Mudança

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Geoff em Veneza e Varanasi

Geoff Dyer foi um dos primeiros escritores que entrevistei, ainda na Folha, por conta do lançamento de Ioga Para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras). Era início de 2007 e eu nem cobria literatura ainda. Escrevia lá minhas coisas sobre dança (!) música brasileira e internet, mas ambicionava mesmo era um espaço nas páginas de livros aos sábados (só que esses repórteres de literatura, vou contar uma coisa, não largam o osso. E, ok, falo por mim mesma agora). Até que um dia o Mag, editor dos melhores que tive e que chefiava a Ilustrada, disse que o Luiz Schwarcz tinha falado maravilhas do autor e me pediu para avaliar. A boa notícia era que o Luiz tava certo. O texto saiu (link para assinantes) e o resto é o resto.

Daí, na véspera desta última Flip, chegou por aqui Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (Intrínseca), o novo do Dyer. Um ótimo livro num momento horrível. Consegui ler e falar com ele apenas nesta semana, depois da Bienal do Livro, e o texto saiu só hoje no Caderno 2, por conta do início da Bienal de Veneza, que é um dos temas abordados na história.

Foi engraçado voltar a falar com ele. Em 2007, sem muita experiência em falar com autores, morri de medo de fazer perguntas idiotas  (fiz várias). A curiosidade é que o protagonista de Jeff em Veneza é um jornalista que, a certa altura, levanta a teoria de que, quanto mais imbecis forem as perguntas, mais à vontade se sentirá o entrevistado e melhor será a conversa. Geoff Dyer é terrivelmente gentil, e a conversa que tive com ele nesta semana foi ainda mais bacana que a primeira, o que prova que sou cada vez mais capaz de fazer perguntas idiotas.

Segue abaixo o texto que saiu no Caderno 2 e, mais embaixo ainda, a íntegra da conversa que tivemos por telefone.

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Paixão e arte no verão veneziano

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

A ansiedade chega antes mesmo da Bienal de Veneza, com o receio de que haja festas melhores do que aquelas para as quais se foi convidado – o que não deixará dúvida quanto ao patamar de prazeres que o status de cada um garante. Nas festas, os escolhidos reclamarão das pequenas taças em que lhes servem drinques à vontade. Quando, enfim, chegarem aos pavilhões de arte, cheios de ressaca, todos carregarão sortimentos de sacolas oferecidas como brinde.

Seria de se esperar no meio artístico uma reação às ácidas descrições da Bienal de Veneza (e de obras de fato exibidas por lá) que aparecem em Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (2009), mas o escritor Geoff Dyer diz ter se surpreendido. “Tanta gente achou que era uma sátira do mundo da arte”, conta o britânico ao Estado por telefone, de Londres, com a voz tranquila que mal denuncia a peremptoriedade das opiniões. “Era só a descrição da ideia que tenho de passar um bom tempo. Me assustei com as pessoas desse universo vendo isso como um retrato corrosivo. É claro que tenho opinião incrivelmente baixa sobre alguns artistas e seus trabalhos, mas a questão é que não há dúvida de que muitos vão a esses eventos por gostar do que é de graça. Eu mesmo adoro viajar sem pagar nada.”

Conhecido por confundir leitores com narrativas em que episódios fictícios respingam em descrições realísticas e incensado como um dos grandes escritores britânicos vivos, Dyer, de 52 anos, diz que seu livro mais recente é eminentemente fictício. Isso apesar de o protagonista se chamar Jeff (mesma pronúncia do prenome do autor, Geoff), de ter a mesma capacidade de extrair ironia dos detalhes e de a história ter sido pensada após viagens de Dyer a Veneza (foi a três Bienais, de 2003 a 2007) e Varanasi, na Índia.

Na trama, em 2003, Jeff Atman, jornalista quarentão, é enviado à cidade italiana pela revista Kuchlur com a pouco nobre tarefa de entrevistar Julia Berman, cujo maior feito na vida foi ter com o celebrado pintor Steven Morison uma filha, Niki, hoje cantora famosa. Já na primeira noite, o jornalista conhece e se apaixona pela galerista Laura Freeman, com quem viverá uma história, narrada em terceira pessoa, tão quente quanto Veneza naquele verão.

Na segunda parte do livro, Jeff é convidado pelo Telegraph a escrever uma reportagem em Varanasi. Aqui, o narrador fala em primeira pessoa e, apesar de semelhanças com o Jeff de Veneza, a todo momento resta a dúvida sobre como as histórias se conectam – Laura não é nem sequer mencionada. Enquanto no período veneziano o personagem vive uma passagem de êxtase, como num sonho, a temporada indiana promove uma transformação espiritual.

O livro é, como o nome sugere, uma homenagem à Morte em Veneza, de Thomas Mann, cuja ideia Geoff Dyer teve ao enfrentar o incrível calor da cidade na Bienal de 2003, à qual foi com a mulher, Rebecca (hoje assistente do magnata Charles Saatchi). “Não pude escrever o livro àquela altura porque estava terminando o meu sobre fotografia (The Ongoing Moment). Daí fui para Varanasi, e, assim que coloquei os pés lá, soube que complementaria a história”, conta.

Não chegam a ser duas novelas separadas, embora também seja complicado resumir o livro como romance – a difícil definição é característica da obra de Dyer, cujo Ioga Para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras), lançado por aqui em 2007, tem textos que ficam entre os contos e os relatos de viagem. “A maneira perfeita para descrever Jeff em Veneza, se não fosse tão pretensioso, seria como um díptico. São duas histórias distintas, mas a experiência que oferecem é única.”

