Kafka surreal

O diretor de animação japonês Koji Yamamura fez em 2007 um curta baseado no conto Um Médico Rural, de Franz Kafka, que integra livro de mesmo nome lançado faz tempo por aqui.

O conto, escrito em 1919, com toques surrealistas, narra o esforço de um médico para visitar um menino doente numa noite gelada.

Yamamura tem por si só um trabalho pouco ortodoxo, de difícil classificação, e sua leitura do conto é ultrassombria. Como o áudio é em japonês (com legendas em inglês), o efeito de estranheza fica ainda maior. Pra quem não viu – o curta foi exibido no Anima Mundi em 2008, mas eu vi só agora -, é surrealismo puro.

Tentei de todo jeito embedar os três trechos do vídeo aqui, mas não rolou. O endereço some quando atualizo. Tento de novo depois, com calma.

Enquanto isso, dá pra ver a primeira parte aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.

Vi essa no Faster Times.

Retrato de cada um de nós

Eu sei, eu sei, ando em falta com a promessa de publicar aqui textos além dos que saíram no jornal. Ninguém fez ainda a cobrança, mas imagino que ela estará lá a cada vez que recebo aviso de comentário novo.

É que os dias não têm dado chance. Na terça, chegando de viagem, leio no e-mail o horário marcado para a entrevista pedida com Ian McEwan. Poderia ser ontem, às 10h, ou em nenhum outro horário. Dadas as opções, é claro que foi, e daí saí cedo da redação e inventei tempo pra ler a prova de Solar enviada pela Companhia das Letras.

Solar é um bom livro, embora eu ainda seja mais fã do McEwan de Reparação e Na Praia (não consigo entender quem não acha Na Praia, esse livro que me deu insônia, uma obra prima).  McEwan é uma delícia de entrevistado, e eu queria ter tido tempo de preparar melhor as perguntas. E muita coisa do que falamos acabou ficando de fora da versão da entrevista que saiu no Caderno 2 hoje, por questão de espaço.

Reproduzo a reportagem publicada no jornal abaixo, mas, antes, um trechinho da conversa que ficou de fora. É que, a certa altura de Solar, o protagonista, Michael Beard, aparece na juventude num empenho acadêmico de conquistar uma estudante de literatura. Aluno da física, ele mergulha em teses sobre John Milton e aprende o suficiente para impressionar a moça.

McEwan escreve: “A conquista de Maisie foi uma perseguição implacável e muito bem organizada, que lhe deu imensa satisfação e provou ser um momento crucial no seu desenvolvimento, pois ele sabia que nenhum terceiranista de arte, por mais brilhante que fosse, seria capaz de se fazer passar por entendido, após uma semana de estudo, entre seus colegas matemáticos e físicos. Era uma rua de mão única. Sua semana miltoniana o fez suspeitar de que existia um blefe monstruoso. A leitura foi árdua, mas ele não havia encontrado nada que pudesse remotamente ser considerado um desafio intelectual, nada na escala de dificuldade que enfrentava todos dias em seus cursos. (…) Beard suspeitava não haver nada que eles discutissem que não pudesse ser compreendido por qualquer pessoa de inteligência modesta.”

Como o próprio McEwan conta que ficou na dúvida entre cursar literatura e física quando estava na adolescência, perguntei a ele se a opinião de Beard era também a dele. Atente para as duas frases finais da resposta.

No livro, Beard conclui, durante a juventude, que a mais complexa teoria literária é mais simples de se compreender do que a física, que literatura exige menos inteligência. Isso é algo em que você acredita?

Se você está na universidade, estudando literatura, você nunca terá nada tão difícil para entender como a teoria geral de Einstein. Não há nada complexo assim na literatura. Todos podemos entendê-la, mas nem todos podemos fazer matemática no nível que a física exige. Pode ser um trabalho duro, mas não será difícil em termos de compreensão. Não sei como é no Brasil, mas, na Inglaterra, alunos de literatura tendem a olhar de cima para baixo aqueles que estudam matemática ou física. Isso me parece muito estranho.

Segue abaixo o texto e os trechos da entrevista que saíram hoje no Caderno 2.

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O retrato exagerado de cada um de nós

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

De todas as honrarias que o britânico Ian McEwan recebeu ao longo da vida, a mais inesperada veio no ano passado. Pelo romance Solar, que chega às livrarias brasileiras no próximo dia 6, o escritor de 62 anos levou o prêmio de ficção cômica Bollinger Everyman Wodehouse – o que lhe garantiu como troféus uma caixa de champanhe e um porco, devidamente batizado de Solar. “O porco eu tive que devolver depois”, conta McEwan ao Estado, por telefone, “mas é sempre bom ganhar um prêmio”.

Conhecido por sua literatura séria – incluindo o romance Amsterdã, que lhe valeu o Booker Prize em 1998 -, o autor de Sábado e Reparação causou surpresa ao escrever uma obra sobre tema atual e relevante, o aquecimento global, mas na qual o humor é central. Na trama, um cientista cinquentão, Michael Beard, não faz nada além de colher os louros de um Prêmio Nobel recebido décadas antes, até que lhe cai em mãos (e ele assume como próprio) o projeto de outro físico de aproveitar a energia solar por meio de fotossíntese artificial.

