Missões e traduções


Sobre minha coluna publicada no sábado, duas coisas:

– A tradutora Denise Bottmann ficou com uma pulga atrás da orelha ao ler sobre a tal editora Legatus, que vende gato por lebre em traduções de clássicos na Amazon, e fez uma série de posts sobre o assunto, destacando as principais bizarrias. Ontem, tanto ela quanto o leitor Clelio Toffoli Jr me escreveram ao perceber uma coisa: os títulos que apareciam com tradução de Paulo Besera, mencionados na Babel, agora aparecem com José Geraldo Vieira como tradutor. A nota destacava que a tradução de O Idiota “assinada” por “Besera” era na verdade do José Geraldo. Pelo jeito o dono da Legatus andou nos lendo. Na dúvida, trocou todos os nomes. Inclusive creditando a José Geraldo títulos que ele nunca traduziu.

– A Dolores Manzano, gerente do Brazilian Publishers, escreveu ontem para tirar uma curiosidade meramente pessoal: queria saber por que achei as missões de prospecção de mercado na África mais interessantes que os outros detalhes sobre os quais conversamos acerca do projeto de ampliação de vendas de obras brasileiras no exterior. Pensei um pouco e respondi que foi olhar jornalístico, mesmo, mas ali no meio do caminho já tinha admitido: no ano passado, ao apurar sobre o assunto, me apaixonei pela causa da circulação de obras entre Brasil-Portugal-países africanos em língua portuguesa.

E então lembrei que minha reportagem sobre o tema, capa do Sabático em 4 de setembro do ano passado, não tinha sido publicada aqui no blog na época. Como é um assunto ao qual pretendo voltar ao longo deste ano, até por causa das missões de prospecção em Angola e Moçambique, segue o texto abaixo.

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Diálogo desigual na mesma língua

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Incentivos portugueses apresentaram gerações de autores lusos e africanos ao País, sem reciprocidade

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

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Entre Angola, Portugal e Brasil, o escritor Ondjaki escolheu há dois anos a terceira opção como moradia. Nasceu em Luanda, passou os primeiros anos da juventude em Lisboa e foi no Rio que recebeu, nesta semana, a notícia de que está pela terceira vez entre os finalistas de uma das maiores honrarias para livros em língua portuguesa editados no Brasil, o Prêmio Portugal Telecom. Concorre com o romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético (Companhia das Letras), também recém-anunciado entre os dez candidatos à categoria juvenil do Prêmio Jabuti.

Se um país tem influência no reconhecimento do angolano de 32 anos em terras nacionais, esse país é Portugal. AvóDezanove, assim como três outros títulos de Ondjaki aqui publicados, contou com o programa de apoio à edição de obras de lusitanos e africanos promovido pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), com sede em Lisboa. Foi o caso também dos recentes A Máquina de Joseph Walser, do angolano Gonçalo M. Tavares, A Trança Feiticeira, do macaense Henrique de Senna Fernandes, e de outros cerca de 220 títulos lançados no Brasil desde 2002, quando o Ministério da Cultura de Portugal adaptou para o maior território de mesmo idioma um incentivo que desde os anos 80 ajudava autores a ganharem traduções mundo afora. Em vez de apoiar editoras daqui com os custos de tradução, já que esta, naturalmente, não é necessária, a entidade passou a arcar com algo entre 30% e 60% do valor que casas brasileiras gastariam na produção dos livros. Também pagou viagens desses escritores a feiras literárias como a Flip.

O resultado desse trabalho – e também da atuação do Instituto Camões, mantido pelo governo lusitano – foi que ao longo desta década o Brasil conheceu mais de uma geração de autores lusófonos, como o moçambicano Mia Couto, o angolano José Eduardo Agualusa, os portugueses Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares e José Luís Peixoto, e o próprio Gonçalo – ganhador em 2007 da primeira edição do Portugal Telecom, que incluiu autores de outros territórios lusófonos. “O livro impresso em Portugal e exportado ao Brasil chegava a preços incomportáveis para os leitores devido aos custos de importação”, diz Fabíola Afonso, diretora-geral da DGLB. “O apoio permitiu a atualização do conhecimento sobre a produção literária portuguesa contemporânea. Antes, eram conhecidos dos brasileiros sobretudo autores clássicos mais emblemáticos, como Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.”

