Estranho amor

Delícia de romance O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente, do JP Cuenca, que sai pela coleção Amores Expressos e sobre o qual escrevi no Sabático deste último final de semana. O texto segue abaixo

As fotos com as quais ilustro este post eu roubei do próprio autor, do blog que ele assinou no tempo em que esteve em Tóquio pesquisando para o livro, em 2007.

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Estranho amor em terra estrangeira

João Paulo Cuenca, 32 anos, firma-se como um dos nomes de destaque de sua geração com romance de encomenda ambientado em Tóquio – onde viveu por um mês – que tenta escapar do ”olhar domesticado”

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

O Rio amanheceu algum tempo atrás com muros e postes tomados por lambe-lambes que, entre anúncios de shows e eventos afins, chamavam a atenção pela enigmática mensagem que exibiam: O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente. Para a maior parte dos transeuntes a frase em tom de profecia não deve ter causado mais que estranhamento, mas era essa mesmo a intenção do escritor João Paulo Cuenca quando decidiu espalhá-la pela cidade. Para ele, o extenso título de seu terceiro romance carrega um sentido quase completo, como se fosse outra obra em si – característica que ele não quis desperdiçar. “Quem já sabia do livro me ligou ao ver os cartazes, mas fico imaginando quem não sabia do que se tratava. As pessoas reagem a essa frase, param para pensar. Quem lê o título já frui alguma coisa”, imagina o carioca, de 32 anos.

A sensação de estranhamento perpassa toda essa história, desde sua concepção. O livro resulta da participação do escritor no projeto Amores Expressos, que em 2007 mandou autores brasileiros a cidades estrangeiras que lhes inspirassem a escrever ficções sobre amor. A J.P. Cuenca coube atravessar meio globo rumo a Tóquio, onde passou o mês mais esquisito da vida, num estado de solidão que não era interrompido nem em pensamento. “Se você entende o que escuta, de alguma forma presta atenção. Mas, se não pode ler o que está escrito no outdoor ou no ônibus, não entende o que se fala, entra numa bolha de incomunicabilidade”, descreve. “Cheguei a ficar dias sem falar com ninguém. Tinha fluxos de pensamentos enormes.”

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As torrentes de raciocínio levaram a uma intrincada narrativa na qual a história de amor é central e de certa maneira periférica; sufocante nos detalhes íntimos e ao mesmo tempo superficial, artificial, fetichista. Ou seria mais justo dizer as histórias de amor, no plural: entre o jovem executivo Shunsuke Okuda e a garçonete romena Iulana Romiszowska; entre Iulana e a dançarina Kazumi, de proporções milagrosamente harmoniosas; entre a boneca erótica Yoshiko e o velho poeta Atsuo Okuda, pai de Shunsuke. E, em meio a tudo isso, câmeras que tudo veem: uma gigantesca rede de espionagem, o “submarino”, criada por nenhum motivo mais nobre que a obsessão do velho Okuda em seguir (e atrapalhar) cada passo da vida amorosa de Shunsuke.

Estranho o bastante? É ainda mais singular saber que uma das inspirações para tal rede de espionagem foi a decisão de Cuenca de seguir pessoas pelas ruas de Tóquio, “uma boa maneira de entender uma cidade”. Com isso, definiu detalhes da trajetória de gente como o velho Okuda e a garçonete romena – esbarrou por lá em várias moças do Leste Europeu, com suas cabeças louras e mais altas que o japonês médio, o que as fazia parecer “girafinhas” entre a multidão. “Em vários momentos tentei ser o submarino. Espionar, mesmo. É uma experiência louca, muito doente. Nos outros romances, foi um processo mais saudável.”