McEwan, atração da Flip de 2004, diz que deve voltar ao Brasil em dezembro por conta do lançamento de Solar, sobre o qual fala na entrevista a seguir.

A ideia de escrever um romance sobre o aquecimento global surgiu quando isso virou tema prioritário no debate mundial?

Tinha uma ideia anterior, desde os anos 90, e fiquei bastante feliz e surpreso quando o assunto chegou ao centro da agenda política, por volta de 2004, 2005. Antes, pensava na possibilidade, mas não conseguia imaginar como entrar no assunto. É um tema complicado. Há muita ciência, estatística, envolve uma questão moral que podia ser difícil para um romance. Demorei a encontrar o caminho.

Que tipo de dúvidas tinha?

Antes de tudo, uma obra sobre questões climáticas carrega o peso moral de tentar persuadir as pessoas. Isso pode ser prejudicial a um romance, tirar a vida dele. Uma ficção temática, que defenda uma campanha… Isso eu queria evitar. Em segundo lugar, seria necessário abordar informações científicas num nível em que as pessoas podiam não achar interessante. O tema, por si só, resiste à ficcionalização.

Foi por isso que optou pelo uso de elementos cômicos?

Achei que poderia atrair o leitor pelo humor. Decidi que o melhor caminho para entrar nisso seria criando um personagem como Michael Beard, que é uma espécie de todo homem. Ele consome muito, come muito, é insaciável, causa o caos ao redor. É uma espécie de retrato exagerado de cada um de nós.

Quando surgiram os primeiros comentários na imprensa sobre Solar, você negou que fosse um romance cômico, não foi?

Na verdade, eu me referia um tipo específico de romance cômico inglês em que praticamente toda linha tem que ser engraçada, com piadas intermináveis a cada página, como se alguém estivesse fazendo cócegas em você contra a sua vontade. Minha ideia de romance engraçado seria um com passagens sérias e cômicas, que é o que faço aqui.

Mas o humor, apesar de tirar o peso moral, não resolve a questão de como abordar definições científicas na literatura.

É preciso ter cuidado, porque a maior parte das pessoas não quer saber dos detalhes. É perfeitamente possível ler o romance sem acompanhar de perto os fatos científicos. No começo, escrevi que o personagem Michael Beard ganhou o Nobel por fazer alterações no trabalho de Einstein. Não tinha ideia do que queria dizer com aquilo. Ao terminar, enviei a um amigo, físico, para que inventasse um trabalho que poderia levar o Nobel. Sou como a maior parte dos leitores, não espero que ninguém saiba física quântica.

Há um trecho no romance baseado numa situação que você viveu, a viagem ao Ártico na qual os convidados fazem enorme bagunça com o equipamento para andar de skidoo (moto de neve). Por que incluiu isso na história?

Fiz essa viagem com um grupo de artistas em 2005 e foi um momento muito importante para a concepção do livro, porque me fez perceber a possibilidade da abordagem cômica. Aquelas pessoas estavam lá para refletir sobre problemas do planeta, mas não conseguiam resolver nem os próprios problemas.

O personagem Beard tem essa característica, também. Ao longo da vida vai se deteriorando, engordando, perdendo a ambição.

O corpo dele é como que o estado da Terra. Ele não trata o corpo bem, mas toma decisões, assim como de tempos em tempos vemos grandes conferências com resoluções fortes sobre o que fazer. Desde aquela que houve no Rio, no início dos anos 90 (Rio 92), nós não salvamos as florestas, não limpamos os mares. Temos sucesso limitado em alguns países na limpeza de rios, mas, no geral, não paramos de fazer o que fazemos. Somos todos meio Michael Beard nesse aspecto. Ele quer perder peso, fazer exercícios, mas o tempo passa e nada muda, porque vai contra a natureza dele.

Isso significa que você não tem esperanças?

No momento, as coisas não andam bem. Na comunidade internacional que lida com isso, as pessoas estão descrentes. Há alguns anos houve esperança, mas, no momento, a visão é de que o problema existe, mas o público está cansado de ouvir falar nele, os políticos perderam o empenho. Obama não foi capaz de levar adiante questões que abordou na campanha, a recessão mundial tirou a questão climática da lista de prioridades. Por outro lado, muitas coisas acontecem fora do âmbito governamental, há pesquisas desenvolvidas por empresas privadas e universidades. Temos de nos mover e não temos tempo. É preciso que uma nova Revolução Industrial aconteça nos próximos 25 anos. Não sou totalmente desesperançoso. O que o livro diz é que podemos ser muito espertos, como Michael Beard, mas somos muito estúpidos, como Michael Beard.

Acha que seu romance pode fazer as pessoas pensarem a sério sobre questões climáticas?