Enquanto isso, a literatura brasileira experimenta efeito inverso no além-mar. Ondjaki conta que já tentou indicar escritores que conheceu no Brasil a editores portugueses. “Eles dizem que é difícil, que não vende. Isso vem se tornando mais perceptível nos últimos cinco, dez anos. Os brasileiros são respeitados do ponto de vista intelectual, mas não vendem perto do que já venderam. Não sei a razão.” Não chega a ser mistério, na verdade. Ao contrário do governo português, o do Brasil não tem nenhum incentivo estabelecido para levar sua literatura aos outros países da comunidade lusófona.

“Precisamos conhecer melhor o que vem sendo feito em Portugal. Eles têm feito um bom trabalho. Não é um dos fortes do Brasil”, admite Marcelo Dantas, diretor de Relações Internacionais do Ministério da Cultura brasileiro. O fato é que o País está um passo atrás – enquanto em Portugal foram feitos grandes investimentos na rede de bibliotecas nos últimos 30 anos, esse é um cenário que só agora começa a se desenvolver por aqui. “Antes de estabelecer o diálogo desejado, falta superar deficiências internas. Bibliotecas, políticas de fomento, número de leitores”, diz Dantas.

Agualusa, um dos donos da editora Língua Geral, especializada em livros no idioma português, afirma que é perceptível a diferença entre o leitor português e o brasileiro, resultado dessas diferenças nas políticas culturais. “O público leitor em Portugal é mais sofisticado, lê mais e melhor. As tiragens de obras literárias são similares, sendo que há uma diferença de dez para 200 milhões de habitantes. Assim, é incompreensível que um grande autor como Rubem Fonseca não venda mais tanto em Portugal.”

Nem sempre foi dessa maneira, como lembra Benjamin Abdala Júnior, professor de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na USP. “África e Portugal olhavam muito para o Brasil, para o modernismo, o regionalismo. (O angolano) Luandino Vieira deve muito a Guimarães Rosa. Na época do salazarismo, intelectuais portugueses recorriam a escritores mais críticos no Brasil. Graciliano Ramos foi importantíssimo. O fato de nossa literatura ter perdido o impacto mostra que falta coordenar edições brasileiras no exterior.”

Parcerias. Um dos curadores desta edição do Portugal Telecom, Abdala vê nas premiações que reúnem países de língua portuguesa o efeito de voltar a aproximar esses cenários. É o caso ainda do Prêmio Camões, que o poeta maranhense Ferreira Gullar recebe no dia 16, na Fundação Biblioteca Nacional – o valor de 100 mil é pago meio a meio pelos governos de Brasil e Portugal. Outras parcerias entre os dois principais países da comunidade lusófona são eventuais, como na atual exposição sobre Fernando Pessoa em cartaz no Museu da Língua Portuguesa – em pouco mais de quatro anos da instituição, esta é a primeira mostra dedicada a um autor português. A organização incluiu uma parceria – os ministérios da Cultura de ambos os países indicaram os curadores -, e a intenção é, depois da passagem pelo Rio, levar a exposição a Lisboa, no segundo semestre de 2011.

O Brasil, entretanto, tem noção da importância de fortalecer o idioma, o terceiro mais falado no mundo ocidental. Prova disso é 1.º Congresso de Cultura de Língua Portuguesa, previsto para ocorrer de 1.º a 7 de novembro no Rio. Arcado pelo governo brasileiro e dividido em uma série de módulos, como teatro e música, terá um ciclo de mesas sobre língua e literatura. “Vamos trazer escritores de outros países, só a gente pagando. Ainda estamos orçando. Não sairá barato. Mas é importantíssimo manter esse diálogo. A literatura e o mercado do livro no Brasil precisam ser ampliados, e a comunidade lusófona é nossa área natural de expansão”, diz Marcelo Dantas.