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Há quem descreva Jeff em Veneza, Morte em Varanasi como romance, há quem descreva como duas novelas, embora separadas elas não funcionem tão bem. Como você descreve o livro?
A descrição perfeita, se não soasse tão pretensiosa, seria a de que o livro é um díptico. Sabe, como nas artes plásticas, quando você tem dois painéis que dependem um do outro? Acho que tende a ser um romance, embora as histórias sejam bem diferentes uma da outra. A experiência que oferece é unificada. Cada parte do livro depende totalmente da outra e, se uma é tirada, a outra colapsa, embora as conexões não apareçam tão claramente à primeira vista.

E como pensou em dividir essa homenagem a Morte em Veneza em duas partes tão distintas?
Bem, minha mulher e eu fomos à Bienal de 2003, estava estava incrivelmente quente, e ficamos lá um par de dias. Daí eu disse: ‘Vou escrever minha própria versão de Morte em Veneza, mas durante a Bienal’. Desde o começo, soube que seria um romance heterossexual, mas que remetesse ao que acontece no romance de Thomas Mann. Não pude começar o livro logo porque àquela altura estava escrevendo minha história da fotografia, e então fomos a Varanasi. Assim que chegamos e ficamos lá um par de horas, percebi que a parte em Veneza seria complementada por outra em Varanasi. Àquela altura não sabia como seria isso, a conexão foi ficando clara para mim aos poucos. Que é: a segunda parte seguindo a primeira cronologicamente, mudando da terceira pessoa para a primeira pessoa, mas sem que houvesse dúvida de que era a mesma pessoa. Tinha incluido até uma pequena explicação sobre o que acontece no romance com Laura. As partes não poderiam ser mais obviamente conectadas. Então um amigo disse que achava que as partes deveriam ser ainda mais bem conectadas. Tentei fazer isso, mas conclui que era muito melhor, em vez de resolver esse problema, aumentá-lo ainda mais, completamente. Em vez de aproximar as histórias, estava interessado em acabar com conexões óbvias, ao ponto de nunca ficar claro se a parte dois acontece depois da parte um, se os dois narradores são a mesma pessoa e o que acontece com Laura. Em vez de conexões estritas, o que tínhamos agora eram conexões quase invisíveis.

Eu tinha ficado na dúvida sobre o motivo de você mudar a pessoa da terceira para a primeira na narrativa. Se era para evitar explicações sobre se o personagem da segunda parte era mesmo Jeff. Ou se era porque, na primeira parte, a relação dele com o Veneza é mais superficial, enquanto, na segunda, a relação com Varanasi é algo tão pessoal e intenso…

Bem, acho que na primeira parte essa relação também é de certa maneira pessoal. Sobre ser superficial… Sim, claro, alguém pode dizer que a relação dele com Veneza é menos intensa que com Varanasi, mas, ao mesmo tempo, o que eu insisto sobre a parte um é que, acima de tudo, é uma história de amor. É sobre a experiência de se apaixonar, viver um momento que te deixa realmente feliz. E as impressões que ele tem sobre a mulher numa viagem como aquela. Foi realmente interessante construir as duas partes uma contra a outra.

Quando falei sobre superficial, na verdade, foi no sentido de que, na minha opinião, a viagem para Veneza não muda Jeff como pessoa, como acontece na segunda.
Hmmm, me desculpe, não quero discordar…

Você pode. Você deve!
(risos) Bem. Ele é o tipo de cara cínico, de saco cheio, enfastiado. E, quando ele conhece essa mulher, ele volta a ter apetite pela vida, é algo que o ilumina. A única coisa é que ele quer que algo mais aconteça, é como o inverso de um romance típico, no qual, você sabe, o marinheiro chega num porto, conhece uma mulher, eles se apaixonam e ele vai embora. Neste caso, ela é quem vem e vai, e ele fica pensando que eles poderiam viver juntos. Sim, a viagem especificamente não tem um efeito realmente profundo sobre ele, mas, no meio tempo, toda a felicidade, e, enfim, especialmente a coisa com a cocaína, tudo o deixa desesperado de certa maneira.

Mas será que o narrador entende Veneza como entende Varanasi na segunda parte?
É uma questão interessante, porque em Veneza as coisas acontecem… Há coisas que eu entendi sobre Veneza, mas que Jeff não entende. O ponto de vista dele é muito mais limitado que o meu. Posso dar um pequeno exemplo disso. Eu estava muito consciente de que Veneza não é apenas uma cidade real, física, mas uma que protagonizou tantos filmes e livros, que conhecemos parcialmente pelos olhos e pelas palavras das pessoas que estiveram lá antes. Então eu queria achar uma maneira de dar esse clima. Isso é o que acontece na cena em que ele vai ver os túmulos de Ezra Pound e Joseph Brodsky. Sobre a lápide de Brodsky, eles acham canetas e papel, uma coisa para quem vier depois e quiser escrever. A certa altura, Jeff diz que nunca leu Brodsky, mas que sabe que ele é “big deal”. Ok, sugere que ele não conhece nada de Brodsky, enquanto eu mesmo conheço muito bem Brodsky. Posso brincar com isso porque, no livro de Brodsky sobre Veneza, Watermark, ele diz: “No tipo de trabalho que eu faço, Ezra Pound é ‘big deal’”. Jeff, de uma maneira ignorante, ele não tem noção de que o que ele pensa sobre Brodsky é o que Brodsky pensava de Pound, enquanto eu sei disso. Então, de certa maneira, sua limitada maneira de ver as coisas me permite brincar um pouco com isso. Ao mesmo tempo, a consciência dele é muito menos limitada que a de alguém como John Self, o narrador de Money, do Martin Amis, ou Robert Angstrom, nos livros de Updike. Ele tem consciência, mas é muito mais limitado que eu.

