Estreia com Pulitzer


[Publicado no Caderno 2 de 15/6; abaixo, a íntegra da entrevista]

Passagem pelo tempo da escrita

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

O sucesso como baterista nunca veio, mas não foram em vão os anos que Paul Harding dedicou à Cold Water Flat, uma das inúmeras bandas americanas surgidas na esteira do Nirvana nos anos 1990. Da música, Harding resolveu levar para a literatura sua experiência como timekeeper, numa tentativa de acelerar ou retardar o andamento da obra conforme o efeito que pretendia causar.

Dar o ritmo da leitura pela forma não era pouca ambição para um novato nas letras, mas também não foi modesto o resultado. Lançado em 2009 por uma editora minúscula, o romance A Restauração das Horas conquistou espaço aos poucos em suplementos literários até, no ano passado, ganhar o prestigioso Pulitzer de ficção, honraria quase impensável para um estreante.

Não que o tempo tenha trabalhado sempre a favor do autor. Entre o fim da escrita e o lançamento, foram três anos de rejeições (preocupação que se somou ao fato de ter entrado na graduação de criação literária só aos 30, depois de a banda acabar). Apesar das menos de 150 páginas, o livro era considerado difícil demais (leia-se pouco comercial) por editores que se deram ao trabalho de lê-lo. A publicação acabou bancada pela Bellevue Literary Press, casa especializada em títulos de medicina com raras investidas em romances sobre questões médicas – no livro de Harding, passagens envolvendo a epilepsia são centrais.

Mas é de tempo, para resumir numa palavra, que trata o romance – como deixa claro a tradução A Restauração das Horas; em inglês, o título é Tinkers, funileiros. “George Washington Crosby começou a alucinar oito dias antes de morrer”, esclarece o narrador já na frase de abertura, uma pista definitiva da densidade da história que vem a seguir. George é um relojoeiro cujas lembranças no leito de morte trazem à tona as vivências do pai, que deixou a família ao descobrir a intenção da mulher de interná-lo num manicômio.

A origem da história é real – o avô de Harding era relojoeiro, e o bisavô, que sofria de epilepsia, o abandonou -, mas o autor tomou o cuidado de não saber mais que nuances de informações sobre a família para não ficar preso a elas, “Esses fragmentos biográficos eram um caminho sugestivo para a história”, diz Paul Harding ao Estado por telefone, de Georgetown, onde vive. “Foi natural o tempo e a memória tomarem o centro da narrativa a partir disso, O desafio então foi escrever sobre tempo sem cair em clichês. Tomei o cuidado de fazer com que as analogias e metáforas sobre relógios fossem mais importantes para George, na forma dele de pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever.”

A morte como ponto de partida, artifício com declarada influência de A Morte de Artêmio Cruz, de Carlos Fuentes, foi decisiva para a não linearidade escolhida pelo autor – de tempos em tempos, o leitor é levado de volta a George e aos dias ou horas que faltam para sua morte. A lentidão que a narrativa toma nesses momentos, e que tem a ver com a tentativa de Harding de controlar o tempo de leitura, decorre muito daí – o que levou o site Better Book Titles, que se propõe a resumir a história de livros em títulos mais esclarecedores que os reais, a sugerir para Tinkers o nome A Boring Clockwork (algo como A Engrenagem Entediante)

“É um romance meditativo, contemplativo”, prefere o escritor, cujo rol de autores preferidos inclui só nomes da alta literatura, como Emily Dickinson e Marcel Proust. Quase sem diálogos, o romance difere muito da nova investida de Harding na ficção, que ele entrega à editora em setembro – é claro que, depois do sucesso da estreia, a editora já não é a minúscula Bellevue, e sim a gigantesca Random House, que pagou adiantamento inclusive por um terceiro livro. A trama que deve chegar às livrarias americanas em 2012 é quase inteira de diálogos, diz Harding, mas o cenário soará familiar a quem leu A Restauração das Horas: coadjuvante no romance atual, com uma aparição de menos de uma página, Charlie, neto de George, será o protagonista.

***

No livro, você trata de memória a partir dos dias que antecedem a morte do protagonista, marcando a contagem do tempo como referência. Em que momento a profissão dele, de relojoeiro, entra nesse contexto? Foi um ponto de partida?
A maior parte dos detalhes da trama do livro é baseada em fatos da vida do meu avô. Ele, na vida real, consertava relógios. Então, eu sabia desde o começo que essa seria a profissão. O maior desafio foi escrever sobre relógios e tempo de maneira que não fosse clichê num livro todo sobre tempo e memória. Isso se tornou muito central, mas tomei o cuidado de que os relógios fossem mais importantes para George como um assunto, na forma de metáforas e analogias que ele usa para pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever de uma maneira filosófica.

E daí a iniciar o livro com o anúncio de uma morte…
Talvez o modelo que eu tivesse mais claro na minha mente seja o de um romance do mexicano Carlos Fuentes, A Morte de Artemio Cruz, que é  similar, uma revisão da vida a partir do final. Eu sabia que a morte estaria no início. E isso fez com que o resto do livro se tornasse tão não linear, íntimo, impressionista, ajudou a dar o tom de todo o resto do livro. Tudo funcionou por associação.

