Escreva um romance em novembro

Segunda, dia 1º, é dia de começar um romance. A convocação não é minha, é do National Novel Writing Month, que sugere a internautas que escrevam uma ficção de 175 páginas, ou 50 mil palavras, até o dia 30.

Trata-se, segundo o site, de um “exercício de entusiasmo e perseverança” – direcionado a pessoas que sempre têm ideias para escrever, mas desistem ao pensar no tempo e no esforço envolvidos. A edição do ano passado – a 11ª desde o início do NaNoWriMo, em 1999, com apenas 21 participantes – reuniu mais de 165 mil candidatos a escritores de vários países (é internacional, apesar do nacional no nome). Desse número, mais de 30 mil pessoas, dizem eles, chegaram à 50.000ª palavra antes da meia-noite do dia 30.

Se ficaram bons os romances? Não interessa.

Devido à janela de tempo limitada para a escrita, a ÚNICA coisa que interessa é a iniciativa. Tem a ver com quantidade, não qualidade. A abordagem kamikaze força você a baixar suas expectativas, assumir riscos e escrever. Não se engane: você vai escrever muita porcaria. E isso é bom. Ao se forçar a escrever tão intensamente, você dará a você a chance de errar. De abandonar ajustes infinitos e edição e apenas criar. De construir sem derrubar“.

E o prêmio pra quem conseguir chegar ao fim é…

O prêmio é o aprendizado, e trate de ficar feliz com isso. Ou seja, não vale pegar um texto já iniciado porque daí o exercício não surtirá efeito. Não sei dizer se o método funciona, já que não tento escrever nada de ficção desde que saí da adolescência (entre outras coisas, até os 15 anos tentei um romance regionalista à José Lins do Rego, embora sempre tivesse vivido em Petrópolis, RJ; uma ficção científica à Isaac Asimov, apesar de não saber nada de astronomia e física; um romance político baseado nos acontecimentos de 1992, que eu anotava numa agenda. Desnecessário dizer que nada funcionou).

Fiz meu cadastro apenas pra ver como é o programa, mas a página, abaixo, ainda não aparece na íntegra. Só no dia 1º. Mas dá pra ver que tem um esquema de Writing Buddies, pessoas com quem você pode trocar ideia ao longo da escrita (a.k.a. procrastinar), o que é sempre bom.

 

Acho difícil acreditar que alguém que leia este post vá tentar a sério. Mas, se por acaso resolver experimentar, depois me conta como foi. Lembro que não é possível se inscrever depois de 0h deste domingo para segunda, dia 1º.

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Rede poética

[texto publicado no Sabático de 23/10]


Poesia em gif animado de Marcelo Sahea

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As várias faces da (web) poesia

O uso da internet pelos novos poetas entra na reflexão sobre o gênero

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Questão inimaginável para gerações anteriores da poesia, o arquivamento da produção espalhada por sites, blogs e redes sociais hoje merece reflexão. Afinal, na década em que os diários virtuais se popularizaram no Brasil, boa parte dos versos disponibilizados online nunca chegou ao papel – um dos motivos pelos quais é tão pouco estudada a poesia feita na última década. “Torna-se difícil mapear a produção ciberpoética se não tivermos uma estratégia de preservação para arquivar o material que existe na internet”, diz o cearense Aquiles Alencar Brayner, curador do acervo latino-americano da British Library, no Reino Unido. Prestes a concluir mestrado sobre arquivos digitais, Brayner dará palestra a respeito na terceira edição do Simpoesia, encontro internacional que acontece do próximo dia 5 ao 7 na Casa das Rosas, em São Paulo.

O evento é apenas um dos sinais da atenção para este cenário num momento em que os e-readers começam a chegar a País, trazendo possibilidades de experimentação – assim como a literatura infantil, a poesia é um dos gêneros que mais têm a se beneficiar com as novas tecnologias. Nos dias 13 e 14, o festival literário Artimanhas Poéticas, no Rio – que incluirá apresentações de videopoesia e performances – levantará o debate A Poesia Escrita em Outras Esferas, com a estudiosa Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da Enter Antologia Digital, e os poetas Gabriela Marcondes e André Vallias.

