A coluna Babel de 13/8

[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br

LIVRARIAS
Cultura chega a Manaus, onde processa Saraiva

Depois das duas lojas no Rio e da filial em Curitiba, previstas para os próximos meses, a Livraria Cultura chega a Manaus em 2012. O aluguel do ponto foi feito este ano, mas a empresa aciona na Justiça a Saraiva desde 2009, sob a alegação de que esta teria copiado seu projeto arquitetônico na loja manauara. A Cultura quer que a concorrente mude o projeto, e Fernando Brandão, arquiteto da rede, pede indenização de R$ 1,2 milhão. “A coisa está lenta. Só esses dias os peritos foram à loja”, diz Sergio Herz, sócio-diretor da Cultura. Marcílio Pousada, presidente da Saraiva, diz que a acusação não faz sentido. “Temos lojas mais antigas que as deles com características similares.” A Cultura fecha 2011 com 13 lojas e espera totalizar 17 ano que vem. Já outra livraria paulistana, a da Vila, cresce apenas dentro de São Paulo. A rede abre na quinta-feira loja no Pátio Higienópolis e, em 2012, outra no novo shopping Iguatemi JK, totalizando sete pontos.

Abaixo, a Livraria Cultura da Paulista e a Livraria Cultura de Manaus.

DIGITAL
Tempos modernos

Pela primeira vez, o National Book Awards recebeu a inscrição de um aplicativo de livro para iPad, disse ao site inReads Harold Augenbraum, diretor da fundação que concede o prêmio. “Estamos abertos a mudanças. Uma regra é que você tem de enviar o livro impresso, mas esse era um livro com texto, imagem e vídeo. Livros de grande qualidade no futuro serão publicados só como e-book, e precisamos saber lidar.”

MEMÓRIA
O último enigma de Borges

Recém-lançado na Argentina, Siete Guerreros Nortumbrios (Emecé), de Martín Hadis, volta à Idade Média para desvendar os símbolos na lápide de Jorge Luis Borges, morto há 25 anos. A pedra do túmulo do argentino, em Genebra, foi esculpida a partir de desenho da viúva, María Kodama, inspirada em elementos significativos para o escritor.

POLÍTICA
Dilma lá fora

Rousseff, livro de Jamil Chade, correspondente do Estado em Genebra, e Momchil Indjov sobre a família de Dilma, chamou a atenção na Coreia do Sul. O título da Livros de Safra foi comprado pela Sunhaksa.

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Sobre Dilma, aliás, também os americanos conhecerão um pouco mais em breve, quando sair o perfil que Nicholas Lemann, autor de Redemption: The Last Battle of the Civil War, fez dela para a revista New Yorker. Para ajudar no relato sobre a presidente, discreta na conversa, o jornalista recorreu a Lula e FHC – que o impressionaram bem.

UNIVERSIDADE
Silviano internacional

O colunista do Sabático Silviano Santiago embarca no mês que vem para uma temporada de seis meses nos EUA, onde dará aulas como professor visitante na Universidade Princeton. Enquanto isso, seu livro As Raízes e o Labirinto da América Latina (Rocco), que cruza ideias de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz, segue para a Argentina. Será publicado lá pela Corregidor.

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Silviano é o convidado do novo Leituras Sabáticas, no endereço estadao.com/e/silviano.

QUADRINHOS
Zumbis nacionais

Zombies, antologia inglesa com nomes como Leah Moore (filha de Alan Moore) e Kieron Guillen (roteirista de Thor), teve os direitos garantidos pela Gal Editora. Após meses conversando com a Accent UK, a casa teve autorização para incluir na versão nacional histórias feitas por aqui, assinadas por Emilio Baraçal, Felipe Watanabe, Gustavo Daher, Fábio Perez (imagem acima) e Alvaro Omine. Haverá ainda ilustrações de outros brasileiros, como Danilo Beyruth.

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Será a estreia da editora, criada em 2007, na edição de quadrinistas nacionais.

 

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“O vento batia de rijo o castelo, guinchava, zu­nia, assoviava, musicando tons macabros, como se as ruínas fossem órgão enorme a ressoar em meio ao fragor da tempestade.

O relampejar repetido de mil coriscos tigrava a escuridão de rajas e zigue-zagues cor de fogo.

E a chuva caía em bátegas violentas.

O dr. Angus não podia conciliar o sono, pertur­bado por sensação vaga, misto de medo, tristeza e abatimento — o pressentimento de algo misterioso e inevitável.

Agora que voltara a Highmore Hall, chamado com urgência pelo velho cliente, rememorava o acontecido durante a sua primeira estadia ali, fatos que não o tinham preocupado no longo intervalo de tantos meses.

Incomodava-o principalmente a lembrança do singular fragmento de pano trazido pelo rato. Arrependia-se de ter esquecido e calado por tan­to tempo. E se de fato houvesse alguém preso, esperando socorro?! Cumpria-lhe averiguar mi­nuciosamente, e talvez denunciar o caso à po­lícia inglesa. Não hesitaria mais; falaria no dia seguinte com sir John, apesar de estar ainda mais exacerbada a sua moléstia. Com efeito, o velho tinha agora medo de tudo. Vivia em constante sobressalto, com olhar assustado, raramente fa­lando aos dois servidores, metido todo o tempo no seu gabinete.”

Trecho do conto de suspense O Mistério de Highmore Hill, que João Guimarães Rosa publicou, aos 21 anos, na revista O Cruzeiro, em 1929. Sai em setembro no volume Antes das Primeiras Estórias, com outros três contos inéditos em livro e prefácio do angolano Mia Couto – que destaca que, embora esses textos não permitam adivinhar o estilo maduro do escritor,” já há qualquer coisa nas primeiras criações que indiciam uma inquietação, e atuam como a forja do que seria não exatamente um ‘es­tilo’ mas um idioma particular”. Para o fim do ano, a Nova Fronteira planeja edição dupla de Grande Sertão: Veredas e cadernos de anotação do autor.

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A biblioteca de Raquel no Facebook

Disse o Antonio Prata em sua coluna de hoje no Cotidiano que “ou a gente acaba com as mídias sociais, ou as mídias sociais acabam com a gente” (se ele puser o link no blog eu incluo aqui, por enquanto está fechado a assinantes da Folha). Não tenho nenhum plano de acabar com as mídias sociais a curto prazo, então, num exercício de autofagia, estendo os bracinhos d’A Biblioteca de Raquel para o Facebook.

No blog, seguem os posts com informações apuradas por aqui, repercussões de notícias ou reflexões (cof) sobre o mundo literário e editorial. Já simples sugestões de links interessantes, de sites nacionais ou gringos, você pode acompanhar na página d’A Biblioteca de Raquel no Facebook.  É só dar um curtir.

Casa da mãe de Thomas Mann em Paraty vive situação calamitosa

No último dia da Flip deste ano, no mês passado, o fotógrafo Wilton Junior e eu arrumamos tempo para ver de perto, na baía de Paraty, a casa de fazenda em que viveu Julia da Silva Bruhns, a mãe de Heinrich e Thomas Mann, do nascimento até os sete anos de idade. As últimas informações davam conta de que o estado do casarão, o único do século 18 do gênero naquela região, era deplorável.

Quem primeiro comentou comigo sobre os planos de Johannes Kretschmer, da UFF, de retomar o projeto de um centro cultural no local foi a Ju Lugão, ex-colega de Ilustrada, que hoje faz na PUC-Rio mestrado em literatura alemã. Isso foi bem no começo do ano, logo depois que saiu no Sabático uma reportagem minha sobre o museu que será inaugurado na casa de Stephan Zweig, em Petrópolis.

Mantive contato com o Johannes até que, há um mês, comecei a apuração, porque precisava ver a casa antes de me meter a falar sobre ela. Como disseram vários entrevistados, a situação legal do imóvel é complicada, e aí entram mudanças de proprietários, questões ambientais e limitações patrimoniais para uso do imóvel, o que afasta interessados há anos. E os interesses também não são nem sempre dos mais louváveis para uma construção de importância histórica como essa. O que se ouve de histórias desencontradas não é pouco. O resumo que deu para fazer em uma página foi a capa do Caderno 2 de hoje.