Como é seu interesse por arte contemporânea? As Bienais de Veneza para as quais você foi, foi como jornalista?
Não. Minha mulher, em 2003 e 2005, era editora de revistas de decoração e arte. Agora ela trabalha por Charles Saatchi, o grande colecionador de arte em Londres. Em parte, me interesso pelo mundo da arte por meio do olhar da minha mulher, embora seja muito mais interessado em fotografia.

Existe alguma relação entre seu interesse pela fotografia e sua maneira de descrever imagens?
É difícil descrever em palavras o que já foi de certa maneira registrado em filmes e vídeos e  fotos, mas também há maneiras de… Quando estou lendo e escrevendo, gosto de visualizar o que está acontecendo, não gosto quando não fica claro quem está onde, essas coisas. Acho que já tendia a ter essa maneira de escrever antes de me interessar por fotografia, mas sempre tive uma fascinação pela maneira de como a narrativa pode conter imagens registradas numa fotografia.

Você é bem ácido no livro sobre as pessoas que vão às Bienais, sobre o quanto elas se interessam por brindes e reclamam das coisas que ganham. Como as pessoas do meio reagiram a isso?
Isso é curioso. Quando o livro saiu na Inglaterra, fiquei realmente surpreso porque tanta gente achou que era uma sátira do mundo da arte. Para mim, eu estava só descrevendo a ideia que eu tenho de passar um bom tempo. Não tive a intenção de fazer uma sátira, e acho que isso precisa ser intencional. Mas assustei com as pessoas desse universo vendo isso como se eu tivesse pintado um retrato corrosivo. E, claro, vivemos num tempo em que… Bem, é claro, eu tenho uma opinião incrivelmente baixa sobre alguns artistas e os trabalhos que eles fazem. E, sabe, não há dúvida de que muitas pessoas vão a essas viagens porque gostam de coisas gratuitas, junkets, festas. Coisas de que eu gosto. Gosto de viagens de graça e de festas também. Uma coisa importante é que vemos equivalentes disso no mundo literário, na Feira de Frankfurt ou nesses festivais internacionais… Eu gosto, quase todo mundo gosta de uma viagem de graça com pessoas que dividem o mesmo interesse.

No caso da literatura, você acha que esse tipo de festival traz alguma coisa de positivo?
Bem, literatura é sobre ler e escrever, arte é sobre fazer e olhar para isso. Mas a coisa social que envolve isso… Não sei se é tão importante, mas é importante passar um tempo legal. Nos diverte. E o crucial sobre Veneza, que esqueci de falar, é que, diferente de muitos outros festivais, ele acontece em Veneza, esse lugar mágico, essa inacreditável obra de arte, uma cidade fantástica de Calvino.

Você fala a certa altura dos africanos vendendo bolsas em Veneza, o que depois você descobriu ser uma instalação (de Fred Wilson, em 2003). O livro trata muito dessa coisa da dificuldade de separar as fronteiras do que é ou não é arte hoje em dia. Como você vê isso?
Uma das coisas que eu particularmente gosto na arte contemporária é quando ela usa tecnologia, o que permite às pessoas criar ambientes nos quais você imerge complentamente. Eu gosto, parece um mundo de sonho. Uma das experiências mais incríveis que tive nos últimos dez anos foi o festival Burning Man em Nevada, sobre o qual escrevi no Ioga Para Quem Não Está Nem Aí. Há arte em todo lugar, é impossível dizer onde ela acaba, e a experiência de estar no deserto por uma semana inteira… A coisa mais simples nesse tipo de ambiente toma proporções incríveis. Aquele é o exemplo mais extremo de como as obras de arte podem estar completamente integradas com a vida, com o dia a dia.

Na epígrafe da parte sobre Varanasi, você cita Borges. É curioso porque ele era esse escritor que viajava somente na leitura, enquanto sua maior característica é escrever sobre as coisas que você  aprende quando viaja. Você teria interesse, ou se sentiria capaz, de escrever sobre lugares que não conhece?
Hmmm, essa é outra boa questão. Você está certa sobre Borges. Para mim, é isso mesmo, eu escrevo sempre a partir de um senso de lugar. Se eu não tivesse ido a todos esses lugares, eu acharia muito difícil escrever sobre eles. Mas é claro que não são só os lugares em si que me interessam, são sempre as interações de sensibilidades, da minha com a do lugar.