O encontro com a tecnologia é um fenômeno muito anterior à internet, embora tenha encontrado nela seu meio mais propício. O recém-lançado Poesia Digital – Teoria, História, Antologias (Fapesp/Navegar, R$ 30, 80 págs. + DVD), fruto de mapeamento realizado por Jorge Luiz Antonio, pós-doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, volta mais de 50 anos no tempo para encontrar as origens da poesia eletrônica. A primeira experiência do gênero, segundo o autor, foi publicada em 1959 pelo alemão Theo Lutz. Chamada Stochastische Texte, pegava as cem primeiras palavras de O Castelo, de Kafka, e criava novos textos a partir delas, usando um programa de computador que produzia frases na estrutura do idioma alemão. “Estava ali a origem dessa produção que tem forte relação com a arte, com o design e com a tecnologia, e que é um desdobramento das poesias de vanguarda, visual, concreta, experimental”, diz Antonio.

A poesia que se encontra na internet hoje permite enxergar pelo menos dois grandes grupos, embora eles não raro se confundam. “De um lado estão os herdeiros do concretismo, que ampliaram propostas idealizadas pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari”, diz Antônio Vicente Pietroforte, professor de letras, semiótica e linguística da USP (Augusto de Campos, por sinal, teve o primeiro contato com um Macintosh em 1984). “Outra vertente, que usa a rede mais como ambiente de difusão, tende a uma abordagem mais coloquial, influenciada pela música pop, pelos beats, pelos poetas marginais e pela literatura periférica.”

É nesse segundo grupo que está a maior parte da atual produção de poesia online no País – que, mesmo sendo tão ampla, permite o reconhecimento de alguns poetas, em especial ligados aos eventos literários. Caso da curadora do Simpoesia, Virna Teixeira, que estreou em 2004 o blog Papel de Rascunho (papelderascunho.net). Embora já tivesse sido publicada, foi depois da investida virtual que ficou mais conhecida pelo empenho em difundir a poesia e a tradução – ela comanda hoje um selo artesanal, o Arqueria Editorial. No blog, que recebe média de 200 visitas por dia, publica poemas próprios, mas também trabalhos de outros autores, imagens, frases e áudios, “como se fossem recortes”. “Hoje é mais fácil ter um livro editado, mas as casas tradicionais ainda resistem a lançar poesia. Quem faz isso são as pequenas, que têm distribuição limitada. A internet revelou um número de leitores muito maior do que se podia supor.”

A paulistana Adriana Zapparoli estreou o blog zênite (zeniteblog.zip.net), em 2004, três anos antes de publicar o primeiro livro, A Flor-da-Abissínia (Lumme). “Coloco lá textos referenciais de intenções líricas. Muitas das minhas publicações em revistas literárias impressas ou online são sugestões vindas da leitura do conteúdo do blog”, diz. O uso da tecnologia como linguagem, afirma, não lhe interessa. “Já me aventurei em recursos do gênero, mas prefiro a sensação perene da impressão, a coisa do papel. Gosto da textura, das cores, quase que um quadro”, diz. Vantagem maior da internet, para ela, é conhecer de perto o trabalho de poetas de outros países, algo hoje muito mais fácil do que foi para gerações passadas – a paulistana Ana Rusche, por exemplo, que organiza em São Paulo o evento literário Flap! e edita o blog Contrabandistas de Peluche (www.anarusche.com), chegou a ter livro publicado no México por conta de contatos feitos online. Experiência similar, mas dentro mesmo do País, viveu o poeta e tradutor Cláudio Daniel, editor da revista Zunái (www.revistazunai.com), uma das principais referências de poesia na internet. “Tenho 48 anos, mas só fui conhecer poetas da minha geração, como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes, pela rede. Foi só então que nossa geração passou a conversar e organizar revistas.”