A história de Howard, pai de George, se torna central a certa altura do livro, quando ficamos sabendo da epilepsia dele. Isso também teve base real?
Sim. Eu me lembro de quando meu avô estava morrendo…. Ele não falava tanto do pai dele, mas, o pai dele, como Howard, tinha epilepsia e abandonou a família do meu pai quando ele tinha 12 anos porque a família queria interná-lo. Foi, creio, a catástrofe central na vida do meu avô, que se consolidou pelas gerações pelo resto da família, virou uma espécie de lenda familiar. Mas ele não falava tanto sobre isso, acho que o chateava tanto, ele veio de uma geração, ele e minha avó tinham aquela atitude de ficar lembrando do passado, do tempo em que viviam nas florestas. Então voltar a essa história em particular começou a se tornar irresistível. Quanto mais eu tinha George falando sobre Howard, mais eu pensava em Howard e mais ele começava a se tornar uma espécie de obsessão para mim como era para George.

Você investigou a história da sua família ou preferiu não saber muitos detalhes?
Foi melhor que não soubesse tanto sobre a família. O que sabia era isso que já te contei, a epilepsia, o pai abandonando meu avô, eu só sabia os fatos bem fundamentais. Porque se você sabe demais e se preocupa em pesquisar e descobre todos os detalhes para corroborar o que diz a família… Para mim, era um caminho sugestivo para a história, eu tinha os fatos básicos e tentei desvendá-los em uma versão puramente imaginária. A cidade em que se passa a história, Enon, por exemplo, é quase completamente imaginada. É muito levemente baseada em lugares em que eu costumava ir pescar com meu avô, a vila em que fui criado, paisagens de Massachusetts.

Seu próximo livro se passará na mesma cidade, certo?
Sim, o próximo será sobre um neto de George, Charlie, que aparece em A Restauração das Horas em tipo meia página. Será sobre esse neto e a filha dele. Mas não é uma sequência, embora também se passe no mesmo lugar. Eu queria outro romance na mesma cidade, com a mesma família, mas mais porque eu tinha tudo isso ao alcance das mãos, eu gosto do jeito como as pessoas falam, e a cara que tem a paisagem. Não quero ter que fazer nenhuma pesquisa, quero ter mundo ficcional inteiro bem ao alcance da minha mão.

Não sei se foi proposital, mas você escreve de uma forma que, pelo menos aconteceu comigo, às vezes obriga a uma leitura mais lenta, outras menos…
Num sentido mais geral, acho que é uma leitura lenta porque, quando escrevo, penso na prosa de A Restauração das Horas em algo mais como poesia lírica que como prosa regular. Queria que a língua tivesse a riqueza e a densidade e a musicalidade de uma poesia. E acho que isso ajuda a torná-la lenta. Mas também acho que é um romance meditativo, contemplativo. Tem esse pequeno plot, que, como você sabe, é sobre tempo, sobre o tempo explodindo e comprimindo e acelerando e desacelerando, e eu queria trabalhar com todos esses tempos. Mas também pode ser porque esse é o meu estilo.

Como está sendo escrever a experiência de escrever o segundo livro?

Uma das coisas mais interessantes de ser um escritor é prestar atenção nesse tipo de coisa. Acho que, a princípio, quero escrever um livro melhor do que o que escrevi, e não quero escrever a mesma coisa de novo. O que não significa que não queira escrever sobre os mesmos assuntos ou as mesmas pessoas, só quero ter certeza de que não escreverei as mesmas coisas de novo e de novo e de novo, quero algo que impressione. Um exemplo que me surpreendeu no livro novo é que em A Restauração das Horas quase não há diálogos, e nos poucos que há não se usam travessões. No novo, os dois personagens centrais, o pai e a filha, conversam o tempo todo, e eu resolvi usar os travessões. Só um exemplo específico… Em A Restauração das Horas eu pensei em mim como um escritor que não escreve diálogos, mas o segundo provou pra mim que eu só era um escritor que não tinham personagens que falassem muito. Acho que cada livro é uma combinação das demandas específicas, certos movimentos, certas abordagens.

Muitos dizem que escrever diálogos é difícil. Você está achando?
Bem, é a coisa mais engraçada. O que  acho, cada vez mais, é que quando penso em algo na teoria, em termos retóricos, isso mostra que… Olha, realmente pensei que o motivo pelo qual não escrevia diálogos era que diálogos eram muito difíceis de se fazer. Agora, fazendo os diálogos, é como se ouvisse esses personagens falando. Estou achando muito fácil. Não é como se estivesse escrevendo, e sim como se estivesse na esquina ouvindo sem que eles percebessem, roubando conversas. Uma experiência psicológica meio esquisita, talvez. Estou achando fácil não pelo diálogo por si, mas por conseguir ouvir as vozes dos personagens tão claramente.

