Onde estão livreiros e distribuidores no debate sobre o livro digital?


Alguém me diz onde estão os livreiros e distribuidores na discussão sobre o livro eletrônico? A dúvida voltou anteontem entre uma e outra mesa do Congresso Internacional do Livro Digital, quando vi que a programação reservou uma só mesa para tratar do papel de livrarias e distribuidoras nesse cenário. Ontem, o diretor da Sextante, Marcos Pereira, começou a tal mesa pedindo aos livreiros na audiência que levantassem a mão. Eu para fazer estimativas de público consigo ser pior que a Polícia Militar em eventos paulistanos, mas, de, sei lá, umas 300 (chutei) pessoas no auditório, uns 15 gatos pingados, se tanto, se manifestaram. Distribuidores, convocados em seguida, idem. O resto era quase todo de editores.

“Acho curioso que haja aqui um número tão maior de editores que de livreiros e distribuidores, considerando que livreiros e distribuidores estão com a vida tão mais em risco neste momento”, seguiu Pereira. É fato: no processo evolutivo do cenário editorial as primeiras classes em risco de extinção são essas, mas por isso mesmo é estranho que não estejam lá para acompanhar o debate.

Cá entre nós, eu mesma fico cansada com todo esse exercício de futurologia. Às vezes, acho que sou cética demais, para não dizer chata. O falatório hoje me parece bem menos interessante do que quando comecei a escrever sobre o assunto, em 2009. Só que a ideia do congresso é boa. Num contexto geral, entre muita coisa vendida como novidade (diz que a palestra do Bob Stein é a mesma há anos, com pequenas variações), você pesca informações aqui e ali e depois nem se dá conta de que está repetindo dados que ouviu ontem como se fizessem parte da bagagem cultural conquistada na primeira infância.

Na comparação com o congresso do ano passado, editores parecem menos receosos, pelo que se pode apreender das perguntas feitas pelo público. Um pouco só. Não que estejam mais animados; parecem apenas menos preocupados após tanto falar desse tema que demora a engrenar. Em 2010, a grande questão, colocada com pequenas variações, era: “Como lucrar?”. Neste ano, houve até gente no público questionando a necessidade do DRM, a tecnologia que limita o uso de conteúdo digital para assegurar direitos autorais. Aos editores com quem falei, mais que o medo de verem o impresso ser engolido pelo digital, incomoda o alto investimento em algo que não dá retorno, porque quase não tem público no Brasil.

Livreiros e distribuidores tradicionais, no entanto, eu não faço ideia do que pensam. Digo isso sem considerar as megastores, que mesmo no e-comerce entraram faz algum tempo, e empresas criadas já com foco na distribuição digital – uma das maiores do país, a DLD, por exemplo, é cria de editores, não de distribuidores. Um dos palestrantes do congresso, o americano Edward Nawotka, editor do Publishing Perspectives, comentou que também nos EUA os mais antigos no ramo evitam a discussão. É claro que meu coração de leitora, fetichista por estantes, espera que as lojas físicas durem. Que virem pólos culturais, com pockets shows e leituras de autores entre ilhas de livros, como especulou dia desses um editor. Mas achei significativa a questão, feita ao fim da palestra, por um dono de livraria independente, ainda que qualquer resposta caia na futurologia: “As livrarias têm realmente um papel no futuro do livro?”

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12 Respostas

  1. Olá Raquel, realmente o problema do Brasil não parece ser somente de falta de incentivo a cultura, como o custo dos livros, a falta de incentivo em nossa rede de ensino, mas sim uma questão cultural muito maior, pois mesmo com o livro digital e a febre dos tablets, o brasileiro inventa outras aplicações aos tablets, que não o de leitor de livros… como fazer crianças lerem, se também não são incentivadas a escreverem nas nossas escolas, o escritor ainda é muito distante da figura do leitor, ainda que muitos sites tentam mudar este cenário, mas ainda estamos engatinhando.
    Tenho por objetivo até o fim deste ano abrir uma livraria, e meu sonho é colocar atividades culturais pois até mesmo o teatro não tem seu espaço devidamente reconhecido neste país.

  2. Oi Raquel.

    Na minha opinião essa idéia de Livro Digital ainda vai demorar e muito pra pegar, quem lê no Brasil é uma fatia muito pequena para que as livrarias fiquem preocupadas com essa mudança.
    Mesmo o livro em papel é uma aquisição para poucos, com títulos custando R$ 60 a R$ 100 em uma economia como a do Brasil, não vejo perigo nesse futuro digital, mas concordo que as livrarias tem de mudar sua forma de atendimento, contratar funcionários com maior conhecimento e principalmente não transformar a loja em um supermercado.

