Pois é poesia. Ou não


Fotos Carol Reis/Divulgação

Não sou fã da poesia de Adélia Prado. Vejam bem, isso é diferente de desmerecer a obra dela, que respeito, e o alcance que tem, principalmente em se tratando de um gênero tão pouco lido no Brasil. O auditório lotado do Cine Teatro Vila Rica, ontem, no Fórum das Letras de Ouro Preto, ajudou a dar a dimensão.

Mas houve um momento ali pouco depois do começo que me peguei encantada por aquela “pacata senhora mineira” (a expressão é referência a uma das formas como, segundo ela, costumam chamá-la em cartas). Daquele jeitinho tranquilo, macio, ela fala coisas como “Hitler, Stálin (…). Cometo os mesmos crimes em outra ordem, posso cortar o falo do meu marido sendo possessiva. Um crime tem sangue, o outro é incruento”. Ou “Quando me excluo, quando digo: ‘Aqui estão os bonzinhos, ali estão os malvados’… Isso não existe. Não há nação que vá para a frente assim”.

Ao ponto em que Edney Silvestre, que dividia a mesa com ela, achou por bem assumir papel de entrevistador junto com Leda Nagle, em vez de entrevistado ao lado de Adélia, já que era ela que todos queriam ouvir. Foi pena que mesmo com o reforço a mediação tenha errado a mão nas questões sobre fé e religiosidade. A certa altura, a própria Adélia constatou: “Depois vão dizer que dei aula de catecismo em vez de falar de literatura, mas olha as perguntas que vocês me fazem”. Instada a falar do tema, ela discorria e repetia: “Esquece Deus”, respondeu para Silvestre quando ele questionou se não ter fé diminuiria alguém, “você pode amar ao próximo e a si mesmo”.

Só hoje de manhã parei para pensar numa contradição no pensamento dela. Bem no começo, ela demonstrou imenso preciosismo ao explicar que pode enxugar e mexer quase infinitamente em versos até considerá-los dignos de publicação (“Você pode ir pro inferno se fizer uma coisa dessas”, disse, na minha frase preferida de toda a mesa, sobre enviar um texto para o editor sem ter certeza de que está bom). Mais perto do fim, tentando definir arte, mandou: “Não existe literatura pensada. A arte verdadeira tem sangue, excremento, suor (…). Não há transcendência que sobreviva ao banheiro”. Mas então reescrever não é pensar a literatura? Só é, mesmo nos casos em que a origem é pura inspiração – e, para mim, isso é sempre bom. Digo, reescrever. Saber que ela tem esse  preciosismo só me faz admirá-la.

***

Sou fã de poesia concreta, e acho que admitir isso é bem mais impopular que dizer que não sou fã da poesia de Adélia Prado. Conheço muito menos do que gostaria das origens do concretismo – o simbolismo, Ezra Pound, e.e. cummings e afins -, mas sempre me fascinou aquela linha tênue que separa a poesia do design, a literatura das artes plásticas. Então para mim, ontem, era muito mais esperada a mesa do Décio Pignatari, que veio logo depois da de Adélia.

É claro que, justamente por essa uma opinião impopular, Pignatari nem de longe atraiu tanta gente quanto Adélia. E ainda conseguiu perder umas cinco espectadoras de uma vez só ao dizer com todas as letras que “o teatro brasileiro é uma vergonha”.

Mas foi uma das mesas que mais me divertiram. Pignatari está bem velhinho, com 83 (aliás, o caçula dos concretos originais, Augusto de Campos, completa 80 no ano que vem). Eu nunca o tinha visto pessoalmente e fazia tempo que não via nenhuma entrevista com ele. Mas o resultado não é muito diferente do que a gente poderia imaginar. Se alguém é radical nos conceitos depois que a juventude já passou, e radical era tudo o que os concretos eram e seguiram sendo, essa característica tende só a se acentuar quando a velhice chega.

Daí que, depois que o mediador e o poeta Fred Barbosa, no palco com Pignatari, ficaram quase uma hora tecendo loas ao concreto e aos frutos do concretismo, foi engraçado quando Pignatari finalmente tomou a palavra: “Não estou interessado em nada disso, muito menos em poesia. Poesia é um saco, não tenho mais paciência. Não vou escrever nunca mais”.

Não vou aqui reproduzir tudo o que ele falou porque é mais ou menos aquilo que a gente leu nas últimas décadas, mas vale um exemplo que resume muito o que foi a mesa dele. Até porque ele repetiu umas cinco vezes, acho, algumas delas esquecendo que já tinha falado antes. “Sobre a velha Ouro Preto o ouro dos astros chove”, recitou, com ênfase, o verso de Olavo Bilac – que, se não me engano, aparece no livro dele O Que É Comunicação Poética. “Tem seis ôs fechados e um ó aberto. Isso é que é poesia, mas ninguém está entendendo nada disso. As pessoas tentam entender o conteúdo, mas a graça da poesia é que ela expande o verbal rumo ao não verbal.”

E uma gracinha, para finalizar, em resposta a quando o Fred Barbosa questionou o fato de ele dizer que poesia enche o saco e ao mesmo tempo ser aplaudido por um público ao falar de poesia: “Ora, não nasci ontem”, disse Pignatari. “Sou professor, sei seduzir um público”.

Anúncios

5 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Raquel Cozer, Raquel Cozer and Vange Leonel, Marco Korbela ॐ . Marco Korbela ॐ  said: Pois é poesia. Ou não http://is.gd/h40Ig […]

  2. curioso; pelo twitter, tinha ficado mal impressionado com o Pignatari, embora curta bastante sua obra. o post me passou uma imagem menos negativa… o problema parece ser essas afirmativas absolutas, não é mesmo? ‘a arte morreu’. ora, a arte morreu! mas disse isso rindo, pelo menos?

    • Oi, Daniel. Bem, isso é Pignatari numa entrevista, isso são os concretos dando depoimentos: os donos da verdade absoluta. rs. Não falou rindo, e sim porque sabe que choca. Acho que, na média, ele agradou. Foi aplaudido várias vezes, as pessoas acharam graça nas frases de efeito. Mas, como falei, tenho admiração por eles e meio que relevo o radicalismo, então pode ser que outra pessoa a quem você pergunte tenha opinião completamente diferente…

  3. Desculpas foram feitas para se pedir e aqui peço as minhas a você. Explico: num comentário anterior fui deselegante com a Adélia Prado, usando seu (Raquel) texto como pretexto para cutucar a ‘pacata senhora mineira’. Não gosto da poesia dela (como você também não gosta), mas não poderia deixar de ser um cavalheiro como geralmente costumo ser (minha mãe tem peso nisso). No mais estive em Ouro Preto no encontro sobre Literaturas Africanas e peguei um pouquinho ainda do FLOP (com o Ferreira Gullar). Gostaria, na verdade, de te parabenizar por escrever sobre coisas da literatura, área tão minguada em nossa midia.
    Desculpas aceitas, então?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: