As Divinas Comédias de Dante


[Capa do Caderno 2 de 24/5]

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Sandro Botticelli esboçou em pergaminho o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Séculos depois, foi a vez de William Blake e Gustave Doré. Nas leituras de Robert Schumann e Gioacchino Rossini, os cenário dantescos viraram música, e a tecnologia tratou de transformar tudo em videogame – isso só para ficar em alguns exemplos.

Sete séculos depois de sua criação, A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), segue “um monumento à inspiração”, como afirma ao Estado o designer americano Seymour Chwast. A mais recente prova disso são as duas graphic novels que chegam agora às livrarias brasileiras, tão diferentes entre si como podem ser as mais radicais variações do mesmo tema.

A Divina Comédia de Dante é assinada pelo próprio Chwast, celebrado designer de produtos e peças publicitárias, que estreia no formato HQ com a edição que acaba de sair pelo selo Quadrinhos na Cia. Já A Divina Comédia em Quadrinhos é brasileira, feita a partir de traduções de Jorge Wanderley (1938-1999), Henriqueta Lisboa (1901-1935) e Haroldo de Campos (1929-2003), num roteiro elaborado pelo quadrinista italiano radicado no Brasil Piero Bagnariol e por seu pai, Giuseppe, e que chega às livrarias nos próximos dias pela Peirópolis.

Como não se sabe a data exata em que Dante escreveu o livro – as três partes foram criadas entre 1304 e 1321 -, não há, portanto, uma efeméride que explique as duas investidas simultâneas. “Foi coincidência. Soube da versão americana quando a minha já estava bem avançada”, diz Piero.

Participante ativo da política de sua Florença natal, onde ocupou cargos públicos, Dante escreveu sua obra-prima enquanto vagava pela Itália, em exílio, após ser acusado de corrupção. Nos 14.233 versos dos 100 cantos de sua A Divina Comédia, o turbulento cenário que testemunhava aparece com frequência, na forma de críticas ao envolvimento do papa na política e aos escândalos que se seguiram. A obra é uma leitura do tempo em que vivia, e as duas adaptações em HQ buscaram ressaltar esse aspecto.

A Divina Comédia de Seymour Chwast tem um quê do Poema em Quadrinhos de Dino Buzzati (artista italiano que Chwast diz desconhecer), uma saga de eras passadas reconstruída com olhar pop. No traço do americano, todo em preto e branco, Dante aparece como um detetive de histórias noir dos anos 30, de chapéu, capa e cachimbo, sendo conduzido profundezas adentro por um Virgílio de chapéu coco, gravata-borboleta e bengala.

A entrada para o Inferno é sinalizada com um letreiro cintilante, que lembra um bordel ou cassino, e dali por diante Dante e Virgílio seguem por escadas e corredores, como num prédio antigo. Da mesma forma, as disputas florentinas por poder sugerem duelos da máfia. “É o estilo que combina com o espírito da minha arte. E desenhar togas não me interessava”, diz o designer, sobre a releitura.

Referências dos séculos 20 e 21 são menos claras na versão cheia de cores imaginada por Bagnariol, mas aparecem. Como na obra de Dante, que permite vários níveis de leitura, o quadrinista incluiu “símbolos e gestos não visíveis a um olhar superficial”. Na passagem do Inferno com o rio onde estão condenados a ficar tiranos, Hitler e Stalin podem ser vistos mergulhados na água, em segundo plano.

Piero e seu pai também precisaram criar um enredo paralelo, colocando a história de Dante como pano de fundo. Foi uma alternativa encontrada para suprir “buracos” nas traduções escolhidas – Henriqueta Lisboa realizou a tradução de metade dos 33 cantos do Purgatório, enquanto Haroldo de Campos o fez em apenas seis dos 33 cantos do Paraíso.

Essa opção garantiu certa graça à narrativa, uma adaptação bem mais densa e fiel ao original que a de Chwast. A certa altura, por exemplo, um dos interlocutores de Dante suspira, com a cabeça apoiada sobre as mãos, ao ouvir sobre mais um desfalecimento do autor durante o percurso: “Será que ele vai continuar a desmaiar assim o tempo todo?”.

Com inspirações declaradas em histórias como Little Nemo, de Windsor McCay, e Krazy Kat, de George Herriman, Seymour Chwast não se incomoda com críticas quanto ao esvaziamento do conteúdo da obra, que em seu traço foi resumido dos três livros originais a apenas 127 páginas: “Por sorte, uma imagem vale por mil palavras”, conclui.

SEYMOUR CHWAST
Designer norte-americano

“O livro é um monumento à inspiração”

Por que adaptar um livro que já inspirou tantos artistas?
Esse livro é o monumento de um grande poeta à inspiração. Quando comecei minha adaptação, só conhecia as versões de Gustave Doré e William Blake

É sua HQ de estreia, e você evitou o formato clássico de sequência de quadros…
Quadros uniformes são estáticos e entediantes. Copiei o estilo dos melhores quadrinistas, tornando as páginas dinâmicas e animadas. Desenhei cada cena como se fosse o todo.

Por que imaginou Dante como um personagem de história noir?
É o estilo que combina com o espírito da minha arte. E desenhar togas não me interessava…

Qual foi a parte mais difícil e a mais interessante de ilustrar?
O Purgatório foi difícil pela variedade de situações com a ação à beira da montanha. A mais interessante foi o Inferno, naturalmente, porque as punições e os personagens são gráficos e prazerosos.

