A eterna presença de Henrietta


Quando falei pro meu editor que queria escrever sobre A Vida Imortal de Henrietta Lacks, que sai agora pela Companhia das Letras, ele perguntou se não era caso de publicar o texto no caderno Vida em vez do Caderno 2. Defendi que não: embora envolva aspectos científicos, o livro é um misto disso com uma detalhada biografia da família da personagem título e um olhar detido sobre questões sociais e raciais no século 20, em especial nos EUA. E, como explica a autora, é todo construído para ser lido como ficção, embora todas as informações ali contidas sejam verdadeiras (aqui é bom esclarecer que o resultado dessa ambição dela é muito bom, porque, não raro, tentativas de escrever não ficção como ficção são temerárias…).

Mais tarde, quando voltar da coletiva do Prêmio Jabuti, publico aqui a íntegra da conversa. Por enquanto, segue o texto que saiu hoje no Caderno 2.

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Livro resgata caso da mulher que, sem saber, deu origem à linhagem celular mais usada em pesquisas científicas

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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

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Depois de morrer, Henrietta Lacks percorreu o mundo e alterou os rumos da humanidade. Essa poderia ser, de forma bem resumida, a descrição da história real narrada em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, livro de estreia de Rebecca Skloot. E, se causa estranheza, isso não chega perto da sensação que o leitor tem ao atravessar as cerca de 450 páginas resultantes de mais de dez anos de pesquisas da jornalista científica norte-americana.

Considerado um dos dez melhores títulos de 2010 por veículos como o New York Times, o Independent e mais algumas dezenas de publicações, a obra que sai agora pela Companhia das Letras destrincha a história por trás das primeiras células humanas mantidas vivas por cientistas fora do organismo, e que assim se mantêm há 60 anos – mais precisamente, as primeiras células imortais da história.

São as chamadas células HeLa (lê-se “rilá”), linhagem celular mais usada em pesquisas no mundo, conhecidíssimas entre pesquisadores da área biológica. O que ocorreu a Rebecca Skloot ainda na adolescência, ao ouvir falar pela primeira vez nessas células, foi um “detalhe” ao qual quase ninguém parecia dar muita atenção: por trás daquele objeto de infindáveis investigações houve uma vida que merecia ser reconhecida.

Essa vida, ouviu Rebecca do professor que lhe contou a história no colégio, foi a de Henrietta Lacks, uma ex-lavradora de tabaco no sul dos EUA, descendente de escravos, que morrera com câncer em 1951. “Naquela mesma época”, conta a autora em entrevista por telefone ao Estado, “meu pai foi infectado por um vírus que lhe causou danos cerebrais e aceitou ser cobaia de uma pesquisa científica. Então, quando eu soube da existência de Henrietta Lacks, minha primeira curiosidade foi: ela teve filhos? Como eles se sentem em relação a tudo isso?”

O que ela descobriu foi que Henrietta nunca soube que haviam retirado uma amostra de suas células enquanto estava internada na enfermaria para “pessoas de cor” do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland – e que, quando sua identidade veio à tona, décadas depois, seus filhos teriam suas vidas invadidas por interesses científicos e jornalísticos.

Câncer. Aos 30 anos, mãe de cinco filhos, Henrietta chegara ao hospital alegando sentir um caroço na altura do útero, uma dor que escondia do marido e das crianças. Os médicos logo identificaram um tumor cervical e, sem pedir permissão, enviaram uma amostra das células cancerígenas a um pesquisador. Meses depois, Henrietta morreu tomada por tumores, embora os exames identificassem o controle da doença. O que ninguém esperava era que essas células, ao contrário de todas as outras usadas antes em pesquisas, eram capazes de se expandir sem limites. Essa inexplicável capacidade de sobreviver e se multiplicar fora do organismo tornou as células famosas no meio científico.

Ao longo das décadas, as células de Henrietta foram enviadas para laboratórios de todo o mundo, usadas em testes nucleares, enviadas para o espaço; tornaram-se fundamentais para as pesquisas mais importantes relacionadas a vacinas, quimioterapia, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro. A multiplicação foi tão impressionante que, como escreve Rebecca, “se fosse possível enfileirar todas as células HeLa já cultivadas, elas dariam ao menos três voltas ao redor da Terra, totalizando mais de 100 milhões de metros”.

Os filhos foram localizados décadas depois da morte de Henrietta por cientistas interessados em estudar seu DNA – também sem o consentimento deles, que acreditavam estar apenas passando por exames para descobrir se não tinham o mesmo câncer da mãe – e expostos em reportagens e documentários, além de atrair a atenção de gente interessada em ganhar dinheiro em cima deles. Começaram a acreditar numa espécie de maldição envolvendo as células, que só lhes traziam desgostos.

Rebecca Skloot demorou mais de um ano até convencer Deborah, a filha de Henrietta mais engajada em recuperar a história da mãe, a dar entrevistas. Enquanto isso não acontecia, conversou com o marido e os outros filhos, vasculhou milhares de estudos científicos (“pesquisar sobre as células HeLa em bancos de dados científicos é como fazer uma busca pela palavra “e” no Google”, compara), esmiuçou outros casos de pesquisas feitas sem consentimento dos pacientes e as lacunas da legislação.