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Patrimônio em risco

Impasses legais e interesses econômicos agravam situação da casa da mãe de Thomas Mann em Paraty

Raquel Cozer – Enviada especial / Paraty – O Estado de S.Paulo

 

Ao lado de luxuosa marina a 8 km de Paraty, a única casa de fazenda do século 18 remanescente à beira mar na região vive situação calamitosa: paredes tomadas por mofo, vigas de madeira apodrecidas e telhado invadido por mato, chegando a formar cipós. Por frestas, vê-se que o interior virou um depósito de entulho.

Não bastasse a importância patrimonial, o descaso chama a atenção pela relevância cultural do chamado Engenho Boa Vista. Lá viveu a mãe de dois dos maiores escritores alemães do século 20, Heinrich (1871-1950) e Thomas Mann (1875-1955) – e cada vez mais especialistas estudam os reflexos dessa ascendência brasileira na formação dos dois autores.

Nascida numa viagem entre Angra dos Reis e Paraty, Julia da Silva Bruhns (1851-1923) passou os sete primeiros anos de vida na casa, antes de ser levada à Alemanha. Filha de comerciante alemão e de brasileira descendente de portugueses, ela legou aos filhos memórias por escrito do lugar que chamava de “paraíso”.

Por muito tempo, a história da casa foi desconhecida. Até que, em 1997, o escritor Frido Mann, neto de Thomas, iniciou esforços para construir um centro cultural no local. Criou a Associação Casa Mann, que chegou a realizar evento na propriedade, mas, oito anos depois, entregou os pontos. “Em 2005, desistimos do projeto”, diz Paulo Soethe, professor da UFPR, que integrava a associação. “A situação legal da casas era complicada. Não seria possível fazer nada como pessoa física ou associação. Entendemos que era questão de Estado.”

Naquela época, Amyr Klink, comodatário do terreno onde fica a casa, tinha planos para o local. O navegador, que mantém logo ao lado a Marina do Engenho, estudava instalar ali sua escola de navegação para jovens carentes. Impasses com órgãos como Ibama e Iphan impediram a implantação do Projeto Escola Mar, transferido para Santa Catarina.

Três anos atrás, o professor de literatura da UFF e da Uerj Johannes Kretschmer retomou o projeto do centro cultural. Desse movimento resultou colóquio que acontece neste mês (leia abaixo). Kretschmer hoje conversa com a Secretaria de Estado da Cultura do Rio e o Consulado Geral da Alemanha no Brasil – e entende os obstáculos encontrados pelo neto de Thomas Mann. “A questão legal é muito obscura.”

Há mais de uma década, o terreno da casa pertencia à Serrana Empreendimentos. Em 2001, a empresa Arbeit adquiriu a Serrana junto com um grupo suíço. A casa veio, por assim dizer, de brinde – não havia interesse específico na construção, diz o presidente da Arbeit, Oscar Muller.

Com a saída dos investidores suíços do País, a Arbeit tornou-se em 2008 a única dona do casarão. Desde então, estuda alternativas para a ocupação, que passam ao largo dos planos acalentados por Frido e Kretschmer. “A implantação de um centro cultural no casarão não se sustenta”, diz Muller, que planeja uma marina de “padrão internacional”. Segundo ele, um contrato até já foi fechado. O empresário diz estar “estudando” a manutenção do contrato com Klink para a área da marina e a possibilidade de “reassumir a posse do casarão”. “Implantar no local uma pousada/bangalôs com um restaurante também já demonstra viabilidade econômica”, especula.


Para aumentar o burburinho, há pouco espalhou-se em Paraty a notícia de que a empresa proprietária havia falido e que a casa iria a leilão. Muller nega com veemência. E responsabiliza Amyr Klink pelo mau estado da construção. “O contrato de comodato estabelecia que ele implantasse no local o instituto Projeto Escola do Mar. Amyr só implantou uma marina e transformou o casarão em galpão, hoje em péssimo estado. Por contrato. ele deveria manter o casarão com suas características originais.”

Klink afirma que questões contratuais e relativas a órgãos ambientais impediram os restauros. “A conservação é de minha responsabilidade, mas não a reforma. O problema é que a casa está num estado em que conservação não basta. Uma reforma dependia da participação deles e de uma autorização que nunca conseguimos.”