Outro exercício insalubre foi tentar se colocar, como narrador, na pele de um nativo japonês, Shunsuke. Admirador de Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, Cuenca não quis reproduzir a opção do filme de narrar do ponto de vista de um gaijin (estrangeiro). Concluiu que tal olhar seria “domesticado”, parecido demais com o dele próprio. “Busquei a zona de sombra. Esse narrador que construí é uma maluquice. Tenho medo de japoneses quererem me matar”, brinca. Acha graça agora, mas ficou de fato preocupado. A ponto de pedir para sua editora, a Companhia das Letras, verter para o inglês três capítulos para que pudesse enviar a um amigo japonês – que aprovou, assim como “um ou outro” nissei a quem mandou o romance por aqui.

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Estrangeiro mesmo acaba sendo o olhar de Shunsuke para a romena que ele ama sem entender (“Tocar em Iulana Romiszowska é como tocar num animal desconhecido”, reflete). Cuenca esforçou-se na arriscada tarefa de mimetizar o pensamento oriental sem estereotipá-lo, chegando a dormir num hotel cápsula, aquele com quartos de fibra de vidro pouco maiores que um caixão, e a conviver com os salarymen, assalariados que, após o expediente, enchem a cara em bares e boates. Sente que, com isso, o narrador se tornou mais “malandro” que os de seus romances anteriores, Corpo Presente, de 2003, e O Dia Mastroianni, de 2007.

Humanização. Um dia antes da conversa com o Estado, Cuenca enviou um email: “O caminho para terminar esse livro foi tão longo, em tantos sentidos, que acho que pela primeira vez como escritor tenho algo para dizer numa entrevista.” Por telefone, explicou melhor: os outros romances encerravam neles mesmo o que tinham a expressar; de O Único Final Feliz… ele não se cansa de extrair sentidos.

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Numa das passagens mais bonitas da história, Yoshiko, a boneca erótica fabricada para servir ao velho Okuda, descobre o ciúme (“sinto um foco de calor preciso dentro do meu corpo, como se alguém houvesse acendido um fósforo no meu peito”, tenta descrever, com o pouco de informação que tem sobre o mundo). Um sentido que o autor vê na boneca é o de representar a literatura em si. Ela nasce artificial – abre a narrativa descobrindo o mundo fora da caixa em que chegou à casa do sr. Okuda -, assim como é para Cuenca o ato de escrever. “Há formas de arte que se aproximam do impulso, do movimento natural. Pintar, dançar, até escrever poesia. Mas romance é artificialismo em estado puro. A atividade de escrever, sentado numa cadeira, tentando aprisionar em palavras aquela torrente de sensações. A linguagem é um inimigo.” Da mesma forma que o romance quando já passou do estágio da escrita e está no papel, Yoshiko se humaniza. Descobre o tempo, toma consciência da finitude, percebe o amor e quer aprisionar a sensação de infinito que ele oferece.

O produtor Rodrigo Teixeira, que financiou o Amores Expressos, tem os direitos dos livros da coleção para o cinema. O Único Final Feliz… é um prato cheio para qualquer plano de adaptação – nesse sentido, lembra Murakami -, mas Cuenca diz que a ideia nem lhe ocorreu durante a escrita. Se fosse para ser filmado, gostaria de vê-lo como animação realizada por algum escritório japonês. Isso ao menos ajudaria a resolver imagens nonsense, quase oníricas, como a do velho Okuda transformando-se no monstro Gyodai e destruindo parte da cidade… Gyodai? “Adoraria falar que descobri Tóquio pelos filmes do Ozu ou pelos livros do Mishima, mas não. Minha primeira imagem da cidade foi com a série Changeman”, esclarece o autor, que não resistiu à referência.

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Enfim, algo a dizer

Confesso que quando soube, meses atrás, que a Flip teria mesa sobre o futuro do livro tive vontade de parar o que estava fazendo e tirar uma soneca.  O problema é que, no Brasil, fala-se muito mais sobre o tema do que se vê algum avanço, e não será uma mera falta de assunto que impedirá um repórter de escrever um lide.

