Cidade fictícia, mas real


[publicado no Caderno 2 de 25/1]

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Em Entre Assassinatos, Aravind Adiga mostra dramas da sociedade na Índia

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

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Kittur é uma cidade localizada entre Goa e Calcutá, ali na beirada do mar Arábico, e que, pelas paisagens e riquezas históricas, merece no mínimo uma semana de atenção do turista interessado em conhecer o sudoeste da Índia. A partir dessas informações, é importante para o leitor saber também que Kittur é uma localidade fictícia, cenário inventado pelo escritor Aravind Adiga para interligar os contos de seu mais recente livro, Entre Assassinatos. Mas uma cidade que, por sua diversidade de religiões, raças e línguas, poderia ser qualquer outra no país.

É assim, como destino turístico, que a cidade-personagem é apresentada no volume pelo premiado escritor de 36 anos, destaque da atual literatura indiana. Após recomendar a estadia de uma semana no local, Adiga passa a descrever como podem ser aproveitados esses sete dias, em trechos no estilo de um guia turístico que aparecem intercalados com os contos propriamente ditos. Entre uma e outra história, ficamos sabendo, por exemplo, que o local tem 193.432 habitantes segundo o mais recente censo, dos quais apenas 89 declaram não ter religião ou casta.

“A sobreposição do guia turístico em relação aos contos é em parte funcional, já que nos ajuda a ver essa cidade, e em parte irônica, porque as histórias contadas são sempre mais sombrias do que o tom claro dos parágrafos introdutórios poderia sugerir. Foi uma tentativa de explorar a diferença entre as versões oficiais da história do que realmente acontece em uma cidade”, afirma, em entrevista ao Estado por e-mail, o autor que, em 2008, venceu o prestigioso Man Booker Prize por seu romance de estreia, O Tigre Branco.

Embora tenham sido publicados bem depois do livro que tornou Adiga conhecido, os contos de Entre Assassinatos surgiram de forma simultânea à história do romance. “Muitos dos temas de O Tigre Branco estão presentes nos contos, de formas diferentes. Por exemplo, no conto em que o chofer de uma madame que, para mudar de vida, está tentado a cometer um crime”, diz.

A diferença maior está nos períodos em que transcorrem as histórias. Os assassinatos a que se refere o título da coletânea de contos são os dos líderes indianos Indira Gandhi, em 31 de outubro de 1984, e seu filho Rajiv Gandhi, em 21 de maio de 1991. É uma fase anterior à da abertura da economia da Índia, que aconteceu no ano do segundo crime, de modo que refletem os desafios da população na era socialista. A narrativa de O Tigre Branco se passa nos dias atuais, de capitalismo consolidado.

“A Índia hoje é muito diferente da velha Índia socialista da era pré-1991. No entanto, se as histórias são boas, o leitor deve sentir como se fossem atuais. Os leitores na Índia responderam bem aos contos, então devem sentir que são histórias ainda relevantes para o que eles vivem hoje.”

Castas e religiões. Os personagens apresentados em Entre Assassinatos têm em comum, na maioria dos casos, uma vontade intrínseca de mudar de vida, que esbarra em tanto em barreiras sociais quanto psicológicas – sempre descritas com a característica ironia do autor.

Um exemplo é a história do menino Ziauddin, no conto que abre o livro. Muçulmano, o garoto batalha para se firmar profissionalmente num bairro de maioria hindu, mas não resiste a pequenos deslizes que comprometem seu discurso de que “muçulmanos não fazem safadeza”. E, no entanto, é justamente um momento de reflexão que o coloca num dilema quando, enfim, alguém o trata com o respeito que ele tanto acredita merecer.

Conceitos estabelecidos localmente sobre as diferentes castas e religiões, aliás, movem a maior parte dos contos. Em outra história, uma velha cozinheira virgem de origem brâmane, a casta mais alta da sociedade, tenta mostrar para o patrão que tem mais valor que a jovem empregada de origem hoyka, casta desfavorecida à qual pertence a grande maioria da população: “Não sou eu quem está fazendo barulho, patrão: é aquela menina hoyka. Ela não conhece os nossos modos brâmanes!”, argumenta, a certa altura.

Apesar da forte crítica social que desfia ao longo das narrativas, Adiga destaca o caráter democrático da Índia, onde a população pode expressar por meio do voto a raiva e o sentimento de injustiça alimentados pelo cotidiano. “Para mim, o evento-chave que mostra essa força da democracia foi a derrota do governo em Délhi, nas eleições gerais de 2004. Num momento em que a economia estava crescendo, o governo perdeu de forma inesperada. Foi um sinal claro de que a maioria dos indianos não estava se beneficiando do tão falado boom econômico. Isso forçou os políticos a prestar atenção aos pobres.”

Mas ele admite que não só o governo tende a esquecer a pobreza. Até o início da vida adulta, conta, conheceu apenas personagens como aqueles de classe média retratados no livro. “Só fui conhecer a realidade dos pobres depois que me tornei jornalista. Até então, eles eram pessoas invisíveis: meus serviçais e cozinheiros.”

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4 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Telio Navega, Raquel Cozer. Raquel Cozer said: Aravind Adiga fala sobre Entre Assassinatos, escrito simultaneamente ao premiado O Tigre Branco http://migre.me/3KdgO #abibliotecaderaquel […]

  2. Oi, Raquel! Tudo bem?

    Ao ler seus comentários acerca da obra “Entre assassinatos”, fui imediatamente lançado de volta ao meu quarto, onde se encontra o livro que estou lendo atualmente. Trata-se de “O último suspiro do mouro”, do Rushdie, que também narra uma Índia multicultural e em busca de desenvolvimento econômico, contando a saga de uma família que tem origens na Espanha (Granada) e em Portugal. Crimes e adultérios vão se misturando a ideais políticos dos protagonistas na época da Segunda Guerra.

    Mas “Entre assassinatos” certamente despertou minha atenção. De forma geral, os contos têm me agradado bastante. No ano passado mesmo li Isaac B. Singer e adorei! Aravind Adiga entrará na minha prateleira de “próximas leituras”!

    Valeu pela dica!

    Beijos.
    Lucas.

  3. Nice blog, seus artigos e relatórios são ainda muito interessante obrigado
    medium , voyance

  4. […] sua aposentadoria da cadeira de diretor. No Vida Ordinária um infográfico para Seinfeld. Na Biblioteca de Raquel, uma análise do livro O Tigre Branco, vencedor do Man Booker Prize. No Mundo Fantasmo, Braulio […]

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