No mercado, mais e melhores títulos

A reportagem abaixo saiu neste último sábado, dia 28, como parte do material de capa do Sabático sobre literatura infantil, acompanhando texto do Toninho feito a partir de entrevista com o teórico Peter Hunt. A foto é do Robson Fernandes/AE e foi feita na Biblioteca Monteiro Lobato.

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No mercado, mais e melhores títulos

Compras do governo brasileiro ajudaram a aquecer o setor, atraindo editoras e livrarias para produtos de qualidade

RAQUEL COZER

O boom de séries como Crepúsculo e Percy Jackson colocou o filão literário juvenil entre os mais visados desta década, o que ajudou a encobrir, para o público em geral, a percepção de outro crescimento significativo no setor editorial do País – o da literatura para crianças.

Uma análise das últimas quatro pesquisas anuais de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, conduzidas pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), dá essa dimensão. Em 2006, editoras brasileiras colocaram no mercado 321 milhões de exemplares de livros, número que passou para 386 milhões em 2009 – aumento de cerca de 20%. A literatura juvenil foi a que mais engrossou no período (256%), seguida da infantil (124%). Ainda assim, a produção de obras literárias para crianças (28,7 milhões de exemplares em 2009) permanece à frente das obras para jovens (26,8 milhões).

Hoje, só livros didáticos e religiosos são mais produzidos que os de literatura infantil no País, mas o fenômeno é recente. Até o ano retrasado, o terceiro lugar era da literatura adulta, cuja produção teve queda de 6% desde 2006.

Para quem acompanha de perto esse cenário, os números não chegam a surpreender. Historicamente dominado por empresas que também editam didáticos, como Ática e Moderna, o mercado de literatura infantil ganhou variedade e qualidade nas últimas décadas, quando passaram a se dedicar à área editoras já estabelecidas com catálogo adulto, como Martins Fontes (nos anos 80), Companhia das Letras (nos 90) e Cosac Naify (anos 2000), e chegaram outras especializadas nesse público, como Brinque-Book e a espanhola SM.

A grande virada aconteceu depois que, em 1997, o Ministério da Cultura criou o Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE), pelo qual o governo passou a adquirir enormes quantidades de títulos literários. Os critérios foram (e ainda são) muito questionados. A princípio, pouquíssimas editoras emplacaram dezenas de títulos. Com o tempo, restringiu-se o número de obras por editora, mas então algumas das maiores passaram a concorrer com títulos espalhados por diferentes registros de empresa.

Ainda assim, a simples possibilidade de concorrer a uma das generosas tiragens da compra federal estimulou os grupos a editarem mais e melhores livros. “O mercado infantil ainda tem vendas baixas. A maior parte sai com 3.000 cópias e demora anos para vender”, diz Júlia Schwarcz, editora da Companhia das Letrinhas. “Mas, se o governo seleciona, a compra é de 20 mil, 40 mil exemplares. Com isso, os selos infantis ficaram importantes dentro das editoras.”

A Cosac Naify ilustra bem esse efeito. Dos cerca de 750 títulos de seu catálogo, um terço é de literatura infantil, mas o faturamento desse nicho já corresponde a 40% do total anual da empresa, tornando-se seu carro-chefe. A editora teve ainda papel central na evolução da qualidade gráfica dos títulos editados, sendo inclusive bem-sucedida em duas áreas nas quais as casas brasileiras ainda são tímidas, os prêmios internacionais e as vendas de títulos infantis para o exterior – só neste ano, comercializou três obras.

A produção maior alimentou também o setor livreiro. Lojas voltadas para o público infantil, como as paulistanas Novesete e Casa de Livros, ganharam destaque e passaram a competir com seções cada vez maiores nas megastores. “Você precisa de mais espaço para armazenar a produção. A venda justifica isso”, diz Frederico Indiani, diretor comercial da Saraiva. Na Cultura, a comercialização de infantis cresceu 25% em relação aos oito primeiros meses de 2009, enquanto as vendas gerais tiveram aumento de 15%.

