Once upon a time

Quando conversei por telefone com o crítico americano Greil Marcus, autor do Like a Rolling Stones: Bob Dylan na Encruzilhada, quis saber como foi escrever 260 páginas sobre uma música sem conseguir falar com o criador dela. Marcus entrevistou pessoas que participaram do momento e pesquisou tudo sobre o assunto, mas era inevitável que alguma dúvida não tivesse sido esclarecida.

A resposta que ele me deu:

Pedi ao agente dele, com quem havia trabalhado em anos anteriores, para falar com Bob Dylan apenas sobre as circunstâncias da sessão de gravação. Não estava interessado no que a música significava, no que as pessoas pensavam sobre ela, nem no que ele próprio pensava sobre ela. E o agente disse: “Bem, ele de fato não se lembra bem de como foi, então não quer falar sobre isso”. E foi engraçado quando, no mesmo ano, o livro dele [Crônicas – Vol. 1] saiu, e, é claro, ele parecia se lembrar de tudo, com todos os detalhes, uma enorme memória para rostos, nomes, a maneira como as pessoas falavam… Ele se lembrava de tudo, mas guardava as memórias só para ele.

Tempos depois, eu estava sentado com esse agente e ele tinha um original do Crônicas sobre a mesa. Entrei em pânico e pedi para olhar. Pensei: “Bob vai falar de ‘Like a Rolling Stone’, e qualquer coisa que ele fale eu tenho de levar em conta”. Meu livro estava finalizado, mas ainda não publicado. Eu podia mudar e adicionar material, mas NÃO QUERIA ter de fazer isso, não queria voltar e repensar o que já tinha feito. Mas pensei: “Se ele diz que essa música foi dada a ele por um marciano, ou encontrada em uma mina de ouro, o que quer que ele diga eu tenho de confrontar”. Então folheei o livro, pulando páginas, e logo me dei conta de que a música nunca é mencionada ali. Porque é só sobre a época em que ele era desconhecido. Foi um alívio enorme.

Enquanto ainda não existe um Crônicas – Volume 2 para sabermos a versão de Bob Dylan sobre a música, vale ler o livro do Greil Marcus. Escrevi sobre ele ontem no Caderno 2 + Música. Segue o texto abaixo, também. A foto linda que acompanha foi um achado do Júlio Maria, ex-editor de Variedades do JT e que agora está mandando bem na edição do C2 + Música.

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O caminho de Like a Rolling Stone no pop

Livro em que o crítico norte-americano Greil Marcus disseca a música mais famosa de Bob Dylan sai no País

Raquel Cozer

Pela sexta vez naquela tarde, os músicos liderados por Bob Dylan tentaram levar Like a Rolling Stone a cabo. Tirando o cantor, ninguém fazia ideia do que viria a seguir; ele mesmo tinha lá suas dúvidas. Em 16 de junho de 1965, segundo dia de gravações no estúdio da Columbia, em Nova York, conseguiram enfim passar da segunda estrofe. Seis minutos e seis segundos depois, estava concluída a faixa que viria a abrir Highway 61 Revisited.

Quando, passadas quatro décadas, o americano Greil Marcus ouviu na íntegra as fitas daquelas duas sessões, encontrou a resposta para a dúvida que o havia levado a escrever Like a Rolling Stone: Bob Dylan na Encruzilhada: por que a música que rompeu as convenções artísticas da época ainda soa como nova. “É como um filme de suspense, como se você nunca tivesse visto antes”, avalia o autor, crítico de rock desde 1969 e o primeiro editor de resenhas da Rolling Stone, falando por telefone ao Estado. “Há essa incerteza, essa energia confusa. Ao ouvir aquilo, entendi. Os músicos não sabiam nem quantas estrofes ela tinha.”

A transcrição das sessões aparece ao fim do volume, que chega nos próximos dias às livrarias do País. As fitas foram um prêmio (e tanto) de consolação do agente de Dylan para Marcus, que tentava tirar do cantor algo sobre as circunstâncias da gravação. Tinha prometido não fazer nenhuma daquelas odiáveis perguntas, não questionaria o que a música significava nem o que Dylan pensava dela, mas não adiantara.

Mais que a biografia da canção, Marcus assina uma longa obra crítica. Há digressões sobre a sequência de acordes, o teor da letra, a originalidade da abertura. Leitores menos afeitos a detalhes técnicos verão curiosidades em especial a partir da segunda parte do livro, que detalha o momento da criação e o impacto dos primeiros resultados inclusive sobre Dylan. Há, por exemplo, o testemunho de um fã que o viu saindo do Manchester Free Trade Hall, em Londres, após o histórico show em que um grito de “Judas!” ecoou no público antes do início de Like a Rolling Stone – ao subir ao palco com banda e guitarra elétrica, Dylan “traía” o conceito de folk. “Ele parecia alguém que fora atropelado por um carro. Alguém absolutamente em choque”, diz o fã.

Marcus ainda consegue arrancar de Bob Johnston, o produtor que substituiu Tom Winston nas gravações para o Highway 61 Revisited após as sessões de Like a Rolling Stone, uma confissão de que houve a mão dele na versão final da faixa. Embora Johnston tenha exigido o nome de Winston nos créditos, ele admite ao crítico que pode ter “mixado a coisa”. A relutância em falar faz sentido – morto, Winston não tem como dar sua versão.

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De brinde, um dos momentos mais power de Like a Rolling Stone, 33 anos depois, naquela que – até onde sei – foi a única vez em que Dylan e Stones interpretaram a música juntos (corrijam-me se estiver errada), aqui mesmo em Terras Brasilis.

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Clássicos literários do rock

Taí uma ideia genial para um blog: o Classic Rocks fala sobre músicas inspiradas por (ou que aludem a) livros, escritores ou personagens literários.

Cheguei até ele faz um mês, quando o Salinger morreu e rendeu dois posts com todas os músicos ou as bandas que já o citaram de alguma maneira, tipo Guns e Cure, e me lembrei de indicar só agora. Como o texto mais recente trata de Sheryl Crow, algo nada recomendado para convencer alguém de alguma coisa, escolhi de modo aleatório (ok, tentei Bob Dylan, não achei e peguei Beatles) um post para linkar ali na primeira linha.

A música  em questão é I’m the Walrus, e o poema que a inspirou, The Walrus and the Carpenter, do Lewis Carroll, mas o que eu não sabia era disso aqui, que John Lennon disse na entrevista de 1980 à revista Playboy:

Nunca me ocorreu que Lewis Carroll estivesse comentando sobre o sistema capitalista e social. Não cheguei a esse nível de detalhe avaliando o que ele de fato queria dizer, como as pessoas estão fazendo com as músicas dos Beatles. Depois, quando voltei e olhei para o texto, me dei conta de que a morsa era a vilã da história, e o carpinteiro, o cara bom. Pensei: “Merda, peguei o cara errado. Devia ter dito: ‘Eu sou o carpinteiro'”. Mas não teria sido o mesmo, teria?

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Pra quem gosta de ler as entrelinhas, o poema que inspirou a música tá aqui.

Um post-it apaixonado

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You are not an open book/ I can’t do nothing ‘bout that“, diz a letra de Open Book, do The Rakes, o que inspirou o designer Yuan Pan a criar a animação em stop-motion sobre um post-it de coração partido por causa um livro que não se abre para ele. Gostei.
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Peguei a dica aqui. Só depois entendi que não é o clipe oficial da música, que é bem mais sem graça.