A coluna Babel de 26/3… e um até logo

A coluna de hoje foi minha última antes das férias. Ficarei fora da Redação até dia 27 de abril – mas, antes disso, pode ser que volte por aqui, se tiver alguma história literária bacana da viagem… e se tiver vontade de escrever, é claro =)

Até a volta!

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[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

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FBN planeja biblioteca para empréstimo de e-books

A criação de uma biblioteca pública para empréstimo de livros digitais, nos moldes da desenvolvida pela New York Public Library, será uma das prioridades da Fundação Biblioteca Nacional na gestão de Galeno Amorim. Para pilotar isso, o presidente da FBN convidou Carlo Carrenho, sócio fundador do Publishnews, ao cargo de coordenador-geral de pesquisa e editoração. Carrenho cuidará ainda do programa do livro popular, que inclui a criação de pontos de vendas de títulos com preços abaixo de R$ 10. Como permitem acordos com o mercado, esses projetos podem evoluir apesar da possível redução nas verbas da FBN, decorrente do corte no orçamento do MinC.

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Nova livraria virtual

Está prevista para 28 de abril a estreia de uma loja virtual da Abril que, entre outras coisas, entrará com força na venda de livros digitais. A empresa fechou acordo esta semana com a distribuidora Xeriph para usar sua base de dados e vem negociando com editoras. Quem já viu o projeto diz que ele tem o design todo cor-de-rosa.

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Filosofia eletrônica

Os primeiros e-books nacionais de livros dos filósofos alemães Karl Marx e Friedrich Engels chegam ao mercado em abril. A Boitempo lançará nove títulos da Coleção Marx e Engels acrescidos de textos inéditos, como os primeiros estudos de Bruno Bauer (estes em A Questão Judaica). Simultaneamente, sai em papel o volume O 18 de Brumário de Luis Bonaparte.

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Brasil na Itália

Onze editoras brasileiras levarão um total de 921 títulos à Feira do Livro Infantil de Bolonha, na semana que vem. Em 2010, a participação nacional, organizada pela CBL e Apex-Brasil, rendeu aos expositores do País US$ 112 mil em direitos autorais.

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Histórias recontadas


Umberto Eco, Andrea Camilleri, A.B. Yehoshua, Jonathan Coe, Dave Eggers e cinco outros proeminentes ficcionistas contemporâneos contam para crianças suas histórias favoritas na coleção Save the Story, que a Record acaba de garantir após concorrido leilão.

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A editora pagou US$ 100 mil pela série idealizada pelo romancista Alessandro Baricco e que vem saindo pelo jornal italiano L”Espresso, com um ilustrador diferente por título. Cada autor escolheu o seu clássico: Eco, por exemplo, optou por Os Noivos (imagem acima), de Alessandro Manzoni, e Camilleri, O Nariz (imagem abaixo), de Nikolai Gogol.

ARTES
Obras roubadas

As memórias do perito do FBI que em 20 anos recuperou mais de US$ 200 milhões em antiguidades e imagens roubadas é contada em Impagável, que a Zahar lança em julho. Em parceria com o repórter John Shiffmann, Robert Wittman descreve como devolveu a museus obras de Rembrandt, Monet e Picasso, entre outros. O livro teve direitos comprados para o cinema ano passado.

SIMPÓSIO
Paraty de Julia Mann

Depois que a Flip acabar, Paraty receberá outro evento literário – menos badalado, é preciso dizer. De 26 a 28 de agosto, escritores, tradutores e professores de universidades nacionais e alemãs participarão de simpósio na Casa da Cultura sobre Julia Mann, Thomas Mann e as relações culturais entre Brasil e Alemanha. Brasileira, a mãe do autor viveu na cidade na infância.

ORIGINAIS
Colher de chá

Um alento para candidatos a escritores: a Grua inicia em maio sua 1.ª Temporada de Originais, comprometendo-se a avaliar todo livro recebido naquele mês. Haverá até conselho editorial para isso: Rodrigo Lacerda, João Anzanello Carrascoza e Carlos Eduardo de Magalhães, editor da Grua.

