O horror segundo Yann Martel


[Publicado no Caderno 2 de 15/3; abaixo, a íntegra da entrevista]

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Foram dez anos desde a última incursão na literatura, com A Vida de Pi, vencedor do Man Booker Prize em 2002 e integrante de algumas listas de romances mais importantes da década segundo críticos de países de língua inglesa. Ao marcar enfim seu retorno com Beatriz & Virgílio, o canadense Yann Martel não perdeu a chance de fazer graça. Seu novo protagonista, Henry, é um escritor que passa por um bloqueio criativo após ter uma ideia de livro rejeitada por editores.

Questionado pelo Estado sobre a demora no lançamento de seu próprio romance, Martel credita a longa pausa a outro motivo: a dificuldade do tema, uma tentativa de reconstruir, de forma alegórica, o horror dos campos de concentração nazistas durante a 2.ª Guerra. “O sucesso de A Vida de Pi me manteve ocupado por uns dois anos. E você não pode escrever sobre o Holocausto sem saber sobre o que está falando. Li muito, vi filmes, documentários, viajei para Polônia e Israel, escrevi e reescrevi muita coisa. Não é fácil tomar um evento monstruoso como esse e tentar descrevê-lo de forma diferente”, argumenta.

A tal forma diferente é justamente a proposta com a qual Henry, seu personagem, não consegue convencer editores – um misto de um romance protagonizado por animais e textos ensaísticos sobre o genocídio, no qual um e outros se confundem. Na trama, durante o bloqueio criativo (período no qual arruma um emprego como garçom), Henry conhece um taxidermista que, no intervalo entre o seu trabalho de empalhar animais, encontra tempo para escrever (há algumas décadas) uma peça protagonizada por uma mula, Beatriz, e um macaco, Virgílio. Quando se dá conta, o escritor está imerso na história com a qual não queria se envolver – e que passa a tomar proporções inesperadas.

“Existem muitos relatos factuais do que aconteceu com os judeus da Europa nas mãos dos nazistas e seus muitos colaboradores”, afirma o escritor, destacando os testemunhos de Elie Wiesel e Primo Levi como essenciais, “mas não podemos simplesmente parar nisso, no relato com base nos fatos. Minha hipótese artística é a de que só podemos compreender verdadeiramente um evento quando podemos aplicar metáforas a ele.”

A volta ao universo animal, central também em A Vida de Pi, ele explica, decorre da percepção da riqueza de significados que proporciona. “Poucos autores de ficção adulta recorrem a animais. O resultado não é só uma ausência cada vez maior de animais no nosso mundo real, mas também imaginário. Só autores da literatura infantil fazer muito uso de animais. É uma pena. Eu não sei o que há de infantil sobre um tigre ou um elefante.”

BEATRIZ & VIRGÍLIO
Autor: Yann Martel
Tradução: Maria Helena Rouanet
Editora: Nova Fronteira
(200 páginas, R$ 34,90)

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Foto Geoff Howe/Divulgação

Como pergunta um livreiro ao personagem principal de Beatriz e Virgílio: sobre o que é o seu livro? (no livro, o personagem não consegue resumir o misto de romance e ensaio que apresenta a editores e livreiros) É um romance sobre um escritor com bloqueio criativo que encontra um taxidermista que escreve uma peça? É um ensaio sobre o Holocausto?
Beatriz e Virgílio é minha tentativa de dar um testemunho do Holocausto, mas não de forma direta e factual. Existem muitos relatos factuais sobre o que aconteceu com os judeus da Europa nas mãos dos nazistas e seus muitos colaboradores. Esses textos, como os de Elie Wiesel e Primo Levi, para dar apenas dois exemplos bem conhecidos de sobreviventes que descreveram suas histórias, são essenciais; só podemos processar o que foi aquele evento depois de sabermos o que aconteceu. Mas não podemos parar apenas nisso, no relato com base em fatos. Minha hipótese artística é a de que só podemos compreender plenamente um evento quando podemos aplicar metáforas a ele, uma vez que podemos “trabalhar” com ele em nossas mentes, pois aplicar metáforas implica compreender o objeto da metáfora. Se isso é uma compreensão verdadeira (na comparação com a de um sobrevivente, por exemplo) é uma outra questão. Assim, para responder sua pergunta, meu romance é uma tentativa de responder ao Holocausto de forma alegórica e metafórica. A vantagem disso é que uma metáfora é mais fácil de entender que o acontecimento histórico que lhe deu origem.

