Outras palavras

Tive alguns blogs antes deste. Era mais fácil atualizar: o assunto eram essas histórias bizarras que nos acontecem todo dia e que em geral mal passam de conversa na mesa de bar. Hoje, com essa de postar temas ligados a literatura ou ao mercado editorial, acabo escrevendo aqui com muito menos frequência. Em primeiro lugar, por falta de tempo – tudo é mais fácil quando se tem 20 e poucos anos, inclusive o tempo. Em segundo, porque muita coisa que eu postaria aqui acaba rendendo ideias de pauta (que, muitas vezes, também por falta de tempo, não vão pra frente; mas, por via das dúvidas, guardo comigo) ou nota pra coluna no Sabático (aliás, meu abre da coluna de amanhã nasceu como post).

Daí que fico com essa invejinha da Helô, recente e prolífica blogueira, que teve uma ideia muito simples e bacana pro blog dela. Árdua defensora do shuffle, algo que ela já explicou neste post e num outro que não encontrei, ela resolveu fazer do Caracteres com Espaço um blog randômico. Virou fã de primeira hora do Stumble Upon, que sugere de forma aleatória páginas recomendadas pelos usuários, e dali tira algumas de suas várias ideias (recomendo também a seção CAPSLÓKI, cujas inspirações prefiro não saber de onde ela tira =P).

Nesta semana, com dó da minha escassez de posts, ela me doou dois links encontrados no Stumble Upon. Isso num intervalo de 20 minutos!

O primeiro foi dessa escada dos sonhos, acima, pra qualquer leitor compulsivo esquecer o destino e parar no meio dos degraus. O segundo foi o do que seria a menor biblioteca do mundo – se não me engano, tem uma do mesmo tamanho em Porto de Galinhas, mas precisaria da memória de amigos para confirmar. Essa da foto fica na Inglaterra, no vilarejo de Somerset, mais precisamente dentro de uma daquelas antigas cabines de telefone.

Tem cerca de cem livros. Os frequentadores levam livros que já tenham lido e trocam por outros. O tamanho da fila, se for real e não armada entre amigos para divulgação, é uma coisa impressionante. Ou então a gente fica com pena da falta de opções culturais dos habitantes de Somerset.

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Aproveito os intervalos comerciais para fazer algo que pretendia há muito, muito tempo, que é recomendar também o blog da Mari, o Muito. Essa garota fala de literatura, teatro e muito, muito mais coisas que amantes de cultura e muito, muito mais coisas vão adorar. Tem até eventuais clippings de leituras obrigatórias, para quem não tem tempo de fazer aquela varredura básica no Google Reader. Essencial para quem gosta de saber de novidades (e, é claro, bobagens) desse mundinho dos livros. Só não vale trocar esta Biblioteca Raquítica por todo aquele derramamento de muitos, muitos assuntos.

Faça o seu pior

Vi com atraso, tanto atraso que o prazo já acabou, o incrível concurso de poesia ruim da editora indie Small Press Distribution. Eles ofereceram um livro do catálogo da editora para quem fizesse um poema que coubesse em categorias como pior poema no geral, pior poema em que o título é maior que o poema em si, pior poema na forma de um status no Facebook e pior uso do ponto de exclamação num poema. Segundo a editora (sim, eu escrevi pra perguntar!), de 50 a 60 pessoas participaram nesta segunda edição, e os resultados entram no ar por estes dias.

Os resultados da primeira edição aparecem aqui, descendo um pouco a página.

Só tenho um haicai feito nesta vida, que Marina Della Valle conhece bem, e, na falta de um gancho melhor, aproveito para registrá-lo aqui. Chama-se…

(hai) cai

vou dançar
até cair
de imatura

E a Babel de 24/4

Entre uma e outra nota, estantes decorativas de post. Essa pra morrer de fofura, dos gatos, é uma cortesia Alexandre Matias, garimpada no Bookshelves; a estante em forma de O é do David Garcia Studio, onde cheguei via Twitter do Bruno Porto.


BABEL

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Nuvem vulcânica causa edição mais esvaziada de feira

A Feira do Livro de Londres teve a edição mais vazia de sua história graças às nuvens de fumaça expelidas pelo vulcão islandês no dia 15. Com o cancelamento de voos – eles foram liberados apenas no dia 21, o último do evento -, cerca de 70% dos editores não conseguiu chegar à cidade. “Ontem, uma agente inglesa me disse que tinha 15 reuniões agendadas para o dia, mas só eu apareci”, contou na quarta Roberto Feith, da Objetiva, que viajou uma semana antes e descreveu a feira como “um tanto surreal” e “quase sonolenta”. Dos cerca de 40 brasileiros que costumam participar, Feith encontrou apenas dois, Amarylis Manole, da editora que leva o seu nome, e Mauro Palermo, da Globo. Até o encerramento, a Objetiva havia concluído um único negócio, para o selo Alfaguara: True Grit, de Charles Portis, filmado em 1969 e cuja refilmagem, pelos irmãos Coen e com Jeff Bridges no elenco, estreia no fim do ano. Diante do esvaziamento londrino, a expectativa é de que a Feira de Frankfurt, em outubro, será mais concorrida do que nunca.


