Das adúlteras

Soube ontem que, por esses dias, o texto mais lido em todo o site do Estadão era sobre o caso Sakineh (não sei qual reportagem em particular, daí finge que não deu para perceber que chamei para toda a cobertura). À frente, veja bem, do stage diving da Lady Gaga. Não é nada? Vá prestar atenção nos assuntos mais lidos de qualquer site noticioso do País. É de uma raridade ímpar um tema de fato sério liderar a lista.

Daí, ontem mesmo, por coincidência, o escritor Fabrício Corsaletti mandou um e-mail coletivo para amigos com este poema, para quem quisesse publicar no próprio blog. Certeza de que não fui a única, mas eu quis.
.

***

 

APEDREJEMOS AS ADÚLTERAS

vamos sequestrar as mulheres do Irã
enquanto seus maridos dormem bêbados
depois da última noitada
vamos nos casar com as mulheres do Irã
e criar seus filhos —
vamos deixar os homens do Irã sozinhos
batendo punhetas nervosas
ou fodendo uns aos outros —
vamos amar as mulheres do Irã
vamos ser traídos pelas mulheres do Irã
vamos perdoar as mulheres do Irã
e ser felizes com as mulheres do Irã

vamos sequestrar as mulheres do Brasil

Anúncios

Resistência em quadrinhos

Posso estar ficando monotemática com essa coisa de Irã, mas, na semana passada, quando esbarrei o primeiro capítulo de Zahra’s Paradise, a graphic novel on-line sobre a situação pós-eleições de 2009 naquele país, não resisti a ir atrás. Falei com o editor da série, Mark Siegel, da First Second (que publicará a versão impressa depois que os capítulos forem todos postados na internet), e eles me puseram em contato com um dos autores, Amir, que assina assim, só com o primeiro nome, para evitar represálias para a família dele que ainda vive no Irã.

Saiu no Caderno 2 de hoje, mas o link para a versão impressa não entrou no ar, e o on-line puxou uma versão não-finalizada do texto. Então o resultado taí, abaixo. Acho que foi a pauta que mais gostei de fazer nestes dois primeiros meses de Estadão (Update: a versão on-line, aqui).

Graphic novel on-line é a nova cara da resistência no Irã

HQ Zahra’s Paradise, que estreou na última sexta, destaca situação no país após as eleições de 2009

Raquel Cozer

O momento em que a estudante Neda Soltan, caída no chão de asfalto em Teerã, revirou os olhos para o alto e começou a sangrar pela boca e pelo nariz tornou-se o símbolo maior dos protestos que se seguiram às fraudulentas eleições de junho de 2009 no Irã. Foi naquela época que a HQ Zahra’s Paradise, idealizada por um escritor iraniano e um cartunista árabe, começou a ganhar forma. A história fictícia trataria da busca de uma mãe, Zahra, por um filho, Mehdi, desaparecido durante as manifestações.

Não só a agonia da jovem teve influência, mas também o modo como a imagem chegou ao público, em vídeo postado horas depois do ocorrido no YouTube e linkado ao Facebook e ao Twitter para, só então, repercutir nos meios tradicionais. Em vez de esperar dois anos até a finalização de uma graphic novel de 160 páginas, a editora e-americana First Second resolveu seguir o exemplo do iraniano que jogou as cenas na rede e, do papel, o projeto migrou para a internet. O primeiro capítulo foi ao ar na sexta-feira passada, na página www.zahrasparadise.com, e novos episódios serão publicados todas as segundas, quartas e sextas pelos próximos 18 meses, quando, enfim, ganharão versão impressa.

É a maneira certa de chegar ao público, acredita o editor da HQ, Mark Siegel, numa época em que a realidade não se dissocia das novas mídias. “Quando o que aconteceu em Teerã foi tuitado e postado em blogs, o mundo teve a possibilidade de ver coisas que regimes repressivos como o dos aiatolás em geral escondem”, diz Siegel ao Estado, de Nova York. O método permite também que a trama, que avançará no tempo até coincidir com os dias finais da publicação on-line – prevista para agosto de 2011 -, seja adaptada ao desenrolar dos fatos. Embora o fim esteja definido, as reviravoltas no governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad e do líder supremo Ali Khamenei podem levar a HQ a ganhar contornos inesperados.

Os autores de Zahra’s Paradise assinam os quadrinhos apenas com os primeiros nomes, Amir e Khalil. Com familiares na região em conflito, temem represálias. Embora a autora iraniana Marjane Satrapi  tenha aberto portas com sua HQ Persépolis – cuja trama se passa em 1979, pré-Revolução Islâmica -, a situação é diferente. “Ela deu uma voz nunca antes imaginada à geração dela naquele lindo trabalho autobiográfico. Nossos quadrinhos são fictícios, mas, ao mesmo tempo, tratam da história de todo mundo. A maior dificuldade é que diz respeito ao momento presente”, diz Amir por telefone ao Estado, com seu tom de voz suave e cuidadoso que, por vezes, beira o inaudível.