Daí que foi uma boa surpresa conversar com um dos integrantes da mesa sobre o tema  na Flip (junto com Robert Darnton), o CEO da Penguin, John Makinson, por conta da parceria da editora com a Companhia das Letras (sobre a qual falo aqui e aqui, em reportagem publicada ontem no Caderno 2). Por uma razão simples: ao contrário da maior parte das pessoas que discorrem sobre o assunto no Brasil, ele fala com conhecimento de causa, já que a Penguin tem trabalho forte nesse sentido.

Agora, relendo a entrevista, faço um mea culpa. Durante a conversa a questão não me ocorreu, mas agora ela esperneia na minha frente.

A ideia do conteúdo extra como diferencial para um e-book sobreviver à pirataria de livros não lembra algo que você tenha ouvido antes? Não lembra aquele discurso do mercado cinematográfico de que “um DVD pirata não tem os extras que existem no oficial”? Não posso dizer que acompanhe de perto o mercado de DVDs, mas a gente tem uma ideia. Ou, se não, dá pra ter uma noção do capítulo seguinte lendo esta reportagem que a Ana Paula Sousa fez para a Ilustrada meses atrás.

Mas, enfim. A gente pode até desconfiar do futuro no caso dos livros. Mas, como ninguém está aqui para mãe Diná, vale ouvir quem faz o negócio funcionar hoje.

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[entrevista publicada no Caderno 2 de 16/7]

O desafio é tornar a leitura interessante nos E-BOOKS’

John Makinson, que estará na Flip, fala das apostas bem-sucedidas da editora em e-books e das possibilidades do mercado

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Uma exigência da Penguin na parceria com a Companhia das Letras foi que todos os livros da coleção Clássicos também saíssem no formato digital. Por quê?

Nos EUA, o mercado de e-readers vem crescendo rapidamente. Em pouco tempo, eles se tornaram plataformas atraentes para o leitor. No Brasil, as opções de leitores eletrônicos em celulares ou tablets ainda são incipientes, mas aposto que em poucos anos haverá um mercado significativo. Essa é uma razão. Outra razão foi entendermos que é possível oferecer bom material extra na literatura em formato digital. Por exemplo, se você pega Jane Austen, Orgulho e Preconceito, pode enriquecer o conteúdo digital com descrições de características do período, informações históricas sobre lugares onde os fatos se passam, trabalhos críticos. Tenho confiança na ideia de testar limites editoriais e acho que o Brasil logo terá mercado para isso. Você, que vê esse mercado de perto, o que acha?

O que me chama a atenção é o receio que editores têm de apostar nesse mercado. Tivemos em São Paulo um congresso sobre livro digital, e era dúvida recorrente a questão dos lucros. É possível lucrar com e-books?

Sim, claro que sim, porque o e-book não exige nada de manufatura, não exige investimento em distribuição e estoque. Você ainda tem o investimento, é claro, na edição, na divulgação do livro, mas não há custos físicos. Então a questão é: você pode determinar o preço do livro de forma que o consumidor fique satisfeito, e também o editor? Essa é uma das questões sobre as quais vou falar na Flip.

Já é lucrativo para a Penguin?

Sim, claro. Por que não seria?

Devido à pirataria, por exemplo.

Sim, isso é um fato. Mas no mercado do livro não tem sido como foi no da música. Há várias diferenças. Uma é que a psicologia do consumidor é outra. Na música, é interessante para jovens ter enorme quantidade de faixas no iPod, milhares delas. Não é cool ter milhares de livros no e-reader, porque ninguém conseguirá lê-los. Isso é um ponto. Outro ponto é que a indústria da música descobriu que o consumidor não queria comprar o álbum, e sim a faixa. Então o modelo desenvolvido por muito tempo não era o ideal. Não é o caso do livro. Não temos evidência de que as pessoas estejam interessadas em comprar capítulos, elas querem o livro. E, em terceiro lugar, as pessoas têm relação sentimental com o livro. Uma coisa importante na Penguin é a certeza de que os livros sejam bonitos para que as pessoas queiram ter e colecionar.

