pro topo da lista. Vou tentar descobrir ao longo do dia se é info vazada, mesmo.

      Gosto do McCarthy, mas, de fato, acho injusto se ele levar antes do Roth.

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Douglas MCT, Douglas MCT, Lívia Aguiar, Raquel Cozer, Raquel Cozer and others. Raquel Cozer said: A matemática literária nas apostas para o Nobel de Literatura, que sai depois de amanhã http://migre.me/1uppX #abibliotecaderaquel […]

  3. A lista é de uma miscelânea só. Muito heterogênea. Então é difícil tentar mapear por quais critérios seria escolhido o vencedor.

    E, por essa miscelânea mesmo, acho que deveriam dar ao Dante!

  4. Olá Raquel!
    Sempre achei um absurdo dar-se premio Nobel para literatura. Quando se premia um artista, corre-se o enorme risco de deixar de fora outros tão maravilhosos quanto. Como decidir qual a melhor obra de arte? A arte é “injulgável”. Quem pode julgar um artista? O fato de alguém gostar de literatura, não faz dele necessariamente um expert na “arte” da literatura. Pode fazer do crítico um leitor, e somente isso. Um amante das letras. Se é dado Nobel à literatura, teriam que dar também para a música erudita, para a pintura, para a fotografia… . Creio, sinceramente, que o Nobel deveria se limitar à ciência, fria como ela é, sem subjetividades, exata. Coisas exatas podem ser julgadas. Mas arte? Cada linha do que o artista escreveu está lá porque ele quer que esteja, e somente aquela linha pode estar ali. E depois, todos sabemos, julgamento de concursos, todos, são subjetivos. Não premiam necessariamente o melhor.
    Tive o privilégio de estar com Marina Colasanti, ontem, ela que ganhou o Jabuti de poesia desse ano, e, como ela mesma disse: ” a gente não escreve para ganhar prêmio. Se ele vier, tudo bem. Se não vier, não muda nada”.
    Grande abraço, paz e sucesso.

    • Oi, Ederson! Uma vez, entrevistando uma editora da Granta, perguntei a ela sobre prêmios, e ela me deu uma resposta que me fez mudar de opinião: prêmios não são sinônimo de justiça. Aliás, costumam até ser injustos com frequência. Mas a ideia de ganhar algum estimula autores a tentar fazer sempre o melhor, mesmo que depois eles desdenhem. Pra produção literária como um todo, acaba sendo bom.

  5. Não duvido que tenha vazado o nome do McCarthy – principalmente porque vale dinheiro na casa de apostas. Quase tudo se torna possível quando entra dinheiro na situação.
    É esperar para ver.

  6. Errei. Dante não ganhou!

  7. Que tal falar da argentina Pola Oloixarac?

  8. Raquel, o fato de um autor ser desconhecido no Brasil, não é sinônimo de obscurantismo do mesmo. Pode ser o oposto: que os críticos e responsáveis por resenhas no país desconhecem autores relevantes ou que fujam de seu costumeiro raio de atuação. Eu mesmo já conhecia Le Clezio desde início dos anos 90, pois trata-se de um autor admirado pelos surrealistas argentinos (não é muito divulgado, mas foi entre autores de fala espanhola que o surrealismo gerou suas melhores obras e poemas, vide Garcia Lorca, Pablo Neruda, Miguel Hernandez, Vicente Aleixandre, Xavier Villaurrutia, Julio Cortazar, Francisco Madariaga, Alejandra Pizarnick e muitos outros).

    Há autores de qualidade, indicados ao Nobel, cujos poemas jamais foram -pelo menos nunca vi- publicados em revistas, cadernos ou suplementos de cultura, no Brasil. Um desses casos é o poeta Adônis, de origem síria, que há anos é candidato ao prêmio.

    Quanto à busca em sites da Folha, Globo e Estadão, recomendo a você duas outras opções:

    a) Faça uma busca no Google em língua espanhola e coloque o nome Tomas Transtromer. Depois, verifique o resultado. Sob o campo para preenchimento no Google em língua espanhola aparece: “Aproximadamente 685,000 resultados (0.24 segundos)”.

    Alguns links:

    http://es.wikipedia.org/wiki/Tomas_Transtr%C3%B6mer

    http://letras-uruguay.espaciolatino.com/aaa/sanchez_abraham_prudencio/la_poesia_silenciosa.htm

    http://www.literaturate.com/el-cielo-a-medio-hacer-de-tomas-transtromer/

    Aqui, um poema de Transtromer (extremamente medíocre, em minha opinião):

    http://losamoresicaros.blogspot.com/2010/06/poema-tomas-transtromer.html

    Para quem quiser salvar o google em espanhol em seus Favoritos, eis o link:

    http://www.google.com/webhp?hl=es

    b) Outra sugestão de site de poesia é: amediavoz.com.

    A formação cultural, no quesito literatura, nos países hispano-americanos, é superior à que recebemos no Brasil, seja por meio das instituições de nível superior ou publicações diversas. Em minhas viagens pela América do Sul, visitando livrarias, sebos, conversando com pessoas naturais desses países, percebe-se a diferença brutal, que decorre de um simples motivo: culturalmente, sempre vivemos de costas para nossos irmãos hispano-americanos, e buscamos em primeiro lugar referências nos Estados Unidos e na Europa. Talvez agora que o país começa a ganhar destaque e a se tornar protagonista político-econômico no continente, a coisa possa mudar de figura. Essa situação lembra um pouco a letra de uma música de Milton Nascimento, Notícias do Brasil, que por analogia poderia ser utilizada para o caso em questão:

    (…) A novidade é que o Brasil não é só litoral!
    É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul.

    e

    (…) Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil,
    não vai fazer desse lugar um bom país!

    Saudações

  9. Torço por Murakami!

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