LITERATURA AMERICANA
William Kennedy no Brasil

A Flip ainda não anunciou, mas William Kennedy está confirmado para o evento, que acontece de 4 a 8 de agosto. A Cosac Naify, que há pouco lançou O Grande Jogo de Billy Phelan, do americano, tem uma edição de Ironweed pronta para pôr nas livrarias, e publica ainda neste ano o terceiro livro do ciclo de Albany que retrata a saga da família Phelan, Velhos Esqueletos.

TRANSMÍDIA
Livro com internet

Ladrão de Cadáveres, primeiro romance inédito de Patricia Melo pela Rocco, será também o primeiro grande lançamento de um autor nacional dentro do conceito de narrativa transmídia, com conteúdo que se desdobra em plataformas. Um blog, que entrará no ar com a publicação do livro, no fim de maio, revelará facetas dos personagens.

LONG-SELLER
Editora compra hit de 1957

A Sextante comprou os direitos de um romance que, lançado em 1957, teve mais de 7 milhões de cópias vendidas nos EUA – 500 mil só em 2009. Atlas Shruged, de Ayn Rand, trata de um futuro em que os EUA sofrem um colapso econômico e enfrentam o declínio da civilização. Sairá por aqui em agosto.

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A adaptação do romance é assunto em Hollywood desde os anos 70. Em 2008, Angelina Jolie quase ficou com o papel central, mas o roteirista não conseguiu resumir as mil páginas em duas horas de filme. Agora, produtores cogitam Charlize Theron para uma minissérie. Em outros tempos, quiseram o papel Faye Dunaway, Raquel Welch, Farrah Fawcett e Sharon Stone.


ENTREVISTA
Zé Celso e a balada no Oficina

Vinte horas de papo de Miguel de Almeida com José Celso Martinez Corrêa serão editadas em obra dos 50 anos do Teatro Oficina (celebrados, na verdade, em 2009), que a Imprensa Oficial do Estado de SP publica em junho. A certa altura, Zé Celso comenta o período da ditadura em que vendeu ácido no Oficina: “Era sobrevivência. Estava tudo fechado; eu não podia fazer mais nada.”

TRADUÇÃO
O novo romance de Piglia

Ainda não lançado na Argentina, Blanco Nocturno, romance para o qual Ricardo Piglia fez diversas versões ao longo desta década, já teve os direitos garantidos pela Companhia das Letras. A história se passa na guerra das Malvinas, e o título remete às lentes especiais usadas pelos soldados ingleses para enxergarem alvos à noite.

ADAPTAÇÃO
Vampiros abstêmios

O mexicano Alfonso Cuarón, diretor de E Sua Mãe Também, produzirá a adaptação de The Radleys, romance de Matt Haig previsto para sair em julho no exterior. A história se passa numa vila onde vive uma família na qual os pais tentam esconder dos filhos que todos na casa são vampiros. A curiosidade é que a trama foi pensada como roteiro e depois retrabalhada para romance por Haig.

MUDANÇA
Livraria em Mantiqueira

A Livraria da Vila, a livraria oficial da Flip, será neste ano também a oficial do Festival da Mantiqueira, de 28 a 30 de maio. Nos anos anteriores, o título cabia à Saraiva.

No Sabático de 24/4

Cuba, substantivo feminino

Vida de Celia Sánchez, companheira de Fidel, é mote para ‘Nunca Fui Primeira-Dama’, de Wendy Guerra, autora que estará na Flip

RAQUEL COZER

Crédito: havana-cultura.com/Divulgação


Isso de a torneira abrir e a água sair está longe da realidade do cubano, escreve Wendy Guerra a certa altura de Nunca Fui Primeira-Dama, seu primeiro romance a ganhar tradução para o português. Como vive em Cuba desde que nasceu, afora uma temporada na Europa, a incerteza rotineira já não incomoda. Mas Wendy é de 1970 e cresceu sem ligação emocional com o momento histórico da Revolução de 1959, então há outras realidades que não consegue assimilar. Não vê sentido em deixar de lado projetos pessoais para integrar um ideal coletivo, como fez a geração de seus pais. Não quer ser mártir nem manter silêncio. Mas é nessa terra em que a água e a liberdade de expressão sempre faltam que pensa em passar o resto da vida. “Já não tenho família, e Cuba é minha única família neste mundo. Compreende?”, ela argumenta.