Em Ioga Para Quem Não Está Nem Aí, você conta parte da história doidão de cogumelo. E isso volta a acontecer, com outras drogas, maconha, cocaína, nas duas partes de Jeff em Veneza, Morte em Varanasi. Acha que as drogas melhoram a capacidade de observação ou de escrita?
Há algumas coisas sobre isso. Estou absolutamente convencido de que usar drogas pode desenvolver sua  percepção de um lugar. Para mim sempre foi algo positivo, na experiência que tive. Outra coisa, quando ia escrever, a maconha, particularmente quando eu era mais jovem, era algo extramemente útil para a criatividade.  Obviamente muita coisa que você escreve quando está doidão depois você relê e não faz o menor sentido, mas isso não importa, porque depois, quando você está com os pés no chão, isso já serviu como uma especie de desinibidor criativo e já está no papel, o que você pode  trabalhar depois já com o olhar calmo, a mente de edição. Mas agora estou mais velho, estou numa fase em que as drogas já não fazem mais tanto parte da minha vida. Não porque eu tenha ficado careta ou esteja numa reabilitação, só não funciona mais para mim como método criativo.

Os escritores na história da Time

Muito se falou sobre Jonathan Franzen como o primeiro ficcionista em dez anos a merecer a capa da Time, mas só o site The Millions parou para fazer um restrospecto dos escritores a receberem destaque na revista e avaliar o que isso diz a respeito da cultura literária nos EUA (na verdade, como o site lembra, o próprio Franzen chegou a escrever para a Harper sobre como as escolhas da publicação, de James Joyce a Scott Turow, provam o declínio cultural da América).

O primeiro destaque literário da Time, Joseph Conrad (imagem acima), apareceu logo na sexta edição da revista, em abril de 1923, em reportagem sob o título A great novelist to visit the United States. Até o final dos anos 30, em 18 anos de revista, 37 capas foram dedicadas a autores, incluindo nomes como H.G. Wells, Gertrude Stein, James Joyce (duas vezes, por Ulysses e Finnegans Wake) e Ernest Hemingway. Ou seja, pelo menos duas vezes por ano escritores estamparam a capa da publicação.

Nos 20 anos seguintes, de 1940 a 1959, esse número caiu para 17, menos de uma capa por ano, com Eugene O’Neill e T. S. Eliot entre os destaques. A média se manteve nas duas décadas posteriores, consideradas entre 1960 e 1979.

Dali para a frente, só queda: de 1980 e 1999,  mais 20 anos, um autor a cada três anos mereceu capa (e aqui já estamos falando quase só de best-sellers, como John Irving e Michael Crichton).

E, nos dez anos de 2000 a 2009, apenas Stephen King, em sua segunda capa na revista – mas que, desta vez, na verdade, era sobre internet (imagem abaixo).

O que isso diz sobre a cultura dos Estados Unidos? A análise toda está aqui, com links para todas as reportagens de capa na história da Time, com imagens.

Estranho amor

Delícia de romance O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente, do JP Cuenca, que sai pela coleção Amores Expressos e sobre o qual escrevi no Sabático deste último final de semana. O texto segue abaixo

As fotos com as quais ilustro este post eu roubei do próprio autor, do blog que ele assinou no tempo em que esteve em Tóquio pesquisando para o livro, em 2007.

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Estranho amor em terra estrangeira

João Paulo Cuenca, 32 anos, firma-se como um dos nomes de destaque de sua geração com romance de encomenda ambientado em Tóquio – onde viveu por um mês – que tenta escapar do ”olhar domesticado”

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

O Rio amanheceu algum tempo atrás com muros e postes tomados por lambe-lambes que, entre anúncios de shows e eventos afins, chamavam a atenção pela enigmática mensagem que exibiam: O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente. Para a maior parte dos transeuntes a frase em tom de profecia não deve ter causado mais que estranhamento, mas era essa mesmo a intenção do escritor João Paulo Cuenca quando decidiu espalhá-la pela cidade. Para ele, o extenso título de seu terceiro romance carrega um sentido quase completo, como se fosse outra obra em si – característica que ele não quis desperdiçar. “Quem já sabia do livro me ligou ao ver os cartazes, mas fico imaginando quem não sabia do que se tratava. As pessoas reagem a essa frase, param para pensar. Quem lê o título já frui alguma coisa”, imagina o carioca, de 32 anos.

A sensação de estranhamento perpassa toda essa história, desde sua concepção. O livro resulta da participação do escritor no projeto Amores Expressos, que em 2007 mandou autores brasileiros a cidades estrangeiras que lhes inspirassem a escrever ficções sobre amor. A J.P. Cuenca coube atravessar meio globo rumo a Tóquio, onde passou o mês mais esquisito da vida, num estado de solidão que não era interrompido nem em pensamento. “Se você entende o que escuta, de alguma forma presta atenção. Mas, se não pode ler o que está escrito no outdoor ou no ônibus, não entende o que se fala, entra numa bolha de incomunicabilidade”, descreve. “Cheguei a ficar dias sem falar com ninguém. Tinha fluxos de pensamentos enormes.”

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As torrentes de raciocínio levaram a uma intrincada narrativa na qual a história de amor é central e de certa maneira periférica; sufocante nos detalhes íntimos e ao mesmo tempo superficial, artificial, fetichista. Ou seria mais justo dizer as histórias de amor, no plural: entre o jovem executivo Shunsuke Okuda e a garçonete romena Iulana Romiszowska; entre Iulana e a dançarina Kazumi, de proporções milagrosamente harmoniosas; entre a boneca erótica Yoshiko e o velho poeta Atsuo Okuda, pai de Shunsuke. E, em meio a tudo isso, câmeras que tudo veem: uma gigantesca rede de espionagem, o “submarino”, criada por nenhum motivo mais nobre que a obsessão do velho Okuda em seguir (e atrapalhar) cada passo da vida amorosa de Shunsuke.