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Trabalho em animação de André Vallias


Recursos. Jorge Luiz Antonio lembra que mesmo a poesia focada no verbal sofre interferência dos meios tecnológicos. “Até a temática acaba influenciada pelas tecnologias, numa espécie de metalinguagem”, argumenta. Mas é entre os herdeiros dos concretistas que isso se destaca mais – em seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, de 2002, o carioca Márcio André (www.marcioandre.com) chegou a usar códigos de HTML, com suas barras e tags, em meio aos versos, como conteúdo do texto.

André Vallias, editor da Errática (www.erratica.com), foi um dos pioneiros no Brasil no uso de computador em poesia – no início dos anos 90, quando os PCs ainda eram peça rara no Brasil, o jovem formado em direito teve contato, na Alemanha, com tecnologias que não existiam por aqui. “Nunca quis fazer poesia simplesmente escrita”, diz. Naquele momento, a divulgação era feita apenas por CD-ROM, limitação superada com a internet.

O interesse em explorar as possibilidades da web – em 1995, já produzia trabalhos em flash, com animação e áudio – o levou também a questionar o formato de revistas literárias online. “Muita gente fazia revista de poesia na internet, mas com o mesmo padrão da revista impressa. Ou seja, acumula uma série de trabalhos e faz por edição, a cada dois meses. Achava que essa limitação era inadequada”, conta. Fez da Errática uma espécie de blog com visual de site, tomando como base a revista Artéria – criada em 1975, com diferentes formatos a cada edição, chegou até a sair no formato de uma sacola, com os poemas de diferentes proporções dentro. “Aquela década foi muito fértil, com publicações impressas que superavam dificuldades. A Errática aplicou esse mesmo princípio na internet, sem obrigar cada trabalho a ter o mesmo padrão”, conta. Na última quarta-feira, entrou no ar a 101ª colaboração, um videopoema da carioca Gabriela Marcondes feito a partir de fragmentos de poesias de nomes como Cruz e Sousa, Florbela Espanca e Machado de Assis.

Performance. Assim como Vallias, o carioca Marcelo Sahea (www.sahea.net) dedica boa parte de seu trabalho à performance – uma espécie de caminho natural para o poeta que antecipa tendências e engloba gêneros. Autor de um e-book lançado em 2001, quando nem se falava no assunto, e que teve à época 15 mil downloads (no formato tradicional de PDF), hoje ele prefere apresentar sua poesia sonora ao vivo. Na avaliação de Vallias, essa tendência deriva das possibilidades virtuais – ler um poema ao mesmo tempo em que se ouve a voz do poeta, por exemplo. “A rede liberou a poesia da literatura. Há uma falsa impressão de que a poesia pertence à literatura, mas, na maior parte das culturas, a poesia oral é a fonte de perpetuação de mitos”, diz.

Uma entre os poucos estudiosos da poesia digital no Brasil, Heloisa Buarque de Holanda avalia que a crítica faz “pouco caso” das novas linguagens. “Como se vê mais quantidade que qualidade, imagina-se que não tem profundidade”, diz. Em 1998, o poeta e antropólogo Antônio Risério fez um estudo pioneiro desse trabalho, o Ensaio Sobre o Texto Poético em Tempo Digital. Doze anos depois, ele admite ter conhecido muito pouco “realmente digno de interesse”. “A maioria se senta diante do computador como se estivesse diante do papel e da velha máquina de escrever. Não se entrega ao novo meio. Os que fazem isso, como Arnaldo Antunes e André Vallias, vêm de antes da existência de blogs e revistas eletrônicas”, diz.

