Retrato de um viciado

A Companhia das Letras avisa, por e-mail, que publicará Portrait of an Addict as a Young Man, de Bill Clegg, livro sobre o qual escrevi na última coluna Babel. As memórias do agente literário que já foi viciado em crack devem sair por aqui em maio do ano que vem, sob o título Retrato de um Viciado quando Jovem.

Aqui, o trecho que foi publicado na New York Magazine.

Anúncios

No Sabático de 29/5 – parte 2

Nunca tinha ouvido falar no autor, o colombiano Evelio Rosero, mas poucas páginas do romance Os Exércitos bastaram para perceber que valia muito a pena. Depois vi que o livro foi bem elogiado (e premiado) na Espanha e em outros países onde chegou a sair. Recomendo sem ressalvas para quem se interessa por assuntos espinhosos (e até incompreensíveis para quem olha de fora) do gênero no noticiário.

A foto abaixo foi encontrada no final do ano passado com um guerrilheiro da Farc morto pelo Exército da Colômbia.

***

Uma guerra de muitas facções

Romance de Evelio Rosero retrata o terror no cotidiano dos colombianos que moram longe dos grandes centros, num país tomado pelo confronto de décadas entre o Exército, paramilitares, guerrilheiros e narcotraficantes

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

A infinidade de cartazes pelas ruas de Bogotá poderia levar o incauto a crer que, nesta véspera de eleição presidencial na Colômbia, a disputa pelo poder se equilibra entre dois polos – a situação, personificada no candidato Juan Manuel Santos, e a oposição, no nome do Partido Verde, Antanas Mockus. Mas são, na realidade, quatro as forças que há décadas decompõem o país: o Exército militar, o paramilitar, os guerrilheiros e os narcotraficantes.

Nesse cenário em que não se distingue quem é de fato criminoso – há poucos dias, um relatório da ONU apontou que militares foram responsáveis pela morte de 3 mil civis, depois travestidos de guerrilheiros – se passa a narrativa de Os Exércitos, romance de 2006 que rendeu ao colombiano Evelio Rosero, autor de outros 12 títulos, reconhecimento internacional (ganhou, por exemplo, o Independent Foreign Fiction Prize). Uma história que poderia ser a de qualquer morador dos recônditos do país, e portanto situada no fictício vilarejo de San José: o drama do professor Ismael Passos, de sua vizinha brasileira Geraldina Almida e de tantos outros que se veem atingidos física ou emocionalmente pelos efeitos de uma guerra difusa. “Há uma espécie de indiferença nas grandes cidades da Colômbia, onde o fenômeno da violência não é tão direto como em outras regiões. Ouvem-se as notícias de massacres como se tivessem ocorrido na Lua, e não a poucos quilômetros de casa”, diz a o escritor em entrevista ao Estado.

[…]

***

A íntegra do texto está aqui. Outros dos textos da edição você localiza via @cultura_estadao.

No Sabático de 29/5 – parte 1

Depois posto o que mais tem no Sabático de hoje por aqui, incluindo meu texto sobre Os Exércitos, romance colombiano que diz muito sobre o país que passa pelo primeiro turno das eleições amanhã.

Por enquanto, vai a coluna, com mais um braço da Livraria Cultura no Cj. Nacional (e mais um capítulo da novela SOS Cinearte; lembram disso?). E, agora, almoço!

***

BABEL

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

NEGÓCIOS

Salas do Conjunto Nacional viram Cine Livraria Cultura

A partir de 1.º de agosto, o atual Cine Bombril, no interior do Conjunto Nacional, terá o nome Cine Livraria Cultura. A loja passará a patrocinar as duas salas do cinema, que continuarão a integrar Circuito Cinearte de exibição, de Adhemar Oliveira e Leon Cakoff. Haverá apenas uma pequena reforma antes da reabertura – a mudança maior foi em 2005, quando as salas até então chamadas de Cinearte receberam investimento de R$ 3,2 milhões da empresa de produtos de limpeza.

Com a nova alteração, a Cultura passará a ocupar os dois antigos espaços de cinema da galeria, já que sua atual sede foi construída no lugar do extinto Cine Astor. A novidade torna mais clara a expansão da livraria dentro do pioneiro prédio comercial da Avenida Paulista. A Cultura tem ali o Teatro Eva Herz e outras quatro unidades no térreo – a Arte, a Companhia das Letras, a Record e o Instituto Moreira Salles. Embora a programação de filmes continue a cargo do grupo Cinearte, a Livraria Cultura usará o espaço para palestras, avant-premières e noite de autógrafos .

