Laura Restrepo: "Queria contar uma história épica sem heróis"


Eu ia dizer que segue abaixo a íntegra da entrevista publicada hoje no Caderno 2, mas seria mentira. Não tirei a fita toda. Digamos então que é a edição revisada e ampliada da conversa que tive por telefone com a colombiana Laura Restrepo, que vem para a Flip lançar o romance Heróis Demais.

Laura é uma simpatia de pessoa, mas, em tempos de extrema polarização política no Brasil, tem grandes chances de inflamar ânimos mais exaltados por suas convicções um tanto (e assumidamente) românticas de esquerda. Rezarei pela paz da minha caixa de comentários…

Foto: Carlos Duque/Divulgação

***

Um embate entre duas gerações

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Ao final da entrevista por telefone ao Estado, a escritora colombiana Laura Restrepo, de 61 anos,  pede licença para inverter os papéis – tem algumas perguntas a fazer. Como foi ler o romance estando no Brasil?, quer saber. Há elementos reconhecíveis? As reações do protagonista coincidem com as de sua geração?

O jornalismo que deixou em segundo plano desde o início da carreira como ficcionista – é autora, entre outros, do premiado Delírios (2004) – lhe parece agora necessário por uma razão muito pessoal. Em Heróis Demais, romance recém-lançado sobre o qual vem falar na Flip, em julho, pela primeira vez ela expõe suas próprias vivências na ficção.

Também por esse motivo, o romance centrado nos anos em que Laura militou contra a ditadura na Argentina demorou a sair do campo das ideias. Na narrativa, Mateo, filho de Lorenza (baseado em Pedro, filho de Laura), nascido enquanto ela e o marido participavam da resistência não armada, quer entender quem é seu pai e por que ele o abandonou. Veja trechos da entrevista concedida desde o México, onde vive a escritora.

O romance tem forte viés autobiográfico, referente a vivências de décadas atrás. Por que não escreveu essa história antes?
Por isso mesmo. É meu único romance baseado na minha própria história. Sempre recorri a histórias alheias ou de ficção justamente para evitar as minhas. Mas isso se tornou imprescindível por uma questão literária, porque me parecia possível uma nova forma para contar as histórias daquele período. Tanto os tiranos que tivemos no continente como os rebeldes que se opuseram a eles têm caráter pré-moderno e geram um tipo de épica que tende a ser contada em termos épicos. O romance, um gênero moderno, não tem nada a ver com isso, tende a ser a história de anti-heróis. Dei o título Heróis Demais porque queria contar uma história épica sem heróis. Já do ponto de vista pessoal, eu tinha uma conversa pendente com meu filho. Era tema delicado, sobre sua origem, sobre seu pai. Escrever foi uma forma de travar esse diálogo. Foi um processo bonito. Enquanto eu escrevia, ele terminava seu doutorado em literatura e começava seu primeiro romance, uma história juvenil chamada Épica Patética, sobre um adolescente que quer crer num mundo heroico enquanto a realidade se impõe. Conversando pela literatura, e não diretamente, pudemos digerir um tema difícil.

Por que resolveu colocar o filho, e não a mãe, que seria você, como protagonista?
Me custou decidir isso. A princípio, a protagonista era ela, o que me dava duas opções: ou Lorenza usaria sua retórica de esquerda, de justificar e até exaltar a atuação antiditatorial, e isso, como falei, não me interessava; ou teria um olhar contemporâneo, menos adulador, mas essa opção falsearia a personagem. Enquanto Lorenza foi o centro do romance, ele não funcionou. Deu certo quando Mateo cresceu como personagem e se impôs. Eu queria que o leitor, ao abrir o livro, encontrasse um rapaz cheio de dúvidas, sem segurança por desconhecer sua origem, e, quando o fechasse, visse um Mateo adulto, que toma as rédeas de sua história.

Embora tenha base pessoal, a narrativa é também o retrato de uma geração pós-militância?
Penso que é o retrato da relação das duas gerações, a militante e a que veio depois, uma geração convencida de seus atos e outra que a questiona. Militei por muitos anos e, basicamente, sigo com as mesmas convicções de então. Também no caso de todos os meus amigos da época, os filhos se saíram muito críticos, não estão convencidos de que tenha valido a pena o sacrifício da vida familiar, nada sabem do que se conseguiu politicamente. Creio que em todo o continente, onde houve luta antiditatorial, exista uma geração que questiona os supostos heróis. Isso leva outra vez ao título Heróis Demais. Mateo quer que a mãe lhe apresente um homem de carne e osso, que abandona o filho aos 2 anos, mas Lorenza lhe fala de um herói.

