Escritores na balança



Ando às voltas com uma tentativa sofrida de participar de um desafio sobre livros no Facebook. “Tentativa”, essa palavra cheia de boas intenções que por si só remete à incapacidade de execução, já denuncia que não sei se consigo levar a coisa toda em frente. É verdade que tenho um apoio, digamos, obstinado dessas garotas Clarice Cardoso (que não por acaso cunhou a corruptela “bule”), Mariana Delfini e Audrey Furlaneto para não desistir, mas por enquanto venho só notando minha inaptidão para eleger um ou outro título entre uma infinidade que não sei nem se sobrevive nas estantes de casa.

O desafio se chama 30 Day Book Challenge e consiste em escolher, ao longo de 30 dias (ok, isso está ficando redundante), um livro que caiba em cada uma das 30 categorias propostas, como “seu livro favorito”, “seu livro menos favorito” – o que para mim é uma contradição em termos tão gritante que é difícil explicar por que joguei O Velho e o Mar nessa fogueira – e “um livro que faz você se lembrar de casa”.

Por ora, empaquei no dia 10, “o primeiro romance que você se lembra de ter lido”, porque não me conformo com a ideia de colocar ali o primeiro livro que li na vida, que não foi, é claro, um romance (aliás, descobri faz pouco que o título em questão, que inclusive me fez proferir a pérola familiar “Mãe, sei ler até sem livro!”, eram só uns versinhos ilustrados). Nem com a ideia de optar pelo primeiro romance adulto, já que antes deles vieram muitas histórias para crianças. E, vamos lá, ficando no que seriam romances infantis, não faço ideia se Pedro Bandeira veio antes ou depois de Monteiro Lobato na minha história, ou se foi na frente disso tudo teve algum da Coleção Vagalume, ou ainda se os da Coleção Enrola e Desenrola podem ser considerados romances infantojuvenis ou contos ou algo que o valha.

Mas o mais complicado é nomear – isso que pra tanta gente é tão simples – um escritor favorito, ou mesmo alguns poucos eleitos. O caso é que meu gosto foi mudando com o tempo. Hoje acho engraçado ter lido três Salman Rushdies quase seguidos depois de adorar Os Versos Satânicos. Eu nem gosto de literatura fantástica, e não devorei assim na sequência escritores que leio atualmente com muito mais vontade, como Ian McEwan e Philip Roth, para ficar em outros dois da atual literatura em língua inglesa. É assim só comigo? A gente tem que ser fiel aos critérios lá do começo? E também porque colocar um escritor acima do outro me parece meio como estipular que Beatles é melhor que Rolling Stones ou vice-versa – toda essa comparação para mim soa como uma coisa muito doida.

Mas, vá lá, é só um desafio na internet. Essa indecisão já me causou inconvenientes bem mais graves, tipo quando tentei fazer pós, como aluna especial no mestrado da USP e numa especialização em literatura da PUC – ambas interrompidas na hora em que não dava mais para postergar a escolha de um nome. Num mestrado, você só entra com o tema definido, e é por isso que tem a opção “aluno especial”, uma colher de chá para quem não está bem certo. No meu caso, só complicou mais as coisas ser apresentada ao longo de um ano a obras de gente como Sciascia e Sebald. E não sei como são outras lato sensu, mas essa da PUC dura dois anos, sendo os seis meses finais dedicados apenas à monografia. No limite do limite, era de um ano e meio o prazo para definir o tema. Fui só até aí. Me parecia terrível a ideia de, quase no final do caminho, afundada em teorias, descobrir que aquele escritor ou o livro talvez não fosse o certo.

Acho que todo esse drama decorre de uma enorme sensação de culpa. As lacunas são tantas, tantas, que no meu caso parece empáfia colocar alguém ou algum livro acima de tudo, inclusive daquilo que não li. Mas que tenho inveja de quem é capaz de pôr numa balança tudo o que um Machado de Assis e um Guimarães Rosa fizeram e a partir disso escolher o favorito, isso eu tenho…

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9 Respostas

  1. Acredito que essa dificuldade venha de uma certa sensação de pequenez diante de todas essas obras e nomes. E da certeza de que há ainda muito a ser colhido, de que há muitas coisas para que seja delimitada apenas uma só — ainda que um só livro, um só autor. Definitivamente, uma sensação de pequenez.

  2. Apoio obstinadamente. As tais escolhas acabam saindo aleatoriamente, depois de uma paquerada nas estantes.

    Quase todos os dias voltei atrás. É que burlo regras de jogos desde os anos 1980.

  3. Somos muito obstinadas, menos quando se trata de escolher tema pro mestrado. Deve ser coisa de quem nasceu na metade dos anos 80. Ops.

  4. >>>Denunciar abuso

  5. Concordo totalmente. Acho impossível fazer uma lista dessas. Nao aguento listas. Mesmo. Me sinto injusta e incapaz… E digo mais, larguei o mestrado depois de fazer todos os créditos, com a dissertaçao começada, em parte pq me julgava uma fraude com pernas, candidata a um título (no caso, mestre em letras inglesas) que supunha tantos conhecimentos que eu nao tinha… as tais lacunas!

    • Nossa, total, “injusta e incapaz”, é isso. Mas, olha, aposto que você sabe bem mais que detentores de títulos – só essa preocupação, rara, já é bom sinal. Então vai em frente e depois me conta como é. rs. Beijo, Raq
      (ps. Parece que vamos ter de beber em breve com essa garota Clarice, né?)

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