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“Nem casas pequenas consegue ler todos os originais. O autor terá certeza de ser lido,pode até falar mal da gente, se não for aprovado”, diz Magalhães. Não é concurso: podem ser eleitos vários livros – ou nenhum.

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Qualquer semelhança…

Quem chamou minha atenção para essa semelhança entre as capas foi Marçal Aquino, com quem falei duas semanas atrás por conta do Leituras Sabáticas e de uma nota que saiu na Babel. “Essa coincidência sempre me estarreceu”, disse ele. “Cheguei a dar um exemplar para o Tomás Eloy certa vez; ele riu muito.”

Faroestes, do Marçal, é de setembro de 2001; Réquiem Por um País Perdido, do Tomás Eloy, de abril de 2003; e Entre BH e Texas, de Carlos Herculano Lopes, de 2004.

Ainda Marçal: “Falei para os escritores Luiz Roberto Guedes e Joca Terron, autores da ideia e da execução da capa, que acho a capa do Faroestes, sem favor nenhum, a melhor execução da ideia”. Concordo.

Pé de livro (favor não regar)

Tá na moda estante em forma de árvore, é?


Informações sobre cada uma das quatro estantes estão, respectivamente, aqui, aqui, aqui e aqui.

Entrevista com Rebecca Skloot

Segue a íntegra da entrevista com a Rebecca Skloot, autora de A Vida Imortal de Henrietta Lackslivro sobre o qual escrevi no Caderno 2. Rebecca se tornou tão assediada com o lançamento do livro nos países de língua inglesa que incluiu um FAQ (Frequently Asked Questions) em seu site, o que obviamente me tirou várias possibilidades de perguntas mais fáceis, mas vale dar uma olhada lá porque há questões interessantes e sobre as quais eu tinha dúvidas também.

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Seu livro inclui uma grande pesquisa biográfica e quase um estudo científico, são praticamente duas histórias paralelas que se cruzam. Como foi organizar isso?
Isso me tomou muito, muito, tempo. Esse foi definitivamente um dos grandes desafios desse livro, entender como deveria colocar aquele tanto de informações no papel de uma maneira que não ficasse confuso para as pessoas. Desde o começo sabia que precisava contar as duas histórias juntas, de modo que você pulasse no tempo entre essas duas pontas. Sentia que era importante que as pessoas aprendessem a parte científica ao mesmo tempo em que conhecessem o lado humano da história. Porque são histórias que podem ganhar peso diferente quando você conhece as duas ao mesmo tempo. A história das células têm mais significado quando você aprende sobre a família dela, e a história da família dela é diferente quando você aprende sobre as células. Usei fichas de arquivo em grandes paredes para planejar isso. Eu realmente queria que o livro fosse lido como ficção, na verdade. Então li muitos romances estruturados dessa forma para entender como fazer esses pulos no tempo sem fazer as pessoas se perderem.

Romances?
Sim, e filmes também, há muitos  filmes estruturados dessa forma, então tentei mimetizar isso, mas tratando de informação real.

Que tipo de romances?
Um dos que mais ajudaram foi Tomates Verdes Fritos, que também virou filme. O romance inclui histórias diferentes, uma atual sobre duas mulheres que estão se conhecendo e aprendem a história juntas, e uma história antiga e também.. são três narrativas acontecendo ao mesmo tempo. Isso realmente ajudou muito, e também Love Medicine, de Louise Erdrich, que usa muitos personagens e mudanças no tempo. E As Horas, de Michael Cunningham. E, entre os filmes, o que mais ajudou foi O Furacão, com Denzel Washington. Esse tem uma estrutura quase idêntica a do meu livro.  Quando vi o filme me dei conta de que a estrutura que queria no meu livro era muito similar. Uma das coisas que o filme fez que realmente funcionou foi variar no tempo muito rapidamente. E tomei, ao escrever, o cuidado de fazer os capítulos correrem rapidamente para você não perder o fio da meada de um capítulo para o outro.