Descobriu, entre outras coisas, que uma das filhas de Henrietta morreu internada numa instituição mental para negros, também cobaia involuntária de estudos medicinais. “Era um lugar onde os negros não eram bem tratados, como se pode imaginar de uma instituição assim por volta dos anos 50. Fiquei impressionada com os contornos soturnos disso tudo e entendi porque os filhos tinham tanta reticência em dar entrevistas. Essa história diz muito sobre a situação dos negros norte-americanos no século passado.”

O maior mérito de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, para além do exaustivo trabalho investigativo, é tornar humana uma história que, em mãos menos cuidadosas, poderia caber num compêndio científico. “Queria que parecesse ficção, mas com dados reais”, conta a autora, que recorreu a diversos romances e filmes para encontrar o tom certo do texto, uma narrativa que intercala a biografia do Lacks com intrincadas questões sociais e científicas – e que, não à toa, está sendo transformado em filme pela produtora de Oprah Winfrey.

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15 Respostas

  1. outro caso célebre de pesquisas “científicas” semi-oficiais sem o consentimento das cobaias involuntárias aconteceu nos campos de concentração operados pela Alemanha nazista, e que parecem só ter cessado porque os responsáveis fugiram das tropas aliadas que se aproximavam. E há também o caso das dezenas de explosões secretas de artefatos nucleares experimentais, produzidas por “cientistas” a serviço de governos de diversos países ditos civilizados, durante as décadas de 1940 a 1960.

  2. Sou antropóloga especializada em antropologia da medicina. Estou lendo o livro e gostando muito do trabalho da autora. O livro é fácil e muito bem escrito. Recomendável para quem se interessa por gênero, raça e classe nos Estados Unidos.

  3. As atrocidades são grandes. Povos excluídos por raça. Os benefícios retornam somente para os que dominar…que tristeza. Quando vamos agir como humanos. A vida coloca desafios, nos oferece oportunidades e nós acabamos com estas. Utilizou esta mulher para o benefícios de poucos.

  4. Parabéns pela reportagem. Isso é que é uma boa informação literária! Um grande abraço.

    • Oi, Solange, obrigada! Sobre seu outro comentário: na verdade foi em benefício de muitos. Todas as grandes pesquisas científicas/biológicas da história desde os anos 50 precisaram dessas células. Esse detalhe não chega a ser negativo para ela — mas sim o fato de, antes de morrer, ela ter sido negligenciada, e de os filhos dela também passarem por exames sem consentimento. E ainda toda a discussão derivada de questões como essas, e que inclui pesquisas feitas com judeus nos campos de concentração nazistas. Bjs, Raquel

  5. […] a íntegra da entrevista com a Rebecca Skloot, autora de A Vida Imortal de Henrietta Lacks – livro sobre o qual escrevi no Caderno 2. Rebecca se tornou tão assediada com o lançamento do livro nos países de língua inglesa que […]

  6. Mas que bela e útil reportagem.
    Parabéns.
    Vou ler o livro com toda certeza.

  7. Os americanos tão racistas na década de 40/50/60 tem que engolir os astros da NBA (em sua enorme maioria, afro-americanos), seus melhores cantores vindos das igrejas (Etta James, Aretha, só pra ficar nas divas), jogadores da NFL.

    Tiger Woods foi um dos afro-americanos que romperam a a barreira branca do golfe, Oprah na televisão, e Will Smith e Denzel no cinema são exemplos da força e dedicação dos negros nos EUA.

    Não conhecia essa história e fiquei contente em saber que sua morte não foi em vão, apesar da negligência dos médicos brancos, e dos abusos cometidos com seus filhos, suas células serviram para inúmeros experimentos que melhoraram a vida de milhares de pessoas.

    Fico muito feliz em conhecer essa história. Obrigado Raquel.

  8. Olá Raquel, você conhece o “Tuskegee study”. É a história de 399 afroamericanos do estado do Alabama, que no início do sec XX foram mantidos sem tratamento para conhecer a história natural da sífilis. Quando o estudo começou as alternativas de tratamento não eram razoáveis, mas na déca de 40, a história mudou. Foram 40 anos sem tratamento. Isto foi divulgado num relatório em 1978, após a morte do último indivíduo do estudo, conhecido como relatório Belmont. As diretrizes da bioética foram construidas em cima de histórias como da Henrietta e muitos outros. Lerei o livro. Um abraço

  9. Com certeza, se Henriqueta fosse branca, jamais teria aquele tipo de tratamento obscuro: teria ficado rica e seria celebridade. Mas como escreve Marcelloo Lopes, parece que as coisas estão mudando, para serem como sempre deveriam ter sido.

  10. Parabens Raquel pela indicacao do livro na inteligente materia do seu blog.
    Grde abr.

  11. Que bom finalmente meu comentario foi aceito – ja tinha enviado por tres vezes!

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