Uma questão de gênero


Não gosto muito de discussões de gênero, por isso demorei a tratar aqui do assunto deste post (embora tenha tuitado a notícia quando saiu): uma pesquisa, divulgada semanas atrás em sites gringos, sobre o fato de grandes suplementos literários em língua inglesa terem muito menos resenhistas mulheres que homens, e também resenharem muito menos livros delas do que deles.

Vamos à pesquisa, e depois explico por que resolvi abordar o assunto agora.

A organização Vida: Women in Literary Arts dissecou vários jornais e revistas dedicadas à literatura ao longo de todo o ano de 2010 e constatou diferenças gritantes. Por exemplo, o New York Review of Books teve 39 resenhistas mulheres ante 200 homens assinando resenhas no período; além disso, publicou resenhas sobre 59 livros delas ante 309 livros deles. A New Yorker, por sua vez, teve só 8 colaboradoras ante 29 colaboradores; e 9 títulos de mulheres resenhados ante 36 títulos de homens.

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Arrufos (1887), de Belmiro de Almeida

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A abordagem da qual senti falta na pesquisa: no que diz respeito ao número de livros resenhados, isso não é um reflexo da quantidade menor de obras publicadas por elas do que por eles? Não sei se é uma diferença grande de fato, mas se o levantamento englobasse a proporção de livros publicados por gênero ficaria mais fácil entender se a disparidade no número de resenhas resulta de algum preconceito de editores ou é apenas uma herança de um mercado editorial eminentemente masculino no passado.

Não tenho dados sobre isso, só uma experiência pessoal. No ano passado, quando fiz uma enquete com 60 autores brasileiros sobre o caminho até a publicação do primeiro livro, levando em conta autores já publicados por grandes editoras, foi bem mais fácil encontrar  exemplos masculinos que femininos (no total, participaram 41 homens e 19 mulheres. Uma minoria de homens e de mulheres não respondeu ao questionário que mandei, não lembro quantos foram).

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Enfim. Resolvi tratar da questão aqui porque anteontem saiu um artigo com respostas de vários editores sobre a pesquisa, e achei que os argumentos ajudam a entender a numeralha.

Seguem alguns trechos que me chamaram a atenção:

David Remnick, editor da New Yorker (e que participa da Flip deste ano):  “Você está certa (em artigo sobre o tema publicado no dia 2 na Slate). Certamente tem sido uma preocupação antiga entre os editores aqui, mas temos de melhorar ainda – é tão simples e gritante assim”

Ellen Rosenbush, editora da Harper: “A Harper sempre publicou grande escritoras mulheres, de Edith Wharton a Jane Smiley a Joyce Carol Oates, Sallie Tisdale, Susan Faludi, Lynn Freed, Rivka Galchen — e planejo solicitar mais textos de escritoras. Quando me tornei editora da Harper, no ano passasdo, uma das primeiras coisas que anunciei para a equipe foi que gostaria de ver mais escritoras na revista. A escassez de histórias femininas, no entanto, é uma questão da indústria como um todo. Deve haver uma espécie de ressaca do passado que resultou em termos menos textos de mulheres, e eu gostaria de mudar essa equação.

Robert Silvers, editor da New York Review of Books: “Posso apenas esperar que nossos leitores apreciem a qualidade dos trabalhos de mulheres que publicamos. Ouvi de mulheres assinantes que elas ficam particularmente agradecidas por nossas contribuições femininas. Certamente esperamos publicar mais.”

Jonathan Chait, editor sênior do New Republic: “A maior parte dos homens no nosso negócio quer ficar longe dessa questão, porque entrar nesse debate sem endossar a resposta feminista é como se voluntariar como réu num julgamento por sexismo (…). Estou me voluntariando para responder (como escritor, não em nome da revista, ele esclarece) porque é uma questão que me preocupa há muito tempo. Presenciei conversas nas quais editores se davam conta de que a lista de colaboradores era muito masculina e tentavam remediar isso. (…) Dito tudo isso, a revista permanece eminentemente masculina. Minha explicação, que não posso provar, é que garotos são mais predispostos a se interessar tanto por produzir quanto por consumir jornalismo opinativo (…).”

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E você? Tem alguma opinião sobre isso tudo?

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13 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Douglas MCT, Raquel Cozer and O Espanador, Carlos Souza. Carlos Souza said: RT @raqcozer: Literatura, uma questão de gênero? << A Biblioteca de Raquel http://t.co/8GnX2ff via @estadao […]

  2. Já pensei sobre isso uma vez. Acho que na maioria das profissões as mulheres ainda não tem o mesmo tratamento que os homens, seja no número de colaboradores ou então na própria remuneração. Também não vejo tantas mulheres publicando por aí, não com a mesma frequência dos homens. Mas agora lendo o artigo me veio outra coisa: será que essa diferença entre a divulgação da produção de homens em mulheres é assim tão grande porque não há tantas mulheres quanto homens trabalhando nessa área?
    Enfim, acho que as pessoas ainda tem que quebrar algumas barreiras de gênero, histórias que ouvimos de desrespeito pelo trabalho da mulher e a falta de reconhecimento ainda são muitas (e absurdas), infelizmente.