Internacional. Muito se discute sobre a criação de um instituto para assumir as ações de apoio à língua e à literatura em português. O problema é que ele já existe. Idealizado durante encontro promovido pelo governo Sarney, em 1989, e instalado em Cabo Verde apenas dez anos depois, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa acabou se tornando um entrave para qualquer política nesse sentido ao virar o centro de uma desavença relacionada ao Acordo Ortográfico, que não prevê especificidades da realidade linguística dos países africanos.

No ano passado, a diretora, a angolana Amélia Mingas, deixou a instituição reconhecendo que o IILP não tinha nenhum fundo para trabalhar, e foi substituída pelo brasileiro Gilvan Müller de Oliveira. No último dia 25, um comunicado no site do Instituto Camões anunciava a intenção de escolher por concurso um novo diretor e dotar a instituição de “estrutura de apoio”. Enquanto isso não acontece, foi destinado ao local um “orçamento de funcionamento” de 209 mil. “É uma salinha com três pessoas”, informa Dantas. “Ninguém sabe onde está, ninguém sabe o que faz. É um fantasma”, afirma Ondjaki. A página da instituição criada para fortalecer o idioma faz jus à fama de assombração. Não tem e-mail nem telefone para contato, e em nenhum lugar aparece um endereço para correspondência. A atualização mais recente trata de um importante simpósio de língua portuguesa. Em 2008.

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No vídeo, o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa, dois autores que ficaram conhecidos por aqui graças a ações do governo de Portugal, falam sobre o tema na Bienal do Livro do ano passado, em mesa mediada pelo atual curador da Flip Manuel da Costa Pinto. “Os moçambicanos não sabem o que acontece no Brasil em termos literários”, diz Mia Couto.

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6 Respostas

  1. Raquel,

    Achei você através do Não Gosto de Plágio, da Denise.

    É importantíssimo que estes casos de cópias, plágios e publicações não autorizadas sejam denunciados. A pequena parcela da população que consome livros devia ser tratada com mais respeito.

    Gostei muito do seu blog. Já estou assinando.

  2. Tenho lido uns contos e romances do Luandino e do Mia Couto. Mia Couto, com seus neologismos pontilhando seus textos, é extraordinário (em “Terras abensonhadas”, p. ex.). O conto mais antigo que conheço do Luandino é de 1954 e ele não parou de escrever desde então, com enfoque para contos e romances com forte articulação com a história e a sociedade angolana, pintando situações ilustrativas da vida no país (como é costume de muitos escritores africanos – o nigeriano Chinua Achebe fez isso fantasticamente em “O mundo se despedaça”). Isso significa que o Luandino atravessou escrevendo desde o fim do período das negociações entre líderes africanos e europeus para a descolonização e a frustração da independência angolana naquela época, passando pela guerra contra Portugal em Angola a partir de 1960, pela concretização da mesma em 1975 e pela guerra civil a partir daquele ano. A longa e tortuosa história da formação de um país contada sob o ângulo da literatura. Comecei com o primeiro livro, “A cidade e a infância”, e quero ver se continuo cronologicamente para acompanhar isso. Excitante possibilidade!

    • Que delícia. Sabe que estou com três Luandinos lá em casa, incluindo A Cidade e a Infância, e não consegui parar para ler? Acho que, em se tratando de contos, dá pra arrumar um tempinho. Bacana a ideia de acompanhar a história do país, enquanto ela acontece, pelo olhar da literatura. Beijo, Raquel

  3. Oi, Raquel,

    não conhecia o texto, obrigado. Estou justamente começando a estudar a relação intercultural dos países lusófonos na literatura, a discussão em torno do conceito de Lusofonia etc.

    Gosto muito do http://www.buala.org/ você conhece?

    Obs.: Acho que fomos contemporâneos de ECO-UFRJ, fiquei lá de 96/2 a 02/1.

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