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A coluna da semana

[publicada no Sabático de 28/8]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

CLÁSSICO
Reedição de A Comédia Humana organizada por Rónai sai em 2011

A Globo Livros coloca nas livrarias no começo do ano que vem o primeiro volume da íntegra de A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, na celebrada tradução coordenada por Paulo Rónai (1907-1992). O projeto, que reuniu em 17 livros os 88 títulos da obra, começou a ser organizado pelo tradutor e crítico literário ainda na década de 40 e demorou dez anos para ser concluído, contando com versões de Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Brito Broca, entre outros. Na década de 80, a Globo fechou acordo com Rónai para revisão geral, e os títulos voltaram a ser editados, desta vez com mais de 7 mil notas de rodapé e um prefácio do húngaro naturalizado brasileiro para cada volume. O primeiro livro da edição de 1989 teve 15 mil cópias vendidas. O conjunto estava fora de catálogo havia 15 anos e, após contrato com as herdeiras de Rónai, sairá em novo projeto gráfico. A princípio, a edição ficará a cargo de Joaci Furtado – mesmo com a despedida dele da Globo Livros, anunciada na semana passada, para se dedicar a um novo trabalho.

CINEMA
Revista resgatada

Editada de 1954 a 1958 no Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais, com curta sobrevida nos anos 60, a Revista de Cinema ganhará neste ano, pela Azougue, antologia organizada por Marcelo Miranda e Rafael Ciccarini. A previsão é a de que saia em dois volumes, resgatando textos de nomes como Cyro Siqueira, Jacques do Prado Brandão e José Haroldo Pereira.

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A publicação repercutiu no País e chegou a ser reconhecida no exterior ao discutir temas como neorrealismo italiano e cinema brasileiro. Prestes a ser fechada, recebeu de Paulo Emílio Sales Gomes, no Suplemento Literário, do Estado, apelos para que não deixasse de circular. O colunista do Sabático Silviano Santiago, um dos principais articulistas da revista, assinará o prefácio.

NO BRASIL-1
Best-seller contra a maré

O americano Nicholas Sparks, que entre anjos e vampiros cavou espaço para seus romances açucarados e hoje aparece em dose dupla nas listas de mais vendidos, com Querido John e A Última Música, chega ao Brasil na primeira semana de dezembro para visitar Rio, São Paulo e Porto Alegre. Antes disso, a Novo Conceito publica outro título dele, Diário de Uma Paixão.

NO BRASIL-2
Britânico no Rio ComiCon


O desenhista inglês Kevin O”Neill, parceiro de Allan Moore na série As Aventuras da Liga Extraordinária, confirmou participação no primeiro Rio ComiCon, que ocorre durante dez dias de novembro, com exposições, palestras, oficinas, vídeos e venda de quadrinhos. Segundo a Casa 21, organizadora do evento, a vinda do italiano Milo Manara ainda depende de “pequenos acertos”.

QUADRINHOS
Nova adaptação de Dante

A Peirópolis lança em 2011 HQ de A Divina Comédia, de Dante, ilustrada a nanquim e aquarela pelo cartunista e grafiteiro Piero Bagnariol. O texto do Purgatório será o adaptado por Henriqueta Lisboa (1901-85). Outra versão em quadrinhos de A Divina Comédia, já antecipada pela coluna, será a de Seymour Chwast, pela Quadrinhos na Cia.

INTERNET
Suas estantes combinam?

Uma nova rede social, Alikewise.com, propõe-se a encontrar o par perfeito para os usuários com base no gosto literário. O criador, Matt Sherman, disse que teve a ideia ao imaginar que sua mulher ideal deveria conhecer A Lógica do Cisne Negro, livro de Nassim Nicholas Taleb sobre o improvável.

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Por enquanto, a rede só aceita usuários de países de língua inglesa. E precisa de ajustes. Em procura por Borges, localizou 13 usuários (um deles aceitava companheiras de 18 a 99 anos), mas avisou que havia “expandido a busca” para incluir títulos com alguma relação com o argentino. Na busca por Thomas Pynchon, a obra mais recorrente foi 1984, de George Orwell, prefaciada pelo autor de O Arco Íris da Gravidade.