Deve ter sido um trabalho e tanto falar de ciência tentando manter o tom literário.
Sim, isso foi algo que sempre achei muito importante. Humanizar a história é o que aprendemos ao contar histórias a crianças, ou a contar aos outros nossas histórias, ou a história de uma nação. Senti que usar o lado humano para contar isso era muito importante. Isso foi algo que quis fazer com esse livro, contar sobre a família de Henrietta e a ciência, sempre mantendo um viés que fosse interessante.

Que parte da pesquisa foi mais trabalhosa, a científica ou a biográfica?
O livro todo foi difícil de diferentes maneiras. Minha experiência com a família… Bem, demorou um ano e meio só para eu convencer Deborah a falar comigo, e ela se alternava entre confiar em mim e não confiar, e tudo isso por que passamos juntas… Foi tão difícil, incrivelmente frustrante em alguns momentos, mas também incrivelmente inspirador.  E muito desafiador.  Sobre a ciência… Bem, as células HeLa estão em todo lugar. E, se você vai a um bancos de dados científicos e digita  HeLa, é como digitar “e” no Google.  Milhares e milhares e milhares de ocorrências. É impressionante, gastei muito tempo para encontrar nisso o que era importante, o que não, o que deveria ser incluído e o que não era inovador. Dava para escrever três ou quatro livros só com as histórias das células. Narrar isso deu muito trabalho. E falar com cientistas, falei com vários para saber o que era importante.

Que descoberta foi mais surpreendente pra você?
Acho honestamente que a história da irmã de Deborah, Elsie, que morreu aos 15 numa instituição mental, na chamada “casa dos criolos doidos”. Quando Deborah e eu estivemos lá, não sabíamos o que encontrar. Eu sabia que ser uma pessoa negra no sul dos Estados Unidos nos anos 50  devia ser muito difícil. Ser uma criança negra numa instituição mental nos anos 50  era impensavelmente horrível.  E as coisas que encontramos e que descobrimos que vinham acontecendo com ela, as pesquisas que vinham fazendo nela, era tão pior que qualquer outra coisa que tivesse acontecido ao resto da família… Eu não esperava isso, mesmo. Foi chocante descobrir que ela também fez parte dessa história. Para mim foi a maior surpresa, mas também toda a história da família. É como uma bola de neve, você lê e, quanto mais sabe sobre eles, descobre uma história mais chocante que a outra.  As crianças eram usadas para estudos científicos sem consentimento, os prontuários médicos eram tornados públicos, tanta coisa era inacreditável que eu costumava brincar que, se eu tivesse escrito uma ficção, ninguém acreditaria, achariam que eu estava forçando a barra.

Você é  descendente de judeus que estiveram em Auschwitz. Isso influenciou no seu interesse por essa história?
Sim. Meus antepassados por parte de pais eram judeus na Europa Oriental que estiveram no Holocausto, e muitos deles morreram. Eu soube disso quando era muito nova, estava no segundo grau, e comecei a ler muito sobre a história dos judeus e do Holocausto e sobre as pesquisas feitas com judeus por nazistas, nos campos de concentração. Sabia tudo dessa história, e isso me tornou interessada na história de pesquisas científicas feitas em pessoas sem o seu consentimento. Acho que meu interesse inicial saiu daí. E houve ainda o meu pai. Quando eu tinha 16, ele ficou muito doente por causa de um vírus que causou danos cerebrais profundos, e ele acabou se envolvendo num estudo de remédios no qual era cobaia. Isso foi com conhecimento dele, mas era parte de um experimento. E eu o levava, ainda adolescente, ao hospital, quatro vezes por semana, enquanto ele tomava esses remédios experimentais, e acho que tudo isso aconteceu na mesma época em que soube das células, e acho que o fato de ter me interessado pelas células e começado a perguntar sobre elas foi parcialmente por causa do meu interesse nas pesquisas com judeus e por eu ser filha de um cobaia. Havia muitas emoções ligadas a isso, então, quando soube das células, minha primeira curiosidade foi: ela tinha filhos? Como eles se sentem em relação a isso? Porque eu era uma garota que vivia a experiência de ter o pai ligado a pesquisas científicas.

