O que eu também não contei

Nunca perguntei, mas imagino que quase todo jornalista da área cultural (que trabalhe em jornal diário, pelo menos) já deve ter passado pela situação de, na correria do fechamento, terminar um texto e sentir que faltou deixar claro o quanto o livro/filme/CD é de fato bom e por quê.

Aconteceu ontem comigo. Terminei uma ótima entrevista com a iraniana Azar Nafisi às 13h30 para entregar o texto às 14h30, e agora, lendo, acho que a matéria não dá bem a dimensão do quanto é interessante o recém-lançado O Que Eu Não Contei. Ok, sou repórter, não crítica literária, e o essencial está lá, mas, se pudesse burilar um pouco, acrescentaria alguns bons detalhes sobre o conteúdo do livro.

Acontece que agora são quase 14h de sábado e preciso mesmo almoçar, então deixo para comentar num próximo post. Por enquanto, segue o texto publicado hoje no Caderno 2, que na internet está disponível para assinantes do Estadão.

A autora na adolescência, nos anos 60, em foto do livro

‘Eu resisto como mulher e artista’

Azar Nafisi volta ao Irã e à Revolução Islâmica em O Que Eu Não Contei, rememorando agora relação com os pais

Raquel Cozer

Dara, filho caçula da escritora iraniana Azar Nafisi, ainda era pequeno quando, questionado sobre por que preferia Zorro a ídolos locais, respondeu: “Não gosto de heróis iranianos, eles machucam minha mãe. Eles têm armas e querem nos matar.” Nos primeiros anos pós-Revolução Islâmica, ele se lembrava de ter visto um jovem ameaçá-la por andar sem véu.

O garoto não tinha idade para entender, mas reproduzia uma ideia sobre a qual Azar fala no recém-lançado O Que Eu Não Contei (tradução de Mauro Pinheiro, Record, 378 págs., R$ 54,90): “O Estado tem tido uma presença tão invasiva em nossas vidas que nenhum cidadão iraniano pode pretender ignorá-lo”. Nem mesmo uma criança.

Tal onipresença já havia inspirado a iraniana a escrever o aclamado Lendo Lolita em Teerã (2003), misto de ficção e memórias com base nos tempos em que deu aulas usando textos proibidos pelo governo dos aiatolás. Ao lançar aquele livro, Azar já vivia nos EUA com o marido e os dois filhos. O que mudou desde então foi que o pai e a mãe, ambos ainda vivendo em Teerã, morreram.

Ao relembrar a vida com os dois, Azar teve dimensão de que a história de sua família era tão ligada aos acontecimentos políticos – o pai havia sido prefeito de Teerã; a mãe, membro do Parlamento – que não havia mais como ignorar a vontade de rever a trajetória de seu país no século 20 por meio do que havia vivenciado em casa.

“Quando deixei o Irã, em 1997, me senti livre para escrever sobre o país. Mas nunca tinha sentido isso em relação aos meus pais. Com a morte deles, me dei conta de que faltava algo a dizer. Precisava alcançar a paz em relação aos meus pais para chegar à paz comigo mesmo”, diz a autora por telefone ao Estado, de Washington, onde vive e leciona na Johns Hopkins University”s School .

Um trecho do livro dá a dimensão da relação conturbada de Azar com a mãe: “Depois da Revolução Islâmica, eu costumava brincar dizendo que nós tínhamos nos preparado para um período assim vivendo com minha mãe.” A comparação, a título de brincadeira, tem relação com a ideia da autora de que “uma das grandes coisas sobre a ficção é que trata de indivíduos, mas as relações destes são sempre simbólicas do que temos em sociedade“.

A literatura, em sua avaliação, também tem ligação estreita com esse universo maior: “Coisa curiosa sobre o totalitarismo é que o Estado sempre censura a literatura e a arte, pois são por natureza democráticas. Elas dão voz a todos, e o totalitarismo tira a voz.” Mas, avalia, se por um lado o primeiro passo do totalitarismo é destruir a literatura, a primeira reação da literatura é resistir. Resisto como mulher, artista e professora.

Nos EUA, Azar passou a dar palestras e se tornou uma voz forte contra o governo islâmico, o que a tornou persona non grata – não pode voltar ao país nem para visitar parentes. “O Irã será sempre meu lar. Foi onde nasci, onde estão as pessoas que amo.” é também o único país em que seus livros são proibidos – embora se orgulhe de saber que cópias em xerox das obras atravessaram a fronteira.

Azar não sabe se voltaria – caso lhe fosse permitido – a viver no país recém-anunciado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad como “Estado nuclear”. “O povo não tem o que comer. Num país como esse, em vez de prestar atenção no bem-estar das pessoas, pensar em guerra é ultrajante.” Ela lamenta ainda a postura do governo brasileiro. “Achei infeliz receberem Ahmadinejad quando até ex-membros do governo iraniano são atacados. Entendo que o Brasil valorize a conversa diplomática, mas Irã e Brasil são membros da ONU e aceitaram as convenções dos direitos humanos. Não se pode ignorar isso.”

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