E escrever sobre o Holocausto de forma alegórica fez você compreender algo de novo sobre o genocídio?
Não especialmente. Genocídio não é uma coisa sutil. É um evento tão grosseiro e brutal quanto possível. Um genocídio é o assassinato em massa de um grupo de pessoas, porque elas compartilham uma característica que um outro grupo odeia. Se essa característica é ser judeu, Tutsi, negro, indígena, mulher, gay e assim por diante, o processo de desumanização total é o mesmo. Além de compreender os detalhes processuais – o que, como e onde -, não há muito mais a “entender”. Minha preocupação era outra, não tanto entender, mas expressar, representar. Acredito que a realidade histórica do Holocausto foi exaustivamente explorada e, de modo geral, bem entendida. O que falta é variedade nas formas como é representada. O Holocausto é predominantemente representado em termos não-ficcional, por meio da memória do sobrevivente ou do historiador, com raro uso da metáfora como recurso artístico. Isso significa que perdemos tudo o que a metáfora pode oferecer.

Por que optou por usar animais mais uma vez como elementos centrais da história?
Usei animais em A Vida de Pi e Beatriz e Virgílio (e vou usá-los novamente no meu próximo romance), porque em cada caso esse uso se mostrou o artifício literário que melhor funcionou. Um animal pode tanto ser o que ele é – um tigre, um macaco, um rinoceronte, o que quer que seja – quanto um símbolo ou uma metáfora. Essa riqueza de significados em potencial é muito útil para um escritor, ou pelo menos para mim. Poucos escritores de ficção adulta usam animais de forma interessante e variada. Acho que essa pobreza é o resultado de uma crescente urbanização e da diminuição do contato da maioria dos habitantes da cidade com o mundo natural. O resultado não é somente a ausência cada vez maior de animais no nosso mundo natural, mas também no nosso mundo imaginário. Só escritores da literatura infantil fazem uso de animais. É uma pena. Não sei o que há de infantil sobre um tigre ou um elefante. Esse é outro motivo para eu usar animais, além de sua eficácia como elementos literários: tenho a sensação de trabalhar em um campo completamente deserto.

Por que incluiu tantos paralelos com sua própria vida no livro (como o personagem, por exemplo, o escritor ficou muitos anos sem lançar um livro depois de um sucesso de crítica e vendas)?
Porque funcionavam na ficção. Se eu colocar no meu romance que meu personagem Henry luta com seus editores, por exemplo, não significa que tenha acontecido comigo de alguma forma, mas a ideia de um escritor que para de escrever, que cai em silêncio, pareceu-me o ponto de partida ideal para um romance sobre o Holocausto, porque essa é a reação comum da maioria das pessoas em relação a esse terrível acontecimento, tanto sobreviventes como gente que não viveu aquilo, cair em silêncio, um silêncio de respeito, luto, vergonha, incompreensão. Também queria envolver o narrador na história, porque é assim que vivemos a História: esta não é uma história externa que contamos, como se fôssemos escritores invisíveis. A História é um diálogo. A maneira como podemos ver o passado afetar a forma como vivemos o presente e o que faremos no futuro. Um diálogo. Por isso quis um escritor no meu romance, o que lhe dá aparência de autobiografia. É só aparência. Beatriz e Virgílio é um romance, isto é, uma invenção de fatos para chegar a uma verdade moral.

No romance, Henry não entende a ideia do taxidermista criar uma história em que os personagens não evoluem nada com o que veem ou fazem. Você acha que as coisas funcionam assim na vida?
Henry aponta que uma história convencional envolve uma mudança nos personagens ao longo da narrativa. Uma descoberta, um momento de iluminação, um rito de passagem, algo que faz a personagem aprender e mudar e, por extensão, o leitor também aprender e mudar. Mas os nazistas permaneceram roboticamente com tanto ódio dos judeus no final do Terceiro Reich como estavam no início. Eles odiavam sem conhecer suas vítimas. Se um judeu era rico ou pobre, urbano ou rural, educado ou não etc., era irrelevante para alguém da SS. Tudo o que importava para ele era que o cidadão diante dele era judeu. Não houve mudança de caráter lá. E o mesmo para as vítimas judias; sua personalidade era completamente irrelevante para o que os vitimava. Anne Frank, por exemplo, ter sido uma adolescente brilhante, linda, vivaz não teve qualquer influência sobre por que foi vítima dos nazistas. Ela foi apanhada porque ela era judia, e não por outro motivo. Poderia ter sido bobo, feio e sem graça, ela ainda não teria merecido o seu destino terrível. Portanto, não há evolução de personagem porque o personagem era irrelevante. Para responder à sua pergunta, então: na arte, podemos mudar, mas na vida não raro não o fazemos.

