Novos clássicos em quadrinhos


Há tempos estava querendo escrever sobre o mercado em expansão dos quadrinhos, mas não tinha ideia de como levantar essa lebre, já que a expansão em si vem ocorrendo já faz alguns anos. Daí ouvi falar na intenção da Companhia das Letras de começar a lançar adaptações literárias pelo selo Quadrinhos na Cia e, juntando isso com o tanto de clássicos em quadrinhos que chegaram na redação em 2010, achei que tinha pano pra manga.

Falei com tanta gente que muita coisa teve de ficar de fora, inclusive a boa contextualização feita pelo Guazzelli, que além de quadrinista é mestre em comunicação e estudioso da história de HQs. Entre outras coisas, o fato de os quadrinhos terem até influenciado o cinema em sua origem; a força da Editora Brasil-América Ltda (Ebal) no segmento de adaptações em décadas passadas; e a diferença das atuais adaptações em relações àquelas (porque as da Ebal eram quadradas, “amarradas”, nas palavras dele, na comparação com as características mais ousadas das atuais).

Taí o texto, publicado no Sabático de hoje.

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Imagem de Os Sertões, de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa

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Com o crescimento da adoção por escolas públicas e particulares, editoras investem em adaptações para HQ de clássicos da literatura

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Clara dos Anjos, a personagem-título do último romance escrito pelo carioca Lima Barreto (1881-1922), demorou décadas para tomar forma. Nasceu numa versão rascunhada em 1904 e ficou de lado até 1921, quando o autor decidiu retomar a história, concluída no ano seguinte e publicada mais de duas décadas depois, em 1948. Em julho próximo, uma quarta etapa desta lenta evolução chegará às livrarias pela Companhia das Letras. Trata-se da versão em quadrinhos roteirizada por Wander Antunes e ilustrada por Marcelo Lélis, e que sinaliza uma forte entrada da editora numa disputa cada vez mais acirrada: a de adaptações de clássicos da literatura, especialmente a brasileira, com o objetivo de adoção por escolas das redes pública e privada.

Com duas adaptações traduzidas previstas para este semestre – A Divina Comédia, de Dante, por Seymour Chwast, e Na Colônia Penal, de Franz Kafka, por Sylvain Ricard-Mael -, o selo Quadrinhos na Cia está em negociações com artistas e escritores para outras versões de obras nacionais, segundo o editor André Conti: “Há mais projetos em andamento. Um selo tem que ser saudável, e uma das maneiras de um selo ser saudável é ter livros para adoção em escolas.”

Por saúde, entenda-se retorno financeiro. Embora o selo de HQ da editora paulistana tenha emplacado grandes lançamentos desde 2009, quando foi criado, a venda para o governo é garantia de tiragens até dez vezes maior que as usuais, estas em torno de 2 mil ou 3 mil exemplares. Além disso, obras baseadas em clássicos da literatura têm mais chance de serem escolhidas para uso em escolas particulares – o que garante as vendas de tiragens inteiras, mesmo que não tão grandes quanto as adquiridas pelo governo.

Não que quadrinhos com roteiro original também não venham sendo beneficiados pelo Programa Nacional de Biblioteca da Escola (PNBE), que selecionou 38 títulos em HQ ou imagem dentre os 300 a serem distribuídos para uso em aula neste ano. Os eleitos incluem adaptações como O Guarani e O Cortiço (Ática), mas também as sagas de heróis Necronauta (HQM), de Danilo Beyruth, e Demolidor, o Homem sem Medo (Panini), de Frank Miller e Romita Jr.

Mas, num momento em que o gênero apenas começa a superar o que o quadrinista Eloar Guazzelli define como preconceito histórico, as HQs derivadas de clássicos assustam menos por envolverem literatura. “Elas formam um caldo de cultura em que as crianças crescem e ampliam horizontes”, avalia o autor, que já adaptou O Pagador de Promessas (Agir), de Dias Gomes, A Escrava Isaura (Ática), de Bernardo Guimarães, e Demônios (Peirópolis), de Aluísio Azevedo.

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O Pagador de Promessas, de Guazzelli

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Embora o PNBE tenha sido instituído em 1997, HQs só passaram a ser adquiridas para uso em sala de aula em 2006. A possibilidade de venda para os governos federal e estadual levou editoras a prestar atenção nesse nicho.

Foi no ano passado que se tornou notável o número de adaptações em quadrinhos. A Companhia Editora Nacional, que entrou nesse mercado em 2005, publicou em 2010 sete de seus 15 títulos do gênero. A DCL, após o sucesso de Domínio Público (2008), com versões de vários autores, comprou no ano passado uma coleção com sete clássicos e criou o selo Farol HQ, disponibilizando, entre outros, Robinson Crusoé e Moby Dick – só este último teve 25 mil cópias distribuídas para escolas públicas e 9 mil para livrarias e colégios particulares. Para 2011, a editora prevê 12 publicações do gênero, incluindo suas primeiras adaptadas por artistas brasileiros.