Geoff em Veneza e Varanasi

Geoff Dyer foi um dos primeiros escritores que entrevistei, ainda na Folha, por conta do lançamento de Ioga Para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras). Era início de 2007 e eu nem cobria literatura ainda. Escrevia lá minhas coisas sobre dança (!) música brasileira e internet, mas ambicionava mesmo era um espaço nas páginas de livros aos sábados (só que esses repórteres de literatura, vou contar uma coisa, não largam o osso. E, ok, falo por mim mesma agora). Até que um dia o Mag, editor dos melhores que tive e que chefiava a Ilustrada, disse que o Luiz Schwarcz tinha falado maravilhas do autor e me pediu para avaliar. A boa notícia era que o Luiz tava certo. O texto saiu (link para assinantes) e o resto é o resto.

Daí, na véspera desta última Flip, chegou por aqui Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (Intrínseca), o novo do Dyer. Um ótimo livro num momento horrível. Consegui ler e falar com ele apenas nesta semana, depois da Bienal do Livro, e o texto saiu só hoje no Caderno 2, por conta do início da Bienal de Veneza, que é um dos temas abordados na história.

Foi engraçado voltar a falar com ele. Em 2007, sem muita experiência em falar com autores, morri de medo de fazer perguntas idiotas  (fiz várias). A curiosidade é que o protagonista de Jeff em Veneza é um jornalista que, a certa altura, levanta a teoria de que, quanto mais imbecis forem as perguntas, mais à vontade se sentirá o entrevistado e melhor será a conversa. Geoff Dyer é terrivelmente gentil, e a conversa que tive com ele nesta semana foi ainda mais bacana que a primeira, o que prova que sou cada vez mais capaz de fazer perguntas idiotas.

Segue abaixo o texto que saiu no Caderno 2 e, mais embaixo ainda, a íntegra da conversa que tivemos por telefone.

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Paixão e arte no verão veneziano

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

A ansiedade chega antes mesmo da Bienal de Veneza, com o receio de que haja festas melhores do que aquelas para as quais se foi convidado – o que não deixará dúvida quanto ao patamar de prazeres que o status de cada um garante. Nas festas, os escolhidos reclamarão das pequenas taças em que lhes servem drinques à vontade. Quando, enfim, chegarem aos pavilhões de arte, cheios de ressaca, todos carregarão sortimentos de sacolas oferecidas como brinde.

Seria de se esperar no meio artístico uma reação às ácidas descrições da Bienal de Veneza (e de obras de fato exibidas por lá) que aparecem em Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (2009), mas o escritor Geoff Dyer diz ter se surpreendido. “Tanta gente achou que era uma sátira do mundo da arte”, conta o britânico ao Estado por telefone, de Londres, com a voz tranquila que mal denuncia a peremptoriedade das opiniões. “Era só a descrição da ideia que tenho de passar um bom tempo. Me assustei com as pessoas desse universo vendo isso como um retrato corrosivo. É claro que tenho opinião incrivelmente baixa sobre alguns artistas e seus trabalhos, mas a questão é que não há dúvida de que muitos vão a esses eventos por gostar do que é de graça. Eu mesmo adoro viajar sem pagar nada.”

Conhecido por confundir leitores com narrativas em que episódios fictícios respingam em descrições realísticas e incensado como um dos grandes escritores britânicos vivos, Dyer, de 52 anos, diz que seu livro mais recente é eminentemente fictício. Isso apesar de o protagonista se chamar Jeff (mesma pronúncia do prenome do autor, Geoff), de ter a mesma capacidade de extrair ironia dos detalhes e de a história ter sido pensada após viagens de Dyer a Veneza (foi a três Bienais, de 2003 a 2007) e Varanasi, na Índia.

Na trama, em 2003, Jeff Atman, jornalista quarentão, é enviado à cidade italiana pela revista Kuchlur com a pouco nobre tarefa de entrevistar Julia Berman, cujo maior feito na vida foi ter com o celebrado pintor Steven Morison uma filha, Niki, hoje cantora famosa. Já na primeira noite, o jornalista conhece e se apaixona pela galerista Laura Freeman, com quem viverá uma história, narrada em terceira pessoa, tão quente quanto Veneza naquele verão.