O navegador diz que, quando assumiu a fazenda, a casa estava em “completa ruína”. “Refiz o piso, pus o telhado, troquei as portas. A parte estrutural, que estava caindo, foi recuperada. Era o máximo que podíamos fazer sem contrariar o Iphan.” Cinco anos atrás, ele chegou a orçar o restauro como “deveria ser feito”: R$ 1,8 milhão, no mínimo.

Interessados sempre aparecem – até Rogério Fasano planejou lá um restaurante -, mas nada avança. Com Frido, Klink se desentendeu. “Não gostei da forma como ele chegava, com jornalistas, dizendo que ia fazer e acontecer.” A briga deu ao navegador a fama de não gostar de um projeto cultural no lugar. “Pelo contrário: essa é a vocação natural da casa”, diz.

 

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Diálogo entre culturas e influências

 

Prestes a morrer, em 1923, Julia Mann começou a falar num idioma que o filho caçula, sem entender, acreditava ser português. O relato de Viktor é lembrado pela estudiosa Marianne Krull no documentário Memórias do Paraíso (2005), de Marcos Strecker, e dá a dimensão da importância para Julia daqueles breves sete anos que viveu no Brasil.

O filme será uma das atrações do 1º Colóquio Internacional Intermediações Culturais Brasil-Alemanha, que acontece entre os dias 26 e 28 na Casa de Cultura de Paraty. Organizado por Johannes Kretschmer e outros estudiosos, o evento pretende jogar luz sobre a revisão que se tem feito nas últimas décadas acerca da importância da ascendência brasileira para as vidas e obras dos irmãos Mann.

“A origem brasileira dos Mann é desconhecida até mesmo entre especialistas. Estudos recentes mostram que ela pode inclusive levar a novas interpretações sobre textos seminais dos dois”, diz Kretschmer. Entre esses trabalhos está Mutterland – Die Familie Mann und Brasilien, de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Soethe, publicado em 2009 na Alemanha e inédito por aqui.

O livro, segundo Soethe, busca mostrar que Julia teve mais influência sobre Thomas do que fazem crer os escritos dele. Ao contrário de Heinrich, que inclusive escreveu o romance Entre as Raças inspirado na história da mãe, Thomas pouco deixou transparecer proximidade com Julia. Chegou até a renegar a ascendência no começo da carreira, ao ser atacado em jornais alemães pelo “sangue judeu”. Mas, em 1943, o autor de A Montanha Mágica declarou: “Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista.”

Outro nome importante para as discussões do colóquio é Diuner Mello, presidente da Casa de Cultura e descendente da família Mello que, por várias décadas, ao longo do século passado, viveu no Engenho Boa Vista, a casa de Julia Mann. Diuner é um dos maiores conhecedores da história da casa e da riqueza patrimonial de Paraty.

Mas os debates não se restringem aos Mann. Metade deles será dedicada às relações entre a literatura brasileira e alemã, como a influência de Goethe sobre Gonçalves Dias e Machado de Assis. “A meta é sistematizar a pesquisa envolvendo relações entre os dois países”, diz Kretschmer. Outras informações e inscrições pelo email jk@id.uff.br.

A coluna Babel de 6/8

[Publicada no Sabático]

BABEL

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

REVISTA
Machado de Assis, o primeiro antropófago brasileiro

“Nosso primeiro grande antropófago não foi Oswald de Andrade, e sim Machado de Assis.” A frase é do professor de literatura da Uerj João Cezar de Castro Rocha, que participou de duas mesas sobre o modernista na Flip, e refere-se a uma edição que ele coordenou da Portuguese Literary & Cultural Studies (revista de ensaios da Universidade de Massachusetts Dartmouth), prevista para sair aqui como livro este semestre pela Alameda. O número editado por João Cezar saiu por lá em 2005 e seu título original, The Author as a Plagiarist, causou incômodo entre acadêmicos brasileiros que entenderam “plagiário” num sentido por demais literal. “Há mais de dez anos, nos países de língua inglesa, discute-se o caráter criativo do plágio, não no sentido de cópia”, diz Castro Rocha, que busca nos textos de Machado exemplos para defender a tese, apoiada por ensaios de Alfredo Bosi, Antonio Candido e estudiosos de outros países. No Brasil, optou-se por um título comportado “até demais”, Machado de Assis – Ensaios e Revisões. Além desse volume, Castro Rocha já havia sido editor convidado de outro número da revista, em 2001. Agora, assume o cargo fixo de editor executivo da publicação semestral. Começa organizando volume sobre o futuro da lusofonia, para junho de 2012. Além disso, inicia a edição, para a mesma universidade, de New History of Brazilian Literature, primeiro livro do gênero a sair originalmente em inglês e que fica para 2014.

