No Sabático de 8/5

A coluna Babel da semana está aqui. A reportagem de capa é minha, sobre tradução de literatura brasileira no exterior.  Taí, abaixo (Update: o link aparece aqui). Essa foto bacana do Salão de Paris (com três dos 30 homenageados nos 30 anos do evento) quem tirou foi Georgina Staneck, da Biblioteca Nacional.

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Barreiras no horizonte literário

Fomento que o MinC oferece para tradução de literatura brasileira no exterior se restringe a poucas bolsas em dinheiro; para quem acompanha o mercado, é preciso incentivar viagens de escritores e capacitar os tradutores

RAQUEL COZER – O ESTADO DE S. PAULO

O romance Sogni all’Alba del Ciclista Urbano saiu em 2008 na Itália, com tiragem de 4 mil cópias. A primeira edição, de capa dura, esgotou-se, e outra leva chegou às livrarias. O desempenho em vendas é similar ao que o livro teve no Brasil, onde foi publicado dois anos antes. Sim, porque Sogni all’Alba del Ciclista Urbano (“sonhos à alvorada do ciclista urbano”) é, conforme a capa do volume editado pela prestigiosa Mondadori, “il romanzo rivelazione della nuova narrativa brasiliana”. Trata-se de Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, lançado aqui pela Companhia das Letras. Trata-se também de um raro caso bem-sucedido num cenário tímido: o da tradução de obras literárias brasileiras no exterior.

Editores estrangeiros travaram conhecimento com a produção de nomes clássicos como Machado de Assis ainda nos primeiros anos do século passado. Décadas depois, passaram a publicar escritores contemporâneos, como Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro. Nestes anos 2000, percebeu-se ligeira proliferação de ficcionistas nacionais em outros países. Só nos últimos meses, para ficar em alguns exemplos, soube-se que Milton Hatoum teve Órfãos do Eldorado lançado nos EUA, dentro de uma série com “grandes mestres da narrativa contemporânea”; que O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, após ganhar edições italiana e francesa, entre outras, foi comprado por uma editora na Austrália; que O Enigma do Qaf, incensado pela imprensa na França (“O livro teria encantado Borges e Cortázar”, escreveu um crítico sobre a obra de Alberto Mussa), terá em breve a quinta tradução, agora na Turquia.

Por que, então, o que se via na década de 90 como crescimento discreto da exportação literária chega ao final desta sem ter evoluído quase nada? A resposta não é simples, embora num ponto autores, editores, tradutores e mesmo pessoas ligadas ao Ministério da Cultura concordem: num momento em que o País vive projeção política e econômica mundial, o governo gasta pouco, pouco demais, para divulgar a literatura feita por aqui.

Georgina Staneck/Fundação Biblioteca Nacional

Bolsas. Na última quarta-feira, Georgina Staneck passou o dia encerrada numa sala com colegas na Fundação Biblioteca Nacional. Ela precisava concluir um trabalho sobre o qual, no dia anterior, falava com paixão: selecionar as editoras estrangeiras que levarão as 20 bolsas de fomento à tradução oferecidas pela instituição, com valores entre US$ 1.000 e US$ 4 mil. “Tem esse da Clarice que torço muito que fique entre os 20”, comentou, referindo-se a uma fotobiografia sob cuidados de Nádia Battella Gotlib com a qual a mexicana Editorial Jus concorria a uma das bolsas – entre os critérios da seleção, são levadas em conta a representatividade literária e a receptividade de crítica e público. Não que fosse disputa concorrida. Só 39 editoras de todo o mundo demonstraram interesse pelas bolsas, o que resultou em menos de dois candidatos por vaga.

O resultado, a sair nos próximos dias no Diário Oficial, não interferirá na publicação ou não das traduções pelas editoras que concorrem, já que uma regra é que só sejam avaliados títulos comprados por editoras estrangeiras. “Você exige o compromisso de publicação, e acontece só uma vez por ano. É tão restritivo o horizonte de aplicação do programa que poucos tentam concorrer”, admite Marcelo Dantas, diretor de Relações Internacionais do MinC, hoje envolvido na incipiente tentativa de aprimorar o fomento.