Pode ajudar a refletir, não a solucionar. Pode nos mostrar como somos. Meu interesse é na natureza humana, homens lidando com questões que vão contra a sua natureza. Buscar soluções para o aquecimento global nos obriga a pensar a longo prazo, a fazer favores a pessoas que nunca vamos conhecer, a cooperar com outras pessoas ao redor do mundo. Isso exige altruísmo, o que vai contra nossa natureza. O que o romance pode fazer é ajudar a refletir sobre a complexidade da natureza humana.

A certa altura, Beard se vê envolvido num escândalo após fazer comentários sobre os cérebros masculino e feminino. Você viveu isso algumas vezes, não?

Sim, sempre quis escrever sobre como é estar no meio de um escândalo da imprensa britânica. Estive em algumas, assim como muitos de meus amigos. É uma experiência estranha. É como se um furacão entrasse na sua casa. E então, de repente, você acorda e ele se foi. De repente, todos os jornais perderam o interesse. Você se sente como se tivesse sido deixado para trás, como se a festa tivesse acabado e todos tivessem ido embora.

TRECHO

“Ele pertencia àquele gênero de homens – vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes – que exerce… …uma atração inexplicável sobre certas mulheres bonitas. Ou achava que pertencia, o que parecia ser suficiente para transformar o desejo em realidade. No que era ajudado pelo fato de algumas mulheres o tomarem por um gênio que precisava ser salvo. Entretanto, naquela altura da vida Michael Beard era um homem de funções mentais limitadas, desprovido de impulsos hedônicos, monotemático, ferido. Seu quinto casamento…”

O que não se falou sobre Gaza

A publicação de Notas Sobre Gaza, do cartunista e jornalista Joe Sacco (ainda neste semestre pela Quadrinhos na Cia., com tradução de Alexandre Boide), é das melhores notícias do ano para quem gosta de HQ. Em termos de impacto, acho comparável só a Maus, do Art Spiegelman, com diferenças essenciais – para ficar em duas, o fato de Maus ser mais memorialístico que investigativo num sentido jornalístico e de Notas Sobre Gaza recriar cenário de detalhes infinitamente menos conhecidos.

Ok, nem faz muito sentido comparar gênios tão diferentes. Até porque Spiegelman não é nem quer ser jornalista, enquanto Joe Sacco é repórter tão acima da média que, mesmo que não ilustrasse, teria material suficiente para levar jornalistas que se dizem investigativos a reavaliarem tudo (sobre quadrinistas, na comparação com ele, o Eduardo Nasi comentou no Twitter: “Depois de Sacco, tem gente que faz infográfico e chama de HQ. E que faz HQ e chama de jornalismo. Jornalismo em HQ é outra coisa”). O que há em comum é que tanto Maus quanto Notas Sobre Gaza chegam a exigir do leitor pausas, de tempos em tempos, para que possa digerir tudo.

Com certo atraso, segue a entrevista que fiz por telefone com o jornalista e cartunista Joe Sacco e que saiu no último Caderno 2 Domingo.

***

[publicado no Caderno 2 Domingo de 16/9]

Notícias em HQ

Pioneiro do jornalismo em quadrinhos, Joe Sacco detalha, em Notas Sobre Gaza, dois massacres ocorridos em 1956

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Um breve relatório da ONU, datado de 13 de novembro de 1956, dava conta de rumores de atrocidades na Faixa de Gaza. Questionada, a então ministra de Assuntos Exteriores de Israel, Golda Meir, confirmou o registro de “algumas baixas” entre palestinos após uma tentativa de pilhagem. Era situação resolvida, afirmou.

Teria sido também esquecida se, quase meio século depois, uma citação àquele relatório da ONU em um livro de Noam Chomsky não tivesse chamado a atenção do maltês naturalizado americano Joe Sacco. Desenhista autodidata e jornalista por formação, pioneiro do chamado jornalismo em quadrinhos, Sacco resolveu investigar o caso a fundo. Era algo que já havia feito com passagens mais recentes da história na graphic novel Gorazde, sobre a Bósnia, e em Palestina, pela qual ganhou, em 1996, um American Book Award.

Ao revirar arquivos e entrevistar mais de 100 pessoas envolvidas, Sacco descobriu que os rumores se referiam a dois massacres ocorridos nas cidades de Khan Younis e Rafah, em 3 e 12 de novembro de 1956, quando foram mortos a tiros, respectivamente, 275 e 111 civis palestinos.

Eram crimes que poderiam passar despercebidos em meio ao intermináveis conflitos no Oriente Médio, mas que, em Notas Sobre Gaza, lançada no ano passado em língua inglesa e que sai neste semestre pela Quadrinhos na Cia., ganha contornos tão humanos quanto difíceis de acreditar. Em conversa por telefone com o Estado, de Portland, onde vive, Sacco falou sobre o trabalho que lhe tomou sete anos entre pesquisa e realização. Veja trechos a seguir.

No livro, vários palestinos dizem que o que aconteceu em 1956 não era importante. Por que tinha tanta certeza de que era?

