Lima Barreto fora do cânone


O Sabático deste fim de semana incluiu um especial pelos 130 anos de nascimento de Lima Barreto (completados na sexta, dia 13), e a mim coube um estudo de 1998 do inglês Robert Oakley, enfim publicado no Brasil, pela editora Unesp, após ampla revisão. Vez por outra a gente ouve falar de estudos sobre Machado ou Clarice por pesquisadores de outros países, daí fiquei curiosa em saber o quanto se conhece de Lima Barreto na Inglaterra. A resposta, abaixo, no meu texto publicado na edição de ontem.

(A imagem eu peguei do Blog dos Quadrinhos; é da adaptação de Clara dos Anjos que o Marcelo Lelis está preparando para o selo Quadrinhos na Cia)

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Estudo inglês chega ao Brasil
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RAQUEL COZER

“Os estudos barretianos no Reino Unido sou eu”, sintetiza o britânico Robert Oakley, professor aposentado de português e espanhol da Universidade de Birmingham. Tradutor de Fernão Lopes para o inglês e estudioso de longa data da produção brasileira no século 20, ele teve um de seus mais destacados trabalhos, The Case of Lima Barreto and Realism in the Brazilian Belle Époque, lançado em 1998 pela nova-iorquina Edwin Mellen Press – e, de lá para cá, seu objeto de estudo não despertou muito mais interesse entre leitores de língua inglesa.

“Os textos de Lima Barreto são virtualmente desconhecidos por aqui, apesar de uma tradução muito boa de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicada uns 25 anos atrás. A literatura brasileira é ensinada em universidades britânicas, mas Barreto não figura entre o limitado cânone de ‘grandes obras’ dessa produção estudada no Reino Unido”, diz Oakley ao Sabático por e-mail, de Londres. Ele próprio só tomou conhecimento da qualidade literária do autor ao terminar de ler Machado de Assis e se questionar sobre o que teria acontecido na literatura brasileira pós-Machado – questão que pôde começar a responder após adquirir, num sebo carioca, os 17 volumes das Obras Completas de Lima Barreto.

Treze anos depois da edição em inglês, The Case of Lima Barreto… ganha tradução pela Unesp, “bem revisada e atualizada”, como ressalta o pesquisador, sob o título Lima Barreto e o Destino da Literatura. O nome da edição brasileira refere-se a um dos últimos trabalhos de Lima Barreto publicados em vida, em fins de 1921, no periódico carioca Revista Souza Cruz. Intitulado O Destino da Literatura, o texto foi elaborado como teor de uma palestra que ele ministraria em meados daquele ano em São José do Rio Preto – o futuro do pretérito cabe aqui porque, no dia da conferência, o tímido escritor, que nunca havia falado a um grande público antes, desapareceu e foi localizado bem mais tarde num botequim, completamente embriagado.

Esse texto, que Lima Barreto produziu com base especialmente em ideias de Tolstoi (no ensaio O Que É a Arte) e Jean-Marie Guyau, serve como linha condutora do estudo de Oakley. A partir dele, o britânico analisa o percurso do processo criativo do ficcionista, tomando como referência também suas pouco investigadas leituras – entre as quais se destacam ainda Thomas Carlyle, Johann Gottlieb Fichte e Anatole France.

Essa costura entre influências e produção ficcional permite compreender a concepção de literatura do autor de Clara dos Anjos, para quem a beleza estética depende da “substância” da obra – em outras palavras, para Barreto a importância da literatura reside não na forma, mas no conteúdo. O destino da literatura, segundo seus preceitos, seria uma missão quase divina, de penetrar o sentido da vida e promover a solidariedade humana.

É fato destacado entre os críticos da obra barretiana que o autor nem sempre foi capaz de seguir à risca suas intenções literárias. Entre as teses que Oakley defende está a de que, apesar do compromisso inicial de Recordações do Escrivão Isaías Caminha com a criação do “negrismo” na literatura brasileira, essa cruzada foi relegada a segundo plano por muito tempo, enquanto questões como a fragmentação e a alienação do País chamavam mais a atenção do escritor. Do mesmo modo, apesar de uma “teimosa coerência”, como define Oakley, na atitude de Lima ao longo dos anos, a análise de sua produção – em especial das três versões de Clara dos Anjos, de 1904, 1919 e 1921-22 – permite entender como seu engajamento literário sofreu transformações no decorrer da vida.

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8 Respostas

  1. Aqui, Lima faz parte do cânone, mas nem sempre foi assim. É recente a enxurrada de trabalhos sobre ele. Acho pouco.
    Falta-nos, se não me engano, uma biografia boa e recente da vida de Barreto que, segundo dizem e segundo seus diários, teve vida atribuladíssima.

  2. sei que o instituto latino-americano da freie universität berlim (universidade livre de berlim) dedica estudos ao lima barreto.

    o berthold zilly foi tradutor do “triste fim de policarpo quaresma” – pelo que pude googar rapidinho, essa tradução tem edições pela ammann (2001), büchergilde (2002) e edição de bolso da taschenbuch verlag (2003). quando ouvi uma palestra do zilly anos atrás, ele se referia exatamente ao entusiasmo pelo público alemão. aqui vai um artigo que pode ajudar: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=482

    boa semana!

  3. Oi, Ana! O público leitor alemão parece que é mais afeito que o inglês à literatura feita em países de outros idiomas, né?

  4. hehe – é o que dizem, mas já não sei… lembro tanto do entusiasmo do zilly falando do policarpo… pra não mencionar que sabe infinitamente mais de história do brasil que euzinha…

  5. prezada, um prazer imenso em poder ‘frequentar’ teu blog,e sobretudo teus textos no Estadão. estenda todas minhas congratulações ao Ubiratan, ao Antonio Arnoni pelo esplêndido Sabático de 14.maio — só mesmo o Estadão pra registrar tão importante data, relativa ao grande Lima. eu, como professor e pesquisador de literatura brasileira, tenho Lima como um dos 3 estudos preferenciais (os outros : Machado e Alencar), e dele publiquei em 2010 Lima Barreto e a política : os ‘contos argelinos’ e outros textos recuperados (PUC-Rio\Loyola) – que resgata, com amplo estudo crítico, os importantes contos argelinos[o Arnoni o comentou, aí no Estadão]; e Lima Barreto versus Coelho Neto : um fla-flu literário(Difel). e tenho prontos, a publicar(ainda s. ed.), “Lima Barreto e a mulher”- que compõe a trilogia com a política e o futebol — “LIma Barreto e Educação”, e concluo estudo sobre “as leituras de Lima Barreto, formador de leitor”. ponho-me a seu dispor para o que precisar sobre tais temas, sobre Lima, sobre Machado, sobre literatura brasileira, etc. e reitero meus cumprimentos, desejo de pleno sucesso e continuidade de seu brilhantismo. abçs. MR (tb. sou de Petrópolis,moro no Quitandinha)

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