Anonimato

Amir é também jornalista, documentarista e ativista de direitos humanos. Antes de se estabelecer nos Estados Unidos, passou temporadas no Afeganistão, no Canadá e na Europa. Khalil, de origem árabe, faz cartuns desde muito jovem, embora Zahra’s Paradise seja sua primeira graphic novel, e também tem obras como ceramista e escultor. Os dois têm certo reconhecimento nos EUA – mas a HQ eles só assinarão com seus nomes completos caso a situação mude bastante no Irã.

Parte das primeiras reações à publicação on-line mostra que os dois têm razões para a precaução que tomam. Alguns hate comments (comentários anônimos com ameaças) tiveram de ser apagados da página virtual, que abre espaço para internautas opinarem. Críticas menos agressivas foram mantidas. “Alguém que reza não manteria bebidas alcoólicas em sua casa. Isso seria um grande pecado”, escreveu um internauta islâmico, ao qual outro leitor tratou de responder: “Alguém que teme a Deus de verdade não julga o comportamento dos outros.”

Um outro internauta elogia a iniciativa, mas faz a ressalva de que, no Irã, mulheres de religiões diferentes nunca teriam uma relação tão afetuosa (a HQ começa com a mãe de Mehdi, islâmica, dando um abraço em uma amiga armênia, da minoria cristã). E de que Zahra “parece árabe, e não iraniana”. “Num país como esse, onde se vê tantas culturas diferentes numa mesma vizinhança, é claro que você terá muitos pontos de vista diferentes”, minimiza Siegel. “Amir, como iraniano, cria a partir de algo que fez parte de sua realidade desde sempre. Cada detalhe tem base na vida real.”

A maior parte dos comentários, no entanto, é de apoio. Um leitor sueco se oferece para traduzir os textos para o seu idioma; outro, para o hebraico. Siegel vê as iniciativas como um sinal positivo, mas as traduções que já estão no ar – persa, árabe, francês, espanhol, italiano e holandês – são feitas por profissionais. Antes mesmo de iniciar a série, a First Second havia conseguido o aval de seis grandes editoras mundo afora, responsáveis por essas traduções e pelo futuro lançamento da HQ impressa. Por enquanto, nenhuma editora do Brasil se ofereceu para publicar a graphic novel. Internautas brasileiros que não falem outro idioma podem, ao menos, entender algo da história em espanhol.

Ausência

Zahra’s Paradise é, como afirma Amir, uma narrativa sobre a ausência, sobre a mãe que não perde a crença no reencontro com o filho. Não à toa o título, além de remeter à protagonista da trama, é o nome de um cemitério daquele país. “A sensação de perda é algo que quase todo iraniano conhece”, diz o autor. Ele não diminui sentimento na vida de pessoas de outras nacionalidade: “Todos nós, no mundo inteiro, conhecemos ou conheceremos a sensação da perda, de um jeito ou de outro.” Mas acredita que a convivência dos iranianos com a sensação de perder um ente querido de uma hora para a outra interfere na forma como a arte é produzida naquele país.

“A ausência se torna parte da vida. A questão é de que maneira você lida com isso, e criação artística foi a maneira que encontrei”, diz. Amir destaca que o cartum, símbolo mundial de resistência política, justamente por isso é forte naquela região. Não poucos amigos, conta, tiveram de abandonar o país após fazerem desenhos “hilários” de Ahmadinejad. “Não importa quão forte o Estado se torne, os iranianos, em especial as novas gerações, encontram um modo de externar suas ricas vidas interiores.”

São os jovens do mundo todo o público que Amir e Khalil mais esperam atingir, para que entendam a realidade muito além do que permitem entrever as manchetes dos jornais. Também por isso decidiram fazer de um dos personagens principais, o irmão do jovem desaparecido, um blogueiro. Com a ajuda da internet, o rapaz vasculhará no limbo extrajudicial pistas que possam levar a Mehdi.

“A juventude tem muita urgência em se comunicar, em se fazer escutar. Quando a Revolução de 1979 aconteceu, ninguém fora do país tinha bem a dimensão do que estava acontecendo ali. A internet virou essa realidade do avesso”, diz Amir. “Mostrou que o mundo se preocupa com o Irã, o que é uma mensagem muito inspiradora para todos nós.”

Por falar em Teerã

 

Vi só agora a grande vencedora do World Press Photo 2009, uma fotografia do italiano Pietro Masturzo sobre os protestos em Teerã contra Ahmadinejad.

Achei a história melhor que a imagem: o cara fez uma série de registros nas noites que se seguiram às eleições de junho de 2009, depois de se dar conta de que os protestos pelas ruas, registrados à exaustão, continuavam depois que o sol se punha, mas desta vez sobre telhados de casas. Embora as ruas ficassem vazias, gritos de “morte ao ditador” e “Deus é maior” ecoavam pela capital do Irã.

A imagem, que deixou para trás mais de 100 mil concorrentes, não chegou a ser publicada na época em nenhum grande jornal.