Os massacres em si eram importantes. Na história do conflito entre palestinos e israelenses, os dois incidentes estão entre os maiores com morte de civis. O de Khan Younis teve o maior número de mortes de civis num único dia em solo palestino. Se os sobreviventes estavam vivos, por que não falar com eles em vez de apenas confiar nos poucos parágrafos do relatório da ONU, que não esclarecem o que houve? Mas ainda há outro lado. Os incidentes fazem parte de um continuum de ataques. As pessoas mais novas, especialmente, perguntavam: “Por que quer saber dessas histórias velhas com tudo o que está acontecendo?” O ponto é que, como jovem no Oriente Médio, você não digere o que aconteceu porque há sempre algo novo sendo enfiado goela abaixo. É triste alguém pensar que não vale a pena olhar para trás.

Mas, entre os mais velhos, havia interesse em falar das guerras de 1948 e 1967.

Sim, isso é verdade. Também acontecia de eles confundirem períodos. Houve tanta coisa difícil na história deles que às vezes eles não sabiam mais dizer o que aconteceu e quando.

Como foi o trabalho de filtrar depoimentos contraditórios?

Bem, você tem que olhar para as lembranças de pessoas sobre o que aconteceu há 50 anos com… não diria ceticismo, mas é preciso olhar de perto para dizer o quanto é de fato verdadeiro, o quanto do que outras pessoas disseram a elas passa a fazer parte das memórias delas também. Não é que não confiasse nelas, mas fiz questão de mostrar em Notas Sobre Gaza essas contradições nos depoimentos para que o leitor conhecesse um problema que enfrentei. O que importa é que o arco da história é real. Algumas pessoas se confundiram, outras disseram coisas que não encaixam na história, mas o arco é real.

Foi difícil achar ex-soldados israelenses dispostos a falar?

Sim, muito. Falei com militares e pesquisadores israelenses que tentaram me ajudar, e também fiz buscas em arquivos. Dois comandantes com quem falei disseram não se lembrar de nada daquilo. Não disseram que não aconteceu, disseram que não se lembravam. Eu questionava às pessoas como podia saber mais sobre o assunto e me recomendavam algum historiador. Daí o historiador dizia que talvez tivesse ouvido algo, mas que não tinha examinado mais detidamente. Minha esperança é que o livro possa fazer as pessoas se voltarem a esse assunto.

Você não teria interesse em retratar como se sentem os israelenses em meio aos conflitos?

Sei que eles sofrem, não há dúvida. A sociedade israelense também sofre com os atentados de palestinos, um lado alimenta o ódio no outro. Mas moro nos EUA, onde a história do lado israelense é muito bem contada, todos conhecem. Aqui, é do lado palestino que nunca se fala. Quero falar das pessoas que saíram como perdedoras na história. Nos EUA, em especial, a palavra palestino é associada ao terrorismo. Quero mostrar o contexto do que acontece. Poderia escrever sobre o lado de Israel, mas sobre isso é possível ler o tempo todo nos jornais.

Houve reações fortes a Notas Sobre Gaza em Israel?

Não repercutiu muito. Uma jornalista israelense escreveu um longo artigo sobre o livro e aquele período. Não soube de muitas reações. Um dos comandantes com quem falei disse à Associated Press: “Isso nunca aconteceu”. Vi as notas da nossa conversa, e ele não tinha negado. Disse só que não tinha ouvido falar. O que é diferente.

Além de resgatar o passado, você relata fatos no presente, como as demolições de casas palestinas próximo à fronteira por forças israelenses…

Bem, não podia deixar de fora o que estava vendo porque, em última instância, eu estava lá e vi tudo. Alguém tinha que registrar aquilo de alguma maneira. As demolições agora também fazem parte da história.

Houve algum trecho específico da história que tenha sido mais difícil de retratar?

Perto do final, quando mostro as pessoas pegando os corpos depois dos massacres, as mulheres removendo os corpos. Foi muito difícil. Tive que fazer daquilo uma passagem curta porque me senti nauseado de desenhar tantos cadáveres, era uma coisa tão repulsiva…

Mas, mesmo com o traço tão realista, com imagens que chocam, você evitou uma certa morbidez que seria possível ao retratar os massacres.

Bem, não queria esfregar tudo na cara dos leitores. A coisa boa do desenho é que serve como filtro. Não sei quanto a você, mas se eu visse um filme com aquelas imagens… É de deixar doente. Mesmo fotografias, seria difícil ver um livro com fotografias de situações como aquelas. Com desenho, não se pode dizer que seja agradável, mas é possível olhar. Além disso, até onde sei, não há fotos daqueles massacres. Com o desenho, com acesso a fotografias de como eram as pessoas ou os campos de refugiados, você pode até certo ponto recriar isso.

Esse cenário conflituoso você já tinha retratado em Palestina. Como começou a se interessar por aquela região?

Quando estava no colégio, eu associava palestinos com terrorismo porque toda vez que ouvia falar neles tinha a ver com bombas ou ameaças. Então fui estudar jornalismo, e, quando comecei a entender o que acontecia no Oriente Médio, me dei conta: os americanos sempre se colocaram como os grandes expoentes do jornalismo, mas nunca me contaram direito o que está acontecendo. Eu me senti traído pela minha profissão. Então, nos anos 80, quis tirar essa história a limpo. Não estava certo do que veria, mas achei que podia retratar minhas experiências na Palestina.

E foi daí que veio a ideia de fazer jornalismo em quadrinhos?

Bem, Palestina foi o primeiro exemplo disso. Não estava pensando em criar uma nova… forma de arte ou seja o que for. Não foi uma decisão consciente, foi meio orgânico. Pensei: vou viver essas experiências, falar com as pessoas, anotar e colocar isso junto. É claro, eu tinha o background jornalístico e isso teve impacto no formato que a coisa tomou, mas só depois comecei a pensar mais claramente no que estava fazendo. Foi na história sobre a Bósnia (Gorazde) que comecei a pensar conscientemente em jornalismo em quadrinhos.

Antes disso, quais eram suas influências como quadrinista?

Provavelmente minha maior influência foi Robert Crumb. Meu desenho era meio parecido com o dele e, a certa altura, achei que devia desenhar de maneira mais realista. Não sei, nunca estudei arte, só tentei tornar mais realista. Meus desenhos sempre serão cartuns, porque foi como comecei. Não consigo desenhar melhor do que desenho e está bem assim, acho que está realista o suficiente.

Você teria interesse em criar uma história de ficção?

Sim, tenho grande interesse. Para ser honesto, estou meio cansado de fazer jornalismo. E passei sete anos fazendo esse livro. Há outras coisas que gostaria de experimentar. Algo mais satírico, engraçado, ou um ensaio, teologia, filosofia, não sei bem.

QUEM É

JOE SACCO
JORNALISTA E QUADRINISTA

Nascido em Malta (1960), vive nos EUA. Desenhista autodidata e jornalista por formação, iniciou carreira nas HQs com obras autobiográficas (reunidas em Derrotista) antes de se voltar ao jornalismo – vertente iniciada com Palestina, que lhe rendeu o American Book Award em 1996.

A coluna da semana

“N’um dia, n’uma hora,
No mesmo lugar,
Eu gosto de amar
Quarenta
Cincoenta
Sessenta:
Se mil forem bellas,
Amo a todas ellas.”

Difícil imaginar gracinha similar no século 21: os versinhos acima aparecem na imagem a seguir, cartão de apresentação do escritor Joaquim Manuel de Macedo. Era uma peça de marketing editorial comum em meados do século 19. O autor de A Moreninha é tema da nota de abertura da coluna Babel desta semana, abaixo.

***

[publicada no Sabático de 25/9]

BABEL

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

HISTÓRIA
Livro recupera talento jornalístico de Joaquim Manuel de Macedo

O resultado de extensa pesquisa sobre a produção jornalística do médico e escritor fluminense Joaquim Manuel de Macedo (1820- 1882) chegará às livrarias ainda neste semestre pela Casa da Palavra, sob o título O Rio de Joaquim Manuel de Macedo – Jornalismo e Literatura no Século 19. A obra demandou sete anos de trabalho da jornalista e editora Michelle Strzoda e terá 700 páginas, boa parte ocupada por textos do autor de A Moreninha (1844) nunca antes reunidos em livro. Macedo foi, entre outras coisas, articulista do Jornal do Commercio por mais de 25 anos e criador, com Gonçalves Dias e Manuel de Araújo Porto Alegre, da revista literária Guanabara. Em artigos e crônicas, tratava de temas ainda hoje atuais, como a tentativa de revitalizar a cultura no Centro do Rio e o incômodo com o excesso de mendigos nas ruas. “Ele foi precursor do jornalismo cultural carioca. Sua história serve como fio condutor para entender melhor aquele período”, diz Strzoda.

DEPOIMENTO
Fonseca exalta Bioy
Pouco afeito a assinar textos de apresentação de livros, Rubem Fonseca abriu exceção para Diário da Guerra do Porco, de Adolfo Bioy Casares, que a Cosac Naify lança em outubro. Em alguns parágrafos, conta que leu o romance em 1969 e ainda guarda “forte recordação”. Diz: “Embora A Invenção de Morel seja o livro mais famoso de Bioy, eu ainda prefiro Diário da Guerra do Porco.”

MERCADO
Selo literário
Um novo selo, dedicado exclusivamente à literatura, chegará ao mercado no ano que vem. Dedicado a clássicos e à ficção comercial, ficará sob coordenação de Joaci Furtado, que deixou a Globo Livros em agosto.

PRÊMIO 1
Poetas na final
São de poesia dois dos três finalistas na categoria melhor livro da sexta edição do Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Cultura. Esquimó, de Fabrício Corsaletti, e Monodrama, de Carlito Azevedo, concorrem com o romance Sinuca Embaixo d”Água, de Carol Bensimon. O vencedor será anunciado em 25 de outubro, na Sala São Paulo. Nas edições anteriores, os vencedores foram Leite Derramado, de Chico Buarque (2009), e O Filho Eterno, de Cristovão Tezza (2008).