CONTRATO

Horror brasileiro

A Rocco fechou contrato com André Vianco, raro best-seller nacional nos gêneros terror e fantasia. Lançará neste ano o “policial dark” O Caso Laura e, a partir de 2011, trilogia com “soldados, feiticeiras e deuses”.

Há dez anos, Vianco enviou originais a seis editoras, incluindo Rocco. Após recusas, lançou pela Novo Século o livro Os Sete, entre outros. Logo alcançou sucesso com sagas de vampiros, mas a onda pós-Crepúsculo ajudou: só neste ano, vendeu 120 mil livros.

DIREITOS
O show pôde continuar

And the Show Went On, sobre os anos culturais na Paris ocupada pelo nazismo, sai no exterior só em outubro, mas já teve os direitos garantidos pela Companhia das Letras. Repórter do New York Times por mais de três décadas – parte do tempo sediado no Rio -, Alan Riding nasceu no Brasil, foi criado na Reino Unido e hoje vive na França.

INTERNET
Os festivais no Twitter

“Filhote” do Hay Festival, que ocorre em dez localidades no mundo, a Flip está mais em alta na rede do que seu modelo. A dois meses da festa em Paraty, a página twitter.com/flip_se tem 6.000 seguidores. A twitter.com/hayfestival ainda está nos 3.800, sendo que o principal braço do evento, em Hay-on-Wye, está ocorrendo agora. Para atrair atenção, o Hay convidou Stephen Fry a eleger o “tweet mais bonito” já escrito. O resultado sai no dia 6, ao fim da programação.

ROCK
Tudo sobre The Doors

A Agir lança neste ano The Doors by the Doors, organizado por Ben Fong-Torres, o célebre editor da Rolling Stone que virou personagem no filme Quase Famosos. O livro saiu nos EUA em 2006, por ocasião dos 40 anos do álbum de estreia da banda. Inclui depoimentos dos ex-colegas Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore, e raras declarações da família de Jim Morrison.

MEMÓRIAS
Retrato de um viciado

A revista New York publicou trecho das memórias de Bill Clegg, agente literário que foi viciado em crack. “Tenho crack e um cachimbo usado no bolso da frente. Não sei como me livrar deles. (…) Engolindo? Talvez. E o cachimbo?”, ele relata em Portrait of an Addict as a Young Man, sobre a noite em que pensou estar sendo vigiado num hotel. Clegg perdeu autores best-seller, como Nicole Krauss, devido ao vício. Boa parte deles voltou quando o agente se livrou da droga. Leia em http://bit.ly/nymag1.

SEMINÁRIO
Estudos sobre o Brasil

A Brazilian Studies Association (Brasa), instituição nos EUA que apoia estudos sobre o Brasil, com destaque para literatura, sediará sua 10.ª Conferência Internacional em Brasília, em celebração aos 50 anos da capital. As palestras, de 22 a 24/7, incluem discussões sobre autores como Dalton Trevisan e Chico Buarque. A programação prévia entrou há pouco no site www.brasa.org.

No Sabático de 22/5

Os destaques da edição de hoje são os textos sobre Bolaño e 2666; a entrevista da Claudia Trevisan, na China, com o autor Yan Lianke, que teve livros banidos por lá; e o conto inédito do Sérgio Sant’Anna. Dá para achar tudo via @cultura_estadao. Posto aqui só o abre da coluna Babel, porque no site não entrou o mais interessante.

Foi o seguinte: na quarta, recebi um email do Boris Schnaiderman sobre o convite que eu tinha feito a ele para que resenhasse Eugênio Oneguin, do Pushkin. Ele pediu desculpas; não seria ético, já que está envolvido em projeto parecido. É sempre desanimador receber um não para convite de resenha, mas desconfiei de que tinha boa nota ali. Liguei pra ele e era melhor que a encomenda: o Boris faz a consultoria de outra tradução do mesmo livro. Com um detalhe. O texto, de 1833, nunca saiu no Brasil nem em Portugal. É um trabalho dificílimo, que Pushkin demorou oito anos para escrever e cuja tradução não demora menos que isso. E, quando enfim sai em português, há outra versão em andamento.

O resultado está a seguir, incluindo a parte que ficou de fora no site, os trechos das duas traduções. A ilustra é Pushkin no traço de Pushkin.

