Lições de ousadia


(publicado na seção Ofício do Sabático de 1/1/11)

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Aos 93 anos, Bóris Schnaiderman, maior especialista em literatura russa no País, reorganiza biblioteca e prepara lançamento de dois livros

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Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Até poucos meses atrás, uma chuva forte como a daquela segunda-feira em dezembro seria um contratempo para Bóris Schnaiderman. Para chegar ao escritório, nas redondezas da Praça Marechal Deodoro, o tradutor teria de esperar por uma carona da mulher, a professora de semiótica Jerusa Pires – um trajeto de apenas meia dúzia de quarteirões desde o apartamento do casal, ali perto da Praça Buenos Aires, mas que, feito de carro numa Higienópolis chuvosa, pode tomar meia hora da vida de alguém. Se houvesse tempo bom e incompatibilidade de agenda com a mulher, então Schnaiderman percorreria a distância a pé mesmo, aos 93 anos, para preocupação de Jerusa: “É perto, mas é longe, sabe?”

Naquela segunda-feira, ao receber a reportagem do Sabático, Schnaiderman havia vencido a distância entre a casa e o escritório em coisa de três minutos. E só dimensionou o temporal quando uma ventania avançou pela janela entreaberta e derrubou o León Ferrari pendurado sobre o piano, interrompendo a conversa. Desde novembro, seu local de trabalho não fica mais a quadras de distância, e sim sete andares acima de sua moradia, no mesmo prédio, bastando chamar o elevador. “Ainda não está tudo instalado”, desculpou-se o tradutor ao abrir a porta, referindo-se às pilhas de livros nas estantes, em caixas e no chão. “A mudança é recente. Não pude me dedicar à arrumação, vieram encomendas de trabalho…”

Schnaiderman e Jerusa lidam há 25 anos com uma realidade da vida conjunta de estudiosos de letras: os livros não param de chegar. O resultado é que, além do lugar onde vivem, tiveram de ir adquirindo outros. Na conta final, chegaram a 220 m² só para acomodar as bibliotecas, divididas em quatro apartamentos: dois para títulos pertencentes ao casal, um para obras de referência e também escritório dele, e o último para livros e trabalhos dela. O espaço recém-alugado tem 110 m², de modo que boa parte das obras teve de ser doada, outra parte ainda o será, e uma última leva, por falta de espaço, ficará num dos antigos apartamentos.

No que depender de encomendas de trabalho, a arrumação que preocupa o tradutor não deve terminar tão cedo. Responsável pela criação do curso de língua e literatura russa da USP, em 1963, ele está aposentado desde 1979, embora tenha permanecido ligado à faculdade por muitos anos. Mas ainda hoje recebe incansáveis propostas. Aceita muitas, recusa outras tantas. Nenhuma fica sem resposta – a característica gentileza o leva a formular educadas justificativas toda vez que declina um convite.

A dificuldade em encontrar tempo livre fez com que seu livro Tradução: Ato Desmedido, sobre o qual fala em entrevistas desde pelo menos 2004, permanecesse inédito até agora. A última leitura, “contra o relógio”, Jerusa fez na tarde em que Schnaiderman conversava com o Sabático. O título seria entregue na manhã do dia seguinte à editora Perspectiva. “É uma maravilha”, ela informou ao marido, talvez pela 20ª vez, considerando as tantas vezes que já leu o texto, e ele retribuiu com sorriso, modesto, como se fosse a primeira: “Gostou?” “É emocionante. É a história de uma vida inteira. É tão contemporâneo. Por isso que gosto do Bóris. Tem gente nova muito mais velha que ele.”

Quase irmão. Com ensaios inéditos e já publicados, o livro é o exercício do tradutor pensando a si mesmo e a tradução. Antes dele, neste semestre, deve sair Silêncio e Clamor, já entregue à editora. Reúne poemas do contemporâneo Guennadi Aigui traduzidos por Schnaiderman e analisados por ele e Jerusa. Em geral, Schnaiderman não se sente à vontade para traduzir poesia, tanto que preferiu verter Maiakovski e outros em parceria com os irmãos Campos, mas para Aigui, “quase irmão”, abriu exceção. “Sozinho não me abalanço. Ousei com Aigui porque não tem metro nem rima.”

Ousadia, aliás, é um tema abordado em Tradução: Ato Desmedido e que, ao ser mencionado, o faz demonstrar entusiasmo que contrasta com o jeito sempre manso de falar. “Ah, isso eu acho fundamental! Por isso chamei o livro de Ato Desmedido, porque é preciso ter a ousadia de afirmar as coisas em português. Tenho de me prender ao texto sem ficar tolhido por ele. É preciso criar na língua para a qual o estou transpondo.”