FILOSOFIA
Ao mestre com carinho

Sai em setembro título anunciado pela Iluminuras como a primeira biografia intelectual de Roland Barthes (1915-80) feita no Brasil. O Crítico Se Ele Ainda Existe fez Leda Tenório da Motta se debruçar sobre a farta obra completa do francês. Ex-aluna do pensador, ela se lembra da manhã, em Paris, em que viu no portão da universidade um bilhete avisando sobre um acidente de Barthes – ainda não se sabia que seria fatal.

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A conclusão do novo olhar sobre Barthes: “Você descobre, assombrado, que aquele que parecia o pensador mais frágil de sua geração é o mais coerente”. Para Leda, o filósifo “cada vez mais se mostra o melhor representante de sua geração. E, com isso, estamos falando de Michel Foucault, Levy Strauss, Jacques Lacan e Jacques Derrida”.

QUADRINHOS
Cadáver ao mar

Uma criança vê no mar um cadáver de mulher. A partir daí se desenvolve Castelos de Areia, que abre, em setembro, a linha de HQs do selo Tordesilhas. Pierre Oscar Lévy, autor do texto ilustrado por Frederik Peeters, é documentarista, vencedor da Palma de Ouro de curta-metragem de 1983.

FRANKFURT
A primeira vez

Embora a CBL tenha preparado para a Feira de Frankfurt, em outubro, um estande 50% maior que o do ano passado, uma das maiores editoras do País não participará dele. A Record, que se prepara para as celebrações de seus 70 anos em 2012, estreia estande próprio nesta edição.

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Sobre a situação do mercado nos últimos meses, a diretora editorial Luciana Villas-Boas diz que as vendas deram uma esfriada, mas percebe um efeito colateral: “Acabam saindo mais títulos, porque as máquinas ficam menos ocupadas com reimpressões”.

MINISSÉRIE
Refeito para a TV

A ficção jornalística O Analfabeto Que Passou no Vestibular (2008), de Felipe Pena, ganha este mês reedição mais enxuta e com novo título, Fábrica de Diplomas. A mudança acompanha o nome provisório de minissérie baseada no livro que o autor está adaptando para a Globo. Junto com a reedição, sai também pela Record O Verso do Cartão de Embarque, o novo romance, que costura sete vozes narrativas.

CINEMA-1
DiCaprio e o Demônio

O Demônio da Cidade Branca, de Erik Larson, vai virar filme com Leonardo DiCaprio em 2013, mas antes disso ganha reedição no Brasil. Só que pela Intrínseca, e não pela Record, que o lançou em 2005. Pela nova casa no Brasil, o best-seller publica também seu novo título, In the Garden of Beasts.

CINEMA-2
Thriller no papel

De 2005, Drive, de James Sallis, acaba de ser comprado pela Leya. O interesse na obra foi posterior ao sucesso no cinema: o thriller baseado no livro, com Ryan Gosling e Carey Mulligan no elenco, rendeu ao dinamarquês Nicolas Winding Refn o prêmio de direção no Festival de Cannes. O longa, sobre um dublê que à noite trabalha de motorista para bandidos, estreia nos EUA em setembro. Por aqui não há data prevista para o filme, mas o livro sai ainda este ano.

EXPORTAÇÃO
O livreiro na Espanha

Serão mais simpáticas que a guerra de 2010 entre polícia e traficantes notícias do Complexo do Alemão que chegarão à Espanha em 2012. Direto do morro carioca, desembarca por lá a história de Otávio Junior, que, de maleta a tiracolo emprestando livros a moradores, atraiu tantos leitores que acabou abrindo uma biblioteca na favela. A Panda Books acaba de vender os direitos de O Livreiro do Alemão para a Ediciones Ambulantes.