Na segunda parte do livro, Jeff é convidado pelo Telegraph a escrever uma reportagem em Varanasi. Aqui, o narrador fala em primeira pessoa e, apesar de semelhanças com o Jeff de Veneza, a todo momento resta a dúvida sobre como as histórias se conectam – Laura não é nem sequer mencionada. Enquanto no período veneziano o personagem vive uma passagem de êxtase, como num sonho, a temporada indiana promove uma transformação espiritual.

O livro é, como o nome sugere, uma homenagem à Morte em Veneza, de Thomas Mann, cuja ideia Geoff Dyer teve ao enfrentar o incrível calor da cidade na Bienal de 2003, à qual foi com a mulher, Rebecca (hoje assistente do magnata Charles Saatchi). “Não pude escrever o livro àquela altura porque estava terminando o meu sobre fotografia (The Ongoing Moment). Daí fui para Varanasi, e, assim que coloquei os pés lá, soube que complementaria a história”, conta.

Não chegam a ser duas novelas separadas, embora também seja complicado resumir o livro como romance – a difícil definição é característica da obra de Dyer, cujo Ioga Para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras), lançado por aqui em 2007, tem textos que ficam entre os contos e os relatos de viagem. “A maneira perfeita para descrever Jeff em Veneza, se não fosse tão pretensioso, seria como um díptico. São duas histórias distintas, mas a experiência que oferecem é única.”

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Há quem descreva Jeff em Veneza, Morte em Varanasi como romance, há quem descreva como duas novelas, embora separadas elas não funcionem tão bem. Como você descreve o livro?
A descrição perfeita, se não soasse tão pretensiosa, seria a de que o livro é um díptico. Sabe, como nas artes plásticas, quando você tem dois painéis que dependem um do outro? Acho que tende a ser um romance, embora as histórias sejam bem diferentes uma da outra. A experiência que oferece é unificada. Cada parte do livro depende totalmente da outra e, se uma é tirada, a outra colapsa, embora as conexões não apareçam tão claramente à primeira vista.

E como pensou em dividir essa homenagem a Morte em Veneza em duas partes tão distintas?
Bem, minha mulher e eu fomos à Bienal de 2003, estava estava incrivelmente quente, e ficamos lá um par de dias. Daí eu disse: ‘Vou escrever minha própria versão de Morte em Veneza, mas durante a Bienal’. Desde o começo, soube que seria um romance heterossexual, mas que remetesse ao que acontece no romance de Thomas Mann. Não pude começar o livro logo porque àquela altura estava escrevendo minha história da fotografia, e então fomos a Varanasi. Assim que chegamos e ficamos lá um par de horas, percebi que a parte em Veneza seria complementada por outra em Varanasi. Àquela altura não sabia como seria isso, a conexão foi ficando clara para mim aos poucos. Que é: a segunda parte seguindo a primeira cronologicamente, mudando da terceira pessoa para a primeira pessoa, mas sem que houvesse dúvida de que era a mesma pessoa. Tinha incluido até uma pequena explicação sobre o que acontece no romance com Laura. As partes não poderiam ser mais obviamente conectadas. Então um amigo disse que achava que as partes deveriam ser ainda mais bem conectadas. Tentei fazer isso, mas conclui que era muito melhor, em vez de resolver esse problema, aumentá-lo ainda mais, completamente. Em vez de aproximar as histórias, estava interessado em acabar com conexões óbvias, ao ponto de nunca ficar claro se a parte dois acontece depois da parte um, se os dois narradores são a mesma pessoa e o que acontece com Laura. Em vez de conexões estritas, o que tínhamos agora eram conexões quase invisíveis.

Eu tinha ficado na dúvida sobre o motivo de você mudar a pessoa da terceira para a primeira na narrativa. Se era para evitar explicações sobre se o personagem da segunda parte era mesmo Jeff. Ou se era porque, na primeira parte, a relação dele com o Veneza é mais superficial, enquanto, na segunda, a relação com Varanasi é algo tão pessoal e intenso…

Bem, acho que na primeira parte essa relação também é de certa maneira pessoal. Sobre ser superficial… Sim, claro, alguém pode dizer que a relação dele com Veneza é menos intensa que com Varanasi, mas, ao mesmo tempo, o que eu insisto sobre a parte um é que, acima de tudo, é uma história de amor. É sobre a experiência de se apaixonar, viver um momento que te deixa realmente feliz. E as impressões que ele tem sobre a mulher numa viagem como aquela. Foi realmente interessante construir as duas partes uma contra a outra.

