A coluna Babel de 4/6


[Publicada no Sabático.]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br

TRADUÇÃO-1
Burton e a história da melancolia

Espécie de psicanalista avant la lettre, o clérigo e intelectual inglês Robert Burton (1577- 1640) passou 30 anos trabalhando em Anatomia da Melancolia, tratado pioneiro sobre o tema que virou algo como um best-seller do século 17, com cinco edições revisadas e ampliadas entre 1621 e a morte do autor. A sexta edição, lançada postumamente, está em tradução por Guilherme Gontijo Flores para a Editora da UFPR. Será a primeira publicação da obra no Brasil, em quatro volumes que devem somar 2 mil páginas, com o primeiro previsto para agosto. O ineditismo da tradução do título – ao qual Moacyr Scliar dedicou boa parte de seu Saturno nos Trópicos – explica-se por dificuldades impostas pelo texto: “É uma obra quase bilíngue. Ele cita muito em latim, tanto que às vezes o texto fica macarrônico”, diz Gontijo, que também ressalta a técnica literária do estudo, “com muitas subordinadas, hipérboles, inversões e metáforas”.

Trecho de Anatomia da Melancolia, por Guilherme Gontijo Flores

“Se alguém objetar contra a matéria e a maneira de tratar este assunto e demandar uma razão para tanto, posso alegar mais de uma; escrevo sobre melancolia pois me ocupo para afastar a melancolia. Não há causa maior de melancolia que o ócio, nem cura melhor que a atividade, como sustenta Rásis, e, no entanto, stultus labor est ineptiarum, ocupar-se de bagatelas tem pouco valor, mas atentai ao divino Sêneca, melhor aliud agere quam nihil, melhor fazer o inútil que nada. Escrevi, afinal, e me ocupei nesse trabalho lúdico, otiosaque diligentia ut vitarem torporem feriandi [para evitar o torpor da inatividade, repousando em ociosa diligência] como Vécio em Macróbio, atque otium in utile verterem negotium [tornando o ócio um negócio útil].”


TRADUÇÃO-2
Variações do mesmo tema

A caprichada edição da Odisseia recém-lançada pela Editora 34, com tradução de Trajano Vieira, é a primeira de várias versões do épico de Homero que chegam até o ano que vem. Após anos batalhando pelos direitos da versão de Carlos Alberto Nunes (1897- 1990), a Hedra publica a sua edição em julho. A Penguin-Companhia das Letras comprou da portuguesa Cotovia o texto vertido por Frederico Lourenço e prevê publicá-lo em setembro. Ficou para 2012 a da Cosac Naify, a cargo de Christian Werner.

Paisagem. Seis pinturas e desenhos de Elizabeth Bishop (1911-1979), como Brazilian Landscape (acima), além de tradução inédita do poema Five Flights Up, por Paulo Henriques Britto, estarão na #serrote 8 1/2, que será distribuída gratuitamente na Flip

MÚSICA
Fé em Miles Davis

Em setembro, exatos 20 anos após a morte de Miles Davis, a Casa da Palavra publica The Blue Moment, livro de Richard Williams definido pelo Guardian como “uma carta de amor, uma afirmação de fé religiosa” sobre Kind of Blue, obra-prima do jazzista.

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A ampliação no número de títulos internacionais do catálogo faz parte das mudanças pelas quais a editora passa após unificar operações com a Leya. Outra novidade se dará na área de publicações de arte, uma das marcas da Casa da Palavra. Além do formato de livro de arte, os títulos sairão em versão trade, com preços mais acessíveis.

ORÇAMENTO
Mais com menos?

A Fundação Biblioteca Nacional foi menos afetada pelo corte de verbas do MinC que outras instituições. A queda no orçamento do ministério de 2010 (R$ 2,3 bilhões) para 2011 (quase R$ 1,9 bilhão) foi de 19%. Na FBN, ficou nos 14% (de R$ 86,2 milhões para R$ 73,9 milhões). Como a FBN incorporou a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, agregou ainda suas verbas, de R$ 12,6 milhões. No total, terá R$ 86,5 milhões.

*

Mesmo com orçamento mais enxuto, o presidente da instituição, Galeno Amorim, acumula projetos. Uma meta para este ano é criar um selo editorial, com projeto gráfico definido e coleções a partir do acervo. A FBN, diz ele, “não concorrerá com o mercado, mas publicará de forma mais sistematizada”.

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Enquanto isso, quem divulga a literatura brasileira no exterior teme uma redução no programa de bolsas de tradução da FBN, que fora ampliado antes da mudança de governo. “Estamos à espera, urgente mesmo, de que seja reiniciado”, diz a agente Nicole Witt, que acompanha a preparação da presença do Brasil na Feira de Frankfurt 2013.

FILOSOFIA
Duas vezes Barthes

Um dia após a morte de sua mãe, em outubro de 1977, o francês Roland Barthes (1915- 1980) iniciou um diário com reflexões sobre solidão, tristeza e resistência da sociedade à dor. Publicado em Portugal como Diário de Luto e inédito no Brasil, Journal de Deuil sai em agosto pela WMF Martins Fontes.

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Por curiosidade, uma das obras que ele escreveu junto com o diário, A Câmara Clara, estudo sobre fotografia editado aqui em 1984, volta às livrarias na mesma época. Sai pela Coleção Fronteira, da Nova Fronteira, que resgata títulos há muito fora de catálogo.

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4 Respostas

  1. Olá. Parabéns pela sua inteligência e cultura. Se possível, avise quando forem lançados os livros de Burton. Vou comprá-los, todos, mas como moro em uma fazenda, meus acessos são determinados pelo clima, pelo fio do telefone, pelo serviço elétrico de primeiro mundo, etc. Obrigado desde já.

    • Aviso por aqui, pode deixar. Tomara que EU também fique ciente, porque não sei se os livros da Editora da UFPR chegam facilmente a SP (mas o tradutor há de avisar, espero!). Bjs e obrigada!

  2. Olá Raquel,

    Só recentemente, com clássicos de Shakespeare, me dei conta de como uma boa tradução influencia no ritmo da leitura. Comecei a prestar mais atenção em recomendações de traduções bem feitas.

    O seu blog e o da Denise Bottmann são minhas principais referências (só está faltando tempo para mais leituras).

    Jose Luis
    (você perguntou meu nome em outro post, tá aí!)

    • Oi, José Luis! Pois é, faz uma superdiferença. Adoro essas histórias que envolvem tradução (a Denise é uma das maiores defensoras da classe, faz bem em acompanhar o blog dela). Bjs, volte sempre!

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