Literatura e ideologia: uma entrevista com Alice Walker

Gostaria de dizer que planejamos tudo desde o começo, mas foi coincidência, mesmo. A capa do Sabático de hoje é um texto, veja bem, cedido pessoalmente pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2000, Gao Xingjian, ao repórter Jotabê Medeiros durante um evento em Turim, algumas semanas atrás. O tema: os embates entre ideologia e literatura. “Podemos dizer que a ideologia foi o mal do século”, argumenta Xingjian.

E tive a confirmação da entrevista por telefone com Alice Walker, Pulitzer de ficção e National Book Award de 1983 por A Cor Púrpura, só na quarta-feira à noite, quando a capa já estava diagramada. Conversei com ela na quinta à tarde, horas antes do fechamento, sobre o livro Rompendo o Silêncio, da Bertrand Brasil, uma seleção de narrativas sobre os dias que ela passou no Congo Oriental, em Ruanda e no Oriente Médio. E a questão é que a literatura de Alice Walker, seja nos romances, seja na poesia, seja nos ensaios, é tão impregnada de ativismo que ela diz achar “impossível” a ideia de uma escrita literária sem ideologia.

Publicados juntos, os dois textos dão margem para uma boa reflexão. Segue a entrevista com ela, veiculada também hoje no Sabático.

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Alice Walker e a dor do mundo

Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

“Nunca soube disso que você está falando. Tem certeza de que era eu?”, pergunta a norte-americana Alice Walker, num dos únicos momentos da conversa por telefone com o Sabático em que seu tom de voz, sempre controlado, trai alguma emoção, algo como surpresa ou desconfiança. Havia sido questionada sobre o recente destaque, pela revista Forbes, de seu nome entre as dez escritoras mais poderosas do mundo – isso quase 20 anos após ter escrito A Cor Púrpura (1982), obra que rendeu o primeiro Pulitzer de ficção e o primeiro National Book Award entregues a uma afro-americana. “Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela”, conclui, após a confirmação de que seu nome figurava mesmo ao lado do de Toni Morrison e J.K. Rowling na eclética lista da publicação norte-americana.

Desde muito antes de sua mais famosa obra, adaptada ao cinema em 1983 por Steven Spielberg, Alice não quer saber o que a grande mídia tem a dizer. Mais que isso, tenta sobrepor sua voz à da imprensa do Ocidente. Poeta e ensaísta, além de romancista, a autora de 62 anos, nascida na Georgia, busca fazer ouvir os lamentos das minorias: negros, mulheres, palestinos. Recém-lançado no Brasil, Rompendo o Silêncio – Uma Poeta Diante do Horror em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina/Israel é um exemplo claro. O volume reúne narrativas tão sucintas quanto pungentes sobre duas viagens que fez a convite de organizações internacionais, para a África, em 2006, e para o Oriente Médio, em 2009. São histórias como a da mulher congolesa que teve a perna cortada por pistoleiros, que fritaram e picaram o naco de carne para tentar obrigar os filhos dela a comer. Ou a do judeu que desistiu de visitar Israel porque, nascido enquanto o território ainda se chamava Palestina, era despido e humilhado cada vez que apresentava seus documentos no país.

Alice Walker tem opiniões veementes que chegaram a lhe custar o contato com a filha, Rebecca. Antes do afastamento, a jovem lançou as memórias Black White and Jewish, sobre como o relacionamento complexo dos pais afetou sua identidade – o ex-marido de Alice, com quem a escritora ainda mantém uma relação amigável, é judeu. Na entrevista a seguir, a autora fala sobre ideologia e literatura (tema, aliás, do artigo de Gao Xingjian). Ela defende que a segunda não pode existir sem a primeira.

Por que resolveu juntar as viagens para a África e para o Oriente Médio, feitas em dois momentos diferentes, em um único livro?

