Um bate-papo com Danilo Beyruth


Em 2010, convidada a participar de votações das melhores HQs do ano pelo Telio Navega, do Gibizada, no Globo, e pela revista pernambucana O Grito, descobri que uma graphic novel lembrada por quase todos os votantes, e que acabou no topo das duas listas, eu não tinha lido: Bando de Dois (Zarabatana), do Danilo Beyruth. Taí um dos motivos pelos quais rankings e eu não nos damos muito bem, mas, enfim, agora, com o livro devidamente acomodado na estante, posso dizer que é um belo trabalho.

Na semana passada, o Bira, editor do Caderno 2, perguntou se eu podia fazer para a edição de hoje a seção Mesa para 2, um bate-papo informal com algum artista durante algum almoço ou jantar em lugar escolhido pelo entrevistado. Lembrei do Beyruth, fiz o convite e ele sugeriu o ótimo Bueno, na Liberdade.

Foi uma conversa bacana sobre a carreira dele e a atual produção de quadrinhos no País. Sem falar que, vai, comer a trabalho não é mal. O prato que aparece fumegando na foto é o bibimbap, uma espécie de risoto de origem coreana servido numa pedra superquente, cujos ingredientes são misturados só na mesa e têm de ficar descansando um tempo até formar uma crosta (o braço aí é o da garçonete).

Só aí eu soube que o Beyruth sempre faz uma ilustração com pincel quando dá um autógrafo. O fotógrafo Tiago Queiroz e eu acompanhamos passados a evolução do desenho abaixo, coisa fina.

Da conversa, saíram no Caderno 2 os trechos abaixo.

***

Autor da Elogiada Necronauta, escolhida para distribuição em escolas públicas, o quadrinista é finalista em três categorias do HQMix pela graphic novel Bando de Dois

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Você estreou em HQs com histórias curtas (Necronauta) e passou à graphic novel (Bando de Dois). É muito diferente de fazer?

É, sim. Dá para traçar paralelo com o cinema, pensando em curtas e longas-metragens. A trama curta exige concisão, algo que funcione com pouco, mas a longa tem a curiosidade que é criar um esqueleto narrativo e ir povoando com cenas como se fosse trabalho de arqueologia, de reconstituir o dinossauro, até os personagens ganharem vida. Por acaso, agora estou trabalhando de novo com histórias curtas (no Necronauta 2), mas minha ambição está na história longa.

Como foi ter sua estreia em graphic novel indicada agora em três categorias do HQ Mix?

O melhor foi ser indicado pelo roteiro, porque há certo preconceito com desenhista que roteiriza. Na verdade, quem desenha e escreve tem a faca e o queijo na mão, pode fazer o roteiro de outro patamar. Nas pré-indicações do HQ Mix eu aparecia nas categorias desenhista e álbum, mas não na de roteirista. Se o álbum como um todo é bom, como pode o roteiro não ser? Leitores reclamaram na internet e fui incluído na lista final. O prêmio cria a prévia justamente para correções como essa.

O Necronauta, uma espécie de história de super-herói, foi escolhido pelo governo para distribuição em escolas. É uma HQ que possa ensinar algo a crianças?

A questão é menos poder ensinar algo e mais o fato de incentivar a leitura. Os livros selecionados pelo PNBE (Programa Nacional de Biblioteca da Escola) não são paradidáticos, estão lá para criar o hábito de ler obras originais. Se o Necronauta fizer isso, terá sua missão cumprida.

Como vê a tendência entre editoras de, por interesse em compras pelo governo, lançar adaptações de clássicos da literatura?

Depende muito da qualidade da HQ. Se a adaptação é muito benfeita, se respeita a obra original, como as do Spacca, será um bom cartão de visitas e estimulará a pessoa a procurar a obra original. Mas, se for um trabalho meio malandro, feito apenas para entrar em listas de compras, existe um perigo aí. Pode acabar servindo como desculpa para não se ler o texto original. De qualquer forma, muita coisa boa vem surgindo também graças a esse interesse maior do mercado nos últimos anos. Dá para fazer uma analogia com esporte: se você investe numa certa estrutura, consegue revelar talentos.

Você estreou em HQs com histórias curtas (Necronauta) e passou à graphic novel (Bando de Dois). É muito diferente de fazer?

Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

É, sim. Dá para traçar paralelo com o cinema, pensando em curtas e longas-metragens. A trama curta exige concisão, algo que funcione com pouco, mas a longa tem a curiosidade que é criar um esqueleto narrativo e ir povoando com cenas como se fosse trabalho de arqueologia, de reconstituir o dinossauro, até os personagens ganharem vida. Por acaso, agora estou trabalhando de novo com histórias curtas (no Necronauta 2), mas minha ambição está na história longa.

Como foi ter sua estreia em graphic novel indicada agora em três categorias do HQ Mix?

O melhor foi ser indicado pelo roteiro, porque há certo preconceito com desenhista que roteiriza. Na verdade, quem desenha e escreve tem a faca e o queijo na mão, pode fazer o roteiro de outro patamar. Nas pré-indicações do HQ Mix eu aparecia nas categorias desenhista e álbum, mas não na de roteirista. Se o álbum como um todo é bom, como pode o roteiro não ser? Leitores reclamaram na internet e fui incluído na lista final. O prêmio cria a prévia justamente para correções como essa.

O Necronauta, uma espécie de história de super-herói, foi escolhido pelo governo para distribuição em escolas. É uma HQ que possa ensinar algo a crianças?

A questão é menos poder ensinar algo e mais o fato de incentivar a leitura. Os livros selecionados pelo PNBE (Programa Nacional de Biblioteca da Escola) não são paradidáticos, estão lá para criar o hábito de ler obras originais. Se o Necronauta fizer isso, terá sua missão cumprida.

Como vê a tendência entre editoras de, por interesse em compras pelo governo, lançar adaptações de clássicos da literatura?

Depende muito da qualidade da HQ. Se a adaptação é muito benfeita, se respeita a obra original, como as do Spacca, será um bom cartão de visitas e estimulará a pessoa a procurar a obra original. Mas, se for um trabalho meio malandro, feito apenas para entrar em listas de compras, existe um perigo aí. Pode acabar servindo como desculpa para não se ler o texto original. De qualquer forma, muita coisa boa vem surgindo também graças a esse interesse maior do mercado nos últimos anos. Dá para fazer uma analogia com esporte: se você investe numa certa estrutura, consegue revelar talentos.

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3 Respostas

  1. O cara desenha muito, quero ler essa Hq!

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