Você fala em convicções… Mas a visão de Matteo não é também de certa maneira a sua, tantos anos depois?
Sim, de certa forma sim, é claro, senão não teria escrito o livro. Isso tem a ver com o personagem que cresce na história, que não é Lorenza, que de alguma maneira permanece fiel a seus esquemas velhos, e sim Matteo, que se permite uma visão diferente. Mas eu não queria para a mãe uma visão desencantada com o que fez naquela época, porque eu não me sinto assim. Apesar de tudo, estou convencida de que o que a esquerda e a clandestinidade fizeram foi definitivo para a queda das ditaduras, embora sempre tenha havido uma torpeza por parte da esquerda para assumir o poder. Mas estou convencida de que esse tipo de grupo, o não armado – nunca participei da resistência armada, detesto as armas, sou colombiana, estou até aqui de mortes e para mim as armas não são o símbolo de nada bom… Enfim, a resistência, a oposição à ditadura, na Argentina, no Brasil, porque tinha que ser clandestino porque todos os partidos estavam proibidos… Não queria uma visão desencantada nem olhar da direita um processo de esquerda, mas sim mostrar esse grande vazio geracional que produz um certo tipo de linguagem quando se confronta o passado.

Verdade que você precisou refazer o manuscrito várias vezes para fugir do tom panfletário?
Sim, isso me custou muito. Havia uma linguagem dura, difícil de romper. Também foi difícil por se tratar de um momento em que não se podia fazer anotações. Foi a única época da minha vida em que não tomei notas, uma época particularmente sem recordações, porque, quanto menos se soubesse, mais seguro era. Lorenza tenta a todo custo apagar a memória, enquanto Mateo precisa que ela a recupere, pois é o único elo que ele tem com o pai. O que se passa com Lorenza se passou comigo. Você pode fazer um retrato político minucioso de cada detalhe da ditadura, mas o que você sentia? Não se pergunta. Para mim, foi um estremecimento, eu não tinha ideia. Era preciso desvendar algo que estivera vendado por muito tempo, o que eu não tentaria fazer, não fosse a pressão do meu filho.

Você voltou a Buenos Aires enquanto escrevia o livro, o que também acontece no romance. Fora da ficção, como foi reencontrar os colegas de militância?
Ah, foi muito genial. Conto no romance que estava num teatro apresentando uma obra e apareceram os companheiros. Foi bem assim. Durante os anos de militância, era gente absolutamente próxima de você, você estava nas mãos deles e eles nas suas. Você tinha uma relação muito estreita, mas não sabia como se chamavam, seu endereço, seu telefone, qual a profissão que tinham quando não estavam militando, você não podia saber isso. Então, quando regressei a Buenos Aires, não sabia como encontrá-los, não tinha telefones de quase ninguém, só de uns três ou quatro. Então, como coloco no livro, fiz uma apresentação aberta em Buenos Aires e vários ex-companheiros da clandestinidade apareceram. Foi muito emocionante, nós todos já mais velhinho, meio gordinhos (risos), muito emocionados. Nos inteiramos sobre qual era a profissão de cada um, quantos filhos tínhamos. Esse tipo de coisa. E gritando! Porque na época da ditadura eram só sussurros, conversas de cinco minutos antes de sair para não ter problemas de segurança. Foi estupendo o reencontro. O livro também serviu para isso, para voltar a ver pessoas que havia perdido na vida.

Como tem sido a recepção ao romance?
Olha, olha, não tão fácil. Por exemplo, lembrando entrevistas que fizeram comigo na Europa… Os europeus são mais rígidos que os latinos americanos, e os norte-americanos também defendem certos esquemas e se incomodam se são rompidos. Um desses esquemas é que não se pode juntar o pessoal com o político. Porque o romance também é político, mas uma coisa que me interessava era estabelecer a ponte entre o pessoal com um conteúdo profundamente político e vice-versa. Parte de um esquema arcaico estava em separar essas duas coisas. Quando jornalistas me questionavam sobre isso, eu gostava de dar o exemplo da vanguarda da luta antiditatorial na Argentina, as Mães da Praça de Maio, mulheres que não pertenciam a nenhuma organização nem tinham formação política, mas foram levadas pela urgência de recuperar seus filhos, as que primeiro se atreveram a sair para as ruas e encarar a tirania. Aí está claríssima a junção do pessoal e do político. Parte do processo de conseguir uma linguagem passava por unir as duas coisas, mas senti que isso despertou resistências. Na Colômbia, teve gente de esquerda reclamando: “Esperávamos que nos contasse de verdade o que foi a ditadura”. E eu respondia: “Bem, é a ditadura contada por como uma militante a vivia.” A posteriori, você consegue muita informação, fica sabendo da relação dos tiranos argentinos com Kissinger, por exemplo, mas, naquele momento, era muito pouco o que se sabia, porque a informação não circulava. Quem militava tinha um encontro semanal de cinco minutos com o responsável e o que ele dizia ali era tudo o que se sabia. Não queria fazer uma Lorenza hiperinformada, seria violentar a personagem. A verdade é que você se move como um cego, tateando na escuridão, esse era o essencial da clandestinidade. Quis manter isso e reclamaram, porque o romance não conta mais. Mas o que eles queriam todo mundo já contou! E eu queria recriar o ambiente em que se vivia na resistência não armada. Essa era outra questão: me parece que toda a épica da luta armada já se contou, mas essa outra resistência, muito mais discreta, feita de atos mínimos, como atravessar a cidade para levar jornais a um contato, muito menos heróica, muito menos vistosa, muito menos literária, era o que me interessava resgatar.