Para o governo, um primeiro passo para superar as limitações foi dado com a criação de quatro níveis de valores de bolsa. Até 2009, todas eram de US$ 3 mil. “Uma coisa é traduzir um livro infantil, outra é Guimarães Rosa; uma coisa é verter para o espanhol; outra, para o chinês”, diz Dantas. Felipe Lindoso, que coordena no Itaú Cultural um mapeamento da literatura brasileira no exterior, não vê efeito na mudança. “O maior valor que dão hoje está longe de cobrir a tradução, mas o problema não é só esse. Em Portugal, eles levam o autor a países nos quais foram traduzidos. Não basta traduzir, tem de enviar o escritor para dar entrevistas, aparecer na TV.”

Esse é um dos trabalhos feitos pelo Goethe-Institut, que a cada ano traz cerca de meia dúzia de autores alemães para o Brasil – em abril, esteve aqui Rüdiger Safranski, para lançar Romantismo: Uma Questão Alemã (Estação Liberdade). Em 2008, o diretor Wolfgang Bader levou editores e tradutores brasileiros para a Alemanha. Ficaram duas semanas visitando editoras. “A questão é fazer com que outros países saibam o que há de interessante na produção alemã”, diz. A preocupação motiva o instituto a publicar listas de obras que foram ou não traduzidas, para que editores identifiquem lacunas.

Andre Lessa/AE

Exceções. No Brasil, ações para levar autores a outros países são isoladas, não raro promovidas por diplomatas que se interessam pela literatura nacional. Em outros tempos, chegou a receber alfinetadas da imprensa a iniciativa do tradutor Eric Nepomuceno, então secretário de Intercâmbio e Projetos Especiais do MinC, de promover viagens com escritores – falava-se em “trem da alegria”. No ministério, Nepomuceno criou ainda, com apoio do Itamaraty, um programa de escritor-residente em universidades dos EUA. A secretaria foi fechada em 1998, e o programa, encerrado. “Não adiantam atitudes pontuais. É preciso fazer apostas a longo prazo. Outros países têm política de continuidade, artilharia pesada. Nós temos foguetinhos espalhados ao léu”, diz Nepomuceno, crítico do fomento da FBN. “Cada edital não chega a R$ 100 mil. Comparando com Alemanha, França, Espanha, é constrangedor.”

Patricia Melo diz se sentir privilegiada por ter romances traduzidos em “toda a Europa e nos EUA”. Viajar para divulgar lançamentos, afirma, faz diferença. “A recepção é diferente. Você participa de um debate que chama atenção para o seu livro e para o que se produz no Brasil.” Boa parte do mérito ela credita aos agentes literários. “Minha primeira agente dizia que para trabalhar com autores brasileiros era preciso paixão, para compensar a frustração da empreitada.”

De fato, editoras e agentes são os maiores divulgadores de autores no exterior, o que coloca a venda de direitos autorais mais como negócio que como estratégia cultural. É com ênfase ao lado comercial que trabalha o projeto Brazilian Publishers, uma parceria da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações, subsidiada pelo governo) com a CBL (Câmara Brasileira do Livro). A meta é capacitar editores para que cheguem às feiras internacionais com perspectiva de vender direitos de seus autores, e não apenas comprar.

Para tradutores, o benefício de difundir a literatura vai além da economia. “Há utilidade em termos políticos e turísticos”, avalia Berthold Zilly, professor de literatura latino-americana na Alemanha, “mas é acima de tudo importante para a compreensão e o enriquecimento cultural.” Dantas, do MinC, enfatiza esse aspecto. “Ao exportar literatura, você explica ao mundo quem você é de maneira profunda, sai dos clichês.”