    • Vi seu recado no Face, Marcello! Depois vou querer falar com você melhor, para uma pauta meio viajante que estou pensando. Agora, não sei se demora tanto assim, não. Acho que é mais uma questão de a Amazon ou alguma outra empresa começar a vender de fato o e-reader no Brasil. E aí as coisas vão mudar muito. Não sei, olha, não sou livreira, mas posso dizer que, como jornalista especializada no mercado editorial, tenho a mais pura noção de que pode ser que minha profissão tal como eu a conheci seja algo muito defasado antes de eu me aposentar… beijo, Raquel

    • Caro Marcelo e Raquel,
      escrevi anteriormente sobre o problema do custo dos livros no Brasil em comparação com os preços aqui no Japão…como tenho problema de obter livros do Brasil e sou obrigado a “pegar” em ingles ou optativos…isto é, os ebooks free…e tenho encontrado coisas muito boas e, claro, uma grande quantidade de bobagens.
      Como a necessidade é a minha principal fonte de procura…acredito que muitos também o farão e será crescente, por necessidades financeiras. Além do fato que temos diversos sites piratas que fazem downloads de livros.
      Abraços a todos.

  3. Acho que a ausência dos mesmos ao debate reflita uma realidade de mercado e também de postura pessoal, pois a atual geração dos livreiros e distribuidores foi educada e é consumidora de conteúdo impresso, se a nova geração de fato substituir o papel pelo pixel, essa indústria de fato pode mudar. Por enquanto, eu estou com eles afinal o papel, por mais antigo que o seja, continua a ser um dos grandes adventos da sociedade moderna.

  4. Oi, Raquel!
    Além do que todo mundo está dizendo – com ou sem razão -, proponho um novo ângulo: o processo de leitura/escrita ( seja no papel ou na tela) está de certa forma sob ataque. Basta observar como a escrita está encolhendo, como foi reduzida a pouco mais do que sinais cuneiformes. A letra cursiva foi decretada morta nos EUA e no óbito registraram que não era mais uma forma ” útil ou necesssearia”. O que estes sintomas sinalizam é que o processo de escrita-leitura está perdendo lugar para outras formas de comunição mais “estimulantes” e menos exigentes. Meu temor é que muito antes que o dilema livro/tela tenha sido resolvido, uma terceira via – uma salada visual e estridente – já tenha ocupado um espaço que fará do texto em papel ou mesmo da obra gravada em bits um simples jogo curioso para intelectuais. O cinema, as imagens 3D, a animação, os sons e os hiperlinks vão – para meu desespero – conquistar uma importância indevida porque parecem mais eficientes e mais rápidos e pretensamente mais ricos.

    • Oi, M.Rudiari! Olha, não sei se a escrita acaba tão cedo. A gente hoje, todo mundo, não escreve muito mais do que antes da internet? Eu, pelo menos, prefiro escrever um email que falar ao telefone. Acho que, pelo contrário, nunca tanta gente escreveu tanto. A qualidade disso, é verdade, pode cair muito. E também tem a questão da mudança de raciocínio no ato da escrita, sobre a qual Bernardo Carvalho escreveu lindamente anos atrás na Ilustrada — algo relacionado ao cérebro das novas gerações não associarem formas a letras, e sim seguirem o pensamento binário do computador (muito grosso modo, era isso; espero que ele não entre aqui para checar a bobagem que escrevi). Mas acho que, nesse caso, prefiro me manter numa pequena ilha de otimismo. Se o resto do mundo afundar, vocês me avisa? =) Beijo, Raq

    • Ola Raquel,
      o problema é exatamente esse…querem impor nos EUA o fim da letra cursiva pois ninguém mais a usa, so teclam.

  5. Olá Raquel,
    As mídias digitais não seguem o mesmo modelo das mídias físicas. Na mídia física, quem quer (ou deveria querer) o conteúdo, paga por ele. Portanto, o leitor paga pelo livro e toda a sua cadeia produtiva. Nas mídias digitais, quem produz quer ser visto/consumido e, portanto, deve arcar com parte (ou com o todo) dos custos de produção. Na verdade, é só ver a diversidade de modelos existentes no mercado de softwares aplicativos que v. verá o futuro do mercado de livros digitais, por exemplo. No entanto, ainda estamos em uma fase transitória, pois estamos consumindo as metáforas físicas, só que digitalizadas. Está chegando o momento em que os livros digitais não serão apenas livros, mas hipermídias. As hipermídias são conteúdos de texto, vídeos, áudio, modelos de realidade virtual, etc que podem ser linkados ou embutidos uns nos outros. Para um exemplo bem legal disso, veja a aplicação Flip do iPad.

  6. Pois escrevi um livro, coloquei-o gratuitamente no meu site, editei-o para leitura em tela, http://www.chalegre.com.br/livrovirtual/ e obtive 80 000 downloads, fora os conseguidos pelos sites que o republicaram cobrando algo e até alguém que o gravou e ofereceu para quem desejasse ouvir, nem pensei em direitos autorais, me contentei com as repercussões das empresas que me contrataram para palestras e consultorias. Até hoje procuro quem deseje imprimi-lo… mas me pergunto quando teria esta repercussão com um livro de administração se o tivesse colocado apenas em papel…

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