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Poema de Márcio André

A coluna da semana

Quando fechava a Babel, esbarrei num “scroll painter” pra definir o ilustrador da HQ I See the Promised Land. O cara é indiano, artista patuá que faz scroll painting. Depois de tentar as versões possíveis pelo dicionário, joguei no Twitter a pergunta sobre qual a melhor tradução, e Marina Della Valle, ótima tradutora, jornalista e amiga (e poeta nas horas vagas), sugeriu “pintor de pergaminhos”, enquanto o Mag, meu ex-editor na Ilustrada, super entendido de artes, achou que o mais próximo seria “pintor de rolo”.

Fui tirar a dúvida com o Toninho, repórter de literatura e artes plásticas do Estadão, e a resposta foi curiosa: “Considerando a que se refere, a tradução mais correta seria ‘pintor de rolo’, só que o termo não existe.” Depois foi na minha mesa e me pediu pra olhar no Google Images. Perguntou se era importante entrar nesse nível de detalhe. Era – trata-se de HQ escrita por cantor de blues, com gírias negras americanas, e ilustrada com pintura de rolo asiática (termo que acabei usando), e as duas formas narrativas tão diferentes juntas é o mais bacana da HQ.

Enfim. A notinha taí embaixo, junto com a coluna Babel publicada no Sabático deste 23/10. Se alguém tiver sugestão melhor de tradução, só falar.

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BABEL

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

PARCERIA
Fotografia latino-americana tem projeto internacional
A Cosac Naify fechou acordo com a mais importante editora americana de fotografia, a Aperture, e a editora de arte mexicano-catalã RM para um ambicioso projeto de fotografia latino-americana. Em parceria, as três editoras lançarão em outubro do próximo ano um volume sobre os melhores livros latino-americanos de fotografia, abrangendo período de 1930 a 2010. Coordenada pelo crítico espanhol Horacio Fernández, a pesquisa está em andamento há três anos e conta com participação de um dos mais celebrados fotógrafos do mundo, Martin Parr, autor do primeiro grande livro nesse gênero (Photobook, lançado pela Phaidon em 2004 e que engloba livros de fotografia de todo o mundo), do fotógrafo argentino Marcelo Brodsky e do brasileiro Iatã Canabrava.

ANTOLOGIA
Contos pan-americanos
O agente literário francês radicado no País Stéphane Chao lança em dezembro obra que lhe tomou quatro anos, Antologia Panamericana. Tem textos de 48 autores de 30 países das Américas, de nomes célebres, como Richard Ford e Mario Benedetti (ainda vivo quando Chao iniciou o projeto) a escritores de países como Curaçao e Belize.

DIGITAL
Aposta no áudio
A Rocco lança neste ano o selo Rocco Digital, pelo qual sairão seus primeiros audiolivros. Abrirão o segmento os dois títulos iniciais da série Harry Potter, além de obras de Clarice Lispector e dos livros Eu Que Amo Tanto, de Marilia Gabriela, e Fala Sério, Mãe, de Thalita Rebouças – os dois últimos narrados pelas autoras. O selo englobará ainda e-books, com foco em escritores nacionais, como Adriana Lisboa e Silviano Santiago.

INFANTIL
Madonna para crianças
A editora Nossa Cultura comprou os direitos de 6 dos 12 livros da série infantil As Rosas Inglesas, escrita por Madonna e ilustrada por Jeffrey Fulvimari. Os títulos saem por aqui a partir do ano que vem. Publicados entre 2007 e 2008, sucederam livro homônimo de 2003 publicado pela Rocco e no qual a cantora registra a história de quatro meninas que têm inveja de uma vizinha.

GRAPHIC NOVEL
Ativista ilustrado
A graphic novel I See The Promised Land (imagem), sobre Martin Luther King, sai pela WMF Martins Fontes na segunda metade de 2011 – nos EUA, está prevista para o próximo mês de dezembro. Com roteiro do cantor de blues americano Arthur Flowers e ilustrações do indiano Manu Chitrakar, une tradições de narrativa, com as gírias negras dos EUA e pintura em rolos da Ásia.

