Jornalismo x biografia


Foto Carol Reis/Divulgação

O jornalista Lira Neto, biógrafo da Maysa e do Padre Cícero, chegou ao hotel ontem, em Ouro Preto, preocupado com o fato de sua mesa ser no sábado de manhã, horário da ressaca. É claro que isso não o impediu de aproveitar a sexta à noite: Bira, Gui, Maria Fernanda (do Publishnews) e eu fomos jantar com ele na Casa dos Contos (cachaça de cortesia no cardápio, mas, em defesa do Lira, a cachaça ele não tomou). E só não estendemos pra um barzinho porque não tinha lugar aberto depois que nos sentimos convidados a parar de atrapalhar o sono dos garçons e cozinheiros.

Daí que ele ficou surpreso quando viu lotada a sala onde rolou hoje sua mesa sobre jornalismo e literatura com Paulo Markun e Edward Pimenta – no público, entre outros, Décio Pignatari, que saiu antes do fim, e Adélia Prado. Lira Neto é tipo showman, contador de causos, e repetiu tipo metade das histórias que tinha nos contado no restaurante. O resto acho que era impublicável.

Ele contou que esteve faz alguns meses aqui para investigar sobre seu próximo livro, uma trilogia sobre Getúlio Vargas a ser lançada nos próximos anos. Agora dá pra incluir uma história sobre a qual falou no jantar: ele sabia que Luiz Schwarcz tinha interesse em publicar uma megabiografia sobre Getúlio e que já havia inclusive convidado três biógrafos (acertei pelo menos um dos três, mas qualquer um acertaria) a abraçar a causa; como soube que os convites não tinham animado nenhum dos três, fez a sugestão, devidamente aceita.

A vinda para Ouro Preto era para confirmar uma lacuna na história pessoal do ex-presidente. Getúlio e o irmão estudaram na juventude em Ouro Preto – o irmão, mais velho, cursava a Escola de Minas, que formou alguns dos principais engenheiros do País; Getúlio cursava o Ginásio Mineiro. Sabia-se que nesse momento havia ocorrido um assassinato, que alguns biógrafos atribuem a Getúlio, e outros, ao irmão. Lira mergulhou nos arquivos da escola sobre Getúlio e não encontrou nada. Estava desistindo quando resolveu tentar algo que ninguém tinha feito antes: investigar os arquivos do irmão de Getúlio, um calhamaço empoeirado e desanimador. Mas lá estava a confirmação: era o irmão o assassino.

A mesa foi bem bacana. É curioso como a gente sempre valoriza mais mesas com estrangeiros, tipo a única chance de ver um grande autor gringo de perto, mas não raro mesas com brasileiros impressionam mais. No caso do Lira e do Markun, com detalhe importante: as biografias que fizeram incluem detalhes nunca antes publicados e que eles conseguiram por mérito próprio, ao contrário de jornalistas que escrevem sobre história e que apenas compilam dados já investigados por outras pessoas. Seguem algumas frases, trechos, momentos que me chamaram a atenção.

***

“Quando Ruy Castro soube que eu faria uma biografia de Maysa, disse: ‘Cuidado, biografar mulher é encrenca, você se apaixona por ela.’ Não deu outra: tive ciúme de Ronaldo Bôscoli, o único homem à altura dela, além de mim” (Lira Neto)

“Quando Castelo Branco estava deixando a presidência, a contragosto, ele ligou para Rachel de Queiroz e disse: espalhe para seus amigos: o Brasil perde um presidente sem pesçoco para ganhar um sem cabeça” (Lira Neto)

“Meu principal personagem é o poder. Isso é claro na biografia do Castelo Branco, na do Alencar, cujo título é Inimigo do Rei (em relação a Dom Pedro 2º), na da Maysa, na relação com a imprensa, como ela usava a mídia e como a mídia a usava” (Lira Neto)

“Lira gosta do poder, eu gosto dos perdedores (como personagens). Você aprende com o fracasso. O Herzog, o Cabeza de Vaca, de certa maneira eles são perdedores” (Markun)

“Quando penso em fazer uma biografia, três coisas me vêm a cabeça: se tem gente que vai querer ler, se vai vender e se a história me interessa” (Markun)

“As biografias fazem sucesso porque as pessoas estão órfãs de narrativas. O romance contemporãneo, na busca por novas possibilidades, implodiu a narrativa. Isso é lindo, mas abriu essa lacuna” (Lira Neto)

“Biografia romanceada pra mim é algo indigesto. Vai fazer então um romance histórico” (Lira Neto)

“Eu acho necessária a regulamentação dos meios de comunicação. Não vejo esse perigo de tramas do governo como ouço por aí” (Markun)

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3 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Raquel Cozer, O Espanador. O Espanador said: RT @raqcozer: Lira Neto e a mesa "no horário da ressaca" http://migre.me/2bTKH #forumdasletras […]

  2. A Adélia rezou algumas missa? E o preço do janatar no Contos de Minhas, salgado, não? Ah, essa tal de literatura e jornalismo, não é mesmo?

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