Wendy é formada em cinema pelo Instituto Superior de Arte de Havana e tem três livros de poesia publicados em Cuba. Seus dois romances, Todos Se Van (2006) e Nunca Fui Primeira-Dama (2008), tiveram edições em países como a Espanha e a França, mas não na terra natal, onde raras cópias correm em impressões piratas. Ambos partem de fragmentos de diários e memórias, numa autoficção protagonizada por jovens de nomes e histórias similares à sua. No primeiro, Nieve Guerra se vê numa sociedade “em hibernação” que todos, de um jeito ou outro, acabam deixando para trás. Em Nunca Fui Primeira-Dama, que chega às livrarias segunda-feira, a personagem Nadia Guerra busca vestígios de mulheres que fizeram parte da história da ilha: Albis Torres, mãe de Wendy (e, no romance, mãe de Nadia), e Celia Sánchez, companheira de Fidel Castro dos tempos pré-revolucionários até 1980, quando morreu de câncer no pulmão.

[…]

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A íntegra do texto está aqui.

Lionel e os cursos de escrita criativa

E, por falar em Flip, vi nesta semana o vídeo em que a Lionel Shriver fala sobre seu desconforto com graduações de escrita criativa – que proliferam pelos EUA e que ela própria “confessa”, nas palavras dela, ter cursado na Universidade de Columbia. Diz que não se arrepende, mas que hoje faria algo mais “real”, como história. “Tem uma espécie de indulgência, uma gestalt de classe média. A triste verdade é que a maioria das pessoas que se formam não vai virar escritor profissional”, argumenta.

(Ok, juro que tentei colar o vídeo aqui, mas, como fui incapaz, siga o link.)

Não sei se, no caso dela, o curso fez diferença, mas o fato é que a Lionel é a autora de um dos melhores romances que li nesta década, Precisamos Falar sobre o Kevin, narrado pela mãe de um menino “Columbine”, e que conquista já a partir da superbem mandada capa da edição nacional.

(No bom e velho Google Images dá pra ver algumas versões gringas, bem menos power.)

Sobre Crumb e Shelton na Flip

Saiu no Caderno 2 de hoje.

Shelton: 'Alguma pergunta?'

Robert Crumb e Gilbert Shelton estarão na Flip

O primeiro falará sobre a HQ Gênesis; o Estado apurou que o autor de Freak Brothers também comparecerá

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Robert Crumb, um dos mais celebrados cartunistas do mundo, virá ao Brasil pela primeira vez neste ano. O norte-americano, autor de Fritz the Cat e Mr. Natural, está confirmado para a Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorre de 4 a 8 de agosto. O anúncio foi feito ontem pela organização, embora o acordo entre o curador da Flip, Flávio Moura, e a agente literária de Crumb, Lora Fountain, tenha sido firmado no fim do ano passado.

Ao Estado Lora afirmou que seu marido, Gilbert Shelton, criador da consagrada HQ underground The Fabulous Furry Freak Brothers, também participará do evento. Crumb e a mulher, a cartunista Aline Kominsky-Crumb, assim como Shelton e Lora, passarão seis dias em Paraty e seguirão para uma temporada de uma semana em Buenos Aires, onde têm amigos. Depois voltam para a França, onde vivem.

Crumb será entrevistado em uma mesa só para ele na Flip, na qual falará sobre Gênesis, graphic novel ilustrada a partir do texto original do primeiro livro da Bíblia e lançada em setembro do ano passado. De lá para cá, o cartunista passou algumas semanas divulgado o livro nos Estados Unidos, onde Gênesis teve exibições em uma galeria de arte de Nova York e no Museu de Arte de Los Angeles. Em janeiro, a graphic novel já havia vendido mais de 125 mil cópias apenas nos EUA. Desde então, o livro não saiu mais da lista de mais vendidos do New York Times. Os direitos da obra já foram comercializados em 17 países.

Hoje, Crumb trabalha com a mulher e a filha, Sophie, no livro Evolution of a Crazy Artist, que traça uma evolução de desenhos da jovem, de 28 anos, desde que ela tinha 2 anos. Está previsto para novembro. No Brasil, ainda neste ano, sairão pela Conrad a coletânea Meus Problemas com as Mulheres, além de reedições de Mr. Natural e Zap Comics.

Colecionador. A única informação que Crumb pediu sobre o país, segundo Flávio Moura, foi o endereço de lojas que vendam discos de 78 RPM, dos quais ele é colecionador – em entrevistas a veículos brasileiros, Crumb já disse ser fã de Pixinguinha. Moura ainda não confirma se haverá uma mesa também para Aline, que há vários anos escreve HQs com Crumb ? publicadas nos EUA pela New Yorker e no Brasil pela piauí. Também não fala sobre a participação de Gilbert Shelton.

