God vs. O Criador

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A gigante Simon & Schuster anunciou hoje à imprensa estrangeira, num release “engraçadinho” (ai), que fechou acordo com Deus para a publicação de um livro “semiautobiográfico”. Disse o editor Jonathan Karp: “Estamos satisfeitos e honrados por adicionar Deus Todo-Poderoso à nossa lista de autores notáveis”.

O material de divulgação conta ainda que David Javerbaum, roteirista do The Daily Show with Jon Stewart, trabalhará no projeto, previsto para sair no final de 2011.

Daí lá no finzinho do texto ficamos sabendo que Deus agora usa no Twitter a conta The Tweet of God. Tipo, para dar um ar “século 21” a sua milenar visão do mundo.

The Tweet of God tem, no momento em que escrevo este post, 83 seguidores, e avisa na bio do Twitter: “Sou o Senhor teu Deus, criador do Twitterverso. Não deverás seguir nenhum deus antes de mim”.

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O que será que O Criador, com seus atuais 572.086 seguidores, teria a dizer ?

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O cartum não tem nada a ver com a história. Peguei daqui.

Entre fatos e invenções

[publicado no Sabático de 27/11]

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Em seu primeiro romance, Marcelo Ferroni parte de diários, relatórios e depoimentos sobre a missão de Che Guevara na Bolívia para, numa proposta de desconstrução literária, arrancá-los do contexto

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

Estrábico e semianalfabeto, o jovem Benigno, homem de confiança de Che Guevara, deixou longo relato do período em que os guerrilheiros incumbidos de dar início à revolução na Bolívia, em 1966, encaminhavam-se de La Paz para o acampamento na selva. A falta de intimidade com as letras não impediu o uso de descrições elaboradas sobre a paisagem, que teria “paredes cobertas até o alto de espessa floresta, com tremendos contrafortes erguendo-se a pique e com ladeiras de puro granito”.

Quem nos revela esses detalhes é o narrador do recém-publicado Método Prático da Guerrilha, não sem antes esclarecer que os diários de Benigno recendem a plágio e não costumam ser usados por biógrafos como fonte confiável de informação. Acontece que esse narrador, um leitor mais atento poderá perceber, usa de expedientes questionáveis. Por má fé, desatenção ou provocação, incluiu nos relatos de Benigno trechos de anotações feitas por exploradores ingleses no Brasil do século 19.

É nessa descontextualização da história que reside a graça de Método Prático da Guerrilha – na realidade, não uma biografia nem uma reportagem, como possa parecer à primeira vista, mas sim um romance, o primeiro de Marcelo Ferroni, de 36 anos, editor da Alfaguara. Como alertam frases anteriores à epígrafe, o “livro se baseia em diários, relatórios e depoimentos dos que foram à luta armada. Tirá-los do contexto foi trabalho do escritor”. Um trabalho que demandou, aliás, mais tempo e esforço que a pesquisa. Dos sete anos desde a ideia original de escrever sobre Che, apenas um foi dedicado exclusivamente a leituras. Os três anos seguintes se dividiram entre pesquisa e escrita, e os três finais, a reescrever – quatro vezes – o romance do início ao fim.

A gênese da história imaginada por Ferroni está num caso relatado pelo jornalista Elio Gaspari em seu primeiro volume da série sobre o regime militar, A Ditadura Envergonhada (2002). Ali, o paulistano tomou conhecimento de que, durante o período que Che Guevara passou no Congo, em 1965, na tentativa de liderar um movimento de guerrilha, o argentino demonstrava intenso desconhecimento da realidade local. “Ele achava que ia colocar ordem nas tribos com seus guerrilheiros, mas não conhecia nada de geopolítica”, conta Ferroni. Entre os desmandos da empreitada fracassada, Che tentou convencer congoleses a carregarem 40 kg de pedras em mochilas para se acostumarem, ao que eles retrucavam que não eram caminhão.

“Lendo sobre aquele choque entre duas realidades, percebi que precisava escrever sobre o Che, esse herói que virou mito ao morrer jovem defendendo um ideal, um combatente destemido enfrentando uma realidade que não entende bem”, afirma. O que seria a princípio uma biografia romanceada ou um romance histórico acabou virando a desconstrução disso, com o narrador onisciente em terceira pessoa se transformando nesse contador pouco confiável da história. Aqui, a inspiração veio de outro livro, Che Guevara: A Biography, de Daniel James, uma das primeiras biografias do argentino, dos anos 70, quando muito pouco ainda havia sido revelado sobre a guerrilha – uma descrição cheia de lacunas, segundo Ferroni, que percebeu um leve desprezo do autor pela figura do revolucionário. Assim como James, o narrador do romance é pedante, até irritadiço.

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Referências. Definido o formato da narrativa, o escritor passou a incluir referências históricas e literárias sempre onde elas não deveriam estar. Relatos de guerrilheiros estão lá aos montes, mas na maior parte das vezes na boca de outro que não aquele que os registrou. Num momento em que os cubanos tentam atravessar um rio a nado na Bolívia, a descrição aparece tal e qual a de cena similar no clássico Guerra e Paz, de Tolstoi. Na dúvida, o paulistano preferiu nem conhecer pessoalmente o cenário dos acontecimentos. “Não fui (para a Bolívia), e foi de propósito. Não fiz entrevistas, não visitei lugar nenhum. Com isso, a Bolívia se tornou meu país imaginado, como uma peça em que o fundo é um tecido pintado com a perspectiva levemente errado”, explica. “O cenário é literatura, as referências são de literatura, os personagens são recriados por eles mesmos nos diários.”

A saga recontada no romance resume-se aos dois últimos anos de vida de Che (1928-1967). Começa com os primeiros contatos, em La Paz, em 1966, entre agentes que formarão a rede urbana da missão na Bolívia, país escolhido como ponto de partida da revolução na América do Sul. Entre eles está Tania, argentina descendente de alemães infiltrada nos altos círculos da sociedade pacenha. Como a grande maioria dos personagens de Método Prático da Guerrilha, Tania existiu de fato. Era o codinome de Haydée Tamara Bunke Bider (1937- 1967), única mulher participante da ação boliviana e que, segundo biógrafos, teria sido amante do comandante Guevara.

Outra ponta da narrativa inclui a maior liberdade histórica de Marcelo Ferroni. Trata-se de João Batista, codinome de Paul Neumann, brasileiro de Caxias do Sul que, por percursos não muito claros, foi parar na selva boliviana ao lado de Che. No prefácio, o narrador apresenta esse como o grande diferencial de sua versão dos fatos – ele, e apenas ele, teve acesso a uma tal transcrição de interrogatório realizado por dois cubanos a serviço da CIA com Paul Neumann, em 1697, depois da morte do líder, e que permanecia intocada no Departamento de Estado dos EUA. O personagem, inventado por Ferroni, é uma espécie de Fabrício Del Dongo no romance A Cartuxa de Parma, de Stendhal: participa de uma guerra napoleônica sem ter a menor ideia do que está acontecendo.

Thriller. Jornalista por formação, há quatro anos vivendo no Rio – desde que assumiu o cargo de editor no selo mais literário da Objetiva -, Marcelo Ferroni buscou construir em Método Prático da Guerrilha uma espécie de thriller que é, ao mesmo tempo, uma provocação com os thrillers de base histórica. “Uma vez, um conhecido me disse que só lê ficção se for algo como O Código Da Vinci, que enquanto você lê aprende coisas sobre a Igreja. Daí pensei: “Mas tudo o que está lá é ficcional.” Meu livro é, de certa maneira, uma resposta a isso. Quem lê esperando encontrar a verdade não vai encontrá-la.”

O que o leitor encontrará será uma visão bem-humorada dos erros reais de planejamento que, naquele ano de 1967, ajudariam a levar à morte de Che Guevara, numa emboscada na selva. Toda a ironia, no entanto, não tira para Ferroni o papel heroico que desempenhou o argentino no século passado. “Um herói um pouco mais humano, muito autoritário, muitas vezes equivocado, mas ainda assim um herói.”

A coluna da semana

EDITAL
Prêmio Skidmore contemplará obras sobre o Brasil

O brasilianista Thomas Skidmore, de 79 anos, vai virar prêmio. Em 2011, para estimular a hoje escassa publicação nos EUA de trabalhos de historiadores brasileiros, o Arquivo Nacional lançará o Prêmio Skidmore, que a cada dois anos contemplará período ou temática já abordados pelo norte-americano. O primeiro edital avaliará livro autoral de história do Brasil publicado entre 2006 e 2010 e que aborde o período 1930-1945 – o mesmo de Brasil: de Getúlio a Castello, que a Companhia das Letras coloca nas livrarias na próxima semana, dando início à reedição das obras do autor. O segundo edital, em 2013, terá em vista livro lançado de 2008 a 2012 que trate do período 1964-1985 (assim como De Castelo a Tancredo). O terceiro, em 2015, livro de 2010 a 2014 sobre raças no Brasil (caso de Preto no Branco), e o quarto, em 2017, obra de 2012 a 2016 com temáticas pertinentes ao século 20 (como Brasil Visto de Fora). O prêmio consiste em subsídio de US$ 5 mil para tradução da obra ao inglês, com objetivo de publicação por editora americana.

NOVOS SELOS
Aposta na literatura

A associação entre a Ipsis Gráfica e a editora Alaúde, anunciada há seis meses por esta coluna, renderá seus primeiros frutos literários em abril, com o lançamento dos selos Tordesilhas e Tordesilhinhas. Logotipos e projeto gráfico serão de Kiko Farkas.

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Com clientes como Cosac Naify e IMS, a Ipsis garantirá o apuro gráfico dos selos, segundo o editor Joaci Furtado. Ele já fechou quatro títulos com a Libros del Zorro Rojo, referência catalã em obras ilustradas, incluindo caprichadas edições do Kama Sutra e da novela A Condessa Sangrenta (foto), da argentina Alejandra Pizarnik, com ilustrações de Santiago Caruso.

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O selo adulto apostará em clássicos (Mamede Jarouche traduz A Arte de Governar, fábulas políticas árabes do século 12 narradas por uma mulher), alta literatura (incluindo romance do historiador romeno Mircea Eliade) e ficção comercial (como dois títulos do sueco John Lindvist, autor do livro que originou o filme Deixa Ela Entrar).

MÚSICA
McCartney nas livrarias

Depois de falar português no Morumbi e andar de bike no Itaim-Bibi, o autor de Eleanor Rigby e Blackbird tornará a ser assunto entre brasileiros com o lançamento de Paul McCartney, Uma Vida>, de Peter Ames Carlin, pela Agir, no início de 2011. Carlin, autor também de biografia de Brian Wilson, costura a vida pessoal e profissional do ex-beatle a partir de dezenas de entrevistas.

JUVENIL
Viagem no tempo e nas telas

O selo Seoman, da Pensamento Cultrix, adquiriu em concorrido leilão os direitos de Tempest, primeiro livro de trilogia juvenil assinada por Julie Cross, previst0 para sair ano que vem nos EUA. Narrando a história de um jovem que viaja no tempo e tenta salvar a namorada, que morreu, a obra já teve direitos adquiridos pela Summit, produtora dos filmes da série Crepúsculo.

POLÍTICA
Vice da Bolívia no Brasil

O vice-presidente boliviano Álvaro García Linera virá ao Brasil no dia 13 para o lançamento de seu livro A Potência Plebeia (Boitempo), reunião de ensaios, publicados entre 1989 e 2008, sobre diferentes etapas do processo sociopolítico da Bolívia. García aproveitará para fazer uma rápida visita à presidente eleita, Dilma, em Brasília.

FUTEBOL
Galvão, uma antologia

Hit no Twitter durante a Copa, as pérolas de Galvão Bueno vão virar livro nos moldes de Nunca Antes na História Deste País, de Marcelo Tas, que reuniu frases de Lula.

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Com o mesmo ilustrador do título anterior, Ricardo Gimenes, o volume Calaboca Galvão sai também pela Panda Books, comentado por Pablo Peixoto. Entre os pensamentos selecionados, estão frases como “Essa chuva de Interlagos foi parecida com a de Silverstone, ambas tinham água…” e “Casagrande, eu tenho a impressão de que o Dunga pediu aos jogadores para chutar a gol.”

A pedra no caminho de Drummond, por Lygia Fagundes Telles

Reproduzo abaixo trecho do livro Biografia de Um Poema (ver post abaixo), uma das histórias compiladas pelo próprio Drummond sobre os versos de No Meio do Caminho, publicada originalmente em 1º de maio de 1948, no caderno Letras e Artes do jornal A Manhã.

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Poesia até o infinito

Por Lygia Fagundes Telles

“- Li o livro do Carlos Drummond – ele disse. E prosseguiu com uma careta: – Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!

– Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! – confessei.

– É impossível que você tenha gostado! – retorquiu o poeta. – Ouça só esta maravilha que tive a paciência de decorar… (…) – Começou:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:

– Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado – exclamei.

O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso alguns versos que compusera.

Leu-os. E depois disse:

– Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há ideia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…

– Sim, eu sei! – interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: – Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.

(…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abri-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.

Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.”

A história da pedra no caminho

[publicado no Caderno 2 de 24/11. As usual, incluo aqui algumas imagens do livro que não entraram na edição impressa. O crédito de todas é Acervo Instituto Moreira Sales/Divulgação]


O poema em fac-símile da primeira edição de Alguma Poesia, de 1930

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IMS lança edição ampliada de fortuna crítica do poema de Drummond

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) costumava dizer que, se cometesse um crime, bastava sumir e reaparecer apenas dez anos depois, e então o crime estaria prescrito, mas que, em relação ao poema No Meio do Caminho, escrito em fins de 1924, podiam se passar 50 anos e ele nunca deixaria de ser julgado.

Tal noção o levou, ao longo de toda a vida, a recortar e guardar cada crítica, comentário e charge feitos sobre os versos “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho…”, publicados na Revista de Antropofagia, em 1928, e dois anos depois incluídos em seu livro de estreia, Alguma Poesia. O resultado desse esforço de compilação o poeta mineiro trouxe a público em 1967, ao lançar Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de Um Poema. Era uma resposta irônica às vésperas dos 40 anos daquela primeira publicação – com isso, o escritor devolvia aos leitores a leitura que eles haviam feito de seu trabalho.

O livro que o Instituto Moreira Salles lança hoje, no Rio, em homenagem aos 80 anos de Alguma Poesia, é uma edição ampliada da Biografia de Um Poema. O trabalho ficou a cargo do poeta Eucanaã Ferraz, que contou com a ajuda do próprio Drummond para a nova edição – mesmo depois de publicar a biografia, o poeta continuou, talvez por costume, a arquivar a fortuna crítica relativa a No Meio do Caminho – e incluiu, ao final, uma “biografia da biografia”, com as resenhas sobre o título de 1967.

“Drummond guardou muita coisa que saiu sobre ele ao longo da vida, mas em pastas, por assunto ou pelo sobrenome do crítico”, diz Ferraz, destacando a consciência do poeta, que trabalhou por muitos anos no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional), sobre a importância da preservação da memória. “A diferença no que diz respeito a No Meio do Caminho é que ele arquivou tudo não sobre o livro que o continha, mas sobre aquele poema.” Ferraz destaca ainda que, embora não tenha escrito uma única linha da biografia – o prefácio original ficou a cargo do português Arnaldo Saraiva -, Drummond fez sua própria leitura sobre as críticas ao separá-las em capítulos com títulos como Muita Gente Irritada, Das Incompreensões e Popularidade, Mesmo Negativa.

Crítica. O poema No Meio do Caminho não repercutiu ao sair na revista nem no livro de 1930. Neste segundo momento, lembra Ferraz, os versos foram eclipsados pelo Poema de Sete Faces, considerado à época sem pé nem cabeça. Foi em 1934, quando Drummond assumiu no Rio o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde Pública – posição-chave no ensino do País -, que os primeiros críticos usaram o poema da pedra contra o autor.

Considerados pobres e repetitivos (“O sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro, não sai nada. Vê uma pedra no meio do caminho e fica repetindo a coisa feito papagaio”, escreve Gondin da Fonseca em 1938), rejeitados pelo “brasileirismo grosseiro, erro crasso de português” (conforme crítica da Folha da Manhã, em 1942, pelo uso do popular “tinha” no lugar do correto “havia”), os versos facilitaram a vida dos críticos do modernismo. Depois, passaram a receber exaltados elogios.

A discussão incomodava o poeta, mas ele logo percebeu que graças a ela tinha um livro “sobre como uma obra de arte sai de seu universo e ganha dimensão social e cultural”, como descreve Ferraz, entusiasta do poema. “Não adiantou Drummond dizer que isso não era digno de tanta atenção, tanto que 80 anos depois estamos falando sobre o tema. O poema desmentiu Drummond.” Numa coisa, porém, Drummond estava certo. Como escreveu nos versos, ele nunca teve a chance de se esquecer daquele acontecimento, a pedra no caminho, na vida de suas retinas tão fatigadas.

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO – BIOGRAFIA DE UM POEMA

Autor: Carlos Drummond – edição ampliada de Eucanaã Ferraz. Editora: IMS (344 págs., R$ 50). Lançamento no Rio: IMS. Rua Marquês de São Vicente, 476, (21) 3284-7400. Hoje, a partir de 19h30.

Drummond e a pedra no traço de Loredano

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Drummond em retrato de Marcel Gatheurot, de 1959

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A pedra musicada por Francisco Mignone, em 1938

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A pedra em charge de Augusto Rodrigues, no Diário de SP, em 1943

Escreva uma história com Tim Burton

Você se lembra de uma brincadeira em que uma pessoa escreve uma frase num papel, dobra a parte de cima e a pessoa seguinte lê o fim da frase para então escrever outra, construindo uma história?

O escritor, artista, cineasta etc. Tim Burton criou uma página que leva a ideia para a internet. Chama-se Tim Burton’s Cadavre Exquis, título que se refere a “exquisite corpse” – nome da tal brincadeira que, segundo a Wikipedia (pode confiar?), foi inventada pelos surrealistas (não sei como é o nome do jogo em português. Se alguém souber, me conte).

Burton lançou a primeira frase (“Stainboy, using his obvious expertise, was called in to investigate mysterious glowing goo on the gallery floor”) seguida da hashtag #BurtonStory e pede a usuários do Twitter que continuem a saga usando a hashtag.  Na página inicial, aparece sempre a última frase (e as atualizações de todos que usaram a hashtag no Twitter) e o convite para escrever a próxima.

Os melhores tuítes do dia são escolhidos pelo próprio Burton, e a história segue até dia 6/12 – por enquanto, 13 foram aprovados. A ideia é escrever quase às cegas, só com base no primeiro e no último tuíte, mas quem quiser pode ler tudo clicando em Read the Story.