Quando falei sobre superficial, na verdade, foi no sentido de que, na minha opinião, a viagem para Veneza não muda Jeff como pessoa, como acontece na segunda.
Hmmm, me desculpe, não quero discordar…

Você pode. Você deve!
(risos) Bem. Ele é o tipo de cara cínico, de saco cheio, enfastiado. E, quando ele conhece essa mulher, ele volta a ter apetite pela vida, é algo que o ilumina. A única coisa é que ele quer que algo mais aconteça, é como o inverso de um romance típico, no qual, você sabe, o marinheiro chega num porto, conhece uma mulher, eles se apaixonam e ele vai embora. Neste caso, ela é quem vem e vai, e ele fica pensando que eles poderiam viver juntos. Sim, a viagem especificamente não tem um efeito realmente profundo sobre ele, mas, no meio tempo, toda a felicidade, e, enfim, especialmente a coisa com a cocaína, tudo o deixa desesperado de certa maneira.

Mas será que o narrador entende Veneza como entende Varanasi na segunda parte?
É uma questão interessante, porque em Veneza as coisas acontecem… Há coisas que eu entendi sobre Veneza, mas que Jeff não entende. O ponto de vista dele é muito mais limitado que o meu. Posso dar um pequeno exemplo disso. Eu estava muito consciente de que Veneza não é apenas uma cidade real, física, mas uma que protagonizou tantos filmes e livros, que conhecemos parcialmente pelos olhos e pelas palavras das pessoas que estiveram lá antes. Então eu queria achar uma maneira de dar esse clima. Isso é o que acontece na cena em que ele vai ver os túmulos de Ezra Pound e Joseph Brodsky. Sobre a lápide de Brodsky, eles acham canetas e papel, uma coisa para quem vier depois e quiser escrever. A certa altura, Jeff diz que nunca leu Brodsky, mas que sabe que ele é “big deal”. Ok, sugere que ele não conhece nada de Brodsky, enquanto eu mesmo conheço muito bem Brodsky. Posso brincar com isso porque, no livro de Brodsky sobre Veneza, Watermark, ele diz: “No tipo de trabalho que eu faço, Ezra Pound é ‘big deal’”. Jeff, de uma maneira ignorante, ele não tem noção de que o que ele pensa sobre Brodsky é o que Brodsky pensava de Pound, enquanto eu sei disso. Então, de certa maneira, sua limitada maneira de ver as coisas me permite brincar um pouco com isso. Ao mesmo tempo, a consciência dele é muito menos limitada que a de alguém como John Self, o narrador de Money, do Martin Amis, ou Robert Angstrom, nos livros de Updike. Ele tem consciência, mas é muito mais limitado que eu.

Como é seu interesse por arte contemporânea? As Bienais de Veneza para as quais você foi, foi como jornalista?
Não. Minha mulher, em 2003 e 2005, era editora de revistas de decoração e arte. Agora ela trabalha por Charles Saatchi, o grande colecionador de arte em Londres. Em parte, me interesso pelo mundo da arte por meio do olhar da minha mulher, embora seja muito mais interessado em fotografia.

Existe alguma relação entre seu interesse pela fotografia e sua maneira de descrever imagens?
É difícil descrever em palavras o que já foi de certa maneira registrado em filmes e vídeos e  fotos, mas também há maneiras de… Quando estou lendo e escrevendo, gosto de visualizar o que está acontecendo, não gosto quando não fica claro quem está onde, essas coisas. Acho que já tendia a ter essa maneira de escrever antes de me interessar por fotografia, mas sempre tive uma fascinação pela maneira de como a narrativa pode conter imagens registradas numa fotografia.

