Passagens do próximo livro de Paulo Lins


Desde que o Samba é Samba, romance que Paulo Lins lança no próximo semestre pela Planeta, passa-se num período entre 1928 e 1931, fala sobre a criação da primeira escola de samba carioca, a Deixa Falar, e tem como personagens nomes como Ismael Silva e Bide. Veja, a seguir, duas passagens do romance, que ainda passa por revisão.

***

O bar do Apolo estava lotado. Roda de samba batida na palma da mão, ao som de um violão e pandeiro. Aloysio chegou devagar, ficou num canto amuado, pediu um café, acendeu um cigarro de palha e se pôs a escutar os sambas. Teve uma roda de pernada, sentiu vontade de entrar, mas preferiu ficar na dele. Bide se aproximou.

– Por que tu não foi na Curimba ontem? Todo mundo lá tava perguntando por você.

Respondeu que acabou dormindo. Não iria dizer que não foi para não encontrar Laurinda. A separação estava muito recente, ela poderia perder a linha e partir pra cima de Ivete. Também não queria contato de Ivete com a rapaziada. Mulher é mulher. Amigo é amigo. Bar é bar. Também nada de intimidade de atual com ex, pois intimidade gera atrito. Atrito gera puxão de cabelo, corte de lâmina e apertão de pescoço. Nessa coisa de amor tudo é falso.

O samba comia solto, Aloysio foi se soltando, ameaçou uns passos quando Alma Branca cantou “Me faz carinhos”. Acompanhava batendo no balcão mas não conseguia se soltar completamente para também cantar uma de suas composições. No entanto, vinham-lhe à mente versos novos inspirados nos sambas que ouvia. Pegou um lápis e escreveu alguma coisa. Guardou o papel no bolso. Dois minutos depois escreveu mais um verso e foi assim até a roda de samba acabar. Se soubesse que Laurinda não estaria lá e que havia essa roda de samba imensa, com várias famílias participando, cheia de crianças, buscaria Ivete, isso se a infeliz não tivesse levantado a voz para ele. Quase foi buscá-la, mas tinha que ser forte, pois se der um pouquinho de asa pra mulher, querem voar igual gavião.

A noite foi tomando conta do pedaço. A maioria do pessoal foi embora, só ficaram os amigos de sempre em conversas costumeiras. Beberam duas garrafas de paraty, o sambista passou do café para o refresco de groselha. Baiaco quase não falava, interrompia a conversa bruscamente cantando fragmentos de um samba novo. Aloysio esperava uma oportunidade de lhe chamar no canto, falar sério com ele sobre a parceria que queria fazer, porém o amigo estava um tanto alto com a bebida, assim como os demais. Alma Branca não parava de cantar samba atrás de samba. Desistiu. Esse negócio de ficar sem beber perto de quem bebe dá nisso: o pessoal fica rindo à toa, sem falar coisa com coisa e você ali batendo, fora do compasso. Tentava se portar naturalmente, participar das brincadeiras, mas o pensamento na briga com Ivete tirava-lhe a naturalidade…

***

– É por causa das palhaçadas, da cabeça-dura, da burrice de certas pessoas que Deus e os santos ficam donos de nossas vidas na Terra, no Céu e no Purgatório. Tudo isso pra gente ter força, correria, juízo, inteligência, respeito próprio e peito aberto pra ganhar a vida… Pra ser normal, ser feliz com os filhos, os netos e os bisnetos na hora da morte por velhice. Essa é a morte de gente séria! E, pra isso, é só levar a vida certa, ter força pra trabalhar, se instruir… Sempre em frente. Pra ter luz, sorte, redenção dos deuses… Senão, a gente fica parado na vida que nem Ernesto e Valdemar. Parados na vida de ficar metidos com sinuca, bebida, jogo de chapinha, de roda de capoeira e tudo mais que não presta. Não tomam prumo de vivência por causa desse troço de samba e de mulheres de vida fácil na zona do baixo meretrício. Valdemar passa anos sem entrar numa igreja pra rezar um Pai-Nosso, uma Ave-Maria ou um Credo. Na macumba, só vai no dia de Exu pra pedir, a Seu Tranca-Rua do Cruzeiro das Almas, proteção na rua, harmonia com as negas e segurança no lar. Besteira… Eu é que não passo um domingo sequer sem igreja e uma quarta sem macumba, porque se Deus não der ouvidos, Oxalá escuta…

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