Incontinência editorial


Não lembro onde foi que ouvi a expressão. Quase certo que foi de um ex-editor meu, gênio das frases lapidares. Ou talvez tenha surgido numa mesa de bar, uma dessas criações coletivas que na verdade nunca são coletivas, sempre têm um dono, mas depois do calor da conversa ninguém sabe apontar quem seria. Só sei que minha, infelizmente, não é.

Mas dia desses, tentando equilibrar novos pacotes sobre livros que esperam avaliação na mesa de trabalho, me veio à mente a convicção: vivemos tempos de incontinência editorial.

Tinha pensado em postar uma foto da minha mesa aqui na Redação para dar a dimensão do peso desta afirmação, mas concluí que isso poderia só depor contra mim. Porque, né, sem que se saiba a velocidade com que os lançamentos invadem resquícios de espaços livres, o registro fotográfico corre o risco de não parecer mais que prova inequívoca de uma incapacidade crônica de organizar as coisas.

Tudo bem que historicamente é essa, mesmo, de pura bagunça, a impressão que tem quem vê as mesas de editores e repórteres de literatura, facilmente identificáveis nas redações de jornal (lembrei agora do mocinho que comandava, anos atrás, incursões escolares pela Redação da Folha. Sempre que ele chegava à Ilustrada, apontava para as mesas dos repórteres de literatura, como se os jornalistas ali instalados fossem mero acidente geográfico, e repetia para o grupo de visitantes da vez: “Prestem atenção na quantidade de livros dessas mesas. Que editoria vocês acham que é essa?”).

Mas ando especialmente abismada com a quantidade de títulos chegando ao mercado nos últimos meses. E falo isso levando em conta quase apenas publicações de ficção e não ficção, sem considerar didáticos, jurídicos e outros tantos que não têm divulgação em cadernos literários. Tudo bem, faz apenas três anos que lido com isso, mas do alto dessa experiência meio embrionária não me lembro de outra ocasião em que o ritmo da chegada de material tenha sido tão desproporcional à capacidade de vazão. Não me lembro de tantas editoras, tantos selos, tantos autores independentes, tantas investidas no mercado infantil e no de quadrinhos, tantos e tantos títulos disputando espaço na mídia em tão pouco tempo. E isso porque muitas casas guardam boa parte dos lançamentos para a Bienal do Rio, que acontece só em setembro.

Acho sintomático deste momento que um dos 10 finalistas do Prêmio SP de Literatura (e também dos 50 finalistas do Portugal Telecom) seja o romance Poeira: Demônios e Maldições, do Nelson de Oliveira. Nelson é conhecido no meio literário pelo apoio que dá a jovens escritores, tendo inclusive lançado antologias com a recente produção do País. Mas esse livro dele, uma delícia de romance que acabou menos falado do que merecia à época do lançamento (soterrado por outros lançamentos, talvez?), trata justamente de uma distopia que agora já não me parece tão distópica: o narrador testemunha um mundo abarrotado de livros, ao ponto de governos terem de proibir lançamentos, e onde edições clandestinas cismam em encher bibliotecas e quaisquer outros cômodos onde se possam enfiar caixas de livros.

O mercado editorial brasileiro vive um ótimo momento, ninguém há de negar, tendo sido capaz até de atravessar sem maiores arranhões a crise que abalou o cenário internacional em 2008. Mas a dúvida volta e meia me atormenta. Existe comprador para tanto livro? Desconsideradas as generosas aquisições feitas pelo governo, a partir de uma seleção de títulos a serem espalhados por bibliotecas País afora, será que a maior parte desses lançamentos não permanece tão intocada quanto chega às livrarias?

Sei lá. Acho que prefiro nem evoluir os pensamentos que me vêm a partir disso, porque em algum lugar esses livros todos têm de parar.