Queria mostrar a similaridade entre as atrocidades em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina, porque a maioria das pessoas pensa que essas coisas horríveis em Ruanda ou no Congo só ocorrem em lugares como a África. Mas o que você vê, quando vai ao Oriente Médio, é que o governo israelense bombardeia Gaza por 22 dias e destrói pessoas de formas que nem podemos imaginar. Eles têm bombas que, ao explodir, enviam partículas para dentro dos corpos de pessoas a milhas de distância. E essas feridas não saram, continuam a queimar e apodrecer. As bombas também arrancam extremidades dos corpos; você perde seu braço ou sua perna, mas não há sangue. Isso é similar à maneira como, em Ruanda, as pessoas usam facões para cortar ossos e os corpos das outras. Eu queria fazer os leitores entenderem que a forma mecânica como os assassinatos acontecem na guerra de países civilizados não é nada mais aprimorado que os crimes cometidos face a face num país mais pobre.

Como foi saber de histórias como aquelas, sabendo que escreveria sobre elas depois?

Tomou muito tempo, porque era uma dor intensa. Só de ver e entender o que estava acontecendo tomou tempo. Precisei de amigos que sentassem comigo, me deixassem chorar e ouvissem o que eu tinha testemunhado. Especialmente sobre a mulher cuja perna foi cortada fora. Foi difícil para mim e para eles, é difícil para o mundo. Temos um planeta em que as pessoas fazem coisas assim, e o que podemos fazer a respeito? É por isso que escrevo. Para dividir com o mundo o que vi e essa pergunta.

Em obras como A Cor Púrpura, você escreve sobre violências como essa em seu país. É muito diferente o olhar como visitante?

Muito, embora meu país também tenha história brutal. Meu país fez para os nativos americanos o que vem sendo feito aos palestinos. É crucial entender sua própria história antes de vê-la repetida em outros lugares. As pessoas que não conhecem seu próprio país podem viajar o mundo e nunca vão entender que estão vendo sua história na violência contra outros povos hoje. E a verdade é que uma minoria dos americanos chega a viajar para exterior, então a maioria conhece só o que a mídia diz.

Desde quando você é envolvida com o ativismo em defesa dos palestinos?

Comecei a escrever sobre a situação palestina nos anos 70. Há um texto que escrevi quando da invasão, do massacre, dos grandes desastres no Líbano quando o governo israelense seguiu os refugiados até lá e os matou. Mas comecei a me preocupar muito antes disso, na Guerra de 1967. Eu tinha acabado de me casar com um judeu. Ele achava normal que os israelenses pegassem todas aquelas terras que tinham pego na guerra, e eu não achava. Tenho falado e escrito sobre isso já há algum tempo. Quando você me ligou, agora mesmo, eu estava distraída porque escrevia um poema sobre… Em Gaza, não sei se você sabe, os israelenses bombardeiam o sistema de água dos palestinos, então 90% da água da região não é potável. Ajudei uma organização a instalar um sistema… Bem, um pequeno sistema de água, porque ninguém pode bancar com algo muito grande. Então, estava escrevendo um poema sobre quando você vê as pessoas aplaudirem alguém que acabou de bombardear o sistema de água de um povo. Isso aconteceu recentemente, quando Benjamin Netanyahu (premier de Israel) veio aos Estados Unidos. Ele foi ovacionado muitas vezes, e não tenho certeza de que as pessoas saibam que ele bombardeia o sistema de água de um povo cujas crianças, sem a ajuda dos outros, não teriam nenhuma água para beber.

Chama atenção no livro a forma direta, sem adjetivos, como você descreve as atrocidades que testemunha ou lhe são contadas.

Isso é porque sou contadora de histórias. É deliberado. Isso é mais forte que o jornalismo, acho que porque contar histórias é algo muito mais antigo. Eu, por exemplo, prefiro ouvir audiolivros, porque sinto que, quando me contam um história, posso entendê-la melhor emocionalmente. Em Rompendo o Silêncio, tento conectar nosso tempo ao de Joseph Conrad (1857-1924), o înglês de origem polonesa que escreveu O Coração das Trevas. Nesse livro, que inspirou Apocalipse Now (1979), ele fala sobre o horror na África subsaariana. Esse é um tipo de conexão literária que faço. Também por isso as histórias surgem como um diário de viagem. O personagem dele desce o rio do Congo a barco; eu viajei de ônibus e avião.