***

Obra de Pushkin inédita no Brasil terá duas versões

A obra-prima russa Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin, nunca tinha sido vertida ao português. A primeira tradução sai em breve pela Record e tomou mais de uma década do embaixador Dário Moreira de Castro Alves, tão trabalhosa era a empreitada – tem 5.523 linhas o romance em versos escrito de 1823 a 1831. A curiosidade é que Alves não foi o único a se debruçar sobre a obra tanto tempo depois. Há seis anos, o tradutor Alípio Correia Neto e a professora Elena Vássina dedicam-se à tarefa sob consultoria de Boris Schnaiderman. Ainda sem editora, a dupla levará mais de um ano até terminar. “Não é problema. Em tradução, quanto mais pontos de vista melhor”, diz Neto. Confira a primeira estrofe do capítulo 1 nas duas versões.

“Meu tio, honesto e mui honrado,
Já quando a sério adoeceu,
Soube exigir ser respeitado,
De melhor nada concebeu.
Para os demais é uma lição;
Porém, meu Deus, quanta aflição
Do dia à noite alguém tratá-lo,
Sem espairecer e sem largá-lo!
Já vede, pois, perfidamente –
Um meio-vivo a distrair,
Pôr-lhe almofadas a sorrir.
Dar-lhe remédios, tristemente,
Mas lá por dentro a imaginar,
Quando Satã te vai levar?”

TRADUÇÃO DE DÁRIO MOREIRA DE CASTRO ALVES, QUE SAIRÁ PELA RECORD

Meu tio, de altíssimos preceitos,
Quando ficou doente à beça,
Logrou dos outros o respeito
Sem invenção melhor do que essa.
O exemplo sirva de lição!
Mas, ai, meu Deus! Que chateação,
Passar com o moribundo as horas
Sem nunca pôr o pé pra fora!
Que insídia, ter que estar ao pé de um
Doente, entretê-lo o tempo inteiro,
Lhe endireitar o travesseiro,
Com aflição, lhe dar remédio
E com um suspiro, se indagar,
“Quando o diabo vai-te levar?”

TRADUÇÃO DE ALÍPIO CORREIA NETO E ELENA VÁSSINA, AINDA SEM EDITORA

E os vencedores

Só para encerrar o assunto, saíram os vencedores do concurso de trailers de livro. Não vou mais linkar um monte de vídeo aqui não. Eles criaram umas categorias de última hora. O Jonathan Safran Foer, que concorria em melhor performance de escritor, ganhou em performance mais irritante. O Grau 26, do Anthony Zuiker, que não aparecia entre nenhum finalista, ganhou na neocategoria maior gasto de dinheiro de um conglomerado. Isso e o resto você pode ver aqui.

Quase lá

A Melville House Publishing anunciou os finalistas do concurso de trailers de livros 2010 Moby Awards, sobre o qual escrevi na coluna faz algumas semanas, e cujo resultado sai nesta quinta-feira. Dois dos finalistas já apareceram aqui no blog: Vício Inerente, do Thomas Pynchon (na categoria performance de escritor, pela narração), e Lowboy, do John Wray (na categoria atuação, para Zach Galifinakis, o cunhado do noivo em Se Beber Não Case).

Além dos já citados, só curti outros dois trailers. I Am a Genius of Unspeakable Evil…, de Josh Lieb, em que Jon Stewart concorre pela atuação; e Going West, de Maurice Gee, na categoria grande orçamento.

A lista completa de finalistas está aqui.

***

E uma curiosidade: um dos concorrentes de Thomas Pynchon na categoria performance de escritor é Gordon Lish, o editor que “inventou” Raymond Carver e descobriu Don DeLillo, no trailer de Collected Fictions.

Foi a primeira vez que vi qualquer menção a ele em que não fosse citado o Carver na sequência (ops, citei. E duas vezes). E, mesmo sabendo que não é opinião isenta, fiquei curiosa com uma declaração do DeLillo sobre a prosa do Lish:  “Gordon Lish, famoso por todas as razões erradas, escreveu uma das mais fascinantes ficções americanas nos últimos dez anos”. A conferir…

Eleições na literatura

Saiu faz algum tempo no Guardian, mas alcancei só agora via Google Reader, uma lista feita por John Mullan, professor de inglês da University College, com dez dos melhores livros de ficção sobre eleições na história da literatura.

Todos os títulos que ele escolhe foram publicados originalmente em língua inglesa, à exceção de Ensaio Sobre a Lucidez (traduzido por lá como Seeing), do Saramago. Os outros são Coriolannus, de William Shakespeare; Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens; Sir Launcelot Greaves, de Tobias Smollett; Middlemarch, de George Eliot; The Way We Live Now, de Anthony Trollope; The Tragic Muse, de Henry James; Primary Colors, de autor anônimo; A Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst; e The Absence of War, de David Hare.

Sem parar para pensar em como engrossar essa lista, o que me vem à cabeça é que por aqui temos eleições que parecem ficção. Serve?