PRÊMIO 2
E os concorrentes?
Até anteontem, o número de inscritos para os Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional era 20% maior que o total de 2009, quando 332 obras concorreram. Mas, como paga R$ 12.500 para cada categoria – enquanto o Jabuti, por exemplo, fica em R$ 3.000 -, a FBN esperava mais. Tanto que prorrogou o prazo de inscrições para esta segunda (27), pelo site http://www.bn.br.

TEMPORADA
Roteiro de Noll
No mês que vem, João Gilberto Noll intercalará a preparação de seu próximo romance com uma temporada no exterior. Passará dez dias como escritor residente da Universidade de Madison, em Wyoming, e em seguida dará palestras na Universidade de Chicago e na Universidade Nacional do México, na cadeira de Guimarães Rosa.

BEST-SELLER 1
Americana no Brasil
Geneen Roth, autora do best-seller Mulheres, Comidas e Deus, vem ao Brasil em novembro para uma série de eventos. Com 15 mil exemplares vendidos desde julho pelo selo Lua de Papel, da Leya, o livro teve trajetória ainda mais chamativa nos EUA – por lá, lidera desde maio as listas de autoajuda, com 2 milhões de cópias comercializadas.

BEST-SELLER 2
História de cinema
Há 76 semanas entre as ficções mais vendidas nos EUA, The Help, romance de estreia de Kathryn Stockett, sai no fim do ano pela Bertrand Brasil, sob o título A Resposta. A obra aborda a convivência de doméstica negra com dona de casa branca no Sul dos EUA, nos anos 60. Em abril, estreia por lá o filme baseado no livro, com Viola Davis (indicada ao Oscar por Dúvida) e Emma Stone (de Zumbilândia) nos papéis principais.

Febre na selva

Posso explicar os dias ausente. Não há Silêncio Que Não Termine, o livro de Ingrid Betancourt sobre os seis anos e meio em que foi refém das Farc, me caiu nas mãos no sábado de manhã para leitura até ontem cedo – quando transcrevi no Caderno 2 trechos da conversa que tive com ela na segunda à tarde. O volume tem 550 páginas, e confesso que não morri de amores quando soube que teria de atravessar meu final de semana mergulhada num calhamaço assinado por ela.

Para começar, porque histórias envolvendo o nome da Betancourt pós-libertação nunca foram das mais animadoras. Lembrava dos comentários sobre ela ter se colocado em situação de risco consciente disso; das críticas de companheiros de cativeiro (em Out of Captivity, ela é descrita como egoísta e manipuladora); do imbróglio no pedido de indenização que ela fez ao governo colombiano. E também porque a história foi tão repisada (Clara Rojas, assistente que foi sequestrada com Betancourt, foi a primeira a lançar livro a respeito) que começar a ler 550 páginas sobre o tema…

Mas li. E a boa notícia veio já no primeiro capítulo, em que Betancourt descreve sua quarta tentativa de fuga do acampamento dos guerrilheiros, ainda em 2002, primeiro ano do sequestro. A descrição da preparação para a fuga (para acostumar o organismo aos dias em que ficaria na selva sem água limpa, ela se forçou a beber água barrenta ainda no cativeiro); dos detalhes da rotina do acampamento escondido no meio da Floresta Amazônica; da espera pelo lusco-fusco (horário em que “durante alguns minutos, quando os olhos começavam a se adaptar à escuridão, e antes que a noite caísse de vez, todos nós ficávamos cegos”)…  As situações são construídas de maneira tão visual que você não sente as páginas passarem.

Goste-se ou não da Betancourt, é uma leitura interessante. Tenho ressalvas, em especial, à quantidade de críticas que ela faz a Clara Rojas (foi muito falada por aí a parte em que conta que Clara pediu autorização às Farc para engravidar, o que seria colocar a vida de uma criança propositalmente em risco) e ao número de vezes em que, segundo Betancourt, ela própria resolveu sozinha situações difíceis.

De qualquer modo, durante a conversa por telefone, com aquela vozinha tããão delicada que parece que ela vai desmontar se levar um tropeção, quanto mais ficando de refém na floresta, ela disse algo contra o que ninguém do lado de cá da situação pode argumentar: “É fácil dizer ‘ah, que horrível’ quando você está à sua mesa, comendo o que quer, falando com quem quer e indo para a cama na hora em que bem entende”.

Seguem abaixo trechos da conversa, publicados hoje no Caderno 2.

***

Seu livro é muito detalhado nas descrições de situações e diálogos. Escrevê-lo era algo que já passava pela sua cabeça enquanto vivia aquelas situações?

Na floresta, eu sabia que uma coisa que gostaria de fazer após a libertação seria testemunhar o que vivi. Essa ideia me ajudava a ir em frente. Mas, até em fevereiro de 2009, estava apenas vivendo a emoção e a felicidade de estar livre, aproveitando a relação com minha família. Quando senti que voltava a uma rotina normal, sentei em frente a uma escrivaninha para começar. Então fiz uma lista de coisas sobre as quais gostaria de falar. Momentos dos quais me lembrava e não queria esquecer. O fato é que não é um livro cronológico, você começa a ler de uma das minhas tentativas de fuga até minha libertação. E também não quis colocar tudo lá, quis escrever sobre vivências que representaram algo na transformação que experimentei ao longo de tudo aquilo. Houve situações sobre as quais preferi não escrever.