Você é conhecida como uma voz feminista, mas uma história que chama a atenção no livro é a da mulher judia cujo marido não volta a Israel porque é sempre humilhado…

Eu me preocupo com todo mundo, mas a história das mulheres tem sido constantemente, nos últimos 2 mil anos, pelo menos, suprimida ou ignorada. É por isso que a literatura não é feminina. Então, quando vou a algum lugar, quero saber o que as mulheres têm a dizer porque elas tendem a ser silenciadas. Você mesmo deve saber disso.

Você descreve os EUA como terroristas…

Acho que qualquer um que começa uma guerra contra qualquer povo é um terrorista. Você não pode fazer uma guerra sem ser terrorista. Como você poderia? As pessoas estão aterrorizadas, você as está matando, elas não têm como escapar. Se isso não é terrorismo, o que é?

Você foi eleita há pouco pela Forbes uma das dez escritoras mais poderosas do mundo. Como essa ideia soa para você?

Nunca soube disso que você está falando, Tem certeza de que era eu?

Sim, faz uns dois meses, numa lista que incluía [a Prêmio Nobel] Toni Morrison e J.K Rowling.

Ora, bem. Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela. Acho que uma coisa boa é saber que, se você não pode mudar de vez o mundo, pode fazer isso um pouco só, usando a imaginação, papel e lápis ou computador. Vale pensar que é possível ensinar às crianças que tentar erradicar povos é uma ideia terrível.

Você não teria interesse em fazer literatura sem mensagem política ou social?

Não, não, isso é impossível. A ideia de que você possa fazer arte sem mensagem política ou social é absurda, mas querem nos dizer isso porque sabem que os povos do terceiro mundo, especialmente mulheres, sempre terão algo crítico a dizer.

O livro infanto-juvenil de Colin Meloy, vocalista do Decemberists

Não é The King Is Dead o mais recente trabalho de Colin Meloy, vocalista da americana Decemberists – uma das minhas bandas preferidas nesta década. Wildwood, que sai agora no final de agosto nos EUA, é um livro infanto-juvenil ilustrado pela mulher de Meloy, Carson Ellis, e conta a história de uma menina que tenta salvar o irmão das garras de corvos selvagens. O trailer:

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Antes mesmo de começar a cantar no Decemberists, cujo primeiro EP saiu há dez anos, Meloy tinha o projeto do livro. O casal se conheceu na faculdade e pouco depois, em 2000, começou a trabalhar na ideia. A obra tem, veja bem, 560 páginas (pensando em infantil, logo tinha imaginado uma coisa magrinha). O site do livro traz uma entrevista em vídeo com os dois e um link para uma playlist do livro  no iTunes, que inclui dois Led Zeppelin, Ramble On e Over the Hills and Far Away.

Diz o editor sênior da Canongate que será o novo Nárnia. Se você der um curtir na página do livro Facebook, consegue baixar os quatro primeiros capítulos, num total de 51 páginas. Nunca fui entusiasta de Nárnia nem sou muito entendida de literatura para crianças ou adolescentes (tirando Harry Potter, sobre o qual, prometo, ainda escrevo por aqui. É que demanda até certa coragem…), mas, a se julgar pelo trabalho de Meloy como letrista, tem boas chances de ser interessante. Não que eu seja isenta nessa avaliação…

Para ler debaixo d'água

Diz o Telegraph que será o primeiro livro à prova d’água: The Greater Bad, de Alan Cork, que por enquanto existe só em versão para Kindle. Da editora, Palamedes, que nem citada pelo jornal é, eu nunca tinha ouvido falar, mas bem pode ser uma dessas lacunas de informação que a gente tem na vida. Está previsto para maio, com revestimento em polímero resistente à ruptura e que promete aumentar o prazo de validade do volume em até 200%, sem deixar que a água cause aquelas coisas enrugadas nas bordas.

A nota conclui que só livros de crianças ou de especialistas em mergulho hoje em dia usam essa tecnologia, e que este será o primeiro modelo de um “livro comum”. É um romance de suspense.

Não sei como andam esses lançamentos nos EUA, mas lembrei que já chegou aqui na Redação, no ano passado, uma Bíblia à prova d’água. O que me chamou a atenção na época foi que ela veio numa leva junto com a Bíblia do Surfista, que, por sua vez, não era resistente ao mar.

O GIF acima é do designer Uno Moralez, que posta uns trabalhos esquisitões no live journal Supernature.