Schnaiderman também anda revendo sua antiga tradução para contos de Gorki, a sair pela Editora 34. A exemplo do que fez com Khadji-Murát (Cosac Naify), de Tolstoi, ele hoje prefere retrabalhar versões antigas. Perfeccionismo raro: as únicas críticas que se ouve sobre o trabalho do tradutor vêm dele mesmo, em especial em relação às investidas mais antigas.

“A primeira, de Os Irmãos Karamazov, fiz em 1944, quando não estava preparado. É um livro difícil. Para um principiante, era um absurdo.” Mas era preciso pagar contas e, embora não fosse ainda um apaixonado pelo ofício, o rapaz beneficiou-se do fato de ser bilíngue – o ucraniano chegou ao Brasil aos 8 anos, e em casa os pais sempre falaram russo. Durante a faculdade de Engenharia (por vontade, ele cursaria Filosofia, mas isso não cairia bem na época), procurou a editora carioca Vecchi, que lhe propôs verter o gigantesco clássico de Dostoievski. A vantagem em relação a outras edições correntes era óbvia: a imensa maioria da literatura russa chegava a partir de versões francesas. A tradução direta arrebatou a crítica, mas Schnaiderman sentiu vergonha: “Percebi as deficiências.” Ainda naquela época, traduziu A Fossa, de Aleksandr Kuprin, e então deu um tempo. Quando retomou os trabalhos, nos anos 60, empenhou-se em evitar as imperfeições. “Mas a própria mudança tinha seu viés criticável. Era rígida, solene demais. Eu corrigia demais. Tornava o texto gramaticalmente correto demais. Tolstoi e Dostoievski não tinham a preocupação da correção gramatical rigorosa, e eu a introduzia. Falseava por excesso de zelo”, diz.

Foi também nessa época, em 1964, que lançou seu único título de ficção, Guerra em Surdina, fruto de sua experiência como pracinha na Itália durante a 2.ª Guerra. A história por trás desse livro teve início quando, aos 23 anos, Schnaiderman soube que para pegar o diploma universitário precisava se naturalizar e servir no Exército. Não era fácil, em pleno Estado Novo, para um jovem com passaporte de capa vermelha, estampada com foice e martelo, ser aceito como cidadão brasileiro. A naturalização só saiu em 1941, um ano após a formatura. Ainda assim, por ter nascido na Ucrânia, ele não teria obrigação de ir para a guerra, mas prestar o serviço militar alimentou sua vontade de combater o nazismo.

À antiga União Soviética ele só teve chance de voltar em 1965, já como professor da USP. O curso que havia criado, o primeiro do País em literatura russa, àquela época tinha voltado a ser único na área – outros que haviam se seguido a ele foram extintos com o golpe de 1964. Schnaiderman foi preso várias vezes naquele período, mas não credita isso a alguma cisma contra o ensino do idioma dos comunistas. “Fui preso porque reagia contra a violência. Uma vez pararam uma aula minha e pediram documentos dos alunos. Daí protestei e me levaram.” Naquela época, conta, já havia se afastado do Partidão. “Tive lá minhas simpatias, mas durante a guerra fiquei muito revoltado com o pacto germano-soviético.”

Depois daquela primeira viagem, retornou à região meia dúzia de vezes. A última foi em 2008, e não imagina que vá voltar. “Não tenho mais condições”, lamenta. É bem verdade que, afora um discreto tremor nas mãos, não se percebe naquele senhor de claríssimos olhos azuis nenhum sinal de saúde frágil. Até dos óculos ele se livrou, anos atrás, após uma operação de catarata. E a memória é, como diz Jerusa, portentosa – datas, nomes, lugares, detalhes, nada lhe falta. O arquivo mental será, inclusive, como foi por toda a vida, o único sistema de catalogação das dezenas de milhares de livros que aguardam por seus devidos lugares nas estantes do novo escritório.

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4 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Leandro Oliveira and others. Leandro Oliveira said: RT @raqcozer: Aos 93, Bóris Schnaiderman reorganiza toda sua biblioteca e prepara lançamento de dois livros http://migre.me/3qg6K #abibl … […]

  2. O que seria do Brasil sem o Bóris? Como a literatura russa chegaria aqui? Ele merece a Academia Brasileira de Letras. Parabéns pela matéria!

  3. Muito interessante! Serve de estímulo para aqueles que desejam escrever cada vez mais. Aos 93 anos com plena motivação intelectual, não é para qualquer um.

  4. Graças a Belinski e a Schnaiderman adentrei no universo literário russo. Li incontáveis entrevistas e comentários seus, o que me valeu conhecimentos e alegrias. Aguardo ansiosa pelos seus livros.
    Grata, e um abraço. Sônia

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