No Sabático de 22/5

Os destaques da edição de hoje são os textos sobre Bolaño e 2666; a entrevista da Claudia Trevisan, na China, com o autor Yan Lianke, que teve livros banidos por lá; e o conto inédito do Sérgio Sant’Anna. Dá para achar tudo via @cultura_estadao. Posto aqui só o abre da coluna Babel, porque no site não entrou o mais interessante.

Foi o seguinte: na quarta, recebi um email do Boris Schnaiderman sobre o convite que eu tinha feito a ele para que resenhasse Eugênio Oneguin, do Pushkin. Ele pediu desculpas; não seria ético, já que está envolvido em projeto parecido. É sempre desanimador receber um não para convite de resenha, mas desconfiei de que tinha boa nota ali. Liguei pra ele e era melhor que a encomenda: o Boris faz a consultoria de outra tradução do mesmo livro. Com um detalhe. O texto, de 1833, nunca saiu no Brasil nem em Portugal. É um trabalho dificílimo, que Pushkin demorou oito anos para escrever e cuja tradução não demora menos que isso. E, quando enfim sai em português, há outra versão em andamento.

O resultado está a seguir, incluindo a parte que ficou de fora no site, os trechos das duas traduções. A ilustra é Pushkin no traço de Pushkin.

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Obra de Pushkin inédita no Brasil terá duas versões

A obra-prima russa Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin, nunca tinha sido vertida ao português. A primeira tradução sai em breve pela Record e tomou mais de uma década do embaixador Dário Moreira de Castro Alves, tão trabalhosa era a empreitada – tem 5.523 linhas o romance em versos escrito de 1823 a 1831. A curiosidade é que Alves não foi o único a se debruçar sobre a obra tanto tempo depois. Há seis anos, o tradutor Alípio Correia Neto e a professora Elena Vássina dedicam-se à tarefa sob consultoria de Boris Schnaiderman. Ainda sem editora, a dupla levará mais de um ano até terminar. “Não é problema. Em tradução, quanto mais pontos de vista melhor”, diz Neto. Confira a primeira estrofe do capítulo 1 nas duas versões.

“Meu tio, honesto e mui honrado,
Já quando a sério adoeceu,
Soube exigir ser respeitado,
De melhor nada concebeu.
Para os demais é uma lição;
Porém, meu Deus, quanta aflição
Do dia à noite alguém tratá-lo,
Sem espairecer e sem largá-lo!
Já vede, pois, perfidamente –
Um meio-vivo a distrair,
Pôr-lhe almofadas a sorrir.
Dar-lhe remédios, tristemente,
Mas lá por dentro a imaginar,
Quando Satã te vai levar?”

TRADUÇÃO DE DÁRIO MOREIRA DE CASTRO ALVES, QUE SAIRÁ PELA RECORD

Meu tio, de altíssimos preceitos,
Quando ficou doente à beça,
Logrou dos outros o respeito
Sem invenção melhor do que essa.
O exemplo sirva de lição!
Mas, ai, meu Deus! Que chateação,
Passar com o moribundo as horas
Sem nunca pôr o pé pra fora!
Que insídia, ter que estar ao pé de um
Doente, entretê-lo o tempo inteiro,
Lhe endireitar o travesseiro,
Com aflição, lhe dar remédio
E com um suspiro, se indagar,
“Quando o diabo vai-te levar?”

TRADUÇÃO DE ALÍPIO CORREIA NETO E ELENA VÁSSINA, AINDA SEM EDITORA

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Do bordel às galerias

Tenho certo receio de romances históricos, mas a vida da chinesa Pan Yuliang, que inspirou A Artista de Xangai, vale o risco, e a estreante Jennifer Cody Epstein fez um bom trabalho com o material que tinha em mãos. De pesquisa, inclusive – a descrição da sociedade chinesa nos primeiros anos do século passado dá a dimensão. O livro merecia uma edição brasileira que não forçasse a barra nas frases da orelha e da contracapa (sério, “escolha dolorosa entre a arte e o amor” é de doer), mas, enfim. Escrevi sobre ele no Caderno 2 de hoje.

A vida da prostituta que virou pintora na China

A Artista de Xangai, romance de estreia da americana Jennifer Cody Epstein, parte da história real de Pan Yuliang (1899-1977)

Raquel Cozer

A trajetória da pintora chinesa Pan Yuliang (1899-1977), do bordel para o qual foi vendida aos 14 anos pelo tio viciado em ópio às galerias em que exibiu telas pós-impressionistas, inspirou um filme (Hua Hun, de 1994, com a atriz Gong Li) e um romance em seu país de origem. Numa sociedade em que as meninas tinham os pés esmigalhados por faixas de pano para que se mantivessem “diminutos como lírios perfeitos” na vida adulta, uma jovem que reproduzia a própria nudez em quadros não poderia passar despercebida.

O mundo ocidental dedicou bem menos atenção a essa história de contornos inusitados, embora tenha sido na França que Yuliang estudou artes plásticas e passou boa parte da vida. Foi por isso que, ao deparar com uma tela da pintora numa exposição de arte moderna chinesa no Museu Guggenheim, em 1998, a então jornalista Jennifer Cody Epstein se deu conta de que tinha ali um enredo melhor que a ficção. Ou bom o suficiente para inspirar uma.

A Artista de Xangai (tradução de Flávia Carneiro Anderson, Record, 452 págs., R$ 57,90), romance de estreia da autora norte-americana, serve-se de fragmentos e lacunas de informações sobre a vida da Yuliang para contar esse passado. Não tem o compromisso de se limitar à realidade, embora inclua uma extensa pesquisa de campo, com a leitura de obras sobre outros artistas chineses daquele período, dois anos de aulas sobre a cultura da China na Universidade de Columbia e uma tentativa – malsucedida – da autora de aprender a pintar. O resultado é uma narrativa que permite imaginar como uma chinesa se sentia, em 1913, por não ter tido “determinação” para continuar quebrando os ossos dos pés após a morte da mãe. E como a adolescente que viveu três anos num prostíbulo lidou com a transição para o mundo artístico sob a reprovação da elite conservadora.

A íntegra do texto tá aqui. Lá em cima, claro, é uma pintura dela.

E, abaixo, Hua Hun, o filme em que Pan Yuliang é interpretada pela Gong Li (de 2046 e Lanternas Vermelhas).

O que eu também não contei

Nunca perguntei, mas imagino que quase todo jornalista da área cultural (que trabalhe em jornal diário, pelo menos) já deve ter passado pela situação de, na correria do fechamento, terminar um texto e sentir que faltou deixar claro o quanto o livro/filme/CD é de fato bom e por quê.

Aconteceu ontem comigo. Terminei uma ótima entrevista com a iraniana Azar Nafisi às 13h30 para entregar o texto às 14h30, e agora, lendo, acho que a matéria não dá bem a dimensão do quanto é interessante o recém-lançado O Que Eu Não Contei. Ok, sou repórter, não crítica literária, e o essencial está lá, mas, se pudesse burilar um pouco, acrescentaria alguns bons detalhes sobre o conteúdo do livro.

Acontece que agora são quase 14h de sábado e preciso mesmo almoçar, então deixo para comentar num próximo post. Por enquanto, segue o texto publicado hoje no Caderno 2, que na internet está disponível para assinantes do Estadão.

A autora na adolescência, nos anos 60, em foto do livro

‘Eu resisto como mulher e artista’

Azar Nafisi volta ao Irã e à Revolução Islâmica em O Que Eu Não Contei, rememorando agora relação com os pais

Raquel Cozer

Dara, filho caçula da escritora iraniana Azar Nafisi, ainda era pequeno quando, questionado sobre por que preferia Zorro a ídolos locais, respondeu: “Não gosto de heróis iranianos, eles machucam minha mãe. Eles têm armas e querem nos matar.” Nos primeiros anos pós-Revolução Islâmica, ele se lembrava de ter visto um jovem ameaçá-la por andar sem véu.

O garoto não tinha idade para entender, mas reproduzia uma ideia sobre a qual Azar fala no recém-lançado O Que Eu Não Contei (tradução de Mauro Pinheiro, Record, 378 págs., R$ 54,90): “O Estado tem tido uma presença tão invasiva em nossas vidas que nenhum cidadão iraniano pode pretender ignorá-lo”. Nem mesmo uma criança.

Tal onipresença já havia inspirado a iraniana a escrever o aclamado Lendo Lolita em Teerã (2003), misto de ficção e memórias com base nos tempos em que deu aulas usando textos proibidos pelo governo dos aiatolás. Ao lançar aquele livro, Azar já vivia nos EUA com o marido e os dois filhos. O que mudou desde então foi que o pai e a mãe, ambos ainda vivendo em Teerã, morreram.

Ao relembrar a vida com os dois, Azar teve dimensão de que a história de sua família era tão ligada aos acontecimentos políticos – o pai havia sido prefeito de Teerã; a mãe, membro do Parlamento – que não havia mais como ignorar a vontade de rever a trajetória de seu país no século 20 por meio do que havia vivenciado em casa.

“Quando deixei o Irã, em 1997, me senti livre para escrever sobre o país. Mas nunca tinha sentido isso em relação aos meus pais. Com a morte deles, me dei conta de que faltava algo a dizer. Precisava alcançar a paz em relação aos meus pais para chegar à paz comigo mesmo”, diz a autora por telefone ao Estado, de Washington, onde vive e leciona na Johns Hopkins University”s School .

Um trecho do livro dá a dimensão da relação conturbada de Azar com a mãe: “Depois da Revolução Islâmica, eu costumava brincar dizendo que nós tínhamos nos preparado para um período assim vivendo com minha mãe.” A comparação, a título de brincadeira, tem relação com a ideia da autora de que “uma das grandes coisas sobre a ficção é que trata de indivíduos, mas as relações destes são sempre simbólicas do que temos em sociedade“.

A literatura, em sua avaliação, também tem ligação estreita com esse universo maior: “Coisa curiosa sobre o totalitarismo é que o Estado sempre censura a literatura e a arte, pois são por natureza democráticas. Elas dão voz a todos, e o totalitarismo tira a voz.” Mas, avalia, se por um lado o primeiro passo do totalitarismo é destruir a literatura, a primeira reação da literatura é resistir. Resisto como mulher, artista e professora.

Nos EUA, Azar passou a dar palestras e se tornou uma voz forte contra o governo islâmico, o que a tornou persona non grata – não pode voltar ao país nem para visitar parentes. “O Irã será sempre meu lar. Foi onde nasci, onde estão as pessoas que amo.” é também o único país em que seus livros são proibidos – embora se orgulhe de saber que cópias em xerox das obras atravessaram a fronteira.

Azar não sabe se voltaria – caso lhe fosse permitido – a viver no país recém-anunciado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad como “Estado nuclear”. “O povo não tem o que comer. Num país como esse, em vez de prestar atenção no bem-estar das pessoas, pensar em guerra é ultrajante.” Ela lamenta ainda a postura do governo brasileiro. “Achei infeliz receberem Ahmadinejad quando até ex-membros do governo iraniano são atacados. Entendo que o Brasil valorize a conversa diplomática, mas Irã e Brasil são membros da ONU e aceitaram as convenções dos direitos humanos. Não se pode ignorar isso.”