“A aceitação de HQs na escola é fenômeno novo. Três anos atrás, ouvia-se que era melhor investir em prosa. Hoje é possível lidar com essa linguagem diferente. Quando o governo validou os quadrinhos, as escolas particulares passaram a rever seus conceitos”, diz Daniela Padilha, editora da DCL. “Muitas vezes, os professores é que perguntam se não vamos lançar tal título, e então avaliamos.”

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O Alienista, de Fábio Moon e Gabriel Bá

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Responsável pela publicação de um dos maiores sucessos dessa tendência – O Alienista, com ilustrações e roteiro de Fábio Moon e Gabriel Bá, vencedor do Prêmio Jabuti de livro didático ou paradidático em 2008 e hoje com quase 100 mil exemplares vendidos -, o Grupo Ediouro amadureceu o método de produção. “Começamos com o trabalho de adaptação e preparação de texto dentro de casa. Analisamos com muito cuidado o texto, para que não perca o ritmo nem o estilo, e até a pertinência do tema em aula”, diz a diretora editorial Leila Name.

Para este ano, o grupo prepara seis títulos, a começar por Pedro Mico, de Antonio Callado, para maio. Outros três, de autores contemporâneos e com os quais o público mais jovem já se identifica, também prometem virar sucesso: Morangos Mofados e Onde Andará Dulce Veiga, de Caio Fernando Abreu, e Mandrake, de Rubem Fonseca. “O formato renova o público leitor. Tem garotada lendo Machado de Assis com mais entusiasmo. Uma leitura difícil como Os Sertões torna-se mais palatável”, diz Leila, referindo-se à adaptação de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa que chegou às livrarias no fim de 2010.

É justamente o discurso de porta de entrada para a literatura o que mais alimenta críticas contra as adaptações. “Não acredito que alguém vá ler Dom Casmurro só porque leu Machado em quadrinhos antes. O sujeito vai se sentir desobrigado a ler”, diz Thales Guaracy, diretor editorial de ficção e não ficção da Saraiva, responsável pelos selos Benvirá, Caramelo e Arx, que, no ano passado, publicou Frankenstein e Histórias de Poe. “Não foi um grande negócio. Não vamos fazer mais”, diz.

Para o professor de literatura brasileira da USP Alcides Villaça, a questão é mais simples. “Literatura e quadrinhos são formas narrativas diferentes, linguagens que têm valor em si mesmas.” Villaça é a favor do uso de HQs em aulas, mas não como substituições às obras, e sim dialogando com elas. “Não gosto da ideia de “porta de entrada”. O professor deveria definir o âmbito das linguagens, respeitando ambas.” A argumentação é simples: na literatura, a articulação verbal é fundamental, enquanto na HQ ela não é central. Usar uma no lugar da outra seria, então, como exibir em sala de aula um filme baseado numa obra e acreditar que os alunos estão dispensados de ler o livro.

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5 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Douglas MCT, Raquel Cozer, Tuca, Andre Vallias, Erica Elke and others. Erica Elke said: RT @raqcozer Quadrinhos na Cia terá clássicos nacionais, Ediouro prepara Caio Fernando em HQ… E mais http://migre.me/3LRli […]

  2. Oi, Raquel, achei realmente uma grande pena que, embora eu tenha sido entrevistada, náo houve nem ao menos menção à adaptação nacional da Divina Comédia e nem aos demais títulos da Peirópolis na sua matéria. Senti-me invisível, transparente.

    • Renata, eu citei a HQ Demonios (e o nome da editora), que tambem teve uma pagina reproduzida na versao impressa – so nao coloquei no blog pq fiz o post de casa e a nao tinha a reproduçao da pagina aqui. Conversei com muita gente que nao citei nominalmente na reportagem, mas todas as entrevistas foram fundamentais para entender esse movimento. Como editora, voce deve entender que ha casos em que eh necessario sacrificar bons detalhes em nome do todo – se eu tivesse de colocar tudo o que me foi dito nas varias conversas, ficaria relatorial. De qualquer modo, fui a primeira a falar da adaptaçao de vcs para a Divina Comedia, tambem no Sabatico, e muito do que conversamos pode ser aproveitado em outras oportunidades. Nao entenda como descaso, pq acho o trabalho da Peiropolis em HQs muito bom. Bjs, Raquel

    • Alias, ha mais um detalhe importante sobre o assunto, que mando pra voce na segunda-feira, quando chegar a redaçao. Bjs

  3. […] Fonte: A Biblioteca da Raquel […]

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