"José Lezama Lima nunca foi um escritor de multidões"


No último domingo, dia 19, completaram-se cem anos do nascimento de José Lezama Lima (1910-1976), poeta e escritor cubano que influenciou gerações de autores latino-americanos. Escrevi para o Sabático de 18/12 o texto abaixo, buscando saber como é esse legado hoje em Cuba.

Durante a apuração, me chamou a atenção o fato de ser tão difícil encontrar livros dele no Brasil, fato que também abordei na reportagem. E só depois da publicação dela (e graças a isso) fiquei sabendo de uma novidade bem bacana, que conto mais pra frente por aqui.

Abaixo, o poeta no traço de Juan David, em caricatura de 1954.

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Nome que marcou toda uma geração


Fora de catálogo no mercado brasileiro, o cubano foi central para iniciantes de sua terra natal, nos anos 80

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

É simbólico que, numa busca por livros de José Lezama Lima pelas principais livrarias online do Brasil, os únicos exemplares disponíveis sejam importados. Editado em pequenas doses por aqui a partir da década de 80 – quando sua obra foi liberada também em Cuba, após as dificuldades inicialmente impostas pela Revolução -, o autor desapareceu das prateleiras nacionais sem chamar a atenção. O mais importante título, Paradiso, saiu em 1987, pela Brasiliense, que no ano seguinte pôs nas livrarias os ensaios de A Expressão Americana. Em 1993, foi a vez do volume de contos Fugados (Iluminuras) e, em 1996, de A Dignidade da Poesia (Ática), ambos vertidos por Josely Vianna Baptista, tradutora também de Paradiso.

“Lezama nunca foi um escritor de multidões”, resume a professora Irlemar Chiampi, que verteu A Expressão Americana. “Ele é um escritor que influencia outros escritores, que vai às profundezas das referências culturais e poéticas da palavra.” Não à toa, um de seus maiores entusiastas em território nacional foi Haroldo de Campos, o “mais barroco” dos concretistas – e que, em carta a Octavio Paz, em 12 de julho de 1978, chegou a anunciar um projeto, nunca levado a cabo, de um livro dedicado ao cubano.

Há cinco anos na Alemanha, como residente do Programa de Escritores no Exílio do P.E.N. Center, o cubano Amir Valle, de 43 anos, hoje “se atreve a assegurar” que a obra de Lezama é mais conhecida fora de Cuba do que na ilha. “Em todos os países que visitei, me chamou a atenção ver como escritores e acadêmicos mencionam apenas cinco nomes quando se trata de clássicos cubanos: Reinaldo Arenas, Cabrera Infante, Virgilio Piñera, Alejo Carpentier e Lezama Lima.” Valle coloca os três últimos como os mais comentados ainda hoje entre os jovens de sua terra natal, mas faz a ressalva: “Para ser franco, Lezama influenciou um grupo muito pequeno de escritores cubanos. Posso dizer que há mais autores que apenas dizem tê-lo lido do que aqueles que de fato o leram.” Nos anos 90, conta o autor, chegou a ser moda na ilha escrever num estilo “lezamiano, enredado”. “Por sorte, isso durou pouco. De todo modo, ele segue sendo lido. É um clássico de nossas letras e isso faz dele leitura imprescindível.”

Valle faz parte de uma geração que, quando começou a escrever, no início da década de 80, já tinha acesso a livros de Lezama, um dos autores que mais haviam sofrido as intolerâncias iniciais da revolução. “Hoje se tenta esconder uma verdade: Lezama foi marginalizado e censurado por um governo que o acusou de não integrado, de autor de elite, mas também por escritores que depois foram para o exílio. A revolução não pôde esmagá-lo porque já era respeitado no mundo todo, mas o cercou de muitas maneiras”, conta. Depois de sua morte, em 1976, o governo promoveu uma espécie de resgate de sua figura, mas “reescrevendo a história triste de um homem que nunca quis se exilar e morreu no ostracismo”. É uma versão cheia de “buracos negros”, segundo Valle. “Durante os anos 80, nos quiseram enfiar Lezama por todo lado, reeditaram seus livros, permitiram a publicação de ensaios sobre sua obra – desde que não se fizesse referência à censura que ela havia sofrido. Isso marcou muito os escritores de nossa geração.”

Diretor da editora Letras Cubanas, o poeta Rogelio Riverón, de 46 anos, foi um desses autores que conheceu Lezama ao mesmo tempo em que descobriu a literatura. “A obra dele não podia ser ignorada nem por aqueles que tentavam fazer isso”, recorda. Por ocasião do centenário de nascimento do poeta, a casa dirigida por Riverón ficou responsável pela publicação das Obras Completas do veterano, além de uma antologia com imagens inéditas. A efeméride levou ainda a União de Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) a realizar, desde fevereiro até o fim deste ano, palestras, lançamentos de livros e exibições de filmes.

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5 Respostas

  1. Deixei aberta esta aba no Chrome para ler depois, quando me deparo com uma citação do Cortázar (em Volta ao dia em 80 mundos – Tomo I) a esse escritor. Adoro essas pequenas coincidências da vida…

  2. “Citou uma frase de Lezama Lima: ‘Um médico nosso só identifica dois ritmos cardíacos, enquanto um médico chinês consegue encontrar quatrocentos sons bem diferenciados'” (No capítulo “Diálogo com maoris”)

    No capítulo “Não há pior surdo que aquele que”, uma espécie de ensaio sobre a literatura rio-platense da época, Lezama Lima é citado, também.

    Ao final do Tomo I há ainda um série de citações, dentre as quais 3 dele:

    “Agora já sabemos que a única certeza se engendra naquilo que nos ultrapassa.”
    “Mostramos a maior quantidade de luz que, hoje em dia, pode mostrar um povo na Terra.”
    “O desconhecido é quase a nossa única tradição.”
    (Todos são do livro “A partir da poesia”)

  3. E no Tomo II, que acabei de começar, há um longo capítulo intitulado “Para chegar a Lezama Lima”

  4. Conheci o Lezama no “Antes que anoiteça”, do Reinaldo Arenas. Ele é citado várias vezes no livro. Infelizmente nunca li nada dele.

    Aliás, já que o assunto é citação: em uma parte de “Os detetives selvagens”, o Bolaño conta a história de dois escritores latino-americanos que foram “destruídos” pelo sonho da revolução. Ele não diz o nome de nenhum dos dois, mas dá pra perceber que um é o Arenas. O outro ainda não descobri. Se alguem tiver uma dica…hehe

    Parabéns pelo blog, Raquel!
    Abraços.

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