Por que levou tanto tempo para escrever um livro depois de A Vida de Pi?
O sucesso de A Vida de Pi me manteve ocupado por cerca de dois anos. E você não pode escrever sobre o Holocausto sem saber sobre o que está falando. Li muito, vi documentários e filmes, viajei para a Polônia e Israel, pensei, escrevi e reescrevi muita coisa. Isso levou tempo. Não é fácil tomar um evento monstruoso como o Holocausto e tentar fazer algo diferente de descrevê-lo. E tenho um filho de 19 meses de idade. Quero gastar tempo com ele. Por último, há esse projeto maluco que fiz durante quatro anos, quando enviei ao primeiro ministro do Canadá um livro a cada duas semanas com uma carta descrevendo como poderia se beneficiar da leitura. Isso também tomou parte do meu tempo. Mas o próximo livro vai demorar menos. Está muito claro na minha cabeça e eu o quero para logo.

Como foi essa história com o ministro do Canadá?
Stephen Harper, o primeiro-ministro canadense, é um homem um pouco duro, de mente rígida. O tipo de político ideológico que normalmente se vê mais nos EUA. Não há evidências de que ele tenha lido um romance, um poema ou qualquer coisa literárias de qualquer espécie desde que deixou a escola. Durante as eleições de 2004, ele disse que seu livro favorito era o Guinness Book, uma resposta que eu esperaria de um garoto de 15 anos, não do homem prestes a conduzir os assuntos da minha nação. Então, mandei-lhe bons livros de todos os tipos a cada duas semanas durante quatro anos, sempre com uma carta. Meu objetivo era mostrar a ele que a literatura não é só entretenimento, mas uma ferramenta incrível para conhecer as pessoas, o mundo, a vida. Você não pode ser o pensador intuitivo que aspira liderar um país sem ter imaginação. O papel de um político não é apenas administrar mas também sonhar, dizer: “Tenho um sonho em relação à direção em que quero liderar esta nação”. E como você pode sonhar grandes sonhos sem ler livros? Eu não me importo se as pessoas comuns leem, mas me preocupo com os hábitos de leitura de alguém que tem poder, porque os seus sonhos podem se tornar meus pesadelos.

Você tinha medo de críticas sobre o novo livro, depois de lançar um tão bem sucedido?
Não. As expectativas dos críticos e dos leitores nunca foi uma preocupação minha. Se tivesse sido, eu não teria escrito um livro sobre o Holocausto. A arte é um dom. O artista dá. O que aqueles que recebem esse dom fazem com ele, se o colocam em um pedestal ou o jogam na sarjeta, é preocupação deles, e não dos artistas. Depois da A Vida de Pi, fechei a porta a todo o barulho que tinha gerado e voltei para o trabalho calmo, solitário, de escrever uma outra história.

Como você recebeu as críticas sobre Beatriz e Virgílio (ao contrário do anterior, o novo romance recebeu muitas críticas negativas na imprensa dos países de língua inglesa)?

Geralmente ignoro opiniões, positivas e negativas. Há apenas tantas vezes você pode ler sobre o seu próprio livro antes de ficar entediado. Mas eu estou ciente da tendência geral das análises. Foi interessante para mim como os críticos estavam divididos sobre Beatrice e Virgílio. Alguns odiava ele, alguns adoraram. Não é surpreendente, eu imagino, já que o Holocausto é, curiosamente, um tema controverso. Eu teria pensado que um massacre de tantos inocentes seria uma afronta, uma afronta unânime, mas não uma controvérsia, se você receber a distinção. Foi estranho ler os críticos, a partir do New York Times, por exemplo, dizem, em resumo, que as ferramentas da literatura – metáfora, alegoria, simbolismo – foram adequados para cada tópico, exceto o Holocausto. Em outras palavras, eles estavam rejeitando as ferramentas do seu ofício. Para mim, nada está fora do alcance da metáfora desde uma metáfora jamais visa substituir uma realidade, apenas para apontar para lá.