Você é bem ácido no livro sobre as pessoas que vão às Bienais, sobre o quanto elas se interessam por brindes e reclamam das coisas que ganham. Como as pessoas do meio reagiram a isso?
Isso é curioso. Quando o livro saiu na Inglaterra, fiquei realmente surpreso porque tanta gente achou que era uma sátira do mundo da arte. Para mim, eu estava só descrevendo a ideia que eu tenho de passar um bom tempo. Não tive a intenção de fazer uma sátira, e acho que isso precisa ser intencional. Mas assustei com as pessoas desse universo vendo isso como se eu tivesse pintado um retrato corrosivo. E, claro, vivemos num tempo em que… Bem, é claro, eu tenho uma opinião incrivelmente baixa sobre alguns artistas e os trabalhos que eles fazem. E, sabe, não há dúvida de que muitas pessoas vão a essas viagens porque gostam de coisas gratuitas, junkets, festas. Coisas de que eu gosto. Gosto de viagens de graça e de festas também. Uma coisa importante é que vemos equivalentes disso no mundo literário, na Feira de Frankfurt ou nesses festivais internacionais… Eu gosto, quase todo mundo gosta de uma viagem de graça com pessoas que dividem o mesmo interesse.

No caso da literatura, você acha que esse tipo de festival traz alguma coisa de positivo?
Bem, literatura é sobre ler e escrever, arte é sobre fazer e olhar para isso. Mas a coisa social que envolve isso… Não sei se é tão importante, mas é importante passar um tempo legal. Nos diverte. E o crucial sobre Veneza, que esqueci de falar, é que, diferente de muitos outros festivais, ele acontece em Veneza, esse lugar mágico, essa inacreditável obra de arte, uma cidade fantástica de Calvino.

Você fala a certa altura dos africanos vendendo bolsas em Veneza, o que depois você descobriu ser uma instalação (de Fred Wilson, em 2003). O livro trata muito dessa coisa da dificuldade de separar as fronteiras do que é ou não é arte hoje em dia. Como você vê isso?
Uma das coisas que eu particularmente gosto na arte contemporária é quando ela usa tecnologia, o que permite às pessoas criar ambientes nos quais você imerge complentamente. Eu gosto, parece um mundo de sonho. Uma das experiências mais incríveis que tive nos últimos dez anos foi o festival Burning Man em Nevada, sobre o qual escrevi no Ioga Para Quem Não Está Nem Aí. Há arte em todo lugar, é impossível dizer onde ela acaba, e a experiência de estar no deserto por uma semana inteira… A coisa mais simples nesse tipo de ambiente toma proporções incríveis. Aquele é o exemplo mais extremo de como as obras de arte podem estar completamente integradas com a vida, com o dia a dia.

Na epígrafe da parte sobre Varanasi, você cita Borges. É curioso porque ele era esse escritor que viajava somente na leitura, enquanto sua maior característica é escrever sobre as coisas que você  aprende quando viaja. Você teria interesse, ou se sentiria capaz, de escrever sobre lugares que não conhece?
Hmmm, essa é outra boa questão. Você está certa sobre Borges. Para mim, é isso mesmo, eu escrevo sempre a partir de um senso de lugar. Se eu não tivesse ido a todos esses lugares, eu acharia muito difícil escrever sobre eles. Mas é claro que não são só os lugares em si que me interessam, são sempre as interações de sensibilidades, da minha com a do lugar.

Em Ioga Para Quem Não Está Nem Aí, você conta parte da história doidão de cogumelo. E isso volta a acontecer, com outras drogas, maconha, cocaína, nas duas partes de Jeff em Veneza, Morte em Varanasi. Acha que as drogas melhoram a capacidade de observação ou de escrita?
Há algumas coisas sobre isso. Estou absolutamente convencido de que usar drogas pode desenvolver sua  percepção de um lugar. Para mim sempre foi algo positivo, na experiência que tive. Outra coisa, quando ia escrever, a maconha, particularmente quando eu era mais jovem, era algo extramemente útil para a criatividade.  Obviamente muita coisa que você escreve quando está doidão depois você relê e não faz o menor sentido, mas isso não importa, porque depois, quando você está com os pés no chão, isso já serviu como uma especie de desinibidor criativo e já está no papel, o que você pode  trabalhar depois já com o olhar calmo, a mente de edição. Mas agora estou mais velho, estou numa fase em que as drogas já não fazem mais tanto parte da minha vida. Não porque eu tenha ficado careta ou esteja numa reabilitação, só não funciona mais para mim como método criativo.