ESTREIA
Romance de produtor
Terêncio Porto, um dos idealizadores e produtor executivo do Larica Total – sucesso de crítica e audiência do Canal Brasil -, estreia em romance em janeiro pela novata editora Flâneur. Em Só, Atrás do Ouro, narra os aprendizados pessoais de um cineasta durante um retiro numa pacata cidade.

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A Flâneur estreia em novembro, com Ninguém Muda Ninguém, autobiografia artística do quadrinista André Dahmer, que pintou cada capa de tiragem especial de 600 livros.

HOMENAGEM
A vez da poesia concreta
Celebrado ao longo de 2010 por conta de seus 80 anos, Ferreira Gullar estará no Fórum das Letras de Ouro Preto (de 10 a 15 de novembro). A homenagem da vez, porém, ficará para antigo desafeto dele, o também poeta Décio Pignatari – Gullar rompeu com os concretistas em 1957. Pignatari participará de recital com a presença de Edney Silvestre, Carlito Azevedo, Frederico Barbosa e Adriano Botelho.

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Com a programação quase fechada, Guiomar de Grammont, organizadora do evento, participa do 9.º Bellas Latinas, em Paris. Divide mesa com o sociólogo Edgar Morin

Dominó de papel

A rede Bookmans, que vende no Arizona livros, filmes, instrumentos musicais, eletrodomésticos e bugingangas usados, lançou na semana passada esse vídeo, com a proposta de “evocar o sentimento de se sentir envolvido com a leitura a ponto de esquecer o burburinho do resto do mundo”.

A produção exigiu 14 horas entre preparação e filmagens e, ao divulgá-lo, o site da rede descreveu: “Foi um projeto e tanto, e Harrison, nosso produtor de mídia que já trabalhou com cachorros, crianças e adultos, disse: ‘Livros são de longe os atores mais difíceis de se lidar.” Dá pra acreditar, vendo o vídeo.

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(Aparentemente, o vídeo não aparece pra quem usa Firefox, confere?  Nesse caso, segue aqui o link)

Vozes dissonantes

Da trinca dos principais escritores israelenses vivos, eu já tinha conversado – no ano passado, quando ainda estava na Folha – com o David Grossman, por conta do livro A Mulher Foge, e, neste ano, com o A.B. Yehoshua, por conta da vinda dele para a Flip e do lançamento do livro Fogo Amigo.

Amós Oz era o único que, além de tudo, eu não tinha lido, apesar de ele ter sido o primeiro dos três a participar da Flip, ser sempre citado como O maior nome da literatura produzida em Israel e ser também o mais lembrado nas indicações para o Nobel. Uma Certa Paz, de 1982, é um bom livro (dizem que A Caixa Preta, de 1993, é o melhor). Mas confesso que, na minha lista de preferências dentre os romances dos três, Grossman ainda ganha disparado com A Mulher Foge, um dos melhores da vida.

Segue, abaixo, o texto publicado no Sabático de 16/10 a partir da entrevista.

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Vozes dissonantes na construção de um estado em conflito

Em Uma Certa Paz, lançado em 1982 e que só agora chega ao Brasil, Amós Oz, o maior nome da literatura israelense, revê momento em que a realidade supera ideais na história de seu país

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Depois da criação do Estado de Israel, nada mais seria igual – nem mesmo o amor. A declaração, feita por um teórico do sionismo em 1948, foi publicada num artigo de jornal israelense poucos meses antes daquele histórico episódio e ficou guardada na memória do escritor Amós Oz, hoje com 71 anos. Ele tinha apenas 9 anos quando a leu.

