Do bordel às galerias

Tenho certo receio de romances históricos, mas a vida da chinesa Pan Yuliang, que inspirou A Artista de Xangai, vale o risco, e a estreante Jennifer Cody Epstein fez um bom trabalho com o material que tinha em mãos. De pesquisa, inclusive – a descrição da sociedade chinesa nos primeiros anos do século passado dá a dimensão. O livro merecia uma edição brasileira que não forçasse a barra nas frases da orelha e da contracapa (sério, “escolha dolorosa entre a arte e o amor” é de doer), mas, enfim. Escrevi sobre ele no Caderno 2 de hoje.

A vida da prostituta que virou pintora na China

A Artista de Xangai, romance de estreia da americana Jennifer Cody Epstein, parte da história real de Pan Yuliang (1899-1977)

Raquel Cozer

A trajetória da pintora chinesa Pan Yuliang (1899-1977), do bordel para o qual foi vendida aos 14 anos pelo tio viciado em ópio às galerias em que exibiu telas pós-impressionistas, inspirou um filme (Hua Hun, de 1994, com a atriz Gong Li) e um romance em seu país de origem. Numa sociedade em que as meninas tinham os pés esmigalhados por faixas de pano para que se mantivessem “diminutos como lírios perfeitos” na vida adulta, uma jovem que reproduzia a própria nudez em quadros não poderia passar despercebida.

O mundo ocidental dedicou bem menos atenção a essa história de contornos inusitados, embora tenha sido na França que Yuliang estudou artes plásticas e passou boa parte da vida. Foi por isso que, ao deparar com uma tela da pintora numa exposição de arte moderna chinesa no Museu Guggenheim, em 1998, a então jornalista Jennifer Cody Epstein se deu conta de que tinha ali um enredo melhor que a ficção. Ou bom o suficiente para inspirar uma.

A Artista de Xangai (tradução de Flávia Carneiro Anderson, Record, 452 págs., R$ 57,90), romance de estreia da autora norte-americana, serve-se de fragmentos e lacunas de informações sobre a vida da Yuliang para contar esse passado. Não tem o compromisso de se limitar à realidade, embora inclua uma extensa pesquisa de campo, com a leitura de obras sobre outros artistas chineses daquele período, dois anos de aulas sobre a cultura da China na Universidade de Columbia e uma tentativa – malsucedida – da autora de aprender a pintar. O resultado é uma narrativa que permite imaginar como uma chinesa se sentia, em 1913, por não ter tido “determinação” para continuar quebrando os ossos dos pés após a morte da mãe. E como a adolescente que viveu três anos num prostíbulo lidou com a transição para o mundo artístico sob a reprovação da elite conservadora.

A íntegra do texto tá aqui. Lá em cima, claro, é uma pintura dela.

E, abaixo, Hua Hun, o filme em que Pan Yuliang é interpretada pela Gong Li (de 2046 e Lanternas Vermelhas).

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