Mas na música também havia relação sentimental com álbuns. Será que as novas gerações terão essa relação com os livros?

Não sei! Creio que sim. Acho que há algo duradouro na relação sentimental com o livro. Nos EUA a oportunidade para pirataria e infração de direitos autorais já existe há muitos anos, há muitos sites de upload de conteúdo de livros. Não digo que não seja um problema. É um problema, mas não é “o” grande problema como na música. As vendas na Penguin continuam bem. Não estamos encolhendo, estamos crescendo.

Qual a parcela de livros da Penguin vendida no formato digital?

Os e-books chegam a 10% das nossas vendas. O que percebemos foi que há livros mais adequados para o formato digital que outros. Não são categorias totalmente consistentes, mas um novo best-seller, por exemplo, tem mais potencial para conteúdo extra na versão digital que um clássico, já que o próprio autor pode produzir esse conteúdo. O que é interessante é tentar entender o que o consumidor não compra quando compra o e-books, se deixa de comprar o livro hardcover (de capa dura, em geral a primeira edição de livros nos EUA) ou o paperback (tipo brochura).

Você foi citado no ranking dos nomes mais importantes da mídia em 2010 segundo o MediaGuardian por ações no mercado digital. Quais os próximos passos da Penguin nesse sentido?

O interessante desse ranking foi o argumento de que estamos redefinindo a indústria do livro. Alguns dos aplicativos que estamos desenvolvendo serão bem diferentes de tudo o que fizemos até agora. A maneira como apresentamos informações de viagem no iPad, ou como fazemos livros ilustrados para criança virem à vida, ou ainda como envolvemos redes sociais e comunidades de um jeito novo no mercado para adolescente. Isso tudo é muito novo e requer novas habilidades de editores. Significa que temos de entender novas tecnologias, novos critérios para determinar preços, temos de ser criativos na maneira de pensar no leitor. Não diminuo as questões que você levantou, a pirataria, a preocupação com lucro, são questões sérias. Mas, acima de tudo, estamos muito otimistas.

A digitalização de clássicos que o Google promove pode prejudicar as vendas da Penguin?

Bem, você pode obter no Google os clássicos em domínio público, mas, se fizer isso, a experiência de leitura não será atraente. Eles digitalizam e escaneiam manuscritos originais, e estes são os velhos, difíceis de ler. Mas eles no Google são espertos, logo darão jeito de melhorar isso. Com isso, nos desafiam a pensar em como tornar os Clássicos da Penguin realmente atraentes por seus preços. A questão é: o que você compra quando compra nossos clássicos é design, introduções, qualidade de tradução, notas de rodapé. Devemos deixar claro para o leitor o que temos de diferente, porque estamos propondo que comprem por uma quantia razoável de dinheiro algo que podem conseguir de graça. É um desafio interessante.

Retrato de um viciado

A Companhia das Letras avisa, por e-mail, que publicará Portrait of an Addict as a Young Man, de Bill Clegg, livro sobre o qual escrevi na última coluna Babel. As memórias do agente literário que já foi viciado em crack devem sair por aqui em maio do ano que vem, sob o título Retrato de um Viciado quando Jovem.

Aqui, o trecho que foi publicado na New York Magazine.

No Sabático de 1/5

Texto sobre Afluentes do Rio Silencioso, a.k.a. Lowboy, de John Wray

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Dentro da mente e sob o solo

Reconhecido pela crítica e pelo público dos EUA, John Wray, de 38 anos, fala sobre Afluentes do Rio Silencioso, romance que narra a saga de um garoto esquizofrênico pelos metrôs de Nova York

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Num vídeo que corre na internet, o escritor John Wray e o ator Zach Galifianakis (de Se Beber, Não Case) invertem papéis, e Wray, bancando o repórter, bombardeia o outro com perguntas repisadas como “Por onde você começou o romance?” e “Qual sua inspiração para criar a personagem Violet?”. A cena foi pensada em 2009 para divulgar o terceiro livro de Wray, Lowboy, e acabou servindo à perfeição para uma situação que o autor americano passaria a viver com frequência desde então.

Elogiado pela crítica de seu país já no romance de estreia, The Right Hand of Sleep (2001), e eleito em 2007 um dos melhores jovens romancistas americanos pela prestigiosa revista inglesa Granta, Wray alcançou o interesse de um público amplo graças a Lowboy, lançado agora por aqui como Afluentes do Rio Silencioso. A história de William Heller, garoto esquizofrênico de 16 anos que escapa da clínica psiquiátrica e empreende uma saga pelo metrô de Nova York, tinha todos os ingredientes para firmar Wray como astro literário. Com linguagem e narrativa trabalhadas nos menores detalhes, mas também pensado de forma a não obscurecer a leitura, o romance recebeu críticas carregadas de elogios de veículos como a New Yorker e o New York Review of Books, ao mesmo tempo em que evidenciou o perfil pop do autor.

Aos 38 anos, visual criteriosamente blasé e enorme talento para aparições em vídeo, Wray passaria sem dificuldade por um músico de grupo indie (chegou, inclusive, a fazer parte de bandas, “mais por amor à música que por habilidade”). Nasceu John Henderson, mas passou a usar o sobrenome com que assina seus romances por influência de King Kong, o filme de 1933 – sua argumentação para isso envolve a atriz Fay Wray e o costume adolescente de pensar no gorila gigante carregando-o sempre que tinha preguiça de levar alguma tarefa a cabo.

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A íntegra do texto está aqui. O texto do John Wray sobre as músicas que ouviu enquanto escrevia o romance, de que falo ao fim da reportagem, está aqui. E e o vídeo a que me refiro no primeiro parágrafo está abaixo.

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E a coluna Babel, a seguir. Antes, os Moomins, sobre os quais escrevo na segunda nota, na versão infantil e na versão mais adulta e nonsense que foi parar nos jornais (e cuja edição pela Drawn & Quarterly foi indicada ao Eisner em 2007)

Moomin para crianças...

...e na versão nonsense

Babel

Filme na web tenta desvendar o que é má literatura

Tem estreia prevista para agosto – na internet, mesmo – o documentário Bad Writing, que o americano Vernon Lott vem produzindo desde 2007. Lott selecionou poemas que escreveu na adolescência e entrou em contato com mais de 100 nomes do universo literário, para que analisassem seus textos e, além disso, falassem sobre seus próprios primeiros passos como escritores. “Cerca de 75% dos autores que procurei nem se dignou a responder, mas os que falaram foram receptivos à ideia de desmistificar a evolução do processo criativo”, disse o documentarista a esta coluna. Margaret Atwood, David Sedaris e outros falam sobre tropeços de início de carreira e a respeito de gente como a irlandesa Amanda McKittrick Ros (1860-1939), “amplamente considerada a pior escritora em língua inglesa”, e o americano Theodore Dreiser (1871-1945), “estimado e, ainda assim, muito ruim”, segundo Lott. Com uma hora e meia de duração, o filme terá legendas em idiomas ainda não definidos. O trailer pode ser visto em vimeo.com/10913506.

QUADRINHOS
Moomins enfim em português

A Conrad lança neste ano o primeiro livro em português da série de tiras Moomin. Criados como personagens infantis pela finlandesa Tove Jansson nos anos 40, os seres arredondados acabaram adaptados para tiras adultas. Os livros infantis foram muito populares, mas a versão nonsense serializada por jornais ficou esquecida até 2006, quando a editora Drawn & Quarterly publicou o primeiro livro de uma coleção.

AUTOFICÇÃO
Drama real reconstruído

Vencedor do prêmio de melhor ficção de 2009 do jornal Los Angeles Times, A Happy Marriage, do americano Rafael Yglesias, foi comprado pela Record. Yglesias, roteirista de filmes como Os Miseráveis, transformou a história real de seu casamento até a morte da mulher, com câncer, num “trabalho de arte e da imaginação”, segundo o jornal New York Times.

DIREITOS
Tony Judt em três obras

Prestes a publicar Reflexões Sobre um Século Esquecido, de Tony Judt, a Objetiva já adquiriu os direitos de duas outras obras: Ill Fares the Land, recém-lançado nos EUA, e um volume de ensaios que vêm sendo publicados no New York Review of Books. Num deles, Night, Judt relata como é atravessar as noites com a esclerose lateral amiotrófica, doença que o tornou paraplégico – “como uma múmia moderna, sozinho na minha prisão corporal, acompanhado somente por meus pensamentos”, escreve.

PREMIAÇÃO
Trailers de livros

A editora americana Melville House acaba de lançar o 1º Moby Awards (2010mobyawards.wordpress.com), que premiará trailers de livros em categorias como o melhor com baixo orçamento, o que traz melhor aparição do autor e o menos propenso a ajudar nas vendas. A entrega será em 20 de maio.

TRADUÇÃO
Estreia em francês

À Margem da Linha, romance escrito nos anos 80 por Paulo Rodrigues e publicado em 2001 pela Cosac Naify – o que tirou do anonimato o então assessor sindical nascido na periferia de São Paulo -, acaba de ser lançado na França pela editora Folies D”Encre, que já publicou por lá autores como Carlos Heitor Cony e Moacyr Scliar.

NO BRASIL
Presenças na Bienal e na Flip

O norueguês Jostein Gaarder, do aclamado O Mundo de Sofia – livro de 1991 que, traduzido para mais de 50 idiomas, iniciou milhões de jovens no universo da filosofia -, estará na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em agosto. Dois meses antes, a Companhia das Letras lança O Castelo dos Pirineus, de sua autoria.

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O britânico Peter Burke, especialista em Idade Moderna Europeia, dividirá mesa com o americano Robert Darnton na Flip, anunciou a organização. Maria Lucia Burke, mulher de Peter, estará em um debate sobre Gilberto Freyre. Ela ajudou o evento a organizar a homenagem ao sociólogo.

Once upon a time

Quando conversei por telefone com o crítico americano Greil Marcus, autor do Like a Rolling Stones: Bob Dylan na Encruzilhada, quis saber como foi escrever 260 páginas sobre uma música sem conseguir falar com o criador dela. Marcus entrevistou pessoas que participaram do momento e pesquisou tudo sobre o assunto, mas era inevitável que alguma dúvida não tivesse sido esclarecida.

A resposta que ele me deu:

Pedi ao agente dele, com quem havia trabalhado em anos anteriores, para falar com Bob Dylan apenas sobre as circunstâncias da sessão de gravação. Não estava interessado no que a música significava, no que as pessoas pensavam sobre ela, nem no que ele próprio pensava sobre ela. E o agente disse: “Bem, ele de fato não se lembra bem de como foi, então não quer falar sobre isso”. E foi engraçado quando, no mesmo ano, o livro dele [Crônicas – Vol. 1] saiu, e, é claro, ele parecia se lembrar de tudo, com todos os detalhes, uma enorme memória para rostos, nomes, a maneira como as pessoas falavam… Ele se lembrava de tudo, mas guardava as memórias só para ele.

Tempos depois, eu estava sentado com esse agente e ele tinha um original do Crônicas sobre a mesa. Entrei em pânico e pedi para olhar. Pensei: “Bob vai falar de ‘Like a Rolling Stone’, e qualquer coisa que ele fale eu tenho de levar em conta”. Meu livro estava finalizado, mas ainda não publicado. Eu podia mudar e adicionar material, mas NÃO QUERIA ter de fazer isso, não queria voltar e repensar o que já tinha feito. Mas pensei: “Se ele diz que essa música foi dada a ele por um marciano, ou encontrada em uma mina de ouro, o que quer que ele diga eu tenho de confrontar”. Então folheei o livro, pulando páginas, e logo me dei conta de que a música nunca é mencionada ali. Porque é só sobre a época em que ele era desconhecido. Foi um alívio enorme.

Enquanto ainda não existe um Crônicas – Volume 2 para sabermos a versão de Bob Dylan sobre a música, vale ler o livro do Greil Marcus. Escrevi sobre ele ontem no Caderno 2 + Música. Segue o texto abaixo, também. A foto linda que acompanha foi um achado do Júlio Maria, ex-editor de Variedades do JT e que agora está mandando bem na edição do C2 + Música.

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O caminho de Like a Rolling Stone no pop

Livro em que o crítico norte-americano Greil Marcus disseca a música mais famosa de Bob Dylan sai no País

Raquel Cozer

Pela sexta vez naquela tarde, os músicos liderados por Bob Dylan tentaram levar Like a Rolling Stone a cabo. Tirando o cantor, ninguém fazia ideia do que viria a seguir; ele mesmo tinha lá suas dúvidas. Em 16 de junho de 1965, segundo dia de gravações no estúdio da Columbia, em Nova York, conseguiram enfim passar da segunda estrofe. Seis minutos e seis segundos depois, estava concluída a faixa que viria a abrir Highway 61 Revisited.

Quando, passadas quatro décadas, o americano Greil Marcus ouviu na íntegra as fitas daquelas duas sessões, encontrou a resposta para a dúvida que o havia levado a escrever Like a Rolling Stone: Bob Dylan na Encruzilhada: por que a música que rompeu as convenções artísticas da época ainda soa como nova. “É como um filme de suspense, como se você nunca tivesse visto antes”, avalia o autor, crítico de rock desde 1969 e o primeiro editor de resenhas da Rolling Stone, falando por telefone ao Estado. “Há essa incerteza, essa energia confusa. Ao ouvir aquilo, entendi. Os músicos não sabiam nem quantas estrofes ela tinha.”

A transcrição das sessões aparece ao fim do volume, que chega nos próximos dias às livrarias do País. As fitas foram um prêmio (e tanto) de consolação do agente de Dylan para Marcus, que tentava tirar do cantor algo sobre as circunstâncias da gravação. Tinha prometido não fazer nenhuma daquelas odiáveis perguntas, não questionaria o que a música significava nem o que Dylan pensava dela, mas não adiantara.

Mais que a biografia da canção, Marcus assina uma longa obra crítica. Há digressões sobre a sequência de acordes, o teor da letra, a originalidade da abertura. Leitores menos afeitos a detalhes técnicos verão curiosidades em especial a partir da segunda parte do livro, que detalha o momento da criação e o impacto dos primeiros resultados inclusive sobre Dylan. Há, por exemplo, o testemunho de um fã que o viu saindo do Manchester Free Trade Hall, em Londres, após o histórico show em que um grito de “Judas!” ecoou no público antes do início de Like a Rolling Stone – ao subir ao palco com banda e guitarra elétrica, Dylan “traía” o conceito de folk. “Ele parecia alguém que fora atropelado por um carro. Alguém absolutamente em choque”, diz o fã.

Marcus ainda consegue arrancar de Bob Johnston, o produtor que substituiu Tom Winston nas gravações para o Highway 61 Revisited após as sessões de Like a Rolling Stone, uma confissão de que houve a mão dele na versão final da faixa. Embora Johnston tenha exigido o nome de Winston nos créditos, ele admite ao crítico que pode ter “mixado a coisa”. A relutância em falar faz sentido – morto, Winston não tem como dar sua versão.

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De brinde, um dos momentos mais power de Like a Rolling Stone, 33 anos depois, naquela que – até onde sei – foi a única vez em que Dylan e Stones interpretaram a música juntos (corrijam-me se estiver errada), aqui mesmo em Terras Brasilis.