Você comentou sobre essa busca por traços de poesia no seu texto e fiquei curiosa… Se importa de falar um pouco sobre suas influências literárias?

Bem, acho, que no meu caso, conta muito o fato de, antes de ser escritor, eu ter sido um baterista numa banda de rock, por muitos e muitos anos. Eu era muito envolvido com música em geral e, em particular, com bateria. Há um termo para bateristas, o timekeeper, o que controla o tempo, então sempre fiquei interessado nessa característica. Como baterista, você pode fazer todo tipo de coisa interessante com o tempo da música, pode cortar ao meio, dobrar, ser duas vezes mais rápido, ou mais devagar, fazer coisas interessantes que mudam a experiência de quem ouve a música. E pensei nisso.. isso  é algo que poetas fazem, tempo, metro, essas coisas. Poetas pensam na língua, no formato da língua e como isso soa. E pensei em mim fazendo isso…. Alguns dos meus escritores favoritos são poetas Wallace Stevens, Emily Dickinson, tenho lido muito Robert Browning. Amo o que os poetas são livres para fazer e, quando comecei a escrever, pensei que queria fazer isso na prosa. Minha escrita acho que vai e volta entre prosa e poesia. Não tenho problema com isso, eu gosto disso. Talvez alguns escritores ficam desconfortáveis de usar elementos da poesia na prosa, e não acho que deveriam. Alguns dos melhores do mundo fazem isso.

Você estudou graduação em escrita literária, certo? Como foi essa passagem da música para a literatura?
Naquela época, a banda tinha acabado como a maior parte das bandas acabam. Então eu estava numa situação difícil, estava com quase 30 anos, sem profissão, sem carreira, nunca tinha tido um trabalho de verdade, fora trabalhar em lojas de livros quando era mais jovem, empregas temporários nos tempos da banda. Daí pensava que gradução seria uma boa ideia. Sempre escrevi muito, mas, aos 30, nunca tinha escrito histórias de ficção. Era um leitor voraz, do tipo que gosta da mais alta literatura, adoro Proust e Thomas Mann e Carlos Fuentes e Julio Cortázar. E eu não era um escritor muito bom, é claro, mas não demorou muito para conseguir colocar as coisas nas páginas. Tive muita sorte de entrar num workshop da faculdade em que pude aprender com grandes escritores como Marilyn Robinson e Elizabeth McCracken.

Aqui no Brasil estão começando a aparecer cursos de escrita criativa, e existe ainda um questionamento em relação a isso. Você recomenda a quem quer escrever?
As pessoas sempre me perguntam isso, e minha resposta é colocar uma pergunta de volta: ninguém pergunta se um ator deve estudar, ou um pintor, ou um dançarino, e nos EUA todo ator faz escola de teatro e daí por diante. Acho que escrita é a mesma coisa. É verdade. Ninguém pode ensinar você sua visão do mundo, a alma do seu trabalho. Mas, tirando isso, posso ensinar a jovens escritores, que estão começando, um monte de coisa sobre como escrever. Tecnicamente, mas também no sentido de trabalhar a imaginação. Posso ensinar como usar a linguagem, como se disciplinarem para prestar atenção em assuntos. Não acho que é necessário. Mas acho que a escrita é tão vulnerável quanto qualquer outro assunto para estudo na academia. Qualquer assunto ensinado na universidade corre o risco de ficar como que desidratado e sem vida, dependendo da forma como for ensinado.

Você ainda dá aulas de escrita criativa na faculdade?

Não, eu estava dando aulas quando o prêmio foi anunciado, mas foi só um semestre, e não fiquei mais, não teria tempo. Gostaria de voltar, mas não por enquanto. Acho ensinar gratificante.

Sua rotina deve ter mudado um bocado…

Sim, sim, dramaticamente, muito, muito. Antes do prêmio, minha editora fez um trabalho incrível, considerando que era uma miníscula editora de uma escola de medicina de Nova York. Quando publicaram, colocaram 3.500 cópias à venda, sem dinheiro para publicidade, e apesar disso o livro vendeu razoavelmente bem, acho que umas 10 mil cópias antes do Pulitzer. O livro foi muito mais bem do que imaginei que iria. Isso me faz viajar muito. Vou logo para Nova York e depois para Iowa, mais para a frente para Alemanha e Sul da África. Desde que o prêmio foi anunciado, há 13 meses, venho estado numa turnê ininterrupta.

E está conseguindo escrever o novo livro com todas essas viagens?
Sim, consigo. Sabe, tenho dois filhos pequenos e, quando escrevia A Restauração das Horas, tinha pouco tempo livro, porque dava aula o dia inteiro e parte da noite. E minha mulher e eu tínhamos dois filhos com menos de 5 anos. Me tornei bom em escrever com crianças escalando em mim e fazendo todo tipo de barulho. Então, agora consigo escrever facilmente em hotéis e aviões. Aliás, aviões são um ótimo lugar para escrever, isso me distrai horrores.

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