Transforme seu livro em cogumelo

Interrompemos a programação normal deste blog (que hoje em dia é a falta de atualizações) para uma historinha que me distraiu em meio aos trabalhos.

Dois designers, Thilo Folkert e Rodney La Tourelle, criaram um jardim literário numa floresta no Quebec. Usaram 40 mil livros, placas de madeira e cogumelos numa estrutura orgânica na qual os livros se decomporão e os cogumelos crescerão.
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Chamaram o negócio de Jardim do Conhecimento, mas, como explica o Arch Daily, não é uma referência a um retorno à natureza (que foi minha primeira impressão, né, em tempos de sustentabilidade) nem traz mensagem bíblica. A ideia é confrontar “instrumentos de conhecimento com a temporalidade da natureza” e convidar o visitante a um “envolvimento emocional” ao expor a fragilidade dos livros.

Não sei se eu iria tão longe no raciocínio, mas esta última imagem me fez pensar que seria bom começar a arrumar melhor as minhas estantes.
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A coluna da semana

[publicada no Sabático de 21/8]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

MERCADO
Editoras registram vendas mais expressivas na Bienal do Livro 2010

O balanço de público da 21.ª Bienal do Livro de São Paulo será anunciado amanhã, mas ao menos um resultado desta edição já foi notado por editores: o aumento no número de livros vendidos na comparação com o mesmo período do evento paulistano em 2008. O maior salto dos primeiros dias levantado pela coluna foi o da Record: 90%. A Objetiva teve crescimento de 55% e a Zahar, de 38%. Chama a atenção também o fato de, em alguns casos, o aumento ser perceptível até na comparação com a Bienal do Rio, que costuma fazer maior caixa. O estande conjunto da Companhia das Letras e da Zahar, por exemplo, teve aumento de 12% na comparação com o mesmo período do evento carioca de 2009. Mas editores, que dão brindes e descontos nas vendas, dizem que o investimento em bienais ainda não se paga financeiramente. “É ganho institucional. Ganha-se espaço na mídia e na mente do público, que vê as marcas de perto”, avalia a editora Mariana Zahar.

FICÇÃO
Novo selo no mercado

Após recuperar os 51% em ações que havia vendido em 2007 à franco-espanhola Anaya-Hachette, o grupo Escala entrará na área de ficção, não contemplada por seus selos atuais. Detentor nacional da Larousse – especializada em obras de gastronomia e interesse geral -, o grupo lança em fevereiro os títulos iniciais de sua nova marca, a Lafonte, focada em literatura contemporânea.

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A Escala não divulga o valor do investimento, mas a aposta é grande. Saem pela Larousse cerca de 100 títulos por ano; com a Lafonte, a intenção é pôr no mercado (considerando livrarias, bancas e vendas porta a porta) 400 obras em um ano. A diretora editorial Janice Florido diz já ter “autores estrangeiros conhecidos e que despontam”. Literatura nacional, só num segundo momento.

GASTRONOMIA – 1
Ciência na cozinha

On Food and Cooking, livro seminal de Harold McGee sobre ciência e culinária, publicado em 1984 e reeditado em 2004, sairá no Brasil no ano que vem pela WMF Martins Fontes. O colunista do New York Times analisa ingredientes e suas interações com o corpo e explica questões como a natureza da fome, o que ocorre quando um alimento se estraga e por que o álcool embriaga.

GASTRONOMIA – 2
Crise na culinária

Já a Zahar lança em outubro um título que deu o que falar no exterior. Em Adeus aos Escargots, Michael Steinberger mergulha em questões culturais, econômicas e políticas para decifrar o que ocorreu com a França, cujos chefs e restaurantes perderam lugar entre os mais influentes do mundo.