Estranho o bastante? É ainda mais singular saber que uma das inspirações para tal rede de espionagem foi a decisão de Cuenca de seguir pessoas pelas ruas de Tóquio, “uma boa maneira de entender uma cidade”. Com isso, definiu detalhes da trajetória de gente como o velho Okuda e a garçonete romena – esbarrou por lá em várias moças do Leste Europeu, com suas cabeças louras e mais altas que o japonês médio, o que as fazia parecer “girafinhas” entre a multidão. “Em vários momentos tentei ser o submarino. Espionar, mesmo. É uma experiência louca, muito doente. Nos outros romances, foi um processo mais saudável.”

Outro exercício insalubre foi tentar se colocar, como narrador, na pele de um nativo japonês, Shunsuke. Admirador de Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, Cuenca não quis reproduzir a opção do filme de narrar do ponto de vista de um gaijin (estrangeiro). Concluiu que tal olhar seria “domesticado”, parecido demais com o dele próprio. “Busquei a zona de sombra. Esse narrador que construí é uma maluquice. Tenho medo de japoneses quererem me matar”, brinca. Acha graça agora, mas ficou de fato preocupado. A ponto de pedir para sua editora, a Companhia das Letras, verter para o inglês três capítulos para que pudesse enviar a um amigo japonês – que aprovou, assim como “um ou outro” nissei a quem mandou o romance por aqui.

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Estrangeiro mesmo acaba sendo o olhar de Shunsuke para a romena que ele ama sem entender (“Tocar em Iulana Romiszowska é como tocar num animal desconhecido”, reflete). Cuenca esforçou-se na arriscada tarefa de mimetizar o pensamento oriental sem estereotipá-lo, chegando a dormir num hotel cápsula, aquele com quartos de fibra de vidro pouco maiores que um caixão, e a conviver com os salarymen, assalariados que, após o expediente, enchem a cara em bares e boates. Sente que, com isso, o narrador se tornou mais “malandro” que os de seus romances anteriores, Corpo Presente, de 2003, e O Dia Mastroianni, de 2007.

Humanização. Um dia antes da conversa com o Estado, Cuenca enviou um email: “O caminho para terminar esse livro foi tão longo, em tantos sentidos, que acho que pela primeira vez como escritor tenho algo para dizer numa entrevista.” Por telefone, explicou melhor: os outros romances encerravam neles mesmo o que tinham a expressar; de O Único Final Feliz… ele não se cansa de extrair sentidos.

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Numa das passagens mais bonitas da história, Yoshiko, a boneca erótica fabricada para servir ao velho Okuda, descobre o ciúme (“sinto um foco de calor preciso dentro do meu corpo, como se alguém houvesse acendido um fósforo no meu peito”, tenta descrever, com o pouco de informação que tem sobre o mundo). Um sentido que o autor vê na boneca é o de representar a literatura em si. Ela nasce artificial – abre a narrativa descobrindo o mundo fora da caixa em que chegou à casa do sr. Okuda -, assim como é para Cuenca o ato de escrever. “Há formas de arte que se aproximam do impulso, do movimento natural. Pintar, dançar, até escrever poesia. Mas romance é artificialismo em estado puro. A atividade de escrever, sentado numa cadeira, tentando aprisionar em palavras aquela torrente de sensações. A linguagem é um inimigo.” Da mesma forma que o romance quando já passou do estágio da escrita e está no papel, Yoshiko se humaniza. Descobre o tempo, toma consciência da finitude, percebe o amor e quer aprisionar a sensação de infinito que ele oferece.

O produtor Rodrigo Teixeira, que financiou o Amores Expressos, tem os direitos dos livros da coleção para o cinema. O Único Final Feliz… é um prato cheio para qualquer plano de adaptação – nesse sentido, lembra Murakami -, mas Cuenca diz que a ideia nem lhe ocorreu durante a escrita. Se fosse para ser filmado, gostaria de vê-lo como animação realizada por algum escritório japonês. Isso ao menos ajudaria a resolver imagens nonsense, quase oníricas, como a do velho Okuda transformando-se no monstro Gyodai e destruindo parte da cidade… Gyodai? “Adoraria falar que descobri Tóquio pelos filmes do Ozu ou pelos livros do Mishima, mas não. Minha primeira imagem da cidade foi com a série Changeman”, esclarece o autor, que não resistiu à referência.

Intervalo profissional

Esta biblioteca ficará em recesso durante a Flip. Até domingo, postarei somente no blog do Estadão na Flip. Vê se vai lá. Mas é pra voltar pra cá no dia 9.

A coluna da semana

[publicada no Sabático de 31/7; disponível também no Estadão.com]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

CINEMA
Um modernista em 1.500 páginas, mas sem editora

Uma compilação de quase 3 mil crônicas escritas pelo crítico de cinema, poeta e ensaísta Guilherme de Almeida (1890-1969) está há quase uma década em busca de editora. Organizado ao longo de 20 anos pelo editor Frederico Ozanam Pessoa de Barros, hoje com 82 anos, o livro Cinematógrafos esbarra numa questão logística que já levou editoras interessadas a desistirem do investimento: o volume tem 1.500 páginas, e Barros, amigo e biógrafo de Almeida, não abre mão de publicá-lo na íntegra. Além dos textos que o modernista publicou no Estado de 1926 – quando foi convidado a assinar seção dedicada à crítica cinematográfica – até o início dos anos 40, o livro inclui fichas técnicas de todos os filmes sobre os quais escreveu. “Mais que crítico, foi o primeiro grande cronista de cinema do período. Seus textos registram aspectos da cultura de uma época em que ir ao cinema era quase como ir a uma festa”, diz Barros.