***

Na falta da foto da minha mesa, lembrei que poderia ilustrar o post com um trabalho do ótimo estúdio de design The Project Twins. Tinha separado essa imagem no meu banco de imagens (quem lê isso até pensa que, no fim das contas, sou organizada) pelo simples fato de tê-la achado bonita. Só ao pesquisar antes de postá-la soube que, na verdade, ela faz parte de um projeto de ilustrar palavras pouco usuais do alfabeto. Esta imagem em específico se refere a uma prática que ninguém em sã consciência defende: biblioclasmo, ou queima de livros, geralmente por motivos morais, religiosos ou políticos.

(Já que falei no Project Twins, vale espiar verbetes menos mal-afamados que eles ilustraram: acersecomic, referente a pessoa que nunca teve o cabelo cortado;  cacodemonomania, crença patológica de que alguém carrega um espírito maligno; e por aí vai. As soluções gráficas do estúdio são lindas.)

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12 Respostas

  1. raquel, sou suspeito, porque meu livro (se não saiu do envelope ou já não foi parar em algum outro lugar, rs.) apareceria (também não estivesse soterrado) na foto da sua mesa – e também na mesa do ronaldo, que retuitou seu texto (e cujo livro de estreia saiu pela mesma editora que o meu). minha impressão é de que, em certa medida, esse excesso não se restringe ao mercado editorial. se por um lado falta muita coisa atualmente, no fim das contas também acaba sobrando muita coisa: muitos garotos tentando a vida nas peneras de futebol várseas afora, muitos autônomos em cada vez mais especialidades, muitos currículos chegando ao rh das empresas, uma padaria em cada esquina etc. etc. no caso dos livros, acho mais assustador as publicações de auto-ajuda (que, ainda bem, vocês não resenham) dominem o mercado – basta consultar a lista dos mais vendidos e comparar a mesma lista de dez anos atrás para concluir que as pessoas compram cada vez mais textos para distrair, incentivá-las, trazer supostas saídas e coisas do tipo. nesse sentido, se há ainda malucos que resistem e batalham (porque publicar continua, apesar de tudo, muito difícil) para produzir obras que batem de frente com essa tendência, tanto melhor, não? bom seria se tivéssemos mais jornais, se as pessoas se interessassem mais pelos suplementos, se literatura fosse ensinada desde cedo de outro jeito… abs!

    • Haha, ai, Renato, não faz eu me sentir culpada com seu livro soterrado na minha pilha… Sabe que tem livro de muita gente boa perdido ali. Em relação ao excesso de publicações, tenho mesmo um sentimento bem dúbio, como acho que dei a entender no post… Beijo, Raquel

  2. Curioso. Meu primeiro pensamento ao ver a ilustração foi : Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

  3. opa, “sentimento de culpa”? daí você podia marcar uma consulta no meu consultório, rs. brincadeiras à parte, não foi a intenção, o debate é bão! (para rimar). bj!

  4. Olá Raquel,

    nos dados relativos a 2009, foram 88 novos títulos no mercado por dia útil. Dados aqui http://livroslivrariaselivreiros.blogspot.com/2010/08/mercado-editorial-brasileiro-em-2009.html

    A pesquisa relativa a 2010 ainda não foi divulgada mas, com certeza, os números serão maiores.

    abraço
    jaime

  5. Oi Raquel,
    perfeita tua impressão.
    tenho ficado com um pouco de aflição de grandes feiras de livro, bienal, etc, me perguntando: pra onde vai tanto livro?
    agora, a minha dúvida principal é: mais além da difusão do livro, necessária em algumas regiões e para alguns setores da população que ainda tem acesso escasso, o quanto estamos investindo na difusão da leitura?
    sem isso…
    abços
    Lilian

  6. […] mais: Incontinência editorial « A biblioteca de Raquel Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag biblioteca:, editorial, […]

  7. At last! Someone who unedrstands! Thanks for posting!

  8. […] decorreu da percepção de que nunca tantos livros foram enviados para divulgação no jornal, uma impressão bem subjetiva sobre a qual já escrevi aqui e um tema que confirmei na entrevista que Rinaldo, Bira, Toninho e eu fizemos com o Luiz Schwarcz. […]

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