Como a comunidade científica reagiu a seu livro?
Eles ficaram muito felizes com as histórias. Muitos deles ficaram chocados, não sabiam nada sobre essa história, conheciam apenas as células HeLa. Todos tinham trabalhado com elas, mas a maioria disse:  “Usei essas células no meu laboratório todos os dias, estudei-as na faculdade, passei boa parte da minha vida científica com elas e nunca parei para pensar de onde elas tinham vindo”. Eles ficaram chocados, e isso fez alguns  pensarem diferente sobre essas células e sobre pesquisas científicas. Eles ficaram felizes em conhecer aquelas histórias, tanto em termos de saber a história quanto por fazê-los pensar sobre pesquisa sem consentimento, especialmente com pessoas negras, e o dilema que isso cria sobre como seguir em frente sabendo disso e como construir confiança das pessoas que vão ao médico e se voluntariam para pesquisas tão importantes. Eles foram muito abertos a isso.

E você acha que as pessoas deveriam ter direitos sobre células ou tecidos removidos de seus organismos? Parando para pensar, não fez nenhum mal para Henrietta o fato de uma amostra de suas células ser retirada.
Sim e não! A história, em certo sentido, é sobre isso. É uma história sobre o que pode acontecer quando as células de alguém são usadas sem consentimento. Sim, fisicamente, não prejudicou Henrietta ter suas células usadas, mas, como você define, “fazer mal” é a questão. Isso não fez mal a ela, mas fez a seus filhos. E, quanto mais sabemos sobre DNA, quanto mais informação temos, quanto mais nos damos conta de quanto há a aprender sobre isso… Não acho que seja meu papel como jornalista dizer o que penso sobre isso, mas tenho falado com muita gente a respeito, em eventos ao longo do último ano, milhares de pessoas. E as respostas que ouço, em geral, é que as pessoas entendem que as pesquisas são importantes, querem que os cientistas as façam, mas não querem que seja feita sem consentimento, querem ser questionadas. Há um estudo recente que olha para as atitudes das pessoas em relação a isso, e os resultados foram que essencialmente 4% das pessoas disseram que, se fossem questionadas por cientistas se suas células ou seus tecidos poderiam ser usados, elas diriam não. Mas, se os cientistas não perguntassem, então o percentual de pessoas que não gostaria de ter seus tecidos usados sobe para quase 80%. Ou seja, 80% das pessoas disseram que não queriam que suas células fossem usadas sem conhecimento, e 4% que não queriam mesmo com consentimento. A diferença é enorme. As pessoas querem saber, e é uma questão de confiança. As pessoas sabem que as pesquisas são importantes e querem participar, mas não querem saber disso só depois de algo ter acontecido com uma parte de seu corpo, especialmente quando essa parte é comercializada e muitas pessoas terão acesso.

O curioso no caso da Henrietta é que o que prejudicou seus filhos não foi o fato de as células serem retiradas, mas o fato de a identidade dela ter sido revelada.
Sim e não, mais uma vez. Você está certa. Se a identidade não fosse revelada… Mas, mais uma vez, depende da definição de prejudicar. Algumas pessoas acham que só de retirar a célula sem a permissão deles é prejudicial a eles. E, no caso dos filhos de Henrietta, cientistas também fizeram pesquisas com o sangue deles sem consentimento, então a história deles é ainda mais complicada. É verdade que o máximo que se faz hoje em dia, em geral, é proteger a identidade da pessoa de quem foram retiradas as células para não prejudicá-la. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que com as atuais pesquisas de DNA você pode olhar a amostra de um anônimo e saber de onde ela vem. Não existe amostra totalmente anônima hoje em dia. É uma questão realmente complicada.

Cientistas ainda não sabem exatamente por que as células de Henrietta não morrem, embora tenham uma ideia, certo?
Sim, sabe-se que ela teve HPV, o vírus que causou o câncer cervical, e que ela teve sífilis, o que pode ter feito as células começarem a crescer mais rapidamente. Esses fatores podem ter causado esse crescimento progressivo das células, mas há alguma coisa a mais sobre as células dela que as faz crescerem como elas crescem. Porque a mesma coisa não aconteceu com células de outras pessoas com HPV e sífilis.