Que tipo de situações?

Uma vez que me lembrava de algo, ponderava se contar aquilo seria decente, no sentido de que há situações que não são bonitas para se trazer à tona, porque não trazem nada que possa enriquecer alguém. Acredito que às vezes, mesmo na dor, há coisas bonitas. E era isso o que queria dividir. Não queria abordar coisas horríveis que não tiveram sentido e que só magoariam as pessoas ao meu redor. Entende? Não queria registrar histórias apenas sujas, que foram pura loucura ou crueldade.

Em vários trechos do livro, você demonstra até carinho por alguns dos guerrilheiros.

Sim. Acho que esse é um livro de amor no sentido fraterno, que é aquele que não espera resposta. É sobre como você pode amar nas situações mais extremas. Vivi isso tudo com a sorte de ter por perto alguns seres humanos incríveis, que me trouxeram nova dimensão para palavras como solidariedade, dignidade, compaixão.

E é curioso porque, ao mesmo tempo, você escreve sobre como odiou aquelas pessoas.

Quando vive uma situação extrema, você tem sentimentos extremos. Então se dá conta de que, por que são extremos, não significa que não possam mudar. Uma das coisas que aprendi foi que você pode odiar alguém por quem tem bons sentimentos. É claro que odiei meus sequestradores, porque eram horríveis, mas, hoje, quando vejo o que aconteceu, sinto compaixão. Entendo o que é a condição humana e como somos levados por coisas que nos controlam, por pressão do grupo, ordens ou pelo fato de odiar outra pessoa não por achá-la horrível, mas porque você precisa disso para se sentir melhor.

Você chegou a se odiar ou ter vergonha de suas atitudes?

Não. (Pausa) Uma coisa que sempre esteve na minha mente, ainda no cativeiro, era que não queria olhar para trás e ter vergonha do que vivi ou fiz. Queria ser capaz de sair da floresta, me olhar no espelho e estar em paz. É claro que tive reações que não foram as melhores. Mas, por toda a jornada que fiz, posso estar em paz comigo.

Você critica atitudes de Clara Rojas e dos prisioneiros americanos… Que, aliás, também criticam as suas nos livros deles.

Sabe o que penso? Penso que somos pessoas feridas. Fomos forçados a viver num espaço restrito, recebendo todo tipo de mensagem para nos afastar, porque as Farc sabiam que, unidos, podíamos tentar fugir ou nos rebelar. Eles vêm fazendo isso há anos, sequestraram milhares de pessoas, sabem como agir. Meu livro é sobre o que vi, o que vivi, como me senti, não é sobre o bem e o mal. Todos éramos bons e maus. Tenho respeito por meus companheiros. Não quero sentir que tenha apontado o dedo a alguém, porque isso eu tentei evitar. Escrevi o que escrevi porque penso que cada um deveria refletir sobre como se comportaria se fosse obrigado a viver o que vivemos. É fácil dizer “ah, que horrível” quando você está à sua mesa, comendo o que quer, falando com quem quer e indo para a cama na hora em que bem entende. E então você vai para a internet dizer todo tipo de coisa estúpida.

Você descreve no livro a origem camponesa das Farc, nos anos 60, e como eram diferentes do que são hoje. É possível apontar um culpado nesse caso?

É simples. As Farc são culpadas do sequestro. Houve todo tipo de especulação sobre quem foi responsável pelo meu sequestro. Os responsáveis foram as Farc, ponto. Agora, como organização, eles fizeram muito mal para a Colômbia. Não responderam de maneira apropriada aos problemas que temos, tornaram-se piores que a sociedade, mais corruptos, mais violentos, mais injustos. Eles ofereceram uma maneira melhor de viver, uma solução para as injustiças sociais. Mas o que vi na floresta foi o contrário. Há uma hierarquia na qual quem está no topo tem uma vida melhor que a de quem está na base. Tem privilégios, dinheiro e abusa do poder.

Como você se sente em relação às reações na Colômbia ao seu pedido de indenização do Estado (Ingrid recuou do pedido de indenização de R$ 14 milhões após receber duras críticas do governo, da imprensa e da opinião pública)?

Eu me sinto muito magoada. É uma ferida profunda. Qualquer vítima de terrorismo tem direito a compensação, não só para ajudar a fechar as feridas como para mostrar o que aconteceu. Como vítimas, temos de ter esse suporte. Se o Estado não pode nos proteger contra o terrorismo, deveria nos ajudar depois. Foi manipulação política. O governo disse que, ao pedir indenização, eu atacava os soldados que me libertaram. Não sei como fizeram essa relação e como as pessoas engoliram isso. Eles mostraram em números quantos salários poderiam ser pagos, dizendo “olha como ela é horrível”. Eu nunca teria aceito viver o que vivi por aquele dinheiro, nem pelo dobro. Nada vai compensar os seis anos e meio longe dos filhos, o momento em que não pude estar com meu pai quando ele morreu, os anos que acabaram com meu casamento, o sofrimento da minha mãe. Nada vai me compensar isso.