    • É curioso que a gente mesmo nem sente na pele que esteja quebrando alguma barreira, embora existam indícios por aí… Nunca senti preconceito do gênero, pelo contrário. Na cobertura de quadrinhos, por exemplo, um monte de gente acha bacana saber que há moças interessadas no assunto. Mas já soube de repórteres ótimas e lindas, daquelas lindas de morrer, que sofreram o preconceito básico de “ah, essa daí deu pro chefe”. o.O

  3. bem, adoro o tema e raramente o evito, rs

    de minha parte, sempre faço a contagem, o papel de chata
    : seja em congresso, em antologia, em premiações, em ciclo de palestra: qual a proporção de mulheres? juro que já presenciei eventos de grande porte com 14 palestrantes homens para 1 única mulher! invariavelmente escrevo reclamando para a organização.

    mas lá temos alguma sorte – no cânone brasileiro não é possível afastar a presença feminina (talvez menos presente no cânone em espanhol latino-americano – estou chutando). cecília meireles, clarice, hilda, ana c. são inafastáveis, embora a pagu tenha sido/seja ainda questionada.

    o legal da pesquisa é que nunca reparei nas resenhistas, ficarei de olho. 😉
    e obrigada por me apresentar a v.i.d.a.!

    • Rsrs, faça bom uso da Vida, Ana =P. E depois me conta se encontrar algo mais curioso na pesquisa. Confesso que, por o tema não me interessar tanto assim, não me debrucei naquele monte de dados. Citei só o que me chamou mais a atenção. beijo, Raq

  4. Gostei da imagem do Belmiro de Almeida como ilustração. Acho que a expressão “ressaca do passado” resume um pouco a questão. Nas artes visuais, mais “abertas”, as meninas já ultrapassaram os meninos de longe. Talvez o jornalismo opinativo seja um pouco mais cristalizado. Conheci sua biblioteca recentemente e já está nos favoritos.

  5. Há alguns meses recebi de um amigo o material sobre um curso de cinema e literatura que ele estava organizando. Pasmem: não havia NENHUMA diretorA ou escritorA entre os 10 filmes e textos selecionados para o curso. 10 textos, 10 filmes, todos de autores homens. Perguntei para o meu amigo qual o motivo daquele absurdo e ele admitiu que conhecia pouco o trabalho das mulheres no cinema.

    Acho que esses casos são uma mistura de falta de conhecimento e má vontade mesmo.

    • Oi, Francine. Sabe que, quando eu trabalhava na Folha, meu editor quis colocar uma mulher entre os críticos de cinema e precisou buscar um bocado até encontrar alguém? Tempos depois esse editor acabou saindo, e a crítica, acho, foi esquecida novamente…

  6. Não somente o mercado, infelizmente, o ambiente literário ainda é muito masculino, sobretudo no Brasil.
    Que tal levantarmos homens e mulheres premiados? Consideremos só os nacionais dos últimos dez anos e vamos ver no que dá…
    E o que dizer das listas de participantes em eventos literários? (Por favor, não vamos falar em “cotas”). Lembro da última ou penúltima edição do “Tarrafa Literária”, em Santos/SP; era algo próximo a 12 homens para 1 mulher (escritora de livros infantis, diga-se).
    Outro fato curioso acontece em resenhas sobre livros cuja autoria é de alguém com trinta anos. Se é uma autora, a maioria dos textos menciona “jovem escritora” (mesmo que não seja o primeiro livro publicado). Se é um autor, poucas vezes se fala da idade (nos casos em que esta é mencionada quase nunca vem acompanhada da palavra “jovem”). Detalhe: até mesmo quando a resenha é escrita por uma mulher acontece esse “fenômeno”.
    Quando analisamos o âmbito da poesia, então, a coisa chega a ser risível.

    • Ei, Ramon, bom te ver por aqui =). Então, foi disso que senti falta nessa pesquisa americana: é uma crítica às revistas literárias, mas na verdade é uma questão muito maior que isso, envolve toda uma questão histórica. Lembrei agora do Prêmio Saramago, que teve como única ganhadora mulher a Adriana Lisboa… Mas alguém podia fazer esse levantamento de lançamentos em ficção por editora, né? Você não se habilita? rs. Beijo, Raq

    • Mas Raquel, todos sabemos que números, muitas vezes, mostram mas não explicam. Ainda mais perverso é o preconceito velado, inconfesso, que não há como ser comprovado e, portanto, mais difícil de ser superado. Nem mesmo se fossem levantadas as quantidades de originais recusados de homens e mulheres seria possível afirmar qualquer coisa com total segurança…
      Mas concordo que há em curso uma mudança de pensamento, e não só na literatura. Ainda bem.

  7. […] Cozer levanta a questão da participação feminina na literatura e crítica, e fala sobre as biografias e o escritores fantasmas no blog A […]

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