E a história está sendo filmada?

Sim, está sendo transformada em filme por Oprah Winfrey e Alan Ball para a HBO e sou uma consultora de roteiro, assim como membros da família de Henrietta, então eles também estão trabalhando com eles também. Neste momento, eles estão trabalhando com o roteiro.

Bibliotecas pós-terremoto no Japão

Vi no Bibliotecários Sem Fronteira, que encontrou esse link com imagens postadas por usuários.

A eterna presença de Henrietta

Quando falei pro meu editor que queria escrever sobre A Vida Imortal de Henrietta Lacks, que sai agora pela Companhia das Letras, ele perguntou se não era caso de publicar o texto no caderno Vida em vez do Caderno 2. Defendi que não: embora envolva aspectos científicos, o livro é um misto disso com uma detalhada biografia da família da personagem título e um olhar detido sobre questões sociais e raciais no século 20, em especial nos EUA. E, como explica a autora, é todo construído para ser lido como ficção, embora todas as informações ali contidas sejam verdadeiras (aqui é bom esclarecer que o resultado dessa ambição dela é muito bom, porque, não raro, tentativas de escrever não ficção como ficção são temerárias…).

Mais tarde, quando voltar da coletiva do Prêmio Jabuti, publico aqui a íntegra da conversa. Por enquanto, segue o texto que saiu hoje no Caderno 2.

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Livro resgata caso da mulher que, sem saber, deu origem à linhagem celular mais usada em pesquisas científicas

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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

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Depois de morrer, Henrietta Lacks percorreu o mundo e alterou os rumos da humanidade. Essa poderia ser, de forma bem resumida, a descrição da história real narrada em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, livro de estreia de Rebecca Skloot. E, se causa estranheza, isso não chega perto da sensação que o leitor tem ao atravessar as cerca de 450 páginas resultantes de mais de dez anos de pesquisas da jornalista científica norte-americana.

Considerado um dos dez melhores títulos de 2010 por veículos como o New York Times, o Independent e mais algumas dezenas de publicações, a obra que sai agora pela Companhia das Letras destrincha a história por trás das primeiras células humanas mantidas vivas por cientistas fora do organismo, e que assim se mantêm há 60 anos – mais precisamente, as primeiras células imortais da história.

São as chamadas células HeLa (lê-se “rilá”), linhagem celular mais usada em pesquisas no mundo, conhecidíssimas entre pesquisadores da área biológica. O que ocorreu a Rebecca Skloot ainda na adolescência, ao ouvir falar pela primeira vez nessas células, foi um “detalhe” ao qual quase ninguém parecia dar muita atenção: por trás daquele objeto de infindáveis investigações houve uma vida que merecia ser reconhecida.

Essa vida, ouviu Rebecca do professor que lhe contou a história no colégio, foi a de Henrietta Lacks, uma ex-lavradora de tabaco no sul dos EUA, descendente de escravos, que morrera com câncer em 1951. “Naquela mesma época”, conta a autora em entrevista por telefone ao Estado, “meu pai foi infectado por um vírus que lhe causou danos cerebrais e aceitou ser cobaia de uma pesquisa científica. Então, quando eu soube da existência de Henrietta Lacks, minha primeira curiosidade foi: ela teve filhos? Como eles se sentem em relação a tudo isso?”

O que ela descobriu foi que Henrietta nunca soube que haviam retirado uma amostra de suas células enquanto estava internada na enfermaria para “pessoas de cor” do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland – e que, quando sua identidade veio à tona, décadas depois, seus filhos teriam suas vidas invadidas por interesses científicos e jornalísticos.

