As leituras das férias


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Não deu nem uma semana desse retorno à Redação e quatro ou cinco livros já entraram sorrateiros na lista de leituras até o fim da semana que vem. Um deles, o preferido, até, com algo em torno de 700 páginas (não tive coragem de checar esse número, é uma estimativa com base no espaço que ocupa na pilha). Leituras a trabalho, importante dizer. O que significa que o que não devorei por vontade desinteressada durante as férias agora só no próximo feriado, que nem sei quando cai ou se cai em algum dia que não domingo, como teve o desplante de fazer este último 1º de Maio.

Ler a trabalho está longe de ser o pior dos dramas, mas o modus operandi tem desvantagens (escrevi sobre isso faz um tempo) A liberdade absoluta de escolher um título, ou mesmo abandoná-lo, ou reler capítulos, ou ler va-ga-ro-sa-men-te… Sem férias desde 2008, nem lembrava como era essa colher de chá. Se não é fácil para ninguém escolher o que ler no tempo livre, quem trabalha com livros não pode se dar ao luxo de errar: os títulos na fila de espera terão dobrado o quarteirão até a próxima oportunidade.

Mas a seleção para essas últimas férias já estava meio cantada. Como voltei a estudar francês no começo do ano, sabia que pelo menos nos primeiros nove dias de viagem, quando estivéssemos em Paris, aproveitaria para preencher minha imperdoável lacuna sobre a atual produção francesa de HQs (vergonha para uma fã de quadrinhos, faz de conta que não assumi) e ainda treinar meus rudimentos do idioma, básicos demais para a leitura de um romance sem que um dicionário precisasse ir junto na bolsa. Numa HQ, as imagens cumprem ali vez por outra um papel extra de tradução.

A situação colaborou com meus planos. No apartamento que alugamos para o período, uma estante incluía edições locais de PyongYang, do Guy Delisle, e Gorazde, do Joe Sacco. Elas não cabem no perfil “atual produção francesa de HQs”, ok, mas garantiram a passagem do tempo até esta desavisada visitante de primeira viagem a Paris conhecer a rue Dante, o paraíso das livrarias dedicadas às bandes dessinées, perdição também para colecionadores de souvenires de HQs – não resistimos a trazer da seção pega-turistas um pequeno Asterix com javali e um Obelix esticando as calças (“Gordo? Quem é gordo?”).

Foi na Dante que cheguei à livraria onde desisti da cara de conteúdo e pedi ao vendedor uma mão na escolha de bons quadrinistas locais para uma não-iniciada. E, já que tinha esquecido a vergonha em algum bistrô, aproveitei para pedir que o fizesse com base nas melhores pechinchas.

O resultado: Les Complots Nocturnes, de David B (o melhor dele é L’Ascension du Haut Mal, mas daí seriam seis volumes que eu não teria nem como carregar pra casa); Bureau des Prolongations, de Simon Hureau; Comme um Poisson Dans l’Huile, de Guillaume Long; e Sunnymoon Tu Es Malade, do Blutch, que somados deram menos de 20 euros. Por conta, peguei na bancada de superpechinchas um Cours, Camarade, do Baru, e um Blitz, do Floch & Rivière, um ou dois euros cada um. E ainda, em homenagem ao momento dois coelhos com uma cajadada, uma edição local do Bunny Suicides, do inglês Andy Riley (não, de cajadadas o coelhinho não morre, até porque a expressão em inglês é com pássaros e pedras).

Li as três primeiras em Paris. E ainda circulei pelas ruas com um velhinho Les Malheurs de Sophie debaixo do braço, tirando vantagem do risco quase zero de esbarrar em algum conhecido, porque não é sempre que você pode se deliciar com um título para pré-adolescentes no metrô impunemente.

Dali fui pra Londres, e os livros então já eram outros quinhentos…

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A foto no alto é da Enriqueta, gatinha de dois meses que há dois dias mata de ciúme (e de amor, embora ainda não assumido) a Whatever, nossa gata de sete anos. O nome dela é homenagem à personagem do Liniers que, por coincidência, ilustrou meu post sobre leituras a trabalho.

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8 Respostas

  1. oi, raquel,

    como não acompanho hq, fiquei meio boiando, mas sei perfeitamente bem a sensação de ler gulosamente o que se tem vontade.

    conheço a pressão dos olhos do ofício. ando tão neurótica com as leituras pro doutorado, que fiz um ‘diário de leituras’ – marco toda a semana o que emprestei da biblioteca, o que li e o que falta ler – tanto de crítica, quanto de literatura mesmo. mas sempre separo algo de ficção científica pra ler impunimente antes de dormir.

    e lindíssima a enriqueta!

    • Ai, que inveja da capacidade de ler tudo isso e ainda guardar um tempo pra ficção científica à noite! Acho que, sem as distrações da internet, eu até conseguiria essas proezas… Ou não! E Enriqueta manda carinhos agradecidos (nunca vi um gato tão cheio de amor pra dar)! beijo, Raq

  2. Oi.

    Já que você gosta de Bande Dessiné, eu queria aproveitar e perguntar se existe alguma pretensão de concluir “Isaac, o Pirata” (Conrad), de Cristophe Blain… Para mim, é uma espécie de Kafka aplicado às histórias de aventuras… Inverte nossas expectativas. Enquanto no mar Isaac vive um pesadelo, no continente sua amada vive uma verdadeira aventura…

    Mas já que você gosta de quadrinhos, gostaria de sugerir uma espiada no mangá Homunculus que está quase concluindo pela Panini. É assustadoramente bom. Parece que vai virar filme (não é garantia de nada, mas…)

    Abs e bom retorno.

  3. Um bom livro para ler nas férias, além do meu, é claro “Por que Deus criou o mundo?”, é ler Vitor Hugo, de preferência, os intocáveis.

  4. Raquel, foi uma agradável surpresa conhecer seu blog. Para os apaixonados por livros é mais um local de parada obrigatória. Parabéns!

  5. […] A Print E-mail Taí o resultado da leitura de cerca de 700 páginas de que falo no post abaixo. Em se tratando de quem trata, é sempre um prazer, embora o texto nesses casos nunca fique como eu […]

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