Como é sua relação com a ideia de militância hoje, com a política?
Bem, não milito, mas a política segue me apaixonando. Tenho a sensação de que a crise é tão profunda que requer uma transformação no terreno cultural. É algo muito mais amplo que só atividade política, e acho que literatura, música, teatro e cinema são terrenos propícios para  iniciar a mudança. Não milito como antes, tampouco tenho a energia, era preciso um vigor que eu perdi, mas sinto que o vínculo com a política segue na vida cotidiana e também pelas questões… Ainda que eu não tenha tentando passar mensagem política, isso seria absurdo de se pretender, um romance com isso seria nefasto.

Quando fala de crise que requer transformação, você se refere exatamente a que?
Acho que agora está claro que os velhos esquemas estão esgotados, cada vez se vê mais que capitalismo batendo para uns poucos se beneficiarem e uma imensa quantidade da humanidade que fica de fora e não tem nada o que esperar. Antes isso era uma visão de esquerda, e me parece que está se tornando mais claro para setores maiores. Sinto um processo geral que está rompendo esquemas do Ocidente. No Oriente Médio, por exemplo, nesse embate entre democracia e islamismo antidemocrático. Foi um movimento geral de caráter democrático, coisa que não se esperava e que foi a grande surpresa desses tempos.

Você já veio ao Brasil?
Muito pouco… Estive aí várias vezes, mas nunca mais de 24 horas. Será a primeira vez que poderei passar mais tempo. Vou com enorme entusiasmo, porque sinto que uma característica desta é a aproximação do Brasil com o resto da América Latina. Acho que elementos culturais muito fortes podem partir disso.

Sua obra dialoga com a de seu conterrâneo Hector Abad, com quem debaterá na Flip, certo?
Sim, e me encantou saber que estaremos na mesma mesa. Somos amigos há muito tempo, e há muita afinidade entre os livros. Fui eu quem deu o título do livro que ele vem lançar (A Ausência do Que Seremos). A história de Hector também é autobiográfica, ele também buscou um tom íntimo para relatar uma história política, e no livro dele a figura do pai é importante como em Heróis Demais.

TRECHO
“Quando Lorenza anunciou em Madri que estava disposta a se mudar para Buenos Aires para militar na linha de frente, foi encarregada de imediato de levar no avião, camuflados, uns microfilmes, uns passaportes de diferentes nacionalidades e uns dólares em dinheiro vivo, não se lembrava quantos, mas eram muitos, ou pelo menos nesse momento tinha parecido que era uma quantidade enorme. Tudo isso para entregar para ele, Forcás. Como encontro Forcás?, tinha perguntado, e lhe disseram você não procura por ele, ele procura por você.
– Meeerrrda – Mateo disse -, meu pai, o Indiana Jones da revolução. Você faz cada novela, mãe!

Anúncios

8 Respostas

  1. Raquel, ao ler a reportagem, me interessei pelo livro e destaco: “Mateo quer que a mãe lhe apresente um homem de carne e osso, que abandona o filho aos 2 anos, mas Lorenza lhe fala de um herói.”
    De certa forma, confesso, questionar os “supostos heróis”, frente a tanta coisa que se vê no cenário político atual.
    Penso que o livro deve proporcionar momentos de reflexão.

    • Acho que proporciona, sim, Daniela. De fato, como a autora diz na entrevista, ela segue com as mesmas convicções, mas consegue dar um olhar distanciado e crítico a elas.

  2. pronto, tô convencida a ler o livro. e não tenha medo dos comentários, tá linda a entrevista.

  3. Oi Raquel

    Gostei da entrevista, só uma observação:

    Na nona questão está escrito assim: ‘Antes isso era uma visão de esquerda, e me parece que está se tornando mais claro para setores mais grandes.’

    A correta tradução não seria: ‘setores maiores’?

    Abraços

  4. […] Naify, Benjamin Moser fala sobre a verdadeira poesia de Clarice Lispector. Na Biblioteca de Raquel, uma entrevista com Laura Restrepo. No Todoprosa, o teste Naipaul: qual o sexo dos escritores?. No b33p, Matheus Lins fala sobre Um […]

  5. […] Laura Restrepo – “Queria contar uma história épica sem heróis” […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: