A primeira vez (versão nacional)

Meses atrás, escrevi aqui no blog sobre a pesquisa de um autor americano, Jim C. Hines, sobre o caminho de um escritor até o primeiro livro publicado. Fiz a ressalva de que era um mercado bem específico –  Hines escreve livros de fantasia e a maior parte dos entrevistados também, e o critério que ele usou foi de primeiro livro publicado com adiantamento da editora – e me deu vontade de tentar algo do tipo por aqui. Focando em literatura e em grandes editoras, de alcance nacional, boa capacidade de distribuição e de divulgação.

Tá certo que não fui disciplinada desde os primeiros questionários que disparei por e-mail para autores, em maio, até o momento em que consegui voltar a pensar na pauta, agora no meio de julho, o que fez desta minha semana algo das mais caóticas.  Parecia simples, né, enviar e-mails, jogar tudo no Excell e fazer umas regras de três para as porcentagens. Mas daí, ao juntar todas as respostas, percebi que teria de abusar da boa vontade dos 60 que toparam participar (uns 6 ou 7 não responderam), refazer perguntas, mandar outras. Não é fácil ser Ibope.

Sim, é uma pesquisa informal (como aviso no texto, publicado no Sabático) que faria o povo das estatísticas ficar de cabelo em pé. Mas é sempre bom sair da rotina, tem lá sua graça. Com base no que os autores escreveram, dá uma dimensão: idade média de publicação do primeiro título de literatura, 34 anos; tempo entre o primeiro livro escrito, publicado ou não, até o livro publicado por uma grande editora, algo entre 5 e 6 anos (esse último dado não incluí na reportagem porque é mais complexo, já que muitos responderam só “menos de um ano” até a publicação, o que pode significar dois ou 11 meses).

A arte (do Rubens Paiva, ex-colega de Folha com quem voltei a trabalhar no Estadão), com os principais resultados, ficou incrível. O texto foi uma novela, fiquei tão preocupada em checar estatísticas (ok, “estatísticas”) que, ao reler a versão impressa que apareceu na redação e ver o que tinha escrito depois de tanto cortar e mudar, quase tive uma coisa. Consegui dizer um pouco melhor o que queria dizer ao fazer uns retoques pro on-line, que, afinal, é o que fica.

Mas as respostas, que não pude aproveitar na íntegra (pena, porque tinha muita coisa boa por ali), ainda me deram ideias para pautas futuras que podem ajudar a entender a árdua missão que é fazer literatura no País. Gracias a todos os autores que participaram, pela boa vontade.

***

O incerto caminho até a publicação

Em enquete com 60 escritores, levantamos os dilemas enfrentados por autores em busca de editoras

Clique aqui para ver a arte em tamanho maior no PDF

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Anos atrás, o editor Paulo Roberto Pires presenciou uma inflamada discussão acerca do excesso de autores estreantes que as grandes editoras andariam colocando no mercado. Ele sabia que, a qualquer momento, um dos críticos poderia apontá-lo entre os culpados pelo que seria “falta de parcimônia” editorial. Como jornalista cultural, depois um dos organizadores da primeira Flip (2003) e, por fim, editor em duas das maiores casas publicadoras do País, a Planeta e a Ediouro, ele apresentou a um público mais abrangente alguns dos principais nomes da Geração 00, como João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron e Santiago Nazarian.

Pires não considera isso negativo. “Se um escritor é bom ou ruim, o tempo é quem diz. Era preciso sacudir o mercado naquele momento em que era enorme a diferença entre o que se editava e o que se via de interessante na internet.” O fato é que atitudes como a dele ajudaram a estimular a aceitação a novos autores. “A internet alterou o perfil do lançamento de um estreante”, avalia Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco. “Está mais fácil ser autor agora do que quando quem badalava sua obra era visto com desconfiança, como se não tivesse a pátina correta de eruditismo. Hoje, ninguém vai criticar quem quer estar onde os leitores estão. As feiras literárias estão aí para provar.”

A exposição só não alterou o fato de que a publicação por uma grande editora marca, em geral, o momento em que tudo muda na trajetória de quem quer viver de literatura – ou se tornar uma pessoa jurídica, como diz Cristovão Tezza, que pôde parar de dar aulas e viver apenas em razão de seus livros desde que O Filho Eterno, publicado pela Record, abocanhou quase todos os prêmios literários de 2008. “É importante a recepção que o livro tem quando vem de uma grande. As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo”, diz Antonio Prata, que ingressou nesse olimpo literário em 2003, com As Pernas da Tia Corália, publicado pela Objetiva.

O Sabático resolveu saber dos próprios autores qual o impacto de uma grande editora em sua carreira, como foi o caminho até ela e como se sentem a respeito numa época em que, cada vez mais, surgem boas casas de pequeno ou médio porte no País – como a 34, a Iluminuras e a Ateliê Editorial, só para ficar em três exemplos. Numa espécie de pesquisa informal, enviamos pequenos questionários a quase 70 escritores de todas as idades, dos quais 60 aceitaram participar. As questões foram feitas em cima do primeiro título de literatura lançado com distribuição nacional e grande alcance de divulgação. E que, na maior parte dos casos, não foi o primeiro que tiveram editado – Lya Luft, por exemplo, escreveu o primeiro livro 13 anos antes de chegar à Record, onde virou best-seller com As Parceiras, em 1980; Ana Miranda escreveu dois de poesias por editoras pequenas e ficou 10 anos retrabalhando o mesmo romance até enviar os originais de Boca do Inferno para a Companhia das Letras – foram mais de 200 mil exemplares desde 1989.

É claro, o caminho é bem mais rápido para quem não se dedica a outros trabalhos antes, como Lya, ou não se debruça tanto tempo sobre a mesma obra, como Ana. As duas, que estrearam em grande editora com 40 e 37 anos, respectivamente, estão acima da média de idade que os participantes da enquete tinham quando chegaram lá, 34 anos. Quase um quarto dos escritores (23%) conseguiu fechar um contrato no mesmo ano em que terminou de escrever o primeiro livro – apostas em iniciantes, como no caso dos autores editados por Paulo Pires, ajudam a engrossar esse número; prêmios literários e publicações anteriores de contos em periódicos e antologias também.

Mas um número parecido (20%) esperou mais de uma década desde as primeiras tentativas literárias até receber um convite de uma grande editora. Caso de gente como Affonso Romano de Sant’Anna (que esperou 22 anos até, aos 38, ter Poesia sobre Poesia publicado pela Imago), Cristovão Tezza (17 anos tendo obras recusadas até Traposair pela Brasiliense) e Marcelo Mirisola (15 anos escrevendo livros até ser convidado pela Record a lançar Joana a Contragosto).

Mas Mirisola, assim como Marcelino Freire e outros escritores, já era conhecido quando teve o romance editado pela maior editora do País. O reconhecimento chegou com Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, que a Estação Editorial, uma editora de médio porte, publicou em 1998. “No meu caso, não mudou nada”, diz o paulistano sobre o título que saiu pela Record. Tanto que, depois disso, voltou para uma editora média, a 34, e em breve terá um infantil (a quatro mãos com Furio Lonza) pela Barcarolla.

Indicações. Só quatro dos 60 autores (Mirisola, Ana Miranda, João Almino e Tiago Melo Andrade) disseram que recomendações feitas por outros escritores ou pessoas próximas não facilitam o caminho para um iniciante. Tirando um ou outro que preferiu não emitir opinião a respeito, a grande maioria respondeu ao Sabático que a indicação abre portas, sim – mas todos ressalvaram que apenas permite aos manuscritos uma mãozinha para chegar logo ao topo da pilha de originais. Vinte e um dos autores disseram que escreveram a convite – está certo que boa parte deles já era algo conhecida por textos em antologias, periódicos ou editoras pequenas. Outros 38 afirmaram que enviaram originais; desses, 24 conheciam o editor ou tiveram a tal recomendação; os 14 restantes afirmaram só ter oferecido os originais nas editoras. E uma única, dentre os 60, recorreu a um agente – Ana Maria Machado, publicada pela Francisco Alves, uma das grandes em 1983. “Nos EUA, é mais comum iniciantes contratarem agentes. Por aqui é raro o autor se arriscar a pagar um agente sem a certeza da publicação; isso só costuma acontecer quando eles já estão com carreira mais estabelecida”, diz a editora Izabel Aleixo.

Por curiosidade, metade dos 38 autores que foram bem-sucedidos após enviar originais preferiram fazê-lo para uma só editora – uma espécie de ética que as casas publicadoras não exigem e que pode acabar sendo um problema para quem aspira ser editado. Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record, por exemplo, diz que não vê mais originais em papel não solicitados. “Não há como. Se vem um e-mail, a gente até se situa. Se achar que a carta está bem feita e que existe um mínimo de potencial, vai para leitura. Recebo uns 25 emails por mês, sem falar nos que recebem todos os outros editores, e uma quantidade absurda de papel que não serve para nada.”

Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco, diz que passam de 150 os originais que chegam por mês à editora. A Rocco não veta os que chegam em papel, mas exige que todos venham gravados em CD – se o autor quiser mandar a impressão em anexo, fica por conta dele. “E, vou te dizer uma coisa, 98% dos livros. logo nas primeiras páginas, senão na carta de apresentação, você vê que não é um livro de verdade. Não falo nem de regras gramaticais, e sim de um mínimo de estilo, de consciência literária”, diz Izabel Aleixo, ex-diretora editorial da Nova Fronteira, que acaba de assumir cargo na Paz e Terra. Isso faz com que bons livros se percam na montanha de aspirações literárias. E é aí que entra a recomendação. Não porque vá privilegiar alguém, mas porque permite a triagem.

Mas nem todos são adeptos da fidelidade. Elvira Vigna, ao terminar O Assassinato de Bebê Martê, abriu um catálogo do Snel (sindicato dos editores) e mandou uma cópia do romance a cada editora cujos nome reconheceu. Em menos de um mês, recebeu a resposta de uma das melhores do País, a Companhia das Letras. Nelson de Oliveira também mandou seus contos de estreia para cerca de 20 editoras, mas precisou esperar oito anos, ganhar um prêmio, o Casa de Las Americas, e ser recomendado por um dos jurados, Rubem Fonseca, para publicar pela mesma casa Naquela Época Tínhamos um Gato>. Hoje, voltou a publicar por pequenas editoras: “Não há mais muita diferença. Em geral, as pequenas se profissionalizaram.” Ignácio de Loyola Brandão, que mandou cópias de seu Depois do Sol para 13 editoras, recebeu cartas padrões de quase todas e uma que não esqueceu, da Civilização Brasileira: “O autor escreve como quem mija.” “Achei até que era elogio, mijar é um ato natural”, conta. Acabou sendo publicado logo pela Brasiliense – e o editor Caio Graco, lembra Ignácio, aceitou a obra sem nem fazer reparos de edição.

Autores falam sobre o primeiro livro

“Já na Ateliê (de médio porte), com o Angu de Sangue, em 2000, minha vida literária mudou. Fui bastante resenhado, divulgado. Não sou desses que ficam com a bunda na cadeira, reclamando de editor”

Marcelino Freire

“As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo. Se fica mais fácil? Creio que sim. Mas não acho que no Brasil publicar seja problema. Isso é fácil. Difícil é vender”

Antonio Prata

“Aprendi que as pessoas não querem palpite nem sugestões, querem endosso e apadrinhamento. Qualquer restrição ou dica, por mínima que seja, é vista como ofensa e se ganha um desafeto”

Ana Maria Machado

“A passagem da Revan (de pequeno porte) para a Nova Fronteira não significou nada. Meu desempenho de público até piorou. Tanto que a Nova Fronteira não quis um segundo livro meu”

Alberto Mussa

“Aquele era o meu livro, era o livro possível, e se o editor fosse mais invasivo a obra não seria tão autêntica. Prefiro caminhar com as minhas próprias pernas e aprender com os meus próprios erros”

Adriana Lisboa

“A gente também passa a fazer outros trabalhos: textos de prosa e ficção para jornais, orelhas de livros, palestras. Para isso, é imprescindível ser publicado por uma grande editora, é evidente”

Cintia Moscovich

“Editoras grandes ajudam sobretudo em distribuição e divulgação, mas é precipitado dizer que necessariamente trazem mais público. Nada impede que isso seja alcançado em publicação independente”

Daniel Galera

“Quem leu (o primeiro livro que escrevi) achou péssimo e tive de concordar antes de enviar a qualquer editora. Mas todo livro é o primeiro. Já tive livros recusados depois de publicar o primeiro”

Bernardo Carvalho

“(A indicação) facilita o acesso à editora, mas não garante a publicação. É lenda achar que, por conhecer o autor ou ser amigo de alguém de seu círculo, o editor vai publicar o livro”

Cristovão Tezza

Anúncios

A coluna de 24/7

[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

INFANTIL
Saem 100ª edição do Maluquinho e novo Ziraldo, com realidade aumentada


A Melhoramentos decidiu fazer tiragem especial “bem pequena” da 100.ª edição de O Menino Maluquinho, a ser lançada na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, quando a companhia celebra 120 anos de história. Serão 2 mil cópias para Ziraldo e a editora distribuírem a pessoas próximas. Neste caso, o livro terá capa redesenhada pelo autor e, nas orelhas, depoimentos de gente como Martinho da Vila e Ferreira Gullar. Já a tiragem para o público terá 10 mil exemplares – a obra, que completa 30 anos, já vendeu 2,8 milhões de cópias. Ziraldo também lança O Menino da Terra, primeiro infantil nacional com jogo de realidade aumentada, no qual a criança usa o livro como joystick na frente da webcam.

LIVRARIAS
Distribuição desigual

O número de livrarias no Brasil cresceu 11% em três anos, totalizando 2.980, mas o aumento veio acompanhado de distribuição mais desigual das lojas pelo País, segundo a Associação Nacional de Livrarias. O Sudeste, que tinha 53% das livrarias nacionais em 2006, passou a 56% – a população da região corresponde a 42,5% da nacional. Já no Nordeste, com 28% da população brasileira, a proporção de livrarias caiu de 20% para 12%.

*

O levantamento refere-se a 2009 e integra o Diagnóstico do Setor Livreiro, que a ANL divulgará nesta terça-feira, em São Paulo, e discutirá a partir do dia 9 na 20.ª Convenção Nacional de Livrarias.

LITERATURA CUBANA
O nada e o todo

Quinze anos depois de lançar O Nada Cotidiano, sobre sua vida em Cuba, a exilada Zoé Valdés publica em setembro na Europa a sequência da obra, O Todo Cotidiano, no qual fala da vida da França. Aqui, o primeiro livro saiu em 1998 pela Record. No começo do ano que vem, a Benvirá será a primeira editora a juntar os dois títulos num só volume.

CONTOS
Teatro de sombras


A L&PM comprou e mandou fotografar marionetes de teatro de sombra chinês (foto) para ilustrar o infantil Contos Sobrenaturais Chineses, de Sergio Capparelli e Márcia Schmatz. O livro deve sair no fim de setembro.

GUERRA
Depois da televisão

A Bertrand Brasil comprou os direitos do livro The Pacific, de Hugh Ambrose, que originou a série da HBO sobre fuzileiros navais na 2.ª Guerra. Produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg, a minissérie teve 24 indicações para o Emmy, que será entregue em 29/8. O problema agora é correr com a tradução das mais de 500 páginas. Com sorte, sairá no primeiro trimestre de 2011. O último episódio foi exibido no Brasil em junho.

DIGITAL
Cabo de guerra

A Random House, maior editora do mundo, anunciou que não fará novos acordos com o mega-agente literário Andrew Wylie. Foi a resposta ao anúncio de Wylie de que negociará direitos digitais de autores direto com as lojas. Wylie criou para isso a Odyssey Editions, que dará dois anos de exclusividade à Amazon, vendendo a US$ 9,99 títulos como os quatro Coelho, de John Updike, cujos direitos de edição impressa são da Random.

MÚSICA
Lou Reed em liquidação

A Livraria da Vila encomendou cem exemplares de Pass Thru Fire – The Collected Lyrics, de Lou Reed, no embalo da Flip. Como o músico não vem mais, a baixa foi imediata: de R$ 49, o livro importado sairá por R$ 39. A Companhia das Letras vende o título traduzido, Atravessar o Fogo, por R$ 51,50.

O prenúncio de uma muvuca

Tááá, vocês pessoas que entraram aqui desde sexta buscando por Crumb e Livraria da Vila. Ou você, pessoa isolada que fez isso com várias variáveis na formulação da busca no Google para ter certeza. Se tudo correr como combinado, será no dia 10, ao lado de Gilbert Shelton, na loja da Fradique. Evento organizado pela Conrad, que fará durante a Flip um minilançamento de Meus Problemas com as Mulheres, do Crumb. No dia 10, já deve ser mais fácil comprar o livro recém-editado (parece que para a Flip eles só conseguirão levar uma tiragem pequena). O horário ainda não está definido – início da noite, I guess -, nem o formato do evento. Não, Crumb não gosta de dar autógrafos. Não, a Livraria da Vila não comporta o número de pessoas que pretende estar lá.  Sim, seria a cara do Crumb trocar a muvuca por uma caça a discos antigos de samba e choro, e quem iria culpá-lo se optasse pela troca?

[update em 27/7]
O encontro será das 19h30 às 21h, com mediação de Caco Galhardo.

Texto, ilustração e raciocínio (ou só viagem)

Duas das entrevistas que mais gostei de fazer nos últimos anos foram com cartunistas, o Crumb (que, pena, nunca entrou no ar na íntegra) e o Spiegelman. Tudo bem, uma das que mais me frustraram também foi, com o Quino, mas preferia que isso não atrapalhasse a teoria sobre a qual falo no outro parágrafo. É que os três têm fama de não gostar de falar com jornalistas, mas Crumb e Spiegelman ao menos disfarçam muito bem, mesmo tendo provavelmente ouvido antes centenas de vezes várias das perguntas que lhes são dirigidas. Tá, a gente sempre tenta perguntar algo que saia do lugar comum, mas é difícil acreditar na possibilidade de questões inéditas para quem passou a vida respondendo a elas.

Gilbert Shelton corroborou minha teoria (três contra um; já posso usar os números a meu favor?) de que cartunistas tendem a ser bons de oratória, por mais que se digam tímidos ou avessos a qualquer tipo de notoriedade. De alguma maneira, vejo uma conexão entre a capacidade que eles têm de contar uma história simultaneamente em texto e imagem e a inteligência de elaborar raciocínios de forma… visual, digamos assim. Indo direto ao ponto, mas com frases que acrescentam algo de concreto a quem quer entender melhor criador e, por extensão, criatura. Nem que seja só para se livrarem logo daquele incômodo inquisitório, a versão contemporânea das torturas medievais.

Sei lá. Pode ser mesmo viagem minha. Também não consigo explicar direito, o que percebi ao tentar escrever aqui. Xá pra lá. Qualquer dia publico a íntegra da conversa com o Shelton por aqui, o que será mais autoexplicativo. Por enquanto, segue o texto que saiu hoje no Sabático.

***

Gilbert Shelton, o verdadeiro Freak Brother

Um dos precursores dos cartuns underground da década de 60 divide mesa com Robert Crumb na Flip

RAQUEL COZER

Quase meio século como cartunista rendeu a Gilbert Shelton um lugar entre os pioneiros das HQs underground e também caixas e caixas de material inédito. Elas o acompanham desde Nova York, onde, em 1962, publicou os primeiros desenhos como profissional, e ganharam volume em Paris, cidade em que se instalou há 25 anos com a mulher, a agente literária Lora Fountain.

Nos últimos tempos, Shelton andou revendo o conteúdo. Imagina ter material suficiente para um livro autobiográfico, que intercale histórias curiosas e ilustrações – uma espécie de caderno de recortes, como define -, mas ainda não falou sobre a ideia com os editores. “Acho que pode ser interessante”, avalia, antes de uma breve pausa. “Mas não sei. Talvez as pessoas achem entediante.”

Difícil acreditar na segunda hipótese. Trata-se, afinal, do pai de Fat Freddy, Phineas e Freewheelin’ Franklin, trio de maconheiros que resumiu, nas histórias de Fabulous Furry Freak Brothers, a psicodelia e o desbunde reinantes entre a juventude mais avançadinha dos anos 60 e 70. Acontece que Shelton sempre fez questão de negar a crença pública de que seus personagens mais conhecidos refletissem seu estilo de vida. Nada que o cartunista tenha contra a maconha, mas ele costuma argumentar que, se a consumisse na mesma quantidade dos personagens, não estaria em condições de contar a história. E, bem, ele chegou em maio último aos 70 anos e continua na ativa, ainda que num ritmo de trabalho bem menor que nos áureos tempos.

No próximo dia 3, o artista desembarca no Brasil com a mulher e o casal Aline e Robert Crumb para um temporada de seis dias em Paraty. Ao lado do amigo e criador dos célebres Fritz the Cat e Mr. Natural, participará daquela que é uma das mesas mais concorridas da oitava edição da Flip, no dia 6. “Vi na televisão um documentário sobre Paraty, então agora sei como é a cidade, uma coisa colonial”, diz Shelton em conversa por telefone com o Sabático, a fala tão pausada que por vezes dá a impressão de ter concluído o raciocínio quando, na verdade, está apenas pensando na melhor palavra a usar em seguida. “A arquitetura antiga me lembrou muito as construções espanholas do México.”

Ao contrário de Crumb, que vive entocado com a mulher numa vila no sul da França, Shelton gosta de viajar. Nasceu no Texas, passou a juventude em Nova York, morou por em Barcelona de 1980 a 1981 e voltou para a Califórnia antes de se mudar de vez para Paris. Não porque rejeitasse a violência dos Estados Unidos e o conservadorismo da sociedade americana, como Crumb, mas por questões profissionais. “Achei que viajaria mais, mas começamos a nos envolver em muitos projetos em Paris. Especialmente Lora”, diz, sobre a mulher, que abriu por lá uma agência literária e hoje tem entre seus clientes a família Crumb – a filha do casal de cartunistas, Sophie Crumb, também enveredou para os quadrinhos e terá um livro publicado em novembro.

Ironia. Shelton e Crumb se conheceram em 1969, em Nova York, quando ambos já tinham criado alguns de seus personagens mais famosos. O primeiro de Shelton, Wonder Wart-Hog, paródia do Super-Homem, apareceu numa publicação juvenil em 1962, mas só seis anos depois os Freak Brothers o colocariam entre os grandes do gênero. Naquele mesmo ano, em 1968, Crumb, já conhecido por Friz the Cat, reuniria artistas da contracultura no primeiro número da revista Zap Comix. Por ter alcançado a fama depois do amigo, apesar de ser três anos mais velho, o texano diz se sentir um “protégé” de Robert Crumb. “Ainda me impressiono com o estilo dele. É difícil dizer. Nós dois temos as mesmas influências, mas ele é diferente porque… Ele desenha tanto. É muito melhor que eu. É como estudar um idioma ou uma música. Quanto mais você pratica, melhor você é.”

E Shelton não gosta muito de praticar. Em 1974, já com bom status como criador de tiras e livros de quadrinhos, resolveu que precisava de ajuda e convidou o artista e escritor Dave Sheridan para trabalhar com ele nos livros que saíam por sua própria editora de fundo de garagem, a Rip Off Press. Desde então, contou com parceiros como Paul Mavrides e Gerhard Seyfried, com quem passou a intercalar criação de roteiros e ilustrações.

Por quê? Porque ilustrar, explica o pai dos Freak Brothers, não é algo que goste tanto de fazer. “Não sou prolífico, em especial na comparação com o Crumb, que é um desenhista compulsivo. Eu trabalho em projetos específicos. Tenho mais interesse em contar boas histórias, piadas. Desenhar não é meu ponto forte.” Com as parcerias, sentiu o trabalho fluir mais rápido, o que lhe deu liberdade para focar mais nos roteiros. A avaliação dele é a de que a história importa mais que a ilustração numa tira. “Se você tiver uma boa história e um desenho ruim, a tira será boa. Mas, se a história não for boa, não haverá arte que a segure.”

Seja como for, Shelton sabe dizer muito com pouco. Enquanto os quadrinhos underground eram combatidos pelos defensores da ordem e dos bons costumes, o artista resumiu em um cartum todo o preconceito com o qual seu trabalho era visto. Numa imagem de página inteira, os três Freak Brothers apareciam numa cama com uma mulher nua, cercados de drogas, bebidas, armas e pôsteres com dizeres na linha “Fuja do alistamento” e “Trepe pela paz”. Deitada, a mulher dizia: “Uau! Isso foi muito louco! Vamos ler mais umas revistas e começar de novo!!” – uma ironia escrachada contra a ideia de que HQs desvirtuavam os jovens. “Qualquer assunto pode ser bom, o difícil é tirar uma boa história dele. O tema central é menos importante que os detalhes de uma história. Em geral, a grande sacada está escondida sob a superfície da trama. Em HQ, é preciso fazer mais ou menos o que faz um dramaturgo numa peça, colocar os leitores ou o público dentro da história, suspender a descrença deles no que está sendo mostrado e fazê-los entrar no espírito da coisa.”

A autobiografia que boa parte de seus contemporâneos explorou nos quadrinhos ele diz ver nas suas histórias só naquele ponto em que “toda ficção inclui algo de autobiográfico”. No caso dos Freak Brothers, afirma: “Se houver alguma semelhança comigo, está muito bem escondida.” No fundo, ele se identifica mais é com o quarto personagem da história, o gato de Fat Freddy. O bichano, que apareceu numa tira do trio em 1969, ganhou pouco tempo depois vida e tiras próprias, o Fat Freddy’s Cat. “Talvez eu seja um pouco como os três, mas, vá lá, pareço mais com o gato, que é o mais inteligente deles.”

Rock’n’roll. Embora ainda faça de tempos em tempos histórias dos Freak Brothers e do Fat Freddy’s Cat, o cartunista tem se dedicado mais, nos últimos anos, às aventuras do Not Quite Dead, sobre a banda de rock de menos sucesso no mundo. A série foi criada em 1992 e o livro mais recente de um total de quatro, Last Gig in Shnagrlig, saiu na França em 2009. Ainda não há nenhuma previsão de que seja editada no Brasil. “Preciso falar com meu editor brasileiro”, diz Shelton, ao ser informado do fato. “Vou avisar à minha agente, que é minha mulher. Ela ficou muito ocupada com o Gênesis do Crumb e me esqueceu“, graceja. A Conrad, que entre 2004 e 2005 publicou dois volumes do Fabulous Furry Freak Brothers, com tradução de Alexandre Matias, afirma que as edições atuais ainda não se esgotaram e que espera vender os exemplares ainda em estoque durante a Flip.

Outro projeto no qual ele se vê envolvido desde 2003 empacou. Naquele ano, a produtora inglesa Bolexbrothers entrou em contato para transformar uma das histórias dos Freak Brothers numa animação em stop-motion, com bonecos de massinha. O filme leva o nome de uma das aventuras criadas por Shelton para os personagens, Grass Roots, e foi roteirizado por Paul Davis. Na trama, Fat Freddy, Phineas e Freewheelin’ se veem envolvidos com colheitas de maconha geneticamente modificadas, plantadas pelo governo. Um piloto do longa pode ser visto no site http://www.grassrootsthemovie.com, mas é tudo o que existe de material filmado. “Eles não conseguem dinheiro”, explica o cartunista, que participou apenas como consultor. Uma das estratégias para reunir os US$ 10 milhões que viabilizariam a obra é o que a produtora chama de “fundo de frame”. O site explica: “Se você quer que seu nome apareça no filme, compre um frame. Doze frames farão seu nome aparecer por meio segundo, o que deve ser visível a olho nu.

O homem foge

.
Mais velho e menos famoso por aqui que David Grossman e Amós Oz – os conterrâneos com quem divide o título de maior nome da literatura contemporânea israelense e com os quais aparece na foto acima – , Abraham “Bulli” Yehoshua, a.k.a. ierroxúa para nós que não falamos hebraico, quase não chamou atenção ao ser confirmado para a Flip deste ano.
.
Mas tenho cá para mim que a mesa dele com a iraniana Azar Nafisi será das melhores desta edição. Porque ele tem opiniões fortes e irredutíveis, como na defesa que faz do sionismo, e ao mesmo tempo é um velhinho simpático e de oratória deliciosa. E ela, por sua vez, está entre as autoras mais interessantes que já entrevistei (para texto publicado no início do ano no Caderno 2). Conversei com o Yehoshua na semana passada para o texto abaixo, que saiu no último final de semana e eu não tinha conseguido parar para postar aqui até agora.
.
(By the way, o título do post é uma referência ao A Mulher Foge, do David Grossman, pela semelhança na atitude de personagens centrais desse livro e de Fogo Amigo, do Yehoshua, que está saindo por aqui)
.
***
.
[Publicado no Sabático de 18/7]
.
Lamentos de uma crise milenar
RAQUEL COZER
.
“Posso dizer que estou cansado disso, mas não tenho como escapar”, diz ao telefone o escritor israelense A.B.  Yehoshua quando questionado se, assim como Yirmiyáhu, personagem de seu romance Fogo Amigo, alguma vez pensou em fugir do peso da realidade de seu povo.  No que diz respeito à história de vida do autor, a interrogação é algo provocativa.  Sionista convicto, integrante da quinta geração de uma família de judeus sefarditas radicada em Jerusalém desde muito antes da criação do Estado de Israel, Yehoshua feriu os brios da comunidade judaica internacional ao afirmar, alguns anos atrás, que a completude da vivência em sua religião é possível apenas na Terra Prometida.  Em outros territórios, a possibilidade seria somente a de “brincar de judaísmo”.
.
Mas, ao discorrer sobre o personagem que na trama de Fogo Amigo se esconde na África para esquecer o próprio passado, o escritor deixa claro que a motivação para uma fuga seria compreensível hoje mesmo para alguém que, como ele, incentiva a migração de judeus para Israel. “As emoções de Yirmiyáhu são colocadas de forma intensa, mas, a exemplo dele, estamos todos fatigados. É algo que sinto em mim e à minha volta; as pessoas estão exaustas da identidade judaica.  Estamos há milhares de anos em conflitos.  Vemos todas as guerras começarem e acabarem, menos a que se desenrola ao nosso redor”, diz o ficcionista e ensaísta ao Sabático de Haifa, onde vive com a mulher, a psicanalista Rivka, e leciona literatura.
.
Aos 73 anos, Yehoshua não passa nada da austeridade que suas fortes opiniões sobre o sionismo poderiam fazer pensar.  Pede para ser chamado pelo prenome, Abraham, ao ser questionado sobre a pronúncia correta do nome com que assina (“ierroxúa”). “É um nome respeitável, que está na origem hebraica do nome de Jesus, mas difícil de pronunciar”, concede.  Um dos maiores e mais premiados ficcionistas israelenses da atualidade, ele agora se prepara para uma segunda temporada no Brasil – esteve há muitos anos no Rio e retornará ao País no mês que vem devido ao convite para participar da 8ª Festa Literária Internacional de Paraty.
.
Diz ter enorme curiosidade sobre a cidade histórica fluminense, alimentada pelas “maravilhas” ouvidas de dois amigos que participaram de edições anteriores, os escritores Amós Oz e David Grossman. E ri com gosto ao ouvir a sugestão de tirar férias por tempo indefinido nesse lugar que os conterrâneos definiram como “paraíso” – ele se dará o direito de apenas uma esticada com a mulher até cidades litorâneas da Bahia. “Tenho meus filhos, meus netos e minhas responsabilidades em Israel. Mesmo que fugisse, não haveria a possibilidade de a minha mente escapar.  As pessoas me procuram o tempo todo, e, como escritor, eu me sinto na obrigação de criticar, de gritar, de explicar para o mundo o que acontece por aqui”, argumenta.  Propícia, portanto, a mesa da qual participará na festa literária com a iraniana Azar Nafisi (de Lendo Lolita em Teerã), que terá entre seus temas centrais a literatura como caminho possível para culturas em conflito.
.
..
Engano. Fogo Amigo, o romance que sai agora pela Companhia das Letras, é o quinto do autor de A Mulher de Jerusalém (2008) a ser publicado no Brasil. Ao título segue o subtítulo Um Dueto, que Yehoshua define como a base de toda a história.  O duo seria uma espécie de diálogo inconsciente que se constrói ao longo das quase 400 páginas entre os personagens centrais, o engenheiro Amotz Yaári e sua mulher, Daniela, durante o feriado judaico de Hanucá.  Na semana de descanso, Yaári permanece em sua casa, em Tel-Aviv, enquanto Daniela parte para uma viagem de cinco dias à Tanzânia, na África, onde o cunhado (o Yirmiyáhu do parágrafo inicial) mora desde a morte do filho único, Eyáli. É essa morte a origem do “fogo amigo” que nomeia o romance.  Eyáli, assim como cerca de 15% dos soldados  israelenses convocados para a guerra (é a estatística oficial, informa Yehoshua), foi atingido por um colega do Exército.  Em outras palavras, morreu por engano.
.
“Escrevendo o romance, fiquei impressionado ao saber como é comum a morte por fogo amigo.  No último conflito em Gaza, houve até mais do que isso.  De seis ou sete soldados israelenses mortos, metade morreu por disparos do próprio Exército.  Quando um jovem é atingido, todos sofrem, mas, se quem deu o disparo está do seu lado na guerra, a dor é redobrada.  Para os parentes, a morte perde qualquer sentido de heroísmo que pudesse consolá-los.”
.
Paralelos. Ao construir duas histórias paralelas em pequenos capítulos que intercalam as vivências simultâneas de Yaári e de Daniela, Yehoshua quis deixar na mão do leitor a possibilidade de criar conexões, formulando o que ele define como um terceiro caminho possível dentro do espaço literário do romance.  Conhecido pela linguagem alegórica à qual recorre em seus textos, o vencedor de honrarias como o Brenner Prize (1983) e o National Jewish Book Award (1992) afirma ter elaborado até inconscientemente algumas das ligações entre as duas pontas desta narrativa.
.
Um exemplo dessas conexões aparece logo nos primeiros capítulos.  Em Tel-Aviv, o engenheiro Yaári se vê às voltas com as reclamações de moradores de um moderno edifício cujo poço dos elevadores foi projetado por ele.  Por uma razão que desconhece, ventos que entram pelo poço soam para os usuários como assustadores lamentos, uma “fúria contida, que em certos andares muda de tom e transforma-se num pranto tristonho”.  Yaári envia uma especialista ao local, e esta diagnostica com facilidade a origem dos uivos, que estaria em rachaduras no poço.  Ao mesmo tempo, na Tanzânia, Daniela descobre o passado sangrento da sudanesa Sijin Kuang, que teve toda a família assassinada e acredita em espíritos.
.
.

.
Aqui, um parêntese ajuda a entender a conexão: Yehoshua explica que a inspiração para o poço que grita saiu de uma experiência de seu passado recente, ao comprar um apartamento em Tel-Aviv. “Os elevadores faziam esse som triste.  Sabia que era uma questão estrutural, mas, ouvindo aquilo, me ocorria que os uivos eram resquícios das mortes de civis durante a Segunda Intifada (revolta de palestinos contra a política de ocupação israelense, que resultou em 5 mil mortes de 2000 a 2006)”, conta.  Em Fogo Amigo, argumenta, Yaári nunca fala em espíritos, mas sente-se compelido a resolver a questão mesmo depois que a especialista deixa claro que a responsabilidade não é dele, e sim dos  executores da obra.
.
Mas é em Yirmiyáhu, justo o homem que deixa para trás tudo o que Yehoshua não deixaria, que as ideias de autor e personagem parecem mais se aproximar. A princípio reservado e avesso a todas as lembranças de sua terra natal, o cunhado de Daniela exterioriza os fantasmas que o assombram quando a vê carregando uma Bíblia – única leitura encontrada por ela no lugar que o marido de sua falecida irmã escolheu para viver. “Traduza uma página qualquer”, diz Yírmi sobre o livro de Jeremias, “um trecho qualquer, ao acaso, e a violência fica visível num instante.  Uma profecia de destruição, com muito prazer.  Tragédia e morte e canibalismo.” O Deus judaico, descreve o personagem, não age por justiça, mas por ciúme e poder.
.
Trata-se de um ódio ancestral que, para A.B.  Yehoshua, nenhum israelita ou palestino poderá resolver. “Acredito que a paz está nas mãos das comunidades internacionais”, afirma o escritor. “Todos sabem a solução: a paz terá de ser imposta.  Estamos como crianças, batendo pés. É preciso que os pais digam: ‘Basta, vocês não terão dinheiro nem apoio se não fizerem da maneira que diremos que tem de ser feito’.”

A coluna Babel da semana (passada)

.
[Publicado no Sabático de 17/7]
.
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