Não é mais difícil impactar com um Inferno em preto e branco?
Doré fez a versão dele em preto e branco, e ela é boa o suficiente para mim. Cores tornariam os desenhos menos gráficos e mais decorativos.

PIERO BAGNARIOL
Quadrinista italiano radicado no Brasil

“É quase a pedra fundamental do idioma”

Por que resolveu adaptar a Divina Comédia?
A editora me convidou a adaptar um clássico da literatura italiana, e a escolha foi meio natural. A Comédia é quase a pedra fundamental do idioma.

O quanto você já conhecia do livro e como foram as pesquisas?
Tinha lido na escola, mas meu pai, Giuseppe, conhece bem a obra e me ajudou no roteiro. Tivemos ainda consultoria da Maria Teresa Arrigoni, especialista na obra dantesca.

Como foi adaptar a partir de trechos já traduzidos?
Jorge Wanderley tinha traduzido todo o inferno, mas Henriqueta Lisboa e Haroldo de Campos tinham vertido só partes do Purgatório e do Paraíso, respectivamente. Partimos do original em italiano, e os trechos que não tínhamos, adaptamos num enredo que retrata um pouco a vida de Dante e serve de pano de fundo.

Que parte foi mais difícil e mais interessante adaptar?
O Purgatório tem a cena de uma procissão. uma alegoria da história da igreja, que foi bem difícil traduzir graficamente. O mais interessante foi a mudança de estilo de um reino para o outro: grotesco no Inferno, elegíaco no Purgatório e sublime no Paraíso

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7 Respostas

  1. Raquel, parabéns pelo trabalho.

    Fiquei em dúvida em relação às interpretações musicais da “Divina Comédia” por Schumann e Rossini. Quais seriam essas obras?

    Sei que Liszt compôs uma “Sinfonia Dante”, com três movimentos (Inferno, Purgatório e Paraíso), e que Tchaikovsky tem um poema sinfônico “Francesca de Rimini”, sobre os amores de Paolo e Francesca. No entanto, nunca ouvi falar do que Schumann e Rossini compuseram sobre o poema de Dante.

    • Oi, George, obrigada. Então, eles foram citados na entrevista – música erudita não é o meu forte, sorry. Na checagem, antes de escrever, achei referência do Rossini, que não especifica qual a composição (http://www.jstor.org/pss/40166513), e tinha achado uma do Schumann que já não encontro. Vendo agora en passant encontrei essa tese da Unesp sobre a transposição das influências literárias dele para a música, e há citações a Dante (http://migre.me/4DnyD), mas de fato está difícil achar. Será que está errado? Ixe. O primeiro texto fala em mais de 120 composições, muitas pouco conhecidas… Vou checar com calma quando estiver mais tranquila aqui e ver se é o caso de dar uma errata!

    • Obrigado pela atenção, Raquel, mas não se preocupe com as referências musicais. Apesar de meu gosto por música, reconheço que as citações são apenas um detalhe no seu texto, cujo assunto está muito bem tratado.

      Por sinal, existe alguma edição brasileira da “Divina Comédia” que reproduza as ilustrações de Gustave Doré?

  2. Cara Raquel, me veio esse teu texto pelo Google Alerts. Venho acompanhando essa publicação a que te referes, pelos jornais, e ainda não me animei a adquirir essa publicação, embora gostaria de vê-la em italiano, coisa que aparentemente ainda não existe. De qualquer forma, é uma excelente empreitada e teu texto convida a ler a CoMMedia em HQ, mesmo em brasileiro. Pois, eu, descendente de imigrantes de italianos da região do Vêneto, tiven no avô paterno, uma legenda: de fato, ele possuía os dois volumes da CoMMedia com as ilustrações de Doré. O velho lia e sabia de cor muitos dos versos, mas não mostrava as figuras do Doré… Isso minha avó, que era analfabeta, o fêz depois que ele morreu. Eu, guri, vendo os diabos e a nudez, tudo ao mesmo tempo, me enchia de medo erótico ou erotismo medonho. Não é por nada que na fantasia popular se acha que é melhor ir para o Inferno… que para o Paradiso? (Bem apontas, que a entrada do Inferno `convidaria para um inferninho ou cabar, etc.) Depois de muito gozoso penar, por esses infernos, purgatórios e também pelos paradisos do Dante, me meti a fazer a minha tradução da CoMMediam, tradução que ainda não me agrada e, mesmo convidado a publicá-ça, não vou fazer, pois, continuar a retocar me dá muita paz e prazer. Estou enviando aos leitores inscritos no meu saite (como diz Millôr) o teu endereço de blog com esse teu comentário. E se entrares nele, gostaria de ouvir tua opinião sobre o modo de traduzir que eu adoto. Att jlcaon

  3. TInha visto no jornal. Vendo de novo, não tem dúvida. Pela amostra do que esses desenhistas fizeram com Dante, Gustavo Doré descanse no paraíso com a certeza de que ainda não apareceu quem o superasse…

    • Como ilustração, não supera Doré mesmo não, Leo, tem razão, e arriscaria dizer que eles estão cientes disso. Mas, em defesa deles, quadrinhos são outra linguagem – e, olha, eu achei o trabalho do Piero bem interessante.

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