A assertiva está na base de Uma Certa Paz, obra que, lançada em 1982 e enfim traduzida no Brasil, figura entre as mais importantes do principal nome da literatura israelense. Com narrativa centrada entre 1965 e 1967, período imediatamente anterior à Guerra dos Seis Dias, o romance aborda um momento em que a distância entre os ideais e a realidade tornava-se cada vez mais perceptível para os filhos dos pioneiros de Israel. “A guerra contra os países árabes em 1967 transformou o novo Estado de maneira radical”, diz o autor em entrevista por telefone ao Sabático, de Tel-Aviv, onde estava na última quinta-feira, prestes a viajar para um book tour pela Europa. “Os conflitos já existiam, mas Levi Eshkol (primeiro-ministro de 1963 a 1969) amava a paz, acreditava nela. Foi depois da guerra que Israel desenvolveu o apetite pelos territórios ocupados e a fixação pela força militar como meio de conquistá-los.”

Oz constrói nesse ambiente de tensões pré-conflito uma história de “amor, solidão, desejo e desespero”, em suas próprias palavras. Na narrativa, Ionatan Lifschitz, de 26 anos, filho do líder de um kibutz próximo à fronteira com a Síria, planeja deixar para trás a mulher, Rimona, e a rotina monótona da comunidade rural. Está cansado do círculo social que cerceia seus interesses e tomado pela sensação de que há muito a conhecer. A decisão é anunciada já nas duas primeiras frases do romance (“Um dia um homem se levanta e muda de um lugar para o outro. O que ele deixa para trás de si fica para trás e só lhe vê as costas”), contudo o caminho até sua concretização, durante úmido e rigoroso inverno, toma quase as duas primeiras centenas de páginas. Enquanto não leva a cabo o projeto, Ionatan conhece o jovem Azaria Guitlin, que faz o caminho inverso – socialista convicto, saído de Tel-Aviv, pretende tornar-se parte daquela comunidade igualitária e democrática. Quando Ionatan enfim se vai, Azaria assume sua casa e sua mulher na expectativa sincera da volta do amigo.

Nove anos mais velho que o Estado de Israel, Amós Oz descreve no romance cenário que lhe é muito familiar. Em 1954, aos 14, dois anos após a morte da mãe, o descendente de russos nascido em Jerusalém deixou a casa do pai em busca de vivências radicais no kibutz, assim como Azaria. Também à semelhança do personagem, é aficionado por Espinoza (1632-1677), filósofo em que se especializou na Universidade Hebraica de Jerusalém. Azaria, incansável conversador, encaixa onde pode ideias do racionalista. “Há mil anos Espinoza escreveu que só com generosidade e amor pode-se conquistar o próximo”, argumenta numa de suas primeiras aparições, na tentativa de convencer Iulek, pai de Ionatan, a deixá-lo ficar na comunidade.

Polifonia. Oz viveu no kibutz de Hulda, onde se casou e teve três filhos, por mais de 30 anos. Trocou a comunidade pela pequena cidade de Arad em 1986, quatro anos depois de descrever a partida de Ionatan em Uma Certa Paz, mas os motivos foram menos emocionais – àquela altura, o filho caçula sofria de asma e foi preciso procurar lugar de clima mais ameno. No livro, à chegada de Azaria e à partida de Ionatan, Oz contrapõe os olhares de Iulek e de sua mulher, Chava, entre outros. “Construí um romance polifônico, mas permaneço por trás de cada uma daquelas vozes. É uma convivência que conheço de dentro para fora, as fofocas, os hábitos, a ideologia.”

Os diferentes pontos de vista ajudam a compor esse ambiente bucólico, que se desenvolve perto das ruínas de uma aldeia árabe construída no século 8.º e destruída por ocasião da declaração de independência de Israel. “No alto da colina (…), erguiam-se as ruínas de Sheikh-Dahar: paredes partidas, encarvoadas pelo fogo (…). E elevando-se acima de tudo a mesquita amputada, que foi ceifada, assim se conta entre nós, por um preciso obus de morteiro disparado pelo comandante do Palmach durante a guerra da independência”, descreve o romance.