Jovem editora carioca aposta no Leste Europeu
A jovem editora Tinta Negra – lançada neste ano e cujo catálogo conta com apenas oito títulos, sete deles nacionais – faz uma aposta agora em obras doLeste Europeu premiadas e elogiadas em vários países, mas cujos autores são pouco ou nada conhecidos por aqui.  O investimento engloba textos clássicos e contemporâneos, de ficção e não-ficção e HQs.  Entre os previstos para sair em 2010 está Máfia, reportagem sobre os bastidores do crime organizado italiano realizada pela alemã Petra Reski.  Ainda sem título em português, Bieguni (Runners) apresentará ao público brasileiro a polonesa Olga Tokarczuk, três vezes vencedora em seu país do Prêmio Nike de Literatura. Nos quadrinhos, a aposta é no designer e escritor alemão Flix, autor da premiada graphic novel de reportagem Da War Mal Was (o título provisório em português é Quando Tinha um Muro…  Lembranças Daqui e de Lá).  O autor, de 34 anos, virá ao País neste ano a convite do Goethe-Institut, para uma série de eventos, mas o livro sai por aqui só no começo do ano que vem.
.
INTERNET
Aulas com Faulkner
De 1957 a 1958, já detentor do Nobel de Literatura (1949), William Faulkner foi escritor-residente da Universidade de Virgínia, nos EUA.  Pouquíssimos alunos tiveram chance de assistir às suas palestras e leituras. Recém-digitalizadas, as sessões agora podem ser ouvidas em faulkner.lib.virginia.edu.
*
O site inclui textos e cartoons (acima) de publicações locais no período, além de fotos e cartas.  Numa delas, o criador de O Som e a Fúria responde ao convite para falar aos alunos: “Meu primeiro pensamento foi que eu era só um escritor-residente, não um palestrante-residente, (…) mas talvez seja meu dever (…) tentar dizer algo válido.”
.
CINEMA 1
Filho multimídia
Um mês após o anúncio de sua adaptação teatral, O Filho Eterno, romance nacional mais premiado de 2008, teve os direitos comprados para o cinema.  A obra de Cristovão Tezza será adaptada pela RT Features.
.
CINEMA 2
Vida eterna
Para quem acredita que a onda de livros de vampiros vai amainar, indícios recentes provam o contrário: a Terra dos Vampiros, lançado pela Planeta, será adaptada para as telas por John Carpenter, diretor de filmes de terror
cult como Halloween (1978).  O papel principal será de Hilary Swank.
*
E outro que ainda nem saiu por aqui, A Passagem, de Justin Cronin, teve os direitos comprados pela Fox, que deixou o roteiro aos cuidados de John Logan (Oscar por O Gladiador).  O título abre uma trilogia que a Sextante põe nas
livrarias a partir de agosto.
.
JUVENIL
Ao redor do mundo
Adriana Lisboa assinará os textos de A Volta ao Mundo em 190 Histórias, coletânea da Rocco organizada por Celina Portocarrero.  A série, para o público juvenil, recuperará lendas de todo o mundo.  O primeiro título, previsto para janeiro, será dedicado à África.  Depois, virão Europa, Ásia e Américas.
*
A autora acaba de entregar à editora os originais de Azul-Corvo, romance adulto que parte de pesquisa sobre a Guerrilha do Araguaia para narrar a trajetória de um ex-combatente que se torna imigrante nos EUA.
.
REVISTA
Número cinco
A quinta edição da quadrimestral serrote, que sairia neste mês, ficou para agosto, por conta da Flip.  Destaca-se a série de ilustrações da israelense Maira Kalman, autora de livros infantis e capista da New Yorker.  Os desenhos foram feitos para edição especial do clássico manual The Elements of Style, à exceção de um serrote desenhado especialmente para a publicação do Instituto Moreira Salles.
.
QUADRINHOS
Filosofia pop
A Desiderata garantiu os direitos da graphic novel Nietzsche – Se Créer Liberté.  Com texto de Michel Onfray e arte de Maximilien Le Roy, a biografia vem sendo considerada na Europa a melhor HQ do ano.

Adivinhe quem vem para jantar

Pensei em milhares de coisas (ok, talvez dezenas. Ou talvez só unidades) para fazer na minha segunda-feira de folga e, meio que por comodidade, resolvi apenas ler. O dia inteiro, sem pressa, sem ter de ser no metrô ou antes de dormir, e nada sobre o que fosse escrever depois no jornal. Não consegui cumprir esta última meta; acabei passando boa parte da tarde mergulhada num autor que entrevistarei em breve. Ao menos não precisei correr mais do que gostaria com a leitura, o que incluí na minha cota de consolo, junto com o fato de fazê-lo numa mesa de calçada do Valadares, acompanhada pelo sol do fim da tarde e por alguma cerveja.

Sempre que ouço alguém reclamar da obrigação de trabalhar me seguro para não cair no insuportável discurso de que, se é para passar um terço da vida adulta fazendo algo que garantirá o divertimento e o sono tranquilo dos outros dois terços, não é mal passar esse primeiro terço em um trabalho do qual se goste, com o perdão do raciocínio que de tantos terços mais parece um rosário. Me seguro porque já repeti isso tantas vezes que daqui a pouco todos os amigos pararão de me chamar para participar do terço que corresponde ao divertimento deles.

Mas tenho de admitir que, no caso da literatura, a receita não funciona assim tão bem. É claro, é ótimo passar oito horas por dia pesquisando sobre livros, avaliando quais títulos valem ou não resenha e quais resenhistas podem escrever sobre, apurando notas sobre o mercado literário e entrevistando autores e editores. É uma delícia dedicar parte do dia a ler por obrigação sites de literatura de que gosto.

Mas há uma coisa que não há como fazer no horário de trabalho, e essa coisa é parar para ler um livro que renderá texto a ser publicado. Então o dia de trabalho para quem escreve sobre literatura não acaba no jornal. Ele continua no metrô, participa do jantar, vai junto pra cama e fica para tomar café da manhã, como um amante sem noção que não sabe a hora de ir embora. E também elege os títulos que você lerá.

Nenhuma ambição de ler as 800 e tantas páginas de 2666 antes da aposentadoria, por exemplo. Ou de aproveitar um feriado para acabar com aquela clássica lacuna nos conhecimentos de literatura clássica. Nos últimos tempos, o que me deixa satisfeita é descobrir que Roth e afins publicaram como romance a última novela que escreveram, já que só a concisão garante a leitura por prazer nas horas vagas. Só não me venham cobrar dessa gente livros mais extensos, por favor.