TRADUÇÃO
O primeiro romeno

O selo Amarilys, da Manole, prepara a tradução direta do romeno de O Retorno do Hooligan, romance em que Norman Manea relata sua primeira visita à Romênia após a queda do regime Ceausescu. O escritor, que vive em Nova York, relembra o fascínio pelo comunismo, a perseguição e a liberdade no exílio, junto a amigos como Philip Roth.

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Será a primeira tradução de Manea no País, a cargo da romena naturalizada brasileira Eugênia Flavian. E também a primeira direta do idioma a sair pela Manole – cujo fundador, Dinu Manole, nasceu na Romênia. A editora também tem os direitos de The Bunker, do autor, sobre o 11 de Setembro.

DIGITAL
Wylie e a tradução

A agência Wylie, que passará a publicar e-books de seus autores nos países de língua inglesa, é também a única grande que se recusa a vender direitos digitais de traduções num momento em que editores exigem cláusulas sobre publicação eletrônica.

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A Benvirá, por exemplo, não sabe se poderá lançar os e-books dos recém- negociados Tetralogia da Fertilidade, de Yukio Mishima, e Solo, de Rana Dasgupta. Incluiu cláusula para que seja a primeira opção caso a Wylie queira negociar os direitos. A Record, que publica Colum McCann e Azar Nafisi, da agência, avalia que terá de parar de negociar se a Wylie resistir na questão, a não ser que se comprometa a não vender direitos a outros ou explorá-los diretamente.

BOLSA
Um ano na Alemanha

Finalista do Prêmio SP de Literatura, que sai na segunda, Bernardo Carvalho não deve lançar outro romance tão cedo. O autor de O Filho da Mãe ganhou uma bolsa da instituição de intercâmbio Daad. A partir de março, passará um ano em Berlim como artista residente, seguindo passos de nomes como Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro.

CASA NOVA
Mudanças no catálogo

Após breve passagem pela Cosac Naify, Izabel Aleixo assume a direção editorial da Paz e Terra com a meta de garimpar obras de “maior apelo” e “dar uma reduzida” no catálogo de 1.200 títulos, organizando coleções. Para o selo Argumento, que em cinco anos teve só nove títulos, a meta é levar mais ficção contemporânea internacional e abrir portas para a nacional. Por 12 anos, na Nova Fronteira, Izabel lançou alguns dos maiores hits da década, como O Caçador de Pipas.

CINEMA
Chanel e Stravinski


A Larousse lança Coco Chanel e Igor Stravinski, do inglês Chris Greenhalgh. A obra aqui sai na esteira do filme homônimo, exibido no Festival de Cannes 2009 e que, protagonizado por Anna Mouglalis, retrata um caso entre a estilista e o compositor.

QUADRINHOS
Baleia multimídia

Um teaser de animação será criado pelo Estúdio Birdo para divulgar Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, lançada em junho pela Quadrinhos na Cia., com 800 exemplares vendidos até agora. O vídeo será lançado dia 4/9, quando a Choque Cultural abre mostra com originais e pôsteres da HQ.

A primeira vez (versão nacional)

Meses atrás, escrevi aqui no blog sobre a pesquisa de um autor americano, Jim C. Hines, sobre o caminho de um escritor até o primeiro livro publicado. Fiz a ressalva de que era um mercado bem específico –  Hines escreve livros de fantasia e a maior parte dos entrevistados também, e o critério que ele usou foi de primeiro livro publicado com adiantamento da editora – e me deu vontade de tentar algo do tipo por aqui. Focando em literatura e em grandes editoras, de alcance nacional, boa capacidade de distribuição e de divulgação.

Tá certo que não fui disciplinada desde os primeiros questionários que disparei por e-mail para autores, em maio, até o momento em que consegui voltar a pensar na pauta, agora no meio de julho, o que fez desta minha semana algo das mais caóticas.  Parecia simples, né, enviar e-mails, jogar tudo no Excell e fazer umas regras de três para as porcentagens. Mas daí, ao juntar todas as respostas, percebi que teria de abusar da boa vontade dos 60 que toparam participar (uns 6 ou 7 não responderam), refazer perguntas, mandar outras. Não é fácil ser Ibope.

Sim, é uma pesquisa informal (como aviso no texto, publicado no Sabático) que faria o povo das estatísticas ficar de cabelo em pé. Mas é sempre bom sair da rotina, tem lá sua graça. Com base no que os autores escreveram, dá uma dimensão: idade média de publicação do primeiro título de literatura, 34 anos; tempo entre o primeiro livro escrito, publicado ou não, até o livro publicado por uma grande editora, algo entre 5 e 6 anos (esse último dado não incluí na reportagem porque é mais complexo, já que muitos responderam só “menos de um ano” até a publicação, o que pode significar dois ou 11 meses).

A arte (do Rubens Paiva, ex-colega de Folha com quem voltei a trabalhar no Estadão), com os principais resultados, ficou incrível. O texto foi uma novela, fiquei tão preocupada em checar estatísticas (ok, “estatísticas”) que, ao reler a versão impressa que apareceu na redação e ver o que tinha escrito depois de tanto cortar e mudar, quase tive uma coisa. Consegui dizer um pouco melhor o que queria dizer ao fazer uns retoques pro on-line, que, afinal, é o que fica.