A coluna da semana

[publicada no Sabático de 18/09]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

PATRIMÔNIO
Preciosidades no acervo pessoal de poeta paulistano
Morto em 2008, aos 81 anos, o poeta paulistano Cyro Pimentel – membro da segunda geração simbolista brasileira e da Academia Paulista de Letras – deixou acervo de 2.700 itens cujo conteúdo só agora foi conhecido pela família. Livros e revistas de sua biblioteca particular, recortes de críticas feitas por ele para jornais, cartas e fotos estavam estocados em três quartos do apartamento onde mora a viúva, em São Paulo, e foram garimpados nos últimos sete meses pela bibliotecária Valquíria Pimentel, sobrinha do poeta elogiado por Augusto de Campos. O material inclui raridades como uma edição artesanal, feita em Barcelona, de O Cão Sem Plumas (1950), de João Cabral de Melo Neto, e uma primeira edição das Poesias Reunidas (1945), de Oswald de Andrade, ilustrada por Tarsila do Amaral – ambos com dedicatória. “Ele sempre teve ciúme dos livros, não deixava que ninguém os consultasse”, diz Claudia Marchetti, filha do imortal. Parte do acervo será leiloada em novembro, e o restante, doado a uma universidade e a bibliotecas públicas.

TRADUÇÃO
Finalista do Booker
Long Song, romance com que a inglesa Andrea Levy concorre ao Man Booker Prize, teve os direitos adquiridos pela Nova Fronteira – editora que publicou da autora o livro A Pequena Ilha, vencedor do Orange. A nova obra aborda uma rebelião de escravos em 1832 na Jamaica, terra dos pais de Levy.

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Nas duas principais casas de aposta inglesas, a Ladbrokes e a William Hill, Long Song aparece em quinto lugar na cotação entre os seis concorrentes ao prêmio, a ser anunciado em 12 de outubro. Room (Emma Donoghue) e C (Tom McCarthy) lideram as apostas em cada uma das casas.

INTERNET
Experiências literárias
The Novel: Live! é o nome de uma maratona que reunirá 36 autores de língua inglesa, incluindo best-sellers, para criar um romance em seis dias, de 11 a 16 de outubro. Cada um escreverá uma parte. A obra será vendida no formato digital, e o dinheiro arrecadado, doado a ONGs. Leitores poderão ver cada passo da escrita em http://www.thenovellive.org.

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Experimento similar, apoiado por instituições culturais, terá início em janeiro, em língua espanhola, sob o nome To Be Continued. Um autor de renome fará o capítulo inicial, a partir do qual internautas tentarão escrever os seguintes – a escolha será feita por votação e por um editor. Só dois outros capítulos serão escritos por autores conhecidos. O livro sairá em digital e papel.

CORRESPONDÊNCIA
Cartas de Moravia
Quarenta cartas inéditas de Alberto Moravia (foto; 1907-90) são o filé mignon de Alberto Moravia Lettere ad Amelia Rosselli. Con Altre Lettere Familiari e Prime Poesie (1915-61), lançado na Itália pela Bompiani. Tais cartas foram enviadas de 1920 a 28 à tia do autor, dramaturga que o influenciou. Abordam inquietações do rapaz, suas leituras, seu desgosto com o fascismo e a gestação de Os Indiferentes – que, em 1929, o tornaria famoso.

INTERNACIONAL
Choque de gerações
Previsto para janeiro na Inglaterra e nos EUA, Battle Hymn of the Tiger terá edição nacional pela Intrínseca. Na obra, a chinesa Amy Chua, professora de Direito de Yale, aborda a experiência de ter criado as filhas, nos EUA, ao modo chinês tradicional: pouca liberdade, nenhum elogio, muita prática de piano. O resultado? Uma filha conservadora e outra totalmente rebelde.

BIOGRAFIA
Betancourt no Brasil
Ingrid Betancourt, ex-refém das Farc, vem ao País no início de novembro para falar sobre sua biografia Não Há Silêncio que Não Termine (Companhia das Letras). Ela dará uma passada em São Paulo ainda neste mês, mas só para um evento fechado.

FLIP
Troca de guarda
A curadoria da Flip passa por reestruturação para 2011. Flávio Moura, que assumiu a coordenação de internet do Instituto Moreira Salles, deixa a direção de programação. Mas continuará vinculado ao evento, atuando em projetos culturais de longo prazo.

Colaborou Luiz Zanin Oricchio

Outros ares

A curadoria da Flip 2011 está passando por uma reestruturação.

Diretor de programação das três últimas edições da festa literária, Flávio Moura não ficará responsável pela curadoria do evento no ano que vem.

Há algumas semanas, ele assumiu o cargo de coordenador de internet no Instituto Moreira Salles – no lugar do escritor Michel Laub.

Moura continuará ligado à Flip, mas envolvido com projetos culturais de longo prazo.