Entre a promessa de uma vida comunitária e as ruínas, equilibram-se os sonhos de Azaria e as desilusões de Ionatan. Quando Azaria tenta argumentar sobre a ordem obrigatória e fixa da realidade, o amigo interrompe os devaneios filosóficos justamente com a crueza da realidade. Lembra que, num ataque ao Exército sírio, ele e outros soldados israelenses levantaram um cadáver cortado pela metade, acomodaram a parte da barriga para cima no banco do motorista de um jipe, com mãos no volante, e lhe enfiaram um cigarro aceso na boca. “Até hoje entre nós isso é considerado uma piada da qual nos lembramos e rimos. O que seu Espinoza diria sobre isso? Que somos lixo? Animais selvagens?”, provoca Ionatan. A questão é que Azaria, como percebe o líder Iulek, é um “jovem nascido na geração errada”. Acredita na justiça e na paz, porém Ionatan já viveu conflitos o suficiente para pensar de outra forma.

Manifestos. Amós Oz diz que Uma Certa Paz é, acima de tudo, sobre “o amor de dois jovens homens e uma mulher”. Costuma repetir que não é sociólogo para generalizar os traços de uma geração, embora não resista a identificar aqui e ali características comuns a jovens israelenses em diferentes períodos da história. “Ionatan vive sob a sombra de ser filho de um líder, de um fundador de Israel, e de pensar diferente, mas não se pode dizer que ele reflita o que a juventude sentia”, minimiza, para pouco depois concluir: “Os pais e mães fundadores de Israel, a geração dos personagens Iulek e Chava (mãe de Ionatan), eram notáveis, poderosos, até despóticos, mas também idealistas. Não vejo algo similar na Israel do futuro.” Nem mesmo na literatura, onde em seu país se destacam hoje escritores como o best-seller Etgar Keret, autor de romances e graphic novels em que a política não é prioritária: “Tenho a impressão de que os escritores e poetas mais jovens estão mais preocupados com suas vidas de cada dia do que com a vida do país”, sentencia.

O autor de Não Diga Noite (1997) e A Caixa Preta (2003) nunca gostou de críticas que veem alegorias sociais e políticas em sua ficção. “Meus romances não são manifestos políticos”, reclama. “O que acontece é que minha literatura envolve personagens com forte senso de política, de forma que esse caráter acaba ressaltado. Azaria é o maior portador dessa característica nesse romance, no entanto, as opiniões dele e dos outros personagens não são as minhas.” Pensamento diverso do de Oz também tem no romance o músico Srulik, que sucede Iulek no comando do kibutz. Pouco antes de assumir o cargo, o personagem reflete: “Nunca acreditei de verdade que um judeu seja capaz de se assimilar com sucesso total.” Mas é Srulik o único capaz de entender como dialogam as vozes do kibutz, como analisa o autor: “Ele tem o ouvido musical para perceber de que maneira as conflitantes vozes do romance se tornam harmônicas.”

Se diz não fazer manifestos na literatura, Oz é pródigo em ensaios nos quais analisa a questão árabe-israelense – além dos livros publicados, de tempos em tempos resolve enviar para jornais israelenses artigos sobre questões que lhe chamam a atenção, devidamente reproduzidos em veículos como o New York Times e o Guardian. Um dos primeiros integrantes do movimento Peace Now, defensor da coexistência de dois Estados em Israel, o autor tem plena consciência de que é sobre os conflitos que se espera que fale e são mesmo eles que mais o fazem se estender em argumentos. “Tenho noção da injustiça e isso me causa grande revolta. Fico aborrecido com as lideranças de Israel e da Palestina porque ambas sabem que a única solução é a criação de dois Estados, mas não fazem nada por isso.”