(Quem me cantou a bola para este post foi a Bruna Bittencourt, ex-colega de Ilustrada tão viciada em internet quanto eu, mas que curiosamente resiste a ter um blog ou frequentar redes sociais…)

A coluna da semana

[Publicada no Sabático de 20/11]

BABEL

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo

ENCONTRO
Livraria da Vila terá festival sobre águas do Rio Negro
Loja oficial de eventos como Flip e Festival da Mantiqueira, a Livraria da Vila resolveu inventar festival próprio, um tanto fora do padrão, para 2011. Trata-se do Navegar É Preciso, que acontecerá de 8 a 13 de maio sobre as águas do Rio Negro, no Amazonas. Um navio abrigará autores e artistas nacionais em encontros sobre literatura e educação. Já estão confirmados Laurentino Gomes, Mary Del Priore, Cristovão Tezza, Milton Hatoum, Ilan Brenman e o grupo Mawaca. A programação inclui atividades fora do barco, como pesca, trilhas e visita a biblioteca do projeto Vagalume numa comunidade. “Quis juntar a ideia da livraria como ponto de encontro com projeto de sustentabilidade e turismo. Nunca fiz esse passeio, achei que seria ótimo fazê-lo com pessoas que gostam de cultura”, diz Samuel Seibel, dono da livraria. Interessados podem guardar grana desde já: com uma noite em hotel e quatro no cruzeiro Iberostar Gran Amazon, o passeio custará de R$ 4.525 a R$ 7.655, sem aéreo. Informações: http://www.auroraeco.com.br e (0-11) 3086-1731.

ENSAIOS
Anseios de Leminski

Em março de 2011, a Editora da Unicamp vai colocar nas livrarias a reedição de Ensaios e Anseios Crípticos, de Paulo Leminski, com mais de 50 textos curtos sobre assuntos variados, como Euclides da Cunha, rock e haicai. Os ensaios foram publicados originalmente em dois volumes pela curitibana Criar Edições. O primeiro, de 1986, com noções teóricas, está esgotado. O outro, de 2001, ainda em catálogo, contém análises de autores que o poeta admirava.

INFANTIL
A quatro mãos

Dois dos autores de quadrinhos brasileiros de maior prestígio no País, Ziraldo e Mauricio de Sousa, almoçaram juntos na terça em São Paulo para bater o martelo de um projeto editorial. Lançarão, na Bienal do Rio de 2011, dois infantis pela Melhoramentos. Detalhes ainda são segredo, mas a tiragem inicial está definida: 100 mil cópias.

LIVRARIA 1
Venda consciente

Sem interesse em faturar com as vendas de Decision Points – autobiografia de George W. Bush, lançada com 1,8 milhão de cópias nos EUA -, mas também disposta a atender qualquer eventual fã do ex-presidente, a livraria independente Green Apple, de São Francisco, achou uma solução: doar 100% dos lucros com o título a um hospital local.

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Não foi a primeira vez que a loja tomou posição política. Em 2009, deu a uma ONG do Alasca o faturamento com Going Rogue, de Sarah Palin. “Vendemos 10 ou 12 cópias. Foram 8 ou 10 a mais do que teríamos vendido (sem o anúncio da doação)”, disse Kevin Ryan, dono da livraria, ao SFWeekly. Da obra de Bush, que já vendeu 775 mil cópias, a Green Apple estocou só 12 unidades.

LIVRARIA 2
As melhores do mundo

A City Lights Bookstore (foto), também em São Francisco, é a melhor livraria do mundo segundo o recém-lançado Lonely Planet”s Best in Travel 2011: “Tendo sido ponto de encontro de ícones literários americanos, dos autores beat em diante, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, ainda é central para a vibrante cena cultural da cidade.”

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Completam a lista do guia, na ordem:

2º) El Ateneo (Buenos Aires)

3º) Lello (Porto)

4º) Shakespeare & Company (Paris)

5º) Daunt Books (Londres)

6º) Another Country (Berlim)

7º) The Bookworm (Pequim)

8º) Selexyz Dominicanen (Maastricht)

9º) Bookàbar (Roma)

10º) Atlantis (Santorini, na Grécia)

LEILÃO
Os livros de Cyro Pimentel

Interessados no leilão de itens do acervo pessoal do poeta Cyro Pimentel, que ocorre no próximo sábado, conforme noticiado pela coluna na semana passada, podem contatar o leiloeiro José Luiz Garaldi pelos telefones (0–11) 3257-4362 e 3283-3635 ou pelo e-mail livrariasereia@uol.com.br.