Metamorfose para o e-book 2.0



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Acima, versão para iPad de Alice no País das Maravilhas. Lançada em abril do ano passado nos EUA, tornou-se referência das possibilidades de um livro multimídia

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[Texto publicado no Sabático de 12/2]

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Infantis, arte e quadrinhos são as primeiras áreas em que as editoras nacionais investem na produção de livros interativos e multimídia, de olho na expansão dos tablets

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Desde janeiro, editores e designers da paulistana Bei convivem com um corpo estranho para o ambiente de trabalho ao qual estavam habituados. A mais recente contratação da casa, especializada em títulos de arte, culinária e turismo, foi a de um cinegrafista, Marco Aslam. A existência na editora de um funcionário fixo responsável pela produção de vídeos, algo inimaginável anos atrás, reflete uma evolução do mercado que, com a chegada de tablets (computadores portáteis) como o iPad e o Galaxy, começa a ganhar força no Brasil.

Trata-se dos enhanced e-books (livros digitais aprimorados) ou, como preferem alguns editores por aqui, e-books 2.0, capazes de oferecer recursos interativos como áudio, vídeo, foto e animação. No limiar entre o livro e alguma coisa tecnológica demais para ser aceita como tal pelos mais tradicionais (na verdade, são programas chamados aplicativos), essas publicações eletrônicas ganharam no segundo semestre do ano passado suas primeiras versões nacionais, por editoras como a Bei, a Saraiva e a Globo – a pioneira, com uma versão lite de A Menina do Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato, disponibilizada de graça desde agosto na loja da Apple. Vários outros projetos estão em andamento em casas como a Peirópolis, que prepara quadrinhos e obras infantis, e a Ediouro, que aposta nos recursos para obras de não ficção.

Assim como aconteceu com os e-books para Kindle e outros leitores eletrônicos do gênero, as editoras que começam a entrar nesse filão o fazem mais por precaução do que qualquer outra coisa. Não se espera nenhum fenômeno de vendas, mas o que não dá é para correr o risco de ficar para trás. O discurso, com variações mínimas entre editores, é resumido por Renata Borges, diretora da Peirópolis, que desenvolve quatro projetos de livros animados ou interativos: “Estamos trabalhando com um modelo de negócios que ninguém conhece ainda muito bem. Não tem retorno garantido, até porque nem os e-books só de texto têm números representativos no Brasil, mas é melhor estar preparado para o que vier.” O que pode vir desse formato será um dos temas centrais, por exemplo, da próxima Feira de Bologna (Itália), a mais importante do mundo na área de infantis e juvenis.

E não é um investimento baixo. Um dos projetos mais simples em desenvolvimento pelo Grupo Ediouro, a versão em aplicativo da biografia de Lobão, 50 Anos a Mil (que terá apenas áudio e vídeos além do texto digital), sairá por algo em torno de R$ 25 mil. Quando estiver pronto, em março ou abril, o livro para iPad custará entre R$ 25 e R$ 30, enquanto a versão impressa está sendo vendida a R$ 59,90. “A expectativa de retorno não é alta. O importante agora é oferecer um produto multiplataforma para mostrar o que a editora é capaz de fazer”, diz Alexandre Mathias, diretor-executivo da área de livros do grupo.

Os trabalhos são realizados pela Singular, braço digital da Ediouro, que atualmente centra esforços no aplicativo de 1822, de Laurentino Gomes. A versão para iPad incluirá o áudio de Pedro Bial (já gravado e à venda) e também ilustrações e mapas pelos quais o leitor poderá “percorrer” o caminho feito por d. Pedro I até anunciar a Independência do Brasil às margens do Ipiranga. “No aplicativo será possível, por exemplo, clicar numa pintura e ver em que museu a tela está disponível hoje”, explica Newton Neto, diretor da Singular. O modelo desse livro, cuja produção envolve o trabalho de 12 pessoas, incluindo produtor, diretor e roteirista, servirá de base para todos os próximos a serem lançados pelo grupo. A previsão é que até dezembro saiam dez títulos, com destaque para o novo de Luiz Eduardo Soares, autor do livro que inspirou o filme Tropa de Elite.

Editoras focadas em literatura adulta não têm pressa em ingressar nesse formato por uma razão simples – do que se viu até agora de lançamentos no exterior, o gênero é o que apresenta menos possibilidades de exploração multimídia. Pelas alternativa no uso de imagens em movimento, são os livros de arte, quadrinhos e infantis que lideram essa investida. A Bei, por exemplo, tem muito material arquivado de livros já publicados que poderá ser aproveitado nas edições para tablet. Entre seus próximos lançamentos para iPad estão Ricardo Legorreta – Sonhos Construídos e Oscar Niemeyer – Uma Arquitetura da Sedução, cuja produção para papel precisou deixar de lado material precioso: longas entrevistas em vídeo com os arquitetos. No entanto, a editora optou por um título inédito para entrar nesse mercado. Lançado em dezembro em papel e para iPad, Fernando de Noronha 3º50″S 32º24″W teve mil exemplares vendidos na versão impressa e 60 na loja da Apple. “O curioso é que, mesmo lançado só em português, o livro para iPad teve boa parte de suas vendas fora do País, já que é uma obra muito focada nas imagens”, diz Tomas Alvim, diretor editorial da Bei. Para ampliar o público, próximos títulos sairão também em inglês.

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O idioma é só um dos entraves na dimensão das vendas para tablets. Renata Borges, da Peirópolis, destaca a dificuldade de criar para os diferentes tipos de plataformas. Por critérios de padronização, um livro criado para iPad não roda num Galaxy – os dois tablets têm inclusive tamanhos diferentes. As lojas nacionais de livros eletrônicos, como a Gato Sabido e a da Livraria Saraiva, também não suportam conteúdo animado. “Comercializar aplicativos é um plano, mas não a curto prazo”, informa a Saraiva aos interessados. Um problema e tanto para a Peirópolis, que, ainda neste mês, pretende lançar o aplicativo de Crésh!, de Caco Galhardo, e, em maio, Meu Tio Lobisomen (foto acima), de Manu Maltez. Os trabalhos estão sendo realizados em parceria com o Ateliê Ciclope, do poeta Álvaro Andrade Garcia, responsável pelo site da editora.

Nesse universo ainda a explorar, editores têm mais uma razão para investir nos projetos multimídia: no meio deste ano, deve ser apresentado a versão 3.0 do ePub, o formato padrão dos e-books, o que permitirá livros com vídeos e outros extras até nos aparelhos que hoje só permitem a leitura de texto.

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4 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Raquel Cozer, juju_gomes. juju_gomes said: RT @raqcozer: Áudio, vídeo, animação: o Brasil agora começa a viver a metamorfose para o e-book 2.0 >> http://migre.me/3S0gn #abib … […]

  2. A tecnologia é sempre bem vinda mas eu ainda fico com os livros impressos.

  3. […] No site da Revista Cult saiu uma matéria instigante sobre um lançamento da editora Boitempo: Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, de um titã do marxismo, György Lukács. A Revista Piauí publicou trechos do soturno diário de John Cheever. E você sabia que duplicou a venda de livros digitais em espanhol em janeiro? Saiba mais sobre a Metamorfose para o e-book 2.0. […]

  4. […] e ingleses. E fazia só dois meses antes eu tinha feito uma capa para o Sabático sobre as primeiras investidas de editoras brasileiras no formato – todas as citadas ali tateando, gastando uma grana, sem saber se a coisa daria […]

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