A agente literária Lucia Riff chama de “trabalho de formiguinha” o que faz para divulgar seus agenciados, como Lya Luft e Luis Fernando Verissimo. Casos como o da edição italiana de Mãos de Cavalo, que ganhou segunda tiragem, são raros. Até mesmo para Galera, que, agenciado por uma italiana e por sua editora no Brasil, calcula ter vendido algo entre 500 e mil cópias do livro em outros países. “Em geral, fica nos 3 mil”, diz Riff sobre as obras de seus autores no exterior. “Se reimprime, a gente solta foguete.”

O desconhecimento da língua portuguesa é outro entrave. Riff diz que precisa traduzir por conta trechos de livros para apresentar em feiras. Zilly, que já verteu na Alemanha Machado de Assis e Euclides da Cunha, lembra que estudiosos de língua portuguesa costumam falar espanhol, embora o inverso não ocorra. E levanta um ponto delicado, de certa forma relacionado: “Quais são os grandes nomes da literatura brasileira hoje? Da América hispânica, saíram Roberto Bolaño, Cesar Aira, Jorge Volpi. O Brasil tem o quê? Ok, há Milton Hatoum, Bernardo Carvalho. Pode haver outros fantásticos, mas não chegam até nós.”

O alemão destaca ainda prêmios para tradutores, que existem em vários países. No Brasil, ele recebeu só condecorações. “Acho bonito, gosto de ser honrado, mas dinheiro faz diferença.” Capacitação de tradutores e intercâmbio de autores são propostas que, para o MinC, até soam bem, mas só no plano das ideias. Por enquanto, a prioridade é apenas aumentar o número de bolsas de tradução, das 20 para 100 anuais, e incluir editoras brasileiras na concorrência, de modo que possam oferecer títulos já traduzidos a estrangeiros. Definir prazos para isso é outro assunto.

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Traduções, ou a falta delas

O site Publishing Perspectives traz uma análise de Emily Williams sobre por que é difícil publicar estrangeiros nos EUA. Sim, ela também era anônima para mim até eu ler o texto, e não, não tentarei resumir o que a tornou especialista (ela dedica uma página a definir  um literary scout, ocupação que “nem familiares entendem“).

Dito isto, a análise tem pontos interessantes. Cheia de princípios bairristas, é fato, como o argumento de que é irrelevante o  “estereótipo” de americanos ilhados no que diz respeito a cultura… Mas, enfim, os empecilhos, segundo ela:

1. Os “imperdoáveis” cálculos econômicos que editores têm de fazer para colocar uma tradução no mercado (sobre isso, a sugestão é esse texto aqui).

2. O baixo número de editores americanos que falam outras línguas. Falar inglês, ela argumenta, é básico para editores de outros países, já que eles dependem disso para conhecer sucessos como Michael Crichton e Danielle Steele e, de lambuja, podem avaliar autores menos disseminados.

3. O fato de livros virem de tantos países e em tantas línguas, o que torna difícil a especialização em mercados específicos.

Senti falta de comentários sobre o que de fato ganha tradução nos EUA. Um editor que se especialize no mercado em língua espanhola não estará bem lidando com algo específico demais. Anyway, qualquer um que fale espanhol ou alemão já tem um belo panorama estrangeiro a investigar.

Agora, pensando no mercado brasileiro, é preciso dividir a culpa com os americanos que não falam outra língua. Foi um ponto destacado por gringos num mapeamento do Itaú Cultural que ainda engatinha e sobre o qual já escrevi. Pesquisadores de literatura brasileira no exterior têm de recorrer a jornais brasileiros para saber o que sai por aqui –por curiosidade, os EUA é o país onde nossa produção é mais estudada. Falta uma entidade com o escopo de um Instituto Goethe (Alemanha) ou um Cervantes (Espanha) para divulgar a produção nacional em outros países. Fundação Biblioteca Nacional? Vai perguntar se algum gringo já ouviu falar…