Thomas Pynchon, the Dude

Só eu não tinha visto o trailer do livro Vício Inerente, narrado pelo Thomas Pynchon, né? Tudo bem, não tenho pudor em ser a última a postar. Ao menos posso usar como desculpa para tocar no assunto a info de que o livro sairá ainda neste semestre pela Companhia das Letras. Mas também tenho considerações a fazer.

Achei curiosa a forma como foi feita a divulgação. A Penguin pôs o vídeo no ar em agosto sem revelar o narrador, e logo correu na rede a versão de que era o escritor – o poder da dúvida como arma de marketing. Confesso que, comparando com a voz dele no episódio dos Simpsons do qual participa, achei bem pouco parecido, tirando uma certa rouquidão lá no fundo.

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Daí, na época, blog Speakeasy, do Wall Street Journal, resolveu tirar a história a limpo e chamou um especialista para comparar as vozes dos dois vídeos e a deste clipe alemão. A conclusão: “É um estilo bem único de entonação, muito pra cima e pra baixo. Ele atinge esses pontos acentuados a cada par de palavras. Com um grau razoável de certeza profissional, acredito que essas vozes são da mesma pessoa”. Só então, “desmascarada”, a editora admitiu que o narrador era o Thomas Pynchon.

Tá certo, se a Penguin disse, está dito. Mas, depois de ouvir várias vezes cada um dos clipes, tendo mais a concordar com quem argumenta que a voz do Doc, no trailer, parece mesmo é com a do Dude..

Fabrício e a capivara

É curioso não ser uma leitora contumaz de poesia quando o que mais gosto na prosa é de terminar um parágrafo e pensar: “Peraí, isso é incrível demais, deixa ler de novo para ter certeza”. Um livro de poesia, ou melhor, um bom livro de poesia, dá essa sensação o tempo todo. É o caso de Esquimó, novo do Fabrício Corsaletti. Você termina as 80 págs. de cabo a rabo em menos de uma hora, mas depois não há como não querer reler cada uma delas – só para ter certeza.

Escrevi sobre o livro no Caderno 2 de hoje.

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A voz prosaica e pop de Corsaletti

Destaque na atual poesia brasileira, paulista de 31 anos converte cotidiano em verso no livro Esquimó

Raquel Cozer

Da janela do escritório Fabrício Corsaletti vê a Marginal e o Rio Pinheiros. Não chega a ser uma paisagem graciosa, mas serve como inspiração. O poeta se lembra de Bob Dylan e do verso “My woman got a face like a teddy bear” enquanto presta atenção nos enormes roedores marrons às margens do leito. E então anota: “o nariz da minha mulher/ lembraria o focinho/ de uma capivara/ de pelúcia.” São as primeiras linhas de Exílios, poema que integra seu mais recente livro, Esquimó (Companhia das Letras, 80 págs., R$ 31).

Foi assim, com referências prosaicas e pop, que o paulista de 31 anos se firmou como um dos maiores nomes da atual poesia brasileira. Seus novos versos falam de verruga, sovaco, rabanetes e idiotas; citam também Frida Kahlo, Eva Green, César Vallejo e a Praça Roosevelt. Mas não há nada em excesso, agressivo ou fora de contexto; pelo contrário, até o despropósito trabalha em favor da delicadeza. A mulher com focinho de capivara, por exemplo, seria assim numa ilha onde tais bichos “corressem risco de extinção” – uma vida a se cuidar.

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A íntegra do texto está aqui, e o poema de que falo no lide segue abaixo.

Exílios
por Fabrício Corsaletti

o nariz da minha mulher
lembraria o focinho
de uma capivara
de pelúcia
se vivêssemos
numa ilha
selvagem
onde as capivaras
fossem os únicos
animais e corressem
risco de extinção


desde que conheci
minha mulher
me sinto exilado
dentro de mim mesmo