Ordinário, nada simples


Reparei na semana passada que a infiltração que apareceu no teto do banheiro, uma mancha pequena e escura, com uma rachadura aberta no meio, parecia um rostinho sorrindo. Não enxergo muito bem nem com lente de contato,  então precisei forçar a vista para perceber que só com muita boa vontade aquilo ali seria um smile. Na melhor das hipóteses, um problema não tão grave a resolver antes das férias.

Não costumo ser criativa assim, esse tipo de gente que vê duplo sentido até em nuvem, de modo que a ficha não demorou a cair. Sem me dar conta, ainda impressionada com Ordinário, primeiro livro com tiras do gaúcho Rafael Sica, estava tentando emular a capacidade de observação dele.

Por que, vamos combinar, é preciso ser muito observador para pensar em algo assim:

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Eu já acompanhava o blog do Sica, mas é impressionante como reunidas as tiras têm multiplicado o efeito de fazer parar para pensar.  É tudo muito simples, ou parece simples, e no entanto é informação que não acaba mais. Escrevi sobre o livro no Caderno 2 de hoje.

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Ordinário desvenda a solidão e a agonia do cotidiano

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

“Daqui a pouco vou desenhar bonequinho de palito”, imagina o quadrinista gaúcho Rafael Sica, após constatar a evolução de seu traço ao longo dos últimos anos – de algo grosseiro e caricato, conforme diz, a uma simplicidade quase ingênua, cuja busca o fez deixar para trás inclusive os balões de diálogos e a cor.

Ele não planeja chegar a esse extremo, é claro, mas o fato é que em Ordinário (Quadrinhos na Cia), seu livro de estreia, vale a máxima de que menos é mais. Todo composto por tiras silenciosas e em preto e branco, com personagens anônimos em situações que à primeira vista parecem corriqueiras, o volume faz um recorte tão sutil quanto incisivo dessa condição estranha que se chama humanidade.

Nas histórias, não raro a graça se confunde com a melancolia, caso do mímico que, encurvado sobre a cama, puxa uma luva da mesa de cabeceira, veste-a na mão e aponta o dedo para a cabeça como gesto final. Em outros momentos, as narrativas avançam para o surreal, como na sequência de quadros em que o mágico começa a serrar um voluntário e continua serrando e serrando, até sobrarem apenas quadradinhos de madeira no chão.

“Meu personagem central é o comportamento humano. Por mais que eu não busque um estereótipo e deixe as situações em aberto, as pessoas acabam se vendo naquelas situações, completando a coisa. O leitor se torna também um personagem”, avalia Sica. Durante os quase três anos teve tiras diárias publicadas no jornal popular Diário Gaúcho, em Porto Alegre, no entanto, entendeu que a mensagem pode passar despercebida ao leitor menos atento. “Recebia bastante resposta de gente que não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo”, lembra.

Nascido em Pelotas, em 1979, jornalista por formação e ilustrador autodidata, Sica mantém na internet o blog Ordinário, onde está boa parte das tiras agora publicadas – o livro, conta, estava previsto para sair desde 2007, mas de lá para cá mudou de editora e teve de esperar um novo cronograma. A estreia como cartunista aconteceu aos 17 anos, num jornal de sindicato dos bancários, e em seguida passou a publicar em um diário local. Sua fonte de inspiração eram charges humorísticas de periódicos, mas, passada a fase caricata, encontrou estilo próprio – que, argumenta, resultou de suas dificuldades como desenhista. “Essa coisa da ingenuidade que as histórias passam foi a forma que encontrei de lidar com as limitações do meu desenho. Não tenho o traço bonito, mas é algo que funciona com o que a tira tem a dizer”, avalia.

As ideias para as histórias vêm da observação do cotidiano, ainda que por vezes resulte em situações surreais (como a do peixe que fisga uma bota no lago, calça a bota e segue à margem da água empunhando a vara de pesca). E o ambiente de solidão e agonia, diz, pode ser qualquer lugar, mas encontrou cenário nas ruas de Pelotas, cujas fachadas neoclássicas “meio decadentes” o quadrinista procurou reproduzir.

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4 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Guilherme Kroll, Leandro Oliveira, Raquel Cozer, Raquel Cozer, Amanda Zampieri and others. Amanda Zampieri said: RT @raqcozer: Ordinário, nada simples << A biblioteca de Raquel http://t.co/XVXHhCY via @estadao […]

  2. […] Ordinário, nada simples […]

  3. […] p.s.: vale a pena ler o texto da Raquel Cozer sobre ‘Ordinário’, publicado no Caderno 2 do Estadão. […]

  4. […] em Ordinário, a Raquel Cozer escreveu sobre o livro para o Caderno 2. O Floreal, do Impulso HQ, comentou Ao coração da tempestade, de Will […]

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