O dia de Emma e Dexter


Peguei One Day, de David Nicholls, para ler uns meses antes de sair por aqui. Enfiei na mala quando fui para Londres, porque tenho essa mania de legendar viagens com referências literárias locais, e a primeira coisa que nosso anfitrião disse quando abri o livro no metrô londrino foi:  “Mas qual é a dessa história? Por que tá todo mundo lendo isso?”

Acho que, das pessoas que conheço que leram Um Dia (aqui saiu pela Intrínseca), sou a menos entusiasta. É um bom livro, fluente, leitura divertida, boas sacadas, mas confesso que fiquei ali tentando entender por que se tornou tão cult em tão pouco tempo na comparação com outros do gênero. O fato é que vendeu 2 milhões de exemplares no mundo, recebeu elogios de críticos e escritores em vários países e, agora em agosto, vai virar filme, dirigido pela Lone Scherfig (diretora também do ótimo Educação).

A história toda do romance se passa num 15 de julho, como hoje (a propósito de digressão, ouvi mais cedo na rádio Estadão que dia 15 de julho é Dia Internacional do Homem, mas só no Brasil – um dia internacional nacional é dessas coisas que só aqui mesmo). Como ainda não tinha escrito sobre o romance no jornal, e achava que por várias razões ele merecia ser comentado, aproveitei a data para entrevistar Nicholls sobre o livro e o filme, do qual ele é roteirista.

Segue o texto que saiu hoje no Caderno 2, abaixo do trailer do longa.

 

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É hoje o dia

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Há exatos 23 anos, numa sexta-feira, 15 de julho, Emma Morley e Dexter Mayhew se conheceram. Ok, o registro pode não parecer importante, até porque Emma e Dexter nem existem de verdade, mas para milhões de pessoas no mundo a data ganhou jeito de efeméride desde que, dois anos atrás, chegou às livrarias inglesas o romance Um Dia, de David Nicholls – lançado por aqui em maio passado, pela Intrínseca.

A data aparece logo no topo da primeira página, quando os recém-formados Emma e Dexter passam no apartamento dela uma noite não propriamente romântica. E o dia 15 de julho volta a cada capítulo, sempre um ano após os acontecimentos do capítulo anterior, em relatos sobre como transcorreram as vidas de ambos ao longo de duas décadas.

Dito assim, não parece mais que romance água com açúcar, mas o texto do ficcionista e roteirista David Nicholls, ágil e cheio de referências da recente história e cultura britânica, tornou a obra quase unanimidade entre público e crítica – elogios do Guardian, do Independent e de outros jornais, e de autores como Jonathan Coe e Nick Hornby aparecem estampados na capa e nas primeiras páginas das edições inglesa e nacional, para que ninguém fique na dúvida.

Desde 2009, Um Dia teve 2 milhões de cópias vendidas em 34 idiomas – no Brasil, foram quase 40 mil em dois meses. E a trama alcançará público ainda mais abrangente daqui a um mês, quando estreia nos EUA Um Dia, o filme, com direção de Lone Scherfig (de Educação), Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis centrais e roteiro de Nicholls.

“Nunca achei que pudesse virar filme. Achava que era extenso demais, caro demais, que seria um desafio encontrar atores que pudessem ter tanto 22 quanto 42 anos”, disse Nicholls por telefone ao Estado, duas semanas atrás, interrompendo um passeio de bicicleta pela Londres que é praticamente uma personagem no romance. Experiente no trabalho de transportar histórias alheias para a tela (e mesmo suas, caso do menos bem-sucedido Starter for Ten), Nicholls admite que foi sofrido abrir mão de trechos da narrativa. “Num romance, você se dá ao luxo de construir monólogos internos, fluxos de pensamento. Não há equivalente para isso na tela. Tive de cortar alguns dos meus momentos favoritos, linhas de raciocínio, emoções. O livro também tem capítulos na forma de cartas, que não ficam bem no filme, porque a voz em off não fica bem se usada em demasia. Uma vez que aceitei que teria de me concentrar mais em eventos que em descrições, foi divertido trabalhar nisso”, diz.

