Quando o editor se torna escritor

“Querido editor, por que você insiste em mandar minhas histórias de volta? Você deveria publicá-las e me tornar rico e famoso. Qual o problema com você?

A relação entre escritores e editores é uma coisa engraçada. Isso ficou mais claro do que nunca para mim quando, no ano passado, fiz uma reportagem sobre a estreia de autores nacionais em grandes editoras. Durante as apurações, houve autores que disseram que o editor não tinha mexido uma vírgula no livro de estreia deles, quando os próprios editores tinham contado que precisaram interferir no texto. Muitos escritores não gostam de admitir que acataram intervenções; outros simplemente recusaram todas, sem dó; outros, dos melhores que há, não têm problema em dizer que aceitaram algumas sugestões de mudanças. E, é claro, há casos em que as sugestões que chegam da editora são equivocadas, mesmo.

Daí que, quando soube que o Paulo Roberto Pires, ex-editor da Planeta e da Ediouro, estava pra lançar o romance Se Um de Nós Dois Morrer Agora (Alfaguara) –  e justamente um romance que envolve um escritor frustrado, a obsessão pela escrita e, mais em segundo plano, um editor falso e interesseiro -, imaginei que rendia uma discussão. Conversei com o Paulo, o Marcelo Ferroni (editor da Alfaguara, que estará na Flip como escritor, pelo romance que lançou pela Companhia) e com o Marcelo Melo (que acaba de lançar um romance por sua própria editora, a Livros de Safra) sobre questões que envolvem edição e escrita. O Luiz Schwarcz, que no ano passado lançou Linguagem de Sinais, também já escreveu no Blog da Companhia sobre a experiência de ter seus originais recusados pela própria editora.

O resultado foi a capa do Caderno 2 de hoje, que reproduzo abaixo. Antes, queria só mostrar como ficou bacana a capa. A foto do Paulo Roberto Pires, abaixo, era essa feita pelo Wilton Junior na sede carioca do Instituto Moreira Salles, onde ele trabalha.

A capa, linda, foi uma concepção da Adriana Laudari, que costuma também fazer comigo o risco da Babel.

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Romance de editor

Paulo Roberto Pires e outros editores falam sobre lançar livros próprios conhecendo as dificuldades do mercado

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Uma nota na imprensa ajudou a espalhar um burburinho incômodo no meio editorial: o jornalista Paulo Roberto Pires revelaria bastidores do mundo literário no romance Se Um de Nós Dois Morrer (Alfaguara). A experiência de oito anos como editor de livros, na Planeta e depois na Ediouro, de fato legou à ficção de Pires importante know how, mas quem temia indiscrições não precisava se preocupar. Só uma pessoa é descrita na obra como falsa, interesseira e desatenta com questões literárias, e essa pessoa é um editor com as mesmas iniciais do criador da história, PrP.

De resto, a trama é centrada em Théo, escritor fracassado que padece de mal que Pires tanto testemunhou: a obsessão por se destacar no universo literário, ainda que os fatos não corroborem a intenção (leia mais ao lado). “PrP, o editor infame, é uma colagem de procedimentos do mundo editorial de hoje, não só no Brasil, cada vez mais predadores”, diz Pires, professor de comunicação da UFRJ e há um ano editor da revista serrote.

Escrito por alguém que conhece os meandros do mercado editorial brasileiro, o romance de Paulo Roberto Pires abre margem para discussão mais ampla sobre lançamentos de ficção nacional, cujas vendas raramente ultrapassam a primeira tiragem (em torno de 3 mil cópias), mesmo numa época em que festivais literários tornam autores conhecidos entre o público.

O que leva um editor, ciente das dificuldades de vender livros num mercado saturado, a publicar seu próprio romance? “Todo escritor é vaidoso”, resume Pires, que se reconhece sem drama como alvo da ironia sobre pretensões literárias que aparece no romance. “A única coisa que impede alguém de escrever é a autocrítica. Ela é excelente, porque vacina do patético.” No caso dele próprio, a fórmula parece ter funcionado: entre o primeiro romance, Do Amor Ausente (Rocco), e este Se Um de Nós Dois Morrer, foram 11 anos de ideias engavetadas.

Um dos poucos autores brasileiros convidados a participar de mesa na Tenda dos Autores da 9.ª Flip, que começa no dia 6, Marcelo Ferroni também atua nos dois lados do mercado. Ele é editor da Alfaguara e teve seu primeiro romance, Método Prático da Guerrilha, lançado ano passado pela Companhia das Letras. O livro vem sendo elogiado pela crítica e segue invejável carreira internacional, com direitos comprados na Espanha, Itália, Alemanha e em Portugal, mas ainda não chegou aos mil exemplares vendidos no Brasil, segundo as últimas notícias recebidas da editora. “É uma quantidade normal para os padrões de ficção nacional”, diz Ferroni, que, imagina-se, terá vendas mais expressivas após a participação na Flip.

Intervenções. Uma vantagem de conhecer o mercado é lidar bem com questões que costumam ferir o ego de escritores. A principal delas, na avaliação de Paulo Roberto Pires e de Marcelo Ferroni, é aceitar sugestões de cortes para a obra. Pires, editor assumidamente “interventor” em obras alheias que lhe caíram nas mãos no passado, diz que sua maior descoberta foi saber que seu livro precisava de edição – esta ficou a cargo Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva.

Ferroni, que teve o livro editado na Companhia das Letras por André Conti, diz que sugestões foram bem-vindas – por exemplo, juntar com outro capítulo um que se resumia a uma frase, o tipo de expediente ao qual muitos autores recorrem sem necessidade. “Outra coisa que a gente aprende como editor é a publicar o livro só quando a obra já está no ponto, e não lançar de qualquer jeito, como ansiedade.”

Menos abertura para intervenções alheias deu Marcelo Melo, editor da Livros de Safra, ao decidir lançar seu Eu Não Sei Ter por sua editora. “Queria que saísse pela Companhia, mas Luiz Schwarcz nunca respondeu ao meu e-mail. A dúvida passou a ser se eu mesmo publicava ou não. Bem ou mal, tenho certa reputação como editor, não poderia me queimar lançando um péssimo autor”, faz graça. Resolveu bancar a investida, mas assinando com o nome do meio, Marcelo Candido, como forma de “separar o autor do editor”. Com lançamento na quinta-feira, na Livraria da Vila da Lorena, o romance sai com a responsabilidade de abrir o selo literário da Livros de Safra, chamado Virgiliae, já que o título que faria isso, o elogiado Um Homem Chamado Lobo, do argentino Oliverio Coelho, atrasou.

A estreia literária fez Melo descobrir que não é fácil a vida de ficcionista. “Numa rede de livrarias, disseram que autor iniciante não fica em destaque porque não vende. Sempre fui parceiro da rede como editor, achei chato nem avaliarem o produto antes de definirem isso.” Mais escolado na divulgação de ficção, Paulo Roberto Pires está tranquilo com o lançamento de seu romance – que ocorre hoje, às 18 horas, na Livraria Argumento, no Rio. “A experiência como editor me ensinou a ficar quieto, deixar de ser maluco como todo autor, reclamando que o livro não está em destaque na livraria. Tenho certeza de que a editora está trabalhando nisso.”

Obra ri das pretensões literárias

Convidado em 2009 a participar de um debate com Armando Freitas Filho e Bernardo Carvalho, Paulo Roberto Pires disse aos organizadores que não fazia jus à proficuidade literária dos outros componentes da mesa. Ouviu em resposta que queriam justamente que ele falasse sobre não conseguir escrever. Seu único romance, Do Amor Ausente, havia sido publicado em 2000.

Dessa provocação involuntária saiu o embrião de Se Um de Nós Dois Morrer, um texto inspirado na obsessão literária descrita em O Mal de Montano, de Enrique Vila-Matas. Daí para o romance as coisas evoluíram mais facilmente. Na trama, a jovem Sofia recebe por carta instruções póstumas do namorado, o escritor fracassado Théo, para entregar a Vila-Matas – escritor que ele odeia admirar – fragmentos de uma obra que em vida ele não soube reunir num romance.

Carregada de ironias e referências sobre Vila-Matas, Marguerite Duras, Walter Benjamin e outros, o romance se divide entre as ações de Sofia até chegar ao espanhol, na Flip de 2005, e anotações de Théo acerca da criação literária – incluindo uma saborosa seleção de estatísticas sobre fracassos de grandes escritores.

SE UM DE NÓS DOIS MORRER
Paulo Roberto Pires
Alfaguara, 124 págs., R$ 36,90

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Cidade dos sonhos literários

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Esse vídeo lindo é de dois anos atrás, mas só agora (ops) caiu no radar aqui da biblioteca, graças ao recomendadíssimo Twitter da Revista Bula. “É aqui que a gente mora”, explicita o trailer, lançado por ocasião do 25º aniversário da Fourth Estate, editora criada em 1984, adquirida em 2000 pela HarperCollins e dona de catálogo que inclui Liberdade (Companhia das Letras); de Jonathan Franzen; Wolf Hall (Record), de Hilary Mantel; Terras Baixas (Alfaguara), de Joseph O’Neill; e mais essa infinidade de títulos que você vê ao longo dos quase três minutos de animação em stop motion.

O jeitão do trailer, aliás, é parecido com o de outro que postei por aqui quando o blog ainda nem morava no portal do Estadão, feito para o livro Going West, de Maurice Gee.

A coluna Babel de 25/6

A coluna desta semana não tinha como não abordar a presença do executivo da Amazon no Brasil, história antecipada na Babel da semana passada. Cheguei ao celular do homem, mas, como imaginado, ele pediu para procurar a assessoria de imprensa da loja – que, enfim. Mas deu pra pegar com editores detalhes do contrato proposto pela Amazon, que não facilitam nada a já difícil empreitada de animar o mercado a investir de verdade em e-books (escrevi no Link análise sobre esse lento processo, tempos atrás).

Taí a coluna, publicada no Sabático de hoje.

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BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br

DIGITAL
Barreiras nas negociações da Amazon com editoras

O peruano Pedro Huerta, executivo da Amazon na América Latina, segue no País na próxima semana, com encontros agendados em empresas do ramo no Rio e em São Paulo. Mas os objetivos – conseguir números precisos do mercado e fechar contratos para distribuição de conteúdo em português para outros países – não têm se mostrado simples. Tateando o universo dos e-books, editoras não têm interesse em liberar dados para a loja. “Huerta está muito perdido porque o mercado está perdido”, avalia um editor. Outro problema, segundo quem já leu o contrato proposto pela varejista, está no modelo do documento: a Amazon quer a prerrogativa de definir descontos sobre títulos que vende, podendo, por exemplo, comprar um livro a US$ 15 e vender a US$ 9. Nos EUA, as grandes editoras não sossegaram enquanto não alteraram contratos do gênero. Huerta até teria sugerido limitar os descontos a 20%-30%, mas, por ora, nada feito. Sobre abrir uma Amazon.br, possibilidade ainda distante, há quem veja outro empecilho: a maior loja virtual do mundo teria de enfrentar a Saraiva, que no Brasil tem mais força entre editoras, já que é também a maior vendedora de livros impressos do País.

UNIVERSITÁRIAS
Metas para a Abeu

O presidente da Editora Unesp, José Castilho, assume só em setembro o comando da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu), para o qual foi eleito mês passado, mas já iniciou conversas para sua gestão. Estão entre as prioridades aumentar o reconhecimento dessas editoras entre leitores e atrair de volta para a Abeu algumas das maiores casas do gênero, como Edusp e Editora Unicamp, que, há alguns anos, por discordâncias, criaram a dissidência Liga das Editoras Universitárias (LEU).

FESTIVAIS
Temporada de HQ

Os festivais de quadrinhos vivem fenômeno de multiplicação similar ao protagonizado por feiras literárias anos atrás. De dez eventos até o fim do ano, quatro estão na primeira edição: Gibicon (15-17/7), em Curitiba; Encontro Nacional de Estudos Sobre Quadrinhos (29-31/7), em Pernambuco; Jornadas Internacionais de Quadrinhos (23-26/8), em São Paulo; e Feira de Livros e Quadrinhos de Natal (17-22/10). Curiosidade: dos dez encontros, três são acadêmicos.

CINEMA
Condessa em versão nacional


A húngara Erzsébet Báthory (1560- 1614), personagem central de A Condessa Sangrenta (Tordesilhas), de Alejandra Pizarnik, chega em breve ao cinema nacional. Ao Relento, que a diretora Julia Zakia acaba de filmar, tem personagem inspirada na mesma figura histórica que Pizarnik recupera no romance recém-lançado no Brasil. Georgette Fadel (à esq. na foto) vive uma versão da condessa, que, reza a lenda, tinha como segredo de beleza tomar banho com o sangue de jovens que mandava matar.

COLEÇÃO
Cronistas em série

Esse Inferno Vai Acabar & Outras Crônicas, do colunista do Estado Humberto Werneck, abre em setembro a série Arte da Crônica, com a qual a Arquipélago Editorial contemplará brasileiros dedicados ao gênero. Ainda em 2011, saem antologias de Luís Henrique Pellanda e Ivan Angelo. A meta é publicar três títulos por ano na coleção.

ROMANCE
Três começos de Ubaldo

João Ubaldo Ribeiro já escreveu três começos, com pequenas diferenças e 50 páginas cada um, para seu novo romance. “Mas só poderei eleger um e continuar em 2012, quando não atenderei ninguém pelas manhãs”, diz o colunista do Estado, que anda ocupadíssimo com eventos literários: além da Flip, vai em breve a Viena e Bruxelas (Colaborou Ubiratan Brasil).

***

Era uma quinta-feira, completávamos sete anos de casados. Como sempre, você havia feito a torta de chocolate que comeríamos após a troca dos presentes. Por este motivo resolvi não te contar que havia sido demitido. Enquanto me barbeava notei uma ferida em minha fronte, mas, por ser o nosso aniversário, fingi não tê-la visto.

Eu te dei um anel que parecia um brilhante, você me deu uma gravata que fingia ser de seda. Ah! Antes que eu me esqueça, foi durante o jantar que percebi uma ferida, igual a minha, em seu pescoço. Mas era o nosso aniversário de casamento…

No dia seguinte saí cedo, fingi ir trabalhar, mas passei o dia sentado em uma sarjeta olhando as pessoas a passar, tentando imaginar para onde iam, ou quantas como eu fingiam ir a algum lugar. No banho dessa manhã notei outras feridas pelo meu corpo. Foi um longo dia, como todos de minha vida. Pensei em tentar acreditar em deus…mas não sabia o que era preciso para isto. Talvez baste apenas dizer…eu acredito! E assim as pessoas pensariam que de fato acredite. Sentia-me assustado.

TRECHO DE TEXTO QUE LOURENÇO MUTARELLI ENCENARÁ NO AUTORES EM CENA, NA PROGRAMAÇÃO DO ITAÚ CULTURAL NA FLIP. JOÃO GILBERTO NOLL TAMBÉM INTERPRETARÁ TEXTO PRÓPRIO

Escritores na balança


Ando às voltas com uma tentativa sofrida de participar de um desafio sobre livros no Facebook. “Tentativa”, essa palavra cheia de boas intenções que por si só remete à incapacidade de execução, já denuncia que não sei se consigo levar a coisa toda em frente. É verdade que tenho um apoio, digamos, obstinado dessas garotas Clarice Cardoso (que não por acaso cunhou a corruptela “bule”), Mariana Delfini e Audrey Furlaneto para não desistir, mas por enquanto venho só notando minha inaptidão para eleger um ou outro título entre uma infinidade que não sei nem se sobrevive nas estantes de casa.

O desafio se chama 30 Day Book Challenge e consiste em escolher, ao longo de 30 dias (ok, isso está ficando redundante), um livro que caiba em cada uma das 30 categorias propostas, como “seu livro favorito”, “seu livro menos favorito” – o que para mim é uma contradição em termos tão gritante que é difícil explicar por que joguei O Velho e o Mar nessa fogueira – e “um livro que faz você se lembrar de casa”.

Por ora, empaquei no dia 10, “o primeiro romance que você se lembra de ter lido”, porque não me conformo com a ideia de colocar ali o primeiro livro que li na vida, que não foi, é claro, um romance (aliás, descobri faz pouco que o título em questão, que inclusive me fez proferir a pérola familiar “Mãe, sei ler até sem livro!”, eram só uns versinhos ilustrados). Nem com a ideia de optar pelo primeiro romance adulto, já que antes deles vieram muitas histórias para crianças. E, vamos lá, ficando no que seriam romances infantis, não faço ideia se Pedro Bandeira veio antes ou depois de Monteiro Lobato na minha história, ou se foi na frente disso tudo teve algum da Coleção Vagalume, ou ainda se os da Coleção Enrola e Desenrola podem ser considerados romances infantojuvenis ou contos ou algo que o valha.

Mas o mais complicado é nomear – isso que pra tanta gente é tão simples – um escritor favorito, ou mesmo alguns poucos eleitos. O caso é que meu gosto foi mudando com o tempo. Hoje acho engraçado ter lido três Salman Rushdies quase seguidos depois de adorar Os Versos Satânicos. Eu nem gosto de literatura fantástica, e não devorei assim na sequência escritores que leio atualmente com muito mais vontade, como Ian McEwan e Philip Roth, para ficar em outros dois da atual literatura em língua inglesa. É assim só comigo? A gente tem que ser fiel aos critérios lá do começo? E também porque colocar um escritor acima do outro me parece meio como estipular que Beatles é melhor que Rolling Stones ou vice-versa – toda essa comparação para mim soa como uma coisa muito doida.

Mas, vá lá, é só um desafio na internet. Essa indecisão já me causou inconvenientes bem mais graves, tipo quando tentei fazer pós, como aluna especial no mestrado da USP e numa especialização em literatura da PUC – ambas interrompidas na hora em que não dava mais para postergar a escolha de um nome. Num mestrado, você só entra com o tema definido, e é por isso que tem a opção “aluno especial”, uma colher de chá para quem não está bem certo. No meu caso, só complicou mais as coisas ser apresentada ao longo de um ano a obras de gente como Sciascia e Sebald. E não sei como são outras lato sensu, mas essa da PUC dura dois anos, sendo os seis meses finais dedicados apenas à monografia. No limite do limite, era de um ano e meio o prazo para definir o tema. Fui só até aí. Me parecia terrível a ideia de, quase no final do caminho, afundada em teorias, descobrir que aquele escritor ou o livro talvez não fosse o certo.

Acho que todo esse drama decorre de uma enorme sensação de culpa. As lacunas são tantas, tantas, que no meu caso parece empáfia colocar alguém ou algum livro acima de tudo, inclusive daquilo que não li. Mas que tenho inveja de quem é capaz de pôr numa balança tudo o que um Machado de Assis e um Guimarães Rosa fizeram e a partir disso escolher o favorito, isso eu tenho…

As livrarias preferidas dos leitores

O Guardian fez um especial bem bacana uns dias atrás para celebrar a Semana dos Livreiros Independentes (nem sabia que isso existia), com imagens de lojas de todo o mundo a partir de fotos enviadas por leitores, que escolheram as suas favoritas.

Vamos tentar fazer algo assim por aqui? Quem tiver alguma foto bacana de livraria nacional manda para o raquel.cozer@grupoestado.com.br ?

Daí faço um post só com imagens de lojas pequenas brazucas. E sebos. E megastores também, vai. Ainda não decidi, mas edito conforme (e se) chegarem as fotos. Publico as fotografias com crédito do autor e a história dele com a livraria.

Que eu já postei tanta galeria aqui de fotos gringas (tipo essas, de bares-bibliotecas, e essa seleção do Lonely Planet), mas nunca tentei reunir nada das nacionais.

(Essa galeria do Guardian chegou pelo Twitter da L&PM.)

Ainda sobre a Amazon no Brasil

O peruano Pedro Huerta, executivo da Amazon na América Latina, acaba de sair de reunião na sede da Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo, conforme antecipado pela coluna Babel. Tinha apurado que seria uma apresentação para editoras na CBL, mas, segundo a presidente da instituição, Karine Pansa, hoje a reunião foi com a diretoria da Câmara. Além desse encontro, por esses dias, Huerta vem entrando em contato com algumas editoras.

Karine disse que foi um encontro de “política de boa vizinhança”, no qual o executivo apresentou números e falou sobre os planos da empresa no Brasil. E do qual ela saiu otimista. Como publicado na Babel, a prioridade por ora é tentar fechar contratos com as editoras para distribuição de conteúdo em português nos Estados Unidos, e não instalar uma Amazon.br.