Esta será a terceira visita ao Brasil de Shelton, que atualmente trabalha na série Not Quite Dead, sobre a banda de rock de menos sucesso no mundo. Ele também está envolvido com a produção de uma animação em stop motion de Freak Brothers, prevista para sair no ano que vem sob o título Grass Roots.

Crumb: Problemas com mulheres

E a entrevista que fiz com o Crumb no ano passado, quando ainda tava na Folha, por ocasião do lançamento do Gênesis no Brasil. Abaixo, um trecho besta de que gosto:

Folha – Já faz quase 20 anos que o sr. mudou para a França, certo?
Crumb – Faz 18 anos.

Folha – Fala algo em francês?
Crumb– Não falo nada em francês. Minha mulher fala. Não vou a cafés, fico em casa. Quero dizer, posso ir ao mercado livre e perguntar se há discos antigos: “Est-ce que vous avez des disques 78 tours?”. Isso eu posso fazer. Mas não conversar.

Folha – Como é seu dia a dia? Imagino que não leia jornais…
Crumb – Não. Ouço discos antigos e leio muitos livros. Virei um leitor voraz. Leio livros de jornalismo investigativo, que expõem meandros do sistema financeiro, da corrupção…

Folha – E os desenhos em parceria com a Aline, como funcionam?
Crumb – Depende. Trabalho as ideias dela, passamos de um para o outro. Funciona bem. Aline é uma comediante judia nata.

Folha – O sr. acha que o traço dela melhorou ao longo dos anos?
Crumb– Não… [risos]. Não ficou melhor do que era. Os desenhos dela são crus, mas são engraçados. O que você vê é tão honesto, primitivo…

Folha – Faz oito anos que os EUA sofreram os ataques de 11 de Setembro. Acredita que o país mudou?
Crumb – É complicado. Foi a primeira vez que houve um ataque daquelas proporções nos EUA, supostamente de fora. Pessoalmente, acho que o governo americano estava envolvido. Muita coisa não foi contada. Aquilo não poderia ser feito sem a ajuda de alguém de dentro. Com todos os livros que li, sabendo o que sei sobre o mundo financeiro, militar… Não duvido de que tenham feito isso, ao custo de milhares de vidas.

O mundo de Kiki

Delícia de HQ a Kiki de Montparnasse, sobre a qual escrevi no Caderno 2 de hoje.

O mundo de Kiki

Sai enfim no País premiada HQ que retrata vida de musa inspiradora de Foujita, Léger e outros artistas

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Grosso modo, a modelo Kiki de Montparnasse (1901-1953) significou para a arte que se fazia nas décadas de 20 e 30 mais ou menos o que Kate Moss representou para a moda dos anos 90. Fonte de inspiração para os grandes nomes da Escola de Paris – gente como Modigliani, Foujita e Soutine -, a francesa, assim como a inglesa Kate, também frequentou o noticiário por atividades menos nobres que posar para telas e fotos, em manchetes que alardeavam sua vida noturna e o abuso de drogas. A diferença fundamental é que Kiki protagonizou tais histórias quando elas eram de fato transgressoras.

Embora sua imagem tenha sido eternizada em obras como a fotografia O Violino de Ingres (1924), de Man Ray, e o quadro Nu Deitado com Tecido de Jouy (1922), de Tsugouharu Foujita, a modelo acabou quase esquecida em seu próprio país. Foi assim pelo menos até 1998, quando Billy Klüver e Julie Martin lançaram a biografia Kiki et Montparnasse – 1900/1930. Quase dez anos depois, em 2007, outra dupla voltou a jogar luzes sobre a vida da francesa, desta vez numa HQ. José-Louis Bocquet e Catel Muller assinam, respectivamente, roteiro e desenho de Kiki de Montparnasse, graphic novel que lhes rendeu diversos prêmios, inclusive no prestigioso festival francês de Angoulême, e que sai só agora por aqui, pelo selo Galera Record.

Uma série de fatores levou Kiki a se destacar entre a infinidade de modelos de nu artístico da época – ou, nas palavras de José-Louis Bocquet, em entrevista por e-mail ao Estado, “tornar-se a exceção que permanece na memória”. “Nos anos 20 e 30, em termos de glamour e fantasia coletiva, as modelos de pintores foram equivalentes às top models de hoje, de fama enorme e efêmera”, avalia o roteirista. “Mas Kiki foi além, virou cantora em voga em cabarés de Montparnasse, e suas fotografias feitas por Man Ray (com quem ela viveu por muitos anos) foram difundidas no mundo todo. O Violino de Ingres é um dos cartões postais mais vendido no planeta.”

[…]

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A íntegra do texto está aqui.