Câncer. Aos 30 anos, mãe de cinco filhos, Henrietta chegara ao hospital alegando sentir um caroço na altura do útero, uma dor que escondia do marido e das crianças. Os médicos logo identificaram um tumor cervical e, sem pedir permissão, enviaram uma amostra das células cancerígenas a um pesquisador. Meses depois, Henrietta morreu tomada por tumores, embora os exames identificassem o controle da doença. O que ninguém esperava era que essas células, ao contrário de todas as outras usadas antes em pesquisas, eram capazes de se expandir sem limites. Essa inexplicável capacidade de sobreviver e se multiplicar fora do organismo tornou as células famosas no meio científico.

Ao longo das décadas, as células de Henrietta foram enviadas para laboratórios de todo o mundo, usadas em testes nucleares, enviadas para o espaço; tornaram-se fundamentais para as pesquisas mais importantes relacionadas a vacinas, quimioterapia, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro. A multiplicação foi tão impressionante que, como escreve Rebecca, “se fosse possível enfileirar todas as células HeLa já cultivadas, elas dariam ao menos três voltas ao redor da Terra, totalizando mais de 100 milhões de metros”.

Os filhos foram localizados décadas depois da morte de Henrietta por cientistas interessados em estudar seu DNA – também sem o consentimento deles, que acreditavam estar apenas passando por exames para descobrir se não tinham o mesmo câncer da mãe – e expostos em reportagens e documentários, além de atrair a atenção de gente interessada em ganhar dinheiro em cima deles. Começaram a acreditar numa espécie de maldição envolvendo as células, que só lhes traziam desgostos.

Rebecca Skloot demorou mais de um ano até convencer Deborah, a filha de Henrietta mais engajada em recuperar a história da mãe, a dar entrevistas. Enquanto isso não acontecia, conversou com o marido e os outros filhos, vasculhou milhares de estudos científicos (“pesquisar sobre as células HeLa em bancos de dados científicos é como fazer uma busca pela palavra “e” no Google”, compara), esmiuçou outros casos de pesquisas feitas sem consentimento dos pacientes e as lacunas da legislação.

Descobriu, entre outras coisas, que uma das filhas de Henrietta morreu internada numa instituição mental para negros, também cobaia involuntária de estudos medicinais. “Era um lugar onde os negros não eram bem tratados, como se pode imaginar de uma instituição assim por volta dos anos 50. Fiquei impressionada com os contornos soturnos disso tudo e entendi porque os filhos tinham tanta reticência em dar entrevistas. Essa história diz muito sobre a situação dos negros norte-americanos no século passado.”

O maior mérito de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, para além do exaustivo trabalho investigativo, é tornar humana uma história que, em mãos menos cuidadosas, poderia caber num compêndio científico. “Queria que parecesse ficção, mas com dados reais”, conta a autora, que recorreu a diversos romances e filmes para encontrar o tom certo do texto, uma narrativa que intercala a biografia do Lacks com intrincadas questões sociais e científicas – e que, não à toa, está sendo transformado em filme pela produtora de Oprah Winfrey.

"Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda"

Olha que coincidência. Dias atrás, escritor e jornalista Vitor Diel contou em seu blog, o Bumerangue, que tinha adiado por meses a ideia de postar o trecho a seguir do romance Partículas Elementares (1998), de Michel Houellebecq, porque não queria ferir suscetibilidades de internautas que não conhecessem a obra para contextualizar. Acabou postando no dia 11, uma semana antes de o francês ser anunciado para a Flip.

“Começava a encher o saco dessa estúpida mania pró-Brasil. Por que o Brasil? Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda, povoado por brutos fanáticos por futebol e corridas de automóvel. A violência, a corrupção e a miséria estavam no seu apogeu. Se havia um país detestável, era justamente, e especificamente, o Brasil. Eu poderia ir ao Brasil, em férias. Passearia nas favelas, num microônibus blindado; observaria os pequenos assassinos de oito anos, que sonham em se tornar chefes de bando aos 13 anos; não sentiria medo, protegido pela blindagem; à tarde, iria à praia, entre riquíssimos traficantes de droga e de proxenetas; no meio dessa vida desenfreada, dessa urgência, esqueceria a melancolia do homem ocidental.”