A coluna Babel de 18/6

[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br

IÍDICHE
Texto que inspirou Um Violinista no Telhado ganha tradução do original

Dois anos e meio atrás, o crítico de teatro e editor Jacó Guinsburg iniciou a tradução diretamente do iídiche de Tevye der Milkhiker, do ucraniano Sholem Aleichem (1859- 1916), sem saber que concluiria o trabalho em ótimo momento para a primeira publicação do texto original em livro no Brasil. Trata-se do texto-base do musical Um Violinista no Telhado, que estreou na Broadway em 1964 (foto) e no cinema em 1971, e cuja versão nacional, com José Mayer, entrou em cartaz mês passado no Rio – a mais cara produção comandada por Claudio Botelho e Charles Möeller. Com o título Tobias, o Leiteiro, sai no próximo semestre pela Perspectiva, editora de Guinsburg. Escrito antes da 1.ª Guerra, ao longo de mais de 20 anos, retrata a história de um homem que vive numa comunidade judaica na Ucrânia e tenta manter a tradição num ambiente de transformações – tudo relatado, diz Guinsburg, em tom tragicômico. Na versão, o tradutor buscou “trazer para o português a criança tal qual ela é”, ou seja, sem a “americanização” decorrente das leituras dramatúrgicas.

INTERNET-1
Amazon mais perto

O peruano Pedro Huerta, executivo da Amazon na América Latina, estará pela primeira vez no País na semana que vem. Participará de uma apresentação para editoras na sede da CBL, em São Paulo. O interesse principal da maior varejista eletrônica do mundo, no entanto, não é abrir uma loja brasileira, e sim conseguir conteúdo em português para a loja americana. No momento em que houver conteúdo o suficiente, a loja brasileira, ainda sem data definida, pode se tornar realidade.

INTERNET-2
Impressão sob demanda

Representantes da Bibliolabs, empresa de digitalização de livros que fechou parceria com a Singular no passado, também desembarcam aqui este mês. A meta é conversar com bibliotecas como a Nacional e a da USP para digitalização de títulos, para então vendê-los em impressão sob demanda, com parte do lucro indo para as instituições. Os criadores da Bibliolabs, que no passado venderam para a Amazon o atual serviço de impressão sob demanda da loja, voltaram ao noticiário há pouco com o aplicativo mais baixado para iPad na categoria livros, com o acervo da British Library.

POESIA
Dois momentos dos versos

Foram modestas as tiragens dos sete livros da Ciranda da Poesia, da Uerj, lançada em dezembro por Ítalo Moriconi para mapear a atual lírica brasileira. Com 300 cópias cada um, títulos como Antonio Cícero, em pequena antologia analisada por Alberto Pucheu, e Claudia Roquette-Pinto, por Paulo Henriques Britto, acabaram em dois meses. Novas tiragens de 300 cópias serão rodadas e, para a próxima leva, Moriconi pensa em números maiores: no fim do ano saem mais sete livros, incluindo Armando Freitas Filho, por Renan Nuernberger, e Ana Cristina César, por Marcos Siscar.

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O editor e crítico literário também levará, pela primeira vez, os versos ao Café Literário da Bienal do Livro Rio. O Sarau de Poesias terá sessões nos fins de semana do evento. Moriconi tentou levar o recluso Manoel de Barros, de 95 anos, que declinou. Será, então, homenageado em leituras e debates.

MEMÓRIA
Um ano sem Saramago

Um infantil, um romance rejeitado pelo editor e outro inacabado completam, até o ano que vem, a série de livros de José Saramago pela Companhia das Letras. O Silêncio da Água, ilustrado por Manuel Estrada (imagens), sai este mês. Claraboia, o livro rejeitado nos anos 50, fica para novembro, e Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!, chega em 2012. Hoje, completa-se um ano da morte do escritor, lembrada em estadao.com.br/e/s2a.

LEITURAS
Mudança de casa

Rodrigo Lacerda está de mudança da Alfaguara, por onde lançou o premiado Outra Vida, para a Companhia das Letras, levando dois romances e um livro de contos iniciados. O primeiro, previsto para o fim de 2012, será um “retrato literário” de seu avô, Carlos Lacerda (1914-1977), feito em primeira pessoa e com base em passagens pouco conhecidas da vida do jornalista e político

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O livro de contos, “praticamente terminado”, sai depois. E o terceiro livro, romance que o carioca interrompeu quando resolveu se dedicar à história do avô, fecha o pacote. O autor é o convidado do Leituras Sabáticas de hoje, em estadao.com.br/e/s2b