O filme, segundo Nicholls, tem também menos momentos soturnos que o livro. Um dos melhores capítulos do romance, por exemplo, o filhinho de papai Dexter Mayhew atravessa sob o efeito flashback das drogas que tomou numa festa. A depressão e a euforia decorrentes disso se somam à lembrança de que precisa visitar a mãe, com câncer terminal, e à percepção do quão superficial é sua vida como apresentador de TV. “No filme, com uma passagem tão acelerada do tempo, não ficava bem estender tanto momentos depressivos. Longos capítulos do livro precisaram ser resumidos a cenas de dois a três minutos, enquanto outros chegam a 16 minutos.”

Mas é com Emma, e não com o personagem masculino, que o autor se identifica. Enquanto Dexter vem de uma família rica e não tem grandes ambições além de alimentar a vaidade, Emma é nascida num lar de classe média e carrega consigo os clássicos planos juvenis de salvar o mundo. O processo de amadurecimento de ambos torna o romance mais interessante já uns bons capítulos depois do começo.

Nos primeiros capítulos, como admite o romancista, os dois “são jovens com princípios e ideias muito pouco maleáveis”. “O interessante de criar essa história foi permitir que os personagens mudassem ao longo dos anos, como nós mudamos na vida real, mas que ao mesmo tempo fossem reconhecíveis”, diz Nicholls. “A imagem que eu tinha na cabeça ao escrever o romance era como a de olhar um álbum de fotos: a roupa muda, o cabelo muda, mas o sorriso, o olhar, alguma coisa continua lá.”

QUEM É
DAVID NICHOLLS
ESCRITOR E ROTEIRISTA

O britânico, de 44 anos, formou-se em dramaturgia e inglês em Bristol antes de ser ator em Nova York. Estreou como roteirista adaptando Simpático, de Sam Shepard, ao cinema. Levou à telona ainda outros romances próprios, como Starter for Ten, antes de escrever e roteirizar Um Dia.

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6 Respostas

  1. Essa história do casal se encontrar sempre no mesmo dia parece coisa de publicitário e o autor poderia ter contado tudo em 200 páginas. A Solidão dos Números Primos é bem mais interessante, só sentir falta de uma cor local, a história se passa na Itália, mas a Itália não aparece no livro. O filme baseado nesse livro abriu o Festival de Veneza.

    • Ouvi falar muito bem desse livro quando ele saiu por aqui, Gildo, mas não li. Vou colocar na minha lista de leituras (que é um tanto extensa, preciso admitir, rs). Sobre o Um Dia, o casal não se encontra sempre nesse dia, mas os relatos de cada capítulo começam com acontecimentos da vida de um e de outro nesse dia, encontrem-se eles ou não… Um tanto melhor, né? rs. Beijo, Raquel

  2. Raquel, achei a proposta do livro, apesar de meio batida, bem interessante… Mas, da forma meio morna como você descreveu, não sei se me entusiasma muito (bom, preciso ler para descobrir).

    Só uma observaçãozinha: em uma das falas de Nicholls que você colocou no texto, ele termina com: “que seria um desafio encontrar autores que pudessem ter tanto 22 quanto 42 anos…”. Acho que ele deve ter dito ATORES, não AUTORES, não é?

    • Haha, desculpe, eu precisava ser sincera, mas acho que ressaltei que o livro é elogiado, né? Mas, olha, conheço mesmo muita gente que gosta de alta literatura e que gostou. E, gente, essa minha dislexia! Tô arrumando, gracias!

  3. Vou confessar – baixei o primeiro capítulo no Kindle e achei fraquíssimo – formulaico, tipo, “vou escrever uma história a partir de um mote espertinho e vai virar best-seller e filme em Hollywood”. Como alguns leitores aqui na Inglaterra disseram, “I could not care less about the characters”. A minha irritação com os clichês que os dois representavam foi maior do que a disposição para comprar o livro. Literatura pop pode ser legal, ter os seus momentos inspirados, mas é sempre um risco – prefiro ler coisas melhores, já que o tempo para os livros já é reduzido demais. Beijo!

    • Pois é. Até comentei com o autor na entrevista que acho que o livro fica melhor no meio (nada fora de série, mas melhor). Se eu fosse ele, começava com o capítulo em que o cara tá vivendo os efeitos flashback do extasy, já com quase 30 anos. E depois voltava pro começo. O começo é maniqueísta demais, depois melhora um tanto.

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