A coluna da semana

[publicada no Sabático de 16/10]

BABEL

INÉDITO
A poesia concreta do dramaturgo tcheco Václav Havel

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

Uma série de poemas concretos e experimentais do dramaturgo, ensaísta e ex-presidente (1993-2003) checo Václav Havel, publicada a partir de 1964, ganhará a primeira versão para o português em edição do selo Demônio Negro, da Annablume. Anticódigos, rara e pouco conhecida incursão do escritor de 74 anos na poesia, tem previsão de sair até o fim deste ano com tradução da checa Eva Batlickova. O volume incluirá ainda duas peças do autor também inéditas no Brasil, Banquete no Jardim, de 1963, e Largo Desolato, de 1964. O dramaturgo, que se tornou ícone da Revolução de Veludo de 1989 na Checoslováquia, ao defender a resistência não-violenta, teve editado por aqui apenas o volume Cartas a Olga (Estação Liberdade, 1992), contendo a correspondência enviada para a mulher no período em que esteve preso. Lembrado várias vezes para o Prêmio Nobel de Literatura – inclusive neste ano, vencido por Mario Vargas Llosa -, Havel foi o responsável pela indicação que rendeu ao dissidente chinês Liu Xiaobo o Nobel da Paz de 2010.

LITERATURA TURCA
O museu de Pamuk
A Companhia das Letras adquiriu, em Frankfurt, os direitos do próximo livro de Orhan Pamuk, A Strangeness in My Mind, sobre um vendedor de rua de Istambul. Ainda do ganhador do Nobel de Literatura de 2006, na semana que vem a editora lança a coletânea de ensaios Outras Cores.

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Para 2010, está previsto o lançamento de Museu da Inocência, de 2008. O escritor turco está envolvido num projeto relacionado a esse romance. Pretende inaugurar em Istambul, ainda este ano, museu homônimo que represente “poeticamente” a cultura de sua cidade de 1950 até hoje, por meio de objetos, fotografias, pinturas e filmes.

HISTÓRIA
Paris underground
Espécie de biografia underground da capital francesa, Paris: Secret History, do historiador Andrew Hussey, foi comprada pela Amarilys. O livro narra a trajetória da cidade por meio de seus moradores mais gauche, da Queda de Bastilha aos atuais tumultos étnicos. Professor de francês da Universidade de Gales, Hussey já fez minucioso retrato da Paris do pós-Guerra em elogiada biografia do pensador Guy Debord.

MUDANÇA
Indiana de casa nova
Ganhadora do Booker Prize em 2006, a indiana Kiran Desai, que esteve na Flip 2007, vai trocar de editora no Brasil. Da Alfaguara, que lançou o premiado O Legado da Perda, ela passou para a Companhia das Letras, que lança no próximo ano o ainda inédito The Loneliness of Sonia and Sunny.

PROJETO
Só para mulheres
Autora de livros juvenis e das memórias The Slippery Year, best-seller nos EUA, Melanie Gideon teve seu primeiro romance adulto, Wife 22, comprado pela Intrínseca ainda em fase de projeto. O livro trata de uma mulher de 40 anos cujo casamento está em crise e fica pronto só no ano que vem, mas já teve os direitos adquiridos pela produtora inglesa Working Title, que tem no currículo longas como Bridget Jones e Quatro Casamentos e Um Funeral.

INFANTIL
Acordo internacional
A editora inglesa de infantis Usborne fechou acordo com a Nobel, que tem 200 lojas pelo país, para distribuição de seus títulos traduzidos para o português. A previsão do gerente de edições internacionais, Jilly Black, é que 50 deles cheguem ao mercado só em 2010, a partir de maio. As tiragens serão de 3.000, mas a editora espera conseguir adoção por escolas públicas.

Colaborou Ubiratan Brasil, de Frankfurt

Todos os meus amigos…

Na Amazon, o livro All My Friends Are Dead é descrito como um “delicioso guia para rir do inevitável”.  Eu colocaria na categoria “ficar de coração partido”, mas o GIF é fofo.

Roubei do Trabalho Sujo, do Alexandre Matias.