Como foram suas conversas com o Moacyr Scliar depois do episódio em que você foi acusado de plagiá-lo?
Falei com Moacyr Scliar uma ou duas vezes, no auge do escândalo absurdo de plágio. Você não pode plagiar um livro que você não leu. Li Max e os Felinos muito tempo depois de escrever e de publicar A Vida de Pi. O que tinha lido antes de escrever foi apenas uma resenha do livro, e um dos eventos descritos nela, o de um homem preso num bote salva-vidas com uma pantera (no livro de Martel, um adolescente divide o espaço com um tigre e outros bichos), me surpreendeu. Então, houve a influência, o que tive prazer em reconhecer na Nota do Autor no meu romance, mas não plágio. De qualquer forma, tenho a impressão de que Scliar era de um homem gentil e generoso, dono de uma imaginação brilhante. Fiquei triste ao saber que morreu.

Falando em animais … Li uma entrevista em que você diz que seu próximo romance terá três chimpanzés e se passará em Portugal. É verdade?

Chimpanzés e rinocerontes, na verdade. E personagens humanos. Quero olhar o papel dos grandes mestres em nossas vidas. Como podemos manter viva a sabedoria de um mestre depois que o mestre se vai? Seja esse mestre Jesus, Buda ou seu professor de história nota 10, como podemos evitar que a sabedoria de torne um dogma obsoleto? Quero olhar para essa questão sob o prisma de três chimpanzés, um vivo, um morto, uma escultura e uma manada de rinocerontes. Se isso soa implausível, assim soava A Vida de Pi.

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8 Respostas

  1. Como assinante da Folha, acabo lendo o Estadão apenas esporadicamente (muito por conta de um grande amigo que trabalha no Caderno 2 e avisa quando sai matéria dele) e seus texto acabaram me passando batido. Lembro de uma ou outra reportagem, mas não estava naquelas que eu conhecia de nome. Eis que esta semana vi no twitter um link apontando pra cá, sobre o trecho do Paulo Lins novo. E estou apaixonado pelo blog. Comecei uma leitura retroativa que está deliciosa. Parabéns pelo trabalho. Acompanharei a partir de agora. Um abraço. TK

    • Puxa, Thiago, que legal, fico muito feliz de saber que gostou dos textos! Escrevo para o Caderno 2 com menos frequencia porque na verdade sou reporter do Sabatico (e, alias, era da Ilustrada ate 2009), mas sempre que posso apareço la. Quem eh seu amigo do Caderno 2? O Lucas? Estou julgando pela barba, rs. Beijo, Raq

  2. Quando li a polêmica envolvendo Scliar e Martel no caso de suposto plágio literário na descrição do sobrevivente e um animal à deriva num bote salva-vidas, imediatamente lembrei-me do final do filme E La Nave Va – o personagem principal divide uma embarcação com um rinoceronte, lembra? Como o filme é bem antigo, acho que a ideia original foi mesmo do Fellini. Parabéns pela reportagem.

    • Olha!… Não vi esse filme. O mais louco nessa história é que ele cita o Scliar na carta do autor, então não é como se não desse crédito — mas não sei se fez isso só na edição brasileira ou se tinha feito nas gringas; tinha uma história de que ele desdenhava o Scliar em entrevistas…

  3. Hahahaha, sim, o Lucas.

    Não lembrava pelo nome de vc na Ilustrada, mas numa busca rápida aqui achei umas entrevistas que gostei bastante na época, como a do Spiegelman, ou a da Bíblia do Crumb. Muito massa! beijo.

  4. Só pra encerrar o assunto, Raquel: esse artifício de usar animais para simbolizar personagens de momentos históricos também não é nenhuma novidade. George Orwell em seu livro A Revolução dos Bichos desancou Lenin, Stálin, Trostky et caterva com uma genialidade que espanta até hoje. Quando li a obra eu era um adolescente metido a besta com a cabeça fervilhando de paixão pela ideologia comunista. Fiquei com ódio do escritor inglês, mas aos poucos – com a maturidade e melhor entendimento da natureza humana – passei a amá-lo. Um beijo, linda.

  5. Me lembro de um texto idiota publicado na revista Veja (dessa vez o autor não era Dyogo Maynardy), começava mais ou menos assim: “Um felino, um barco e um ser humano, são as únicas coisas semelhantes entre os dois livros” Fala sério!

  6. Já que Revolução dos Bichos foi citado nos comentários, gostaria de acrescentar que os petistas devem estar pensando: “Todos são iguais, mas nós petistas somos mais iguais ainda”.

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