Mas as respostas, que não pude aproveitar na íntegra (pena, porque tinha muita coisa boa por ali), ainda me deram ideias para pautas futuras que podem ajudar a entender a árdua missão que é fazer literatura no País. Gracias a todos os autores que participaram, pela boa vontade.

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O incerto caminho até a publicação

Em enquete com 60 escritores, levantamos os dilemas enfrentados por autores em busca de editoras

Clique aqui para ver a arte em tamanho maior no PDF

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Anos atrás, o editor Paulo Roberto Pires presenciou uma inflamada discussão acerca do excesso de autores estreantes que as grandes editoras andariam colocando no mercado. Ele sabia que, a qualquer momento, um dos críticos poderia apontá-lo entre os culpados pelo que seria “falta de parcimônia” editorial. Como jornalista cultural, depois um dos organizadores da primeira Flip (2003) e, por fim, editor em duas das maiores casas publicadoras do País, a Planeta e a Ediouro, ele apresentou a um público mais abrangente alguns dos principais nomes da Geração 00, como João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron e Santiago Nazarian.

Pires não considera isso negativo. “Se um escritor é bom ou ruim, o tempo é quem diz. Era preciso sacudir o mercado naquele momento em que era enorme a diferença entre o que se editava e o que se via de interessante na internet.” O fato é que atitudes como a dele ajudaram a estimular a aceitação a novos autores. “A internet alterou o perfil do lançamento de um estreante”, avalia Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco. “Está mais fácil ser autor agora do que quando quem badalava sua obra era visto com desconfiança, como se não tivesse a pátina correta de eruditismo. Hoje, ninguém vai criticar quem quer estar onde os leitores estão. As feiras literárias estão aí para provar.”

A exposição só não alterou o fato de que a publicação por uma grande editora marca, em geral, o momento em que tudo muda na trajetória de quem quer viver de literatura – ou se tornar uma pessoa jurídica, como diz Cristovão Tezza, que pôde parar de dar aulas e viver apenas em razão de seus livros desde que O Filho Eterno, publicado pela Record, abocanhou quase todos os prêmios literários de 2008. “É importante a recepção que o livro tem quando vem de uma grande. As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo”, diz Antonio Prata, que ingressou nesse olimpo literário em 2003, com As Pernas da Tia Corália, publicado pela Objetiva.

O Sabático resolveu saber dos próprios autores qual o impacto de uma grande editora em sua carreira, como foi o caminho até ela e como se sentem a respeito numa época em que, cada vez mais, surgem boas casas de pequeno ou médio porte no País – como a 34, a Iluminuras e a Ateliê Editorial, só para ficar em três exemplos. Numa espécie de pesquisa informal, enviamos pequenos questionários a quase 70 escritores de todas as idades, dos quais 60 aceitaram participar. As questões foram feitas em cima do primeiro título de literatura lançado com distribuição nacional e grande alcance de divulgação. E que, na maior parte dos casos, não foi o primeiro que tiveram editado – Lya Luft, por exemplo, escreveu o primeiro livro 13 anos antes de chegar à Record, onde virou best-seller com As Parceiras, em 1980; Ana Miranda escreveu dois de poesias por editoras pequenas e ficou 10 anos retrabalhando o mesmo romance até enviar os originais de Boca do Inferno para a Companhia das Letras – foram mais de 200 mil exemplares desde 1989.

É claro, o caminho é bem mais rápido para quem não se dedica a outros trabalhos antes, como Lya, ou não se debruça tanto tempo sobre a mesma obra, como Ana. As duas, que estrearam em grande editora com 40 e 37 anos, respectivamente, estão acima da média de idade que os participantes da enquete tinham quando chegaram lá, 34 anos. Quase um quarto dos escritores (23%) conseguiu fechar um contrato no mesmo ano em que terminou de escrever o primeiro livro – apostas em iniciantes, como no caso dos autores editados por Paulo Pires, ajudam a engrossar esse número; prêmios literários e publicações anteriores de contos em periódicos e antologias também.

Mas um número parecido (20%) esperou mais de uma década desde as primeiras tentativas literárias até receber um convite de uma grande editora. Caso de gente como Affonso Romano de Sant’Anna (que esperou 22 anos até, aos 38, ter Poesia sobre Poesia publicado pela Imago), Cristovão Tezza (17 anos tendo obras recusadas até Traposair pela Brasiliense) e Marcelo Mirisola (15 anos escrevendo livros até ser convidado pela Record a lançar Joana a Contragosto).

Mas Mirisola, assim como Marcelino Freire e outros escritores, já era conhecido quando teve o romance editado pela maior editora do País. O reconhecimento chegou com Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, que a Estação Editorial, uma editora de médio porte, publicou em 1998. “No meu caso, não mudou nada”, diz o paulistano sobre o título que saiu pela Record. Tanto que, depois disso, voltou para uma editora média, a 34, e em breve terá um infantil (a quatro mãos com Furio Lonza) pela Barcarolla.