A galeria com todos os vencedores da WPP 2009 está aqui. O paulistano Daniel Kfouri ficou em terceiro na categoria esportes de ação, com esta foto aqui

O que eu também não contei

Nunca perguntei, mas imagino que quase todo jornalista da área cultural (que trabalhe em jornal diário, pelo menos) já deve ter passado pela situação de, na correria do fechamento, terminar um texto e sentir que faltou deixar claro o quanto o livro/filme/CD é de fato bom e por quê.

Aconteceu ontem comigo. Terminei uma ótima entrevista com a iraniana Azar Nafisi às 13h30 para entregar o texto às 14h30, e agora, lendo, acho que a matéria não dá bem a dimensão do quanto é interessante o recém-lançado O Que Eu Não Contei. Ok, sou repórter, não crítica literária, e o essencial está lá, mas, se pudesse burilar um pouco, acrescentaria alguns bons detalhes sobre o conteúdo do livro.

Acontece que agora são quase 14h de sábado e preciso mesmo almoçar, então deixo para comentar num próximo post. Por enquanto, segue o texto publicado hoje no Caderno 2, que na internet está disponível para assinantes do Estadão.

A autora na adolescência, nos anos 60, em foto do livro

‘Eu resisto como mulher e artista’

Azar Nafisi volta ao Irã e à Revolução Islâmica em O Que Eu Não Contei, rememorando agora relação com os pais

Raquel Cozer

Dara, filho caçula da escritora iraniana Azar Nafisi, ainda era pequeno quando, questionado sobre por que preferia Zorro a ídolos locais, respondeu: “Não gosto de heróis iranianos, eles machucam minha mãe. Eles têm armas e querem nos matar.” Nos primeiros anos pós-Revolução Islâmica, ele se lembrava de ter visto um jovem ameaçá-la por andar sem véu.

O garoto não tinha idade para entender, mas reproduzia uma ideia sobre a qual Azar fala no recém-lançado O Que Eu Não Contei (tradução de Mauro Pinheiro, Record, 378 págs., R$ 54,90): “O Estado tem tido uma presença tão invasiva em nossas vidas que nenhum cidadão iraniano pode pretender ignorá-lo”. Nem mesmo uma criança.

Tal onipresença já havia inspirado a iraniana a escrever o aclamado Lendo Lolita em Teerã (2003), misto de ficção e memórias com base nos tempos em que deu aulas usando textos proibidos pelo governo dos aiatolás. Ao lançar aquele livro, Azar já vivia nos EUA com o marido e os dois filhos. O que mudou desde então foi que o pai e a mãe, ambos ainda vivendo em Teerã, morreram.

Ao relembrar a vida com os dois, Azar teve dimensão de que a história de sua família era tão ligada aos acontecimentos políticos – o pai havia sido prefeito de Teerã; a mãe, membro do Parlamento – que não havia mais como ignorar a vontade de rever a trajetória de seu país no século 20 por meio do que havia vivenciado em casa.

“Quando deixei o Irã, em 1997, me senti livre para escrever sobre o país. Mas nunca tinha sentido isso em relação aos meus pais. Com a morte deles, me dei conta de que faltava algo a dizer. Precisava alcançar a paz em relação aos meus pais para chegar à paz comigo mesmo”, diz a autora por telefone ao Estado, de Washington, onde vive e leciona na Johns Hopkins University”s School .

Um trecho do livro dá a dimensão da relação conturbada de Azar com a mãe: “Depois da Revolução Islâmica, eu costumava brincar dizendo que nós tínhamos nos preparado para um período assim vivendo com minha mãe.” A comparação, a título de brincadeira, tem relação com a ideia da autora de que “uma das grandes coisas sobre a ficção é que trata de indivíduos, mas as relações destes são sempre simbólicas do que temos em sociedade“.

A literatura, em sua avaliação, também tem ligação estreita com esse universo maior: “Coisa curiosa sobre o totalitarismo é que o Estado sempre censura a literatura e a arte, pois são por natureza democráticas. Elas dão voz a todos, e o totalitarismo tira a voz.” Mas, avalia, se por um lado o primeiro passo do totalitarismo é destruir a literatura, a primeira reação da literatura é resistir. Resisto como mulher, artista e professora.

Nos EUA, Azar passou a dar palestras e se tornou uma voz forte contra o governo islâmico, o que a tornou persona non grata – não pode voltar ao país nem para visitar parentes. “O Irã será sempre meu lar. Foi onde nasci, onde estão as pessoas que amo.” é também o único país em que seus livros são proibidos – embora se orgulhe de saber que cópias em xerox das obras atravessaram a fronteira.

Azar não sabe se voltaria – caso lhe fosse permitido – a viver no país recém-anunciado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad como “Estado nuclear”. “O povo não tem o que comer. Num país como esse, em vez de prestar atenção no bem-estar das pessoas, pensar em guerra é ultrajante.” Ela lamenta ainda a postura do governo brasileiro. “Achei infeliz receberem Ahmadinejad quando até ex-membros do governo iraniano são atacados. Entendo que o Brasil valorize a conversa diplomática, mas Irã e Brasil são membros da ONU e aceitaram as convenções dos direitos humanos. Não se pode ignorar isso.”