DIGITAL
Propaganda no e-book

Artigo no Wall Street Journal de anteontem defende a ideia de que anúncios serão inevitáveis nos e-books. O WSJ avalia que a queda no preço dos livros, combinada com o formato propício à publicidade – o e-reader pode ter anúncios sempre atualizados -, tornará essa a melhor saída para os editores. Mas o texto argumenta que o interesse dos autores em controlar o conteúdo anunciado pode originar novos impasses.

CLÁSSICOS – 1
Inéditos em coleção

Parte da tentativa do grupo Ediouro de reposicionar títulos de seu imenso catálogo, a recém-anunciada Coleção Fronteira – que sai pela Nova Fronteira com edições mais simples e preços abaixo dos R$ 30 – incluirá textos inéditos em livro. Entre eles, ainda neste ano, Mário no Cinema, reunião de ensaios de Mário de Andrade, e um volume com o teatro completo de Antonio Callado.

CLÁSSICOS – 2
Teatro brasileiro

Por falar em teatro (e em livros mais baratos), a Penguin Companhia Clássicos deve ter selo exclusivo para dramaturgia no primeiro semestre de 2011. A princípio, serão textos de peças brasileiras do século 19 e início do 20 que estejam fora de catálogo.

Colaborou Ubiratan Brasil

Das adúlteras

Soube ontem que, por esses dias, o texto mais lido em todo o site do Estadão era sobre o caso Sakineh (não sei qual reportagem em particular, daí finge que não deu para perceber que chamei para toda a cobertura). À frente, veja bem, do stage diving da Lady Gaga. Não é nada? Vá prestar atenção nos assuntos mais lidos de qualquer site noticioso do País. É de uma raridade ímpar um tema de fato sério liderar a lista.

Daí, ontem mesmo, por coincidência, o escritor Fabrício Corsaletti mandou um e-mail coletivo para amigos com este poema, para quem quisesse publicar no próprio blog. Certeza de que não fui a única, mas eu quis.
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APEDREJEMOS AS ADÚLTERAS

vamos sequestrar as mulheres do Irã
enquanto seus maridos dormem bêbados
depois da última noitada
vamos nos casar com as mulheres do Irã
e criar seus filhos —
vamos deixar os homens do Irã sozinhos
batendo punhetas nervosas
ou fodendo uns aos outros —
vamos amar as mulheres do Irã
vamos ser traídos pelas mulheres do Irã
vamos perdoar as mulheres do Irã
e ser felizes com as mulheres do Irã

vamos sequestrar as mulheres do Brasil

Os escritores na história da Time

Muito se falou sobre Jonathan Franzen como o primeiro ficcionista em dez anos a merecer a capa da Time, mas só o site The Millions parou para fazer um restrospecto dos escritores a receberem destaque na revista e avaliar o que isso diz a respeito da cultura literária nos EUA (na verdade, como o site lembra, o próprio Franzen chegou a escrever para a Harper sobre como as escolhas da publicação, de James Joyce a Scott Turow, provam o declínio cultural da América).

O primeiro destaque literário da Time, Joseph Conrad (imagem acima), apareceu logo na sexta edição da revista, em abril de 1923, em reportagem sob o título A great novelist to visit the United States. Até o final dos anos 30, em 18 anos de revista, 37 capas foram dedicadas a autores, incluindo nomes como H.G. Wells, Gertrude Stein, James Joyce (duas vezes, por Ulysses e Finnegans Wake) e Ernest Hemingway. Ou seja, pelo menos duas vezes por ano escritores estamparam a capa da publicação.

Nos 20 anos seguintes, de 1940 a 1959, esse número caiu para 17, menos de uma capa por ano, com Eugene O’Neill e T. S. Eliot entre os destaques. A média se manteve nas duas décadas posteriores, consideradas entre 1960 e 1979.

Dali para a frente, só queda: de 1980 e 1999,  mais 20 anos, um autor a cada três anos mereceu capa (e aqui já estamos falando quase só de best-sellers, como John Irving e Michael Crichton).

E, nos dez anos de 2000 a 2009, apenas Stephen King, em sua segunda capa na revista – mas que, desta vez, na verdade, era sobre internet (imagem abaixo).

O que isso diz sobre a cultura dos Estados Unidos? A análise toda está aqui, com links para todas as reportagens de capa na história da Time, com imagens.