Indicações. Só quatro dos 60 autores (Mirisola, Ana Miranda, João Almino e Tiago Melo Andrade) disseram que recomendações feitas por outros escritores ou pessoas próximas não facilitam o caminho para um iniciante. Tirando um ou outro que preferiu não emitir opinião a respeito, a grande maioria respondeu ao Sabático que a indicação abre portas, sim – mas todos ressalvaram que apenas permite aos manuscritos uma mãozinha para chegar logo ao topo da pilha de originais. Vinte e um dos autores disseram que escreveram a convite – está certo que boa parte deles já era algo conhecida por textos em antologias, periódicos ou editoras pequenas. Outros 38 afirmaram que enviaram originais; desses, 24 conheciam o editor ou tiveram a tal recomendação; os 14 restantes afirmaram só ter oferecido os originais nas editoras. E uma única, dentre os 60, recorreu a um agente – Ana Maria Machado, publicada pela Francisco Alves, uma das grandes em 1983. “Nos EUA, é mais comum iniciantes contratarem agentes. Por aqui é raro o autor se arriscar a pagar um agente sem a certeza da publicação; isso só costuma acontecer quando eles já estão com carreira mais estabelecida”, diz a editora Izabel Aleixo.

Por curiosidade, metade dos 38 autores que foram bem-sucedidos após enviar originais preferiram fazê-lo para uma só editora – uma espécie de ética que as casas publicadoras não exigem e que pode acabar sendo um problema para quem aspira ser editado. Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record, por exemplo, diz que não vê mais originais em papel não solicitados. “Não há como. Se vem um e-mail, a gente até se situa. Se achar que a carta está bem feita e que existe um mínimo de potencial, vai para leitura. Recebo uns 25 emails por mês, sem falar nos que recebem todos os outros editores, e uma quantidade absurda de papel que não serve para nada.”

Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco, diz que passam de 150 os originais que chegam por mês à editora. A Rocco não veta os que chegam em papel, mas exige que todos venham gravados em CD – se o autor quiser mandar a impressão em anexo, fica por conta dele. “E, vou te dizer uma coisa, 98% dos livros. logo nas primeiras páginas, senão na carta de apresentação, você vê que não é um livro de verdade. Não falo nem de regras gramaticais, e sim de um mínimo de estilo, de consciência literária”, diz Izabel Aleixo, ex-diretora editorial da Nova Fronteira, que acaba de assumir cargo na Paz e Terra. Isso faz com que bons livros se percam na montanha de aspirações literárias. E é aí que entra a recomendação. Não porque vá privilegiar alguém, mas porque permite a triagem.

Mas nem todos são adeptos da fidelidade. Elvira Vigna, ao terminar O Assassinato de Bebê Martê, abriu um catálogo do Snel (sindicato dos editores) e mandou uma cópia do romance a cada editora cujos nome reconheceu. Em menos de um mês, recebeu a resposta de uma das melhores do País, a Companhia das Letras. Nelson de Oliveira também mandou seus contos de estreia para cerca de 20 editoras, mas precisou esperar oito anos, ganhar um prêmio, o Casa de Las Americas, e ser recomendado por um dos jurados, Rubem Fonseca, para publicar pela mesma casa Naquela Época Tínhamos um Gato>. Hoje, voltou a publicar por pequenas editoras: “Não há mais muita diferença. Em geral, as pequenas se profissionalizaram.” Ignácio de Loyola Brandão, que mandou cópias de seu Depois do Sol para 13 editoras, recebeu cartas padrões de quase todas e uma que não esqueceu, da Civilização Brasileira: “O autor escreve como quem mija.” “Achei até que era elogio, mijar é um ato natural”, conta. Acabou sendo publicado logo pela Brasiliense – e o editor Caio Graco, lembra Ignácio, aceitou a obra sem nem fazer reparos de edição.

Autores falam sobre o primeiro livro

“Já na Ateliê (de médio porte), com o Angu de Sangue, em 2000, minha vida literária mudou. Fui bastante resenhado, divulgado. Não sou desses que ficam com a bunda na cadeira, reclamando de editor”

Marcelino Freire

“As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo. Se fica mais fácil? Creio que sim. Mas não acho que no Brasil publicar seja problema. Isso é fácil. Difícil é vender”

Antonio Prata

“Aprendi que as pessoas não querem palpite nem sugestões, querem endosso e apadrinhamento. Qualquer restrição ou dica, por mínima que seja, é vista como ofensa e se ganha um desafeto”

Ana Maria Machado

“A passagem da Revan (de pequeno porte) para a Nova Fronteira não significou nada. Meu desempenho de público até piorou. Tanto que a Nova Fronteira não quis um segundo livro meu”

Alberto Mussa

“Aquele era o meu livro, era o livro possível, e se o editor fosse mais invasivo a obra não seria tão autêntica. Prefiro caminhar com as minhas próprias pernas e aprender com os meus próprios erros”

Adriana Lisboa

“A gente também passa a fazer outros trabalhos: textos de prosa e ficção para jornais, orelhas de livros, palestras. Para isso, é imprescindível ser publicado por uma grande editora, é evidente”

Cintia Moscovich

“Editoras grandes ajudam sobretudo em distribuição e divulgação, mas é precipitado dizer que necessariamente trazem mais público. Nada impede que isso seja alcançado em publicação independente”

Daniel Galera

“Quem leu (o primeiro livro que escrevi) achou péssimo e tive de concordar antes de enviar a qualquer editora. Mas todo livro é o primeiro. Já tive livros recusados depois de publicar o primeiro”

Bernardo Carvalho

“(A indicação) facilita o acesso à editora, mas não garante a publicação. É lenda achar que, por conhecer o autor ou ser amigo de alguém de seu círculo, o editor vai publicar o livro”

Cristovão Tezza