O mistério do Garra Cinzenta


O lançamento da HQ Garra Cinzenta dá boa dimensão da capacidade que a internet tem de fazer uma especulação virar verdade. Três semanas atrás, quando leitores de quadrinhos ficaram sabendo que sairia essa edição de luxo, voltou com tudo a boataria sobre a autoria – ninguém sabe quem é de fato Francisco Armond, que assina o roteiro. Dias atrás comecei a buscar pessoas envolvidas e lamentei não ter mais tempo. Acho que, numa daquelas reportagens que permitem semanas de apuração, dava pra descobrir. Mas ao menos deu para esclarecer detalhes que mais complicavam que resolviam.

O resultado, que saiu no Sabático de hoje, taí.

***

Veiculada no jornal A Gazeta de 1937 a 1939, série nacional pioneira nos gêneros noir e terror ganha edição integral e de luxo, trazendo à tona enigmas tanto dentro quanto fora da ficção

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Quando, três semanas atrás, a editora Conrad colocou para pré-venda uma edição de luxo com a íntegra do Garra Cinzenta, antigas especulações sobre a série noir veiculada de 1937 a 1939 no jornal paulistano A Gazeta voltaram à tona, desta vez propagando-se pela internet com ares de absoluta verdade e a força de um plano maligno para dominar o mundo. O roteirista assinava como Francisco Armond, mas seria na verdade uma mulher, Helena Ferraz de Abreu. O vilão desenhado por Renato Silva teria sido covardemente plagiado por ilustradores de séries muito mais bem-sucedidas em âmbito internacional, como a americana Terror Negro. O encerramento da trama, apesar de se dar num redondíssimo capítulo número 100, envolveria motivações nunca reveladas.

As conjecturas acerca do Garra Cinzenta evocam o status de cult atingido pela saga nas décadas seguintes à publicação, quando possuí-la na totalidade era regalia de poucos colecionadores. Durante os dois anos em que circulou no suplemento A Gazetinha, a história que a princípio saía três vezes por semana teve a veiculação interrompida em mais de uma oportunidade, chegando a ficar meses sem dar sinal de existência. O grande interesse do público – restrito a São Paulo, num momento em que os cariocas Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil eram as mais importantes publicações de quadrinhos do País – levou A Gazeta a publicar, em dezembro de 1939 e janeiro de 1940, dois álbuns com a íntegra da aventura.

Só 35 anos depois, em 1975, voltou à luz a saga do cientista com máscara de caveira responsável por assassinatos e experiências no estilo Josef Mengele (isso muito antes de os terrores promovidos pelo médico nazista ficarem conhecidos). A reedição ficou a cargo da Rio Gráfica Editora, que, no entanto, imprimiu só a primeira metade – essa versão incompleta é a que mais se encontra em sites de download. Uma edição integral saiu somente em 1998, organizada pelo jornalista e pesquisador de quadrinhos Worney Almeida de Souza, mas num fanzine com tiragem única de 500 exemplares, que logo se esgotou. É Worney o organizador da atual edição da Conrad.

É ele também quem assina a apresentação, na qual levanta algumas das especulações envolvendo o Garra Cinzenta: “Ninguém sabe com certeza quem seria Francisco Armond. Todos os indícios sugerem que fosse a jornalista Helena Ferraz, mas ela nunca assumiu a autoria publicamente”, escreve. A origem da versão que dá a ela a responsabilidade pelo roteiro é nebulosa. Uma busca na internet pelos textos defensores dessa tese faz notar que quase todos usam como base “indiscutível” um artigo do quadrinista Gedeone Malagola publicado em 2008 na revista Mundo dos Super-Heróis.

Escreve Malagola: “Álvaro Armando, o autor que assinava os roteiros de A Garra Cinzenta e Nick Carter, tratava-se de um pseudônimo de Helena Ferraz criado a partir dos nomes de seus dois filhos. Todos pensavam que Álvaro Armando (por vezes grafado como Álvaro Armand) fosse homem, mas Sérgio Augusto, pesquisador e estudioso das HQs, foi quem esclareceu esse mistério.”

Há uma profusão de erros nessa versão. A jornalista Helena Ferraz, que, com o marido, editava o independente Correio Universal, de fato assinava como Álvaro Armando. Mas não é esse o signatário do Garra Cinzenta, e sim Francisco Armond. Adeptos dessa teoria argumentam que esse pseudônimo seria uma variação do outro. Acontece que as mesmas fontes dão como certo o fato de Helena ser proprietária d”A Gazeta – e o jornal pertencia, na verdade, ao empresário Cásper Líbero. Citado por Malagola, Sérgio Augusto, hoje colunista do Sabático, dá o banho de água fria final: “A única vez em que mencionei Helena foi num texto sobre o Fantasma. Nunca soube de qualquer outra conexão dela com quadrinhos, salvo traduzir as primeiras aventuras da série.”

Malagola, único que poderia esclarecer o mal-entendido, morreu seis meses após escrever o texto, que só fez disseminar uma antiga e recorrente suspeita. Para tentar esclarecer o caso, o Sabático procurou Arnaldo Ferraz, atualmente com 80 anos, um dos filhos de Helena: “Ela foi jornalista por 30, 40 anos. Escrevia também poemas, era filha do poeta (parnasiano) Bastos Tigre. Mas não tinha nada disso de terror, não.”

“O fato é que ninguém sabe quem era Francisco Armond, nem gente daquela época, nem historiadores, nem pesquisadores de quadrinhos. Ninguém o conheceu”, diz Worney, que investigou a história em busca de herdeiros. O jornalista e pesquisador de quadrinhos Álvaro de Moya acredita que fosse o pseudônimo de algum repórter d”A Gazeta. Um dos primeiros a estudar o Garra Cinzenta, Moya foi próximo de Renato Silva, o desenhista. “Nunca perguntei a ele quem tinha escrito, porque naquele tempo a gente só se preocupava em criar. Só nos anos 50 é que começamos a ter curiosidade de pesquisar”, diz.

Ilustrações. Renato Silva, que morreu em 1981, não só era conhecido como também admirado por seus contemporâneos. Não pertencia exatamente ao universo dos quadrinhos, mas, como lembra Moya, “naquele tempo desenhista fazia de tudo”. Silva era de fato polivalente. Além do vilão da HQ, destacou-se na ilustração tanto de livros infantojuvenis – na mesma época em que fazia o Garra, criou os desenhos do clássico Cazuza (1938), de Viriato Correia – quanto de histórias “mais ou menos liberais em sexo”, publicadas na revista erótica Shimmy. Sua série A Arte de Desenhar tornou-se obrigatória entre aspirantes a ilustradores.

“Da década de 30, de todos os quadrinhos brasileiros, o Garra Cinzenta foi o mais surpreendente. Os desenhos, em especial mais perto do fim, atingem padrão internacional”, avalia Moya. O pesquisador vê na HQ influência das fitas em série, histórias de aventura que passavam em capítulos no cinema, antes dos longas-metragens. Naquele momento, os grandes sucessos em quadrinhos do gênero eram quase todos estrangeiros, como Flash Gordon e Tarzan, seriados no carioca Suplemento Juvenil. Isso explica por que o brasileiríssimo vilão Garra andava pelos subterrâneos de Nova York e intimidava inspetores de nomes como Higgins e Miller. O fato de ecoar o estilo das pulp fictions americanas causou confusão até no exterior, diz Moya. Na França, onde o personagem ficou conhecido como La Griffe Grise, acreditava-se que a origem era mexicana.

Visto com sete décadas de distância, o enredo criado como algo entre o noir e o terror ganha ares involuntários de comédia, o que só torna a leitura mais interessante. O destemido inspetor Higgins, por exemplo, é adeptos de expressões como “cair na esparrela” e não consegue evitar raciocínios em voz alta, o que facilita bastante a coisa para o Garra, que tem transmissores de som em tudo quanto é lugar. O roteiro é carregado de redundâncias, com as mesmas ações explicadas na imagem, nos balões e na legenda. E Flag, o monstro de aço construído pelo vilão, “uma personagem medonha, fantasmagórica, inverossímel”, como descreve o roteiro, manifesta-se apenas por meio de um impensável “Glu! Glu! Glu” (“Meu pobre Flag! Algum dia te darei o uso da fala”, lamenta Garra, num rasgo sentimental).

“Hoje é algo engraçado, superinocente”, avalia o quadrinista Danilo Beyruth, autor da elogiada Bando de Dois e admirador da trama, “mas tanto era original que muitos acreditam que inspirou personagens americanos posteriores, como o Caveira Vermelha e o Terror Negro”. Beyruth, que no Twitter usa para se identificar uma adaptação própria da caveira que o vilão carrega no peito, tem planos de criar uma história baseada no personagem – prova de que, passados 70 anos, o Garra envelheceu muito bem à sua maneira.

GARRA CINZENTA
Autores: Francisco Armond e Renato Silva
Editora: Conrad
(128 págs., R$ 39,90)


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E o Garra Cinzenta no traço do Danilo Beyruth, que planeja uma história com o personagem.

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6 Respostas

  1. […] Na Biblioteca de Raquel, o mistério da Garra Cinzenta. Sai a primeira arte do filme Os Vingadores. Viva João Gilberto, no Arlequinal. No blog Casmurros, a crítica e a literatura brasileira contemporânea. […]

  2. Em quase tudo este personagem lembra outro de séries pulps e que se tornou conhecido nas cinesséries: THE CRIMSON GHOST. O personagem voltou a ser conhecido quando virou o “mascote” da banda Misfits. http://www.youtube.com/watch?v=eXhEamEVuHc
    Ou seja, este Garra Cinzenta, pela época, bem pode ser uma cópia.

  3. Uau! Parece a estória do Francisco Iwersen, paranaense que conheceu Bob Kane e que foi criador do “Capitão Gralha” (revitalizado nos anos 90 como o curitibano-futurista “O Gralha”). Pelo menos no caso de Iwersen, já se sabe da verdade.

    • Terrível não saber, né? Acho que até dava pra descobrir isso com mais tempo de investigação. Tipo indo nos arquivos do jornal ou procurando gente que trabalhou lá na época – o problema é que quem trabalhou